Último antes das férias

16/12/2011

Caros queridos, hora de se levantar da mesa e dar aquele lento e agradável espreguiçar, vestir a bermuda e os chinelos e sair um pouco para a rua, quem sabe ir até a praia.

Hora de ler e de reler, de ver e de rever alguns filmes.

Pessoalmente, ando entusiasmado com autores africanos de língua portuguesa e francesa e com filmes do velho cinema italiano. Os amigos leitores ficam incumbidos de deixarem registradas, nos comentários, quais têm sido suas preferências atuais.

Como despedida do Prefácio ao ano de 2011, publico esta matéria divertida da Revista Trip, indicação de meu querido aluno André Massabki.

Gostei da matéria particularmente por nos fazer pensar no caráter controverso da noção de bom gosto. Insisto sempre na necessidade de lermos criticamente os textos literários, inclusive os mais consagrados pelo cânone acadêmico, e creio que a matéria confirma a importância disso: ver autores renomados – alguns até de modo irresponsável ou mesmo pouco elegante (o que eu não acho em si aprovável), mas quase sempre divertido e inteligente – achincalhando outros autores igualmente renomados é uma forma expressiva de confirmação de que os “imortais” não formam um “time”, com discurso unívoco ou unânime. Pelo contrário, sua noção de qualidade é diversa – mais que isso, é controversa.

Boas férias, boas leituras, bons filmes, boas festas, e, claro, boa preguiça, bons esquecimentos.

AUTOR VERSUS AUTOR

Trinta grandes nomes da literatura criticando duramente outros trinta autores eternos

É muito fácil criticar um autor iniciante ou aquele escritor que nunca teve um grande alcance, ainda mais se o crítico é um escritor veterano e considerado universal por sua importância histórica. Mas tem vezes que sobra até para algumas “vacas sagradas” da literatura universal, mesmo os nomes de maior peso como Dostoievsky, James Joyce ou até Mark Twain.

Nesta semana, o site Flavorwire compilou 30 das mais engraçadas provocações públicas da história literária do Ocidente, colocando autor contra autor em uma lista que, apesar de nem ser tão longa, já dá uma ideia em linhas gerais da opinião real que gênios tem de outros gênios. Na seleção, ninguém escapou das linhas afiadas destes romancistas e poetas que incluem Gustave Flaubert, Vladimir Nabokov, Virginia Woolf, Charles Baudelaire, Truman Capote e Henry James.

Logo abaixo você vê a lista completa de insultos de autores para outros autores, todos eles de renome internacional.

Reprodução

Vladimir Nabokov pronto para a briga

Vladimir Nabokov pronto para a briga

30. Gustave Flaubert (Madame Bovary) sobre George Sand (Mattéa)
“Uma grande vaca recheada de namquim”

29. Robert Louis Stevenson (O Médico e o Monstro) sobre Walt Whitman (Leaves of Grass)
“Ele escreve como um cachorro grande e desengonçado que escapou da coleira e vaga pelas praias do mundo latindo para a lua”

28. Friedrich Nietzsche (Assim Falou Zaratustra) sobre Dante Alighieri (A Divina Comédia)
“Uma hiena que escreu sua poesia em tumbas”

27. Harold Bloom (A Invenção do Humano) sobre J.K. Rowling (Harry Potter)
“Como ler Harry Potter e a Pedra Filosofal? Rapidamente, para começar, e talvez também para acabar logo. Por que ler esse livro? Presumivelmente, se você não pode ser convencido a ler nenhuma outra obra, Rowling vai ter que servir.”

26. Vladimir Nabokov (Lolita) sobre Fyodor Dostoievsky (Crime e Castigo)
“A falta de bom gosto do Dostoievsky, seus relatos monótonos sobre pessoas sofrendo com complexos pré-freudianos, a forma que ele tem de chafurdar nas trágicas desventuras da dignidade humana – tudo isso é muito difícil de admirar”

25. Gertrude Stein (The Making of Americans) sobre Ezra Pound (Lustra)
“Um guia turístico de vila. Excelente se você fosse a vila. Mas se você não é, então não é.”

24. Virginia Woolf (Passeio ao Farol) sobre Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo)
“É tudo um protesto cru e mal cozido”

23. H. G. Wells (Guerra dos Mundos) sobre George Bernard Shaw (Pygmalion)
“Uma criança idiota gritando em um hospital”

22. Joseph Conrad (Coração das Trevas) sobre D.H. Lawrence (Filhos e amantes)
“Sujeira. Nada além de obscenidades.”

21. Lord Byron (Don Juan) on John Keats (To Autumn)
“Aqui temos a poesia ‘mija-na-cama’ do Johnny Keats e mais três romances de sei lá eu quem. Chega de Keats, eu peço. Queimem-o vivo! Se algum de vocês não o fizer eu devo arrancar a pele dele com minhas próprias mãos.”

Reprodução

Virginia Woolf

Virginia Woolf

20. Vladimir Nabokov sobre Joseph Conrad
“Eu não consigo tolerar o estilo loja de presentes de Conrad e os navios engarrafados e colares de concha de seus clichês românticos.”

19. Dylan Thomas (25 Poemas) sobre Rudyard Kipling (The Jungle Book)
“O senhor Kipling representa tudo o que há nesse mundo cancroso que eu gostaria que fosse diferente”

18. Ralph Waldo Emerson (Concord Hymn) sobre Jane Austen (Orgulho e Preconceito)
“Os romances da senhorita Austen me parecem vulgares no tom, estéreis em inventividade artística, presos nas apertadas convenções da sociedade inglesa, sem genialidade, sem perspicácia ou conhecimento de mundo. Nunca a vida foi tão embaraçosa e estreita.”

17. Martin Amis (Experiência) sobre Miguel Cervantes (Dom Quixote)
“Ler Don Quixote pode ser comparavel a uma visita sem data para acabar de seu parente velho mais impossível, com todas as suas brincadeiras, hábitos sujos, reminiscências imparaveis e sua intimidade terrível. Quando a experiência acaba (na página 846 com a prosa apertada, estreita e sem pausa para diálogos), você vai derramar lágrimas, isso é verdade. Mas não de alívio ou de arrependimento e sim lágrimas de orgulho. Você conseguiu!”

16. Charles Baudelaire (Paraísos Artificiais) sobre Voltaire (Cândido)
“Eu cresci entediado na França. E o maior motivo para isso é que todo mundo aqui me lembra o Voltaire… o rei dos idiotas, o príncipe da superficialidade, o antiartista, o porta-voz das serventes, o papai Gigone dos editores da revista Siecle”

15. William Faulkner (A Cidade) sobre Ernest Hemingway (Por Quem os Sinos Dobram)
“Ele nunca sequer pensou em usar uma palavra que pudesse mandar o leitor para um dicionário.”

14. Ernest Hemingway sobre William Faulkner
“Pobre Faulkner. Ele realmente pensa que grandes emoções vem de grandes palavras?”

13. Gore Vidal (O Julgamento de Paris) sobre Truman Capote (A Sangue Frio)
“Ele é uma dona de casa totalmente empenada do Kansas, com todos os seus preconceitos.”

12. Oscar Wilde (O Retrato de Dorian Grey) sobre Alexander Pope (Ensaio sobre a crítica)
“Existem duas formas de se odiar poesia: uma delas é não gostar, a outra é ler Pope.”

Reprodução

Mark Twain, o mestre do humor americano

Mark Twain, o mestre do humor americano

11. Vladimir Nabokov sobre Ernest Hemingway 
“Quanto ao Hemingway, eu li um livro dele pela primeira vez nos anos 40, algo sobre sinos, bolas e bois, e eu odiei.”

10. Henry James (Calafrio) sobre Edgar Allan Poe (Os Crimes da Rua Morgue)
“Se entusiasmar com o Poe é a marca de um estágio decididamente primitivo da reflexão.”

9. Truman Capote sobre Jack Kerouac (On The Road)
“Isso não é escrever. Isso é só datilografar.”

8. Elizabeth Bishop (Norte e Sul) sobre J.D. Salinger (Apanhador no Campo de Centeio)
“Eu odiei o ‘Apanhador no Campo de Centeio’. Demorei dias para começar a avançar, timidamente, uma página de cada vez e corando de vergonha por ele a cada sentença ridícula pelo caminho. Como deixaram ele fazer isso?”

7. D.H. Lawrence sobre Herman Melville (Moby Dick)
“Ninguém pode ser mais palhaço, mais desajeitado e sintaticamente de mau gosto como Herman, mesmo em um grande livro como Moby Dick. Tem algo falso sobre sua seriedade, esse é o Melville.”

6. W. H. Auden (Funeral Blues) sobre Robert Browning (Flautista de Hamelin)
“Eu não acho que Robert Browning era nada bom de cama. Sua mulher também provavelmente não ligava muito pra ele. Ele roncava e devia ter fantasias sobre garotas de 12 anos.”

5. Evelyn Waugh (Memórias de Brideshead) sobre Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido)
“Estou lendo Proust pela primeira vez. É uma coisa muito pobre. Eu acho que ele tinha algum problema mental.”

4. Mark Twain (As Aventuras de Huckleberry Finn) sobre Jane Austen
“Eu não tenho o direito de criticar nenhum livro e eu nunca faço isso, a não ser quando eu odeio um. Eu sempre quero criticar a Jane Austen, mas seus livros me deixam tão bravo que eu não consigo separar minha raiva do leitor, portanto eu tenho que parar a cada vez que eu começo. Cada vez eu eu tento ler Orgulho e Preconceito eu quero exumar seu cadáver e acertá-la na cabeça com seu osso do queixo.”

3. Virginia Woolf sobre James Joyce (Ulisses)
“Ulisses é o trabalho de um estudante universitário enjoado coçando as suas espinhas”

2. William Faulkner sobre Mark Twain
“Um escritor mercenário que não conseguia nem ser considerado da quarta divisão na Europa e que enganou alguns esqueletos literários de tiro-certo com cores suficientemente locais para intrigar os superficiais e preguiçosos.”

1. D.H. Lawrence sobre James Joyce
“Meu deus, que idiota desastrado esse James Joyce é. Não é nada além de velhos trabalhos e tocos de repolho de citações bíblicas com um resto cozido em suco de um jornalismo deliberadamente sujo.”

Vai lá: www.flavorwire.com

Especial na Cultura Brasil sobre ciganos

11/12/2011

Sou ouvinte fiel da Cultura AM, que, na versão digital, tem o nome de Cultura Brasil. Além da programação ao vivo, que acompanho sempre que posso, vez por outra me enveredo nas belezas arquivadas nesse site.

As playlists – seleções feitas com critérios altamente criativos e ao mesmo tempo (na melhor tradição da Rede Cultura) educativos – são impagáveis. Vale a pena conferir cada uma delas.

Um dia desses encontrei, na seção chamada especial, um documentários sobre o povo cigano no Brasil.

Em vez de fazer comentários aqui, deixo para o leitor a dica para um contato de direto.

Segue aí o link:

o-povo-cigano-no-brasil-2

Esqueça o título

03/12/2011

Sexo e amizade, de André Sant’Anna, publicado pela Companhia das Letras em 2007, suscita no leitor, talvez como primeira entre todas, a seguinte pergunta: como um livro de qualidade tão rara pode ter um título tão ruim?

Verdade seja dita, títulos não é o forte na obra de André Sant’Anna: antes desse, vêm Amor (1998), Sexo (1999), Amor e outras histórias (2011).

Bem, quando apanhei na estante Sexo e amizade, já tinha ideia de quem era o autor, um tanto famoso nos circuitos literários, e sempre tive boas impressões no poucos contatos que tive com sua prosa. Depois de escandalizar-me com o título, resolvi correr os olhos pelo sumário, para conferir os títulos dos textos. Não me pareceram ruins. Abri o livro a esmo – é uma mania de muitos leitores –, e cheguei a estas palavras:

Aquarius

Havia uma mulher gorda, vermelha, descascada, cheia de bolhas nas costas, cobrindo as pernas gordas com uma toalha toda suja de areia. Havia o marido da mulher gorda, que parecia olhar o mar, mas estava mesmo era olhando para o vazio, com uma barriguinha, a barba por fazer, olheiras bem fundas e um órgão sexual enrugado e minúsculo.

“Seco, enxuto, sarcástico, com belo encadeamento sonoro”, pensei, já saltando – aleatoriamente de novo – para outra página:

Rush

Mulher no trânsito é um pobrema. Bom era no temopo da ditadura. Eles não davam carteira pra qualquer um, não. tinha que mostrar que sabia dirigir mesmo. Se o cara não arrumava o banco direito quando ia sentar no carro, pelo jeito do cara, o instrutor já percebia se o cara era bom de dirigir mesmo.

“Texto vivo. Cruel. Excelente apropriação da oralidade”, concluí.

E foi assim, saltando de início a início, que descobri estar diante de uma obra de evidente valor literário.

Comprei o livro e fiz as primeiras leituras sentado num ônibus lotado, parado num congestionamento terrível – ambientação perfeita para a mundanidade crítica e observadora de Sant’Anna.

O livro me fisgou e acho que dificilmente não fisgará um leitor que busca literatura genuinamente contemporânea, intensa, certeira na crítica, ritmicamente impecável, uma literatura que – como a boa literatura – sabe dar saltos sobre os poços da mesmice vocabular, sintática e imagética.

André Sant’Anna nasceu em Belo Horizonte em 1964, morou no Rio de Janeiro grande parte de sua vida e hoje vive em São Paulo, cidade que parece ser o ponto de partida de seus argutos exames psicossociais, cidade que ele louva e ironiza de modo magistral em seu Pro Beleléu, uma bela homenagem à Pauliceia:

Detesto São Paulo.

Antes eu gostava quando eu era do Rio e eu vinha pra São Paulo ver show da Vanguarda Paulista e eu saía de noite e eu era muito jovem e eu estava aprendendo a tocar contrabaixo e eu era mineiro e eu tenho uns tios que são mineiros e moram em São Paulo há muito tempo e eles são músicos e eu queria ser músico que nem eles, os meus tios, e eu saía de noite com o meu tio que tinha uns amigos que eram da Vanguarda Paulista e tinha o Gigante que era amigo do meu tio e tocava com o Itamar Assumpção e eu fui no ensaio do Itamar Assumpção no dia que a Elis Regina morreu e de noite fazia um frio que eu achava gostoso e eu botava uns casacos que eram muito bonitos e elegantes que só dava pra eu usar quando eu vinha pra São Paulo (…)

E foi assim, entre um texto e outro, que cheguei (dias depois, em casa, já livre do trânsito) a uma obra ainda mais impressionante: a última narrativa da antologia, mais comprida que as outras, intitulada (infelizmente) Sexo.

Exame cru da realidade urbana brasileira, essa narrativa, ao abordar o campo do erotismo, revela ao leitor os signos que estão em jogo na sociedade de consumo. Apontando o chão ideológico das paixões, desnaturaliza e desmistifica os desejos, inscrevendo-os num código social, ou seja, num campo imaginário construído num tempo e num espaço.

Como disse no começo, não sei encontrei a resposta para o título ruim. Mas tenho a hipótese de que André Sant”Anna conta com leitores desavisados, que acreditam estar comprando uma obra “digestiva”, “fácil”, coisa que o livro de André Sant’Anna está longe de ser.

Talvez o autor, publicitário que é, tenha calculado esse efeito. O duro é saber se o tiro não saiu pela culatra.

Seja como for, registre aí mais uma dica do Prefácio (vale como conselho para leitura de férias).

Entrevista com Ondjaki

24/11/2011

Neste post publico uma entrevista realizada pelo programa Entrelinhas, da TV Cultura, com o escritor angolano Ondjaki.

Nascido em Luanda em 1977, Ondjaki (pseudônimo de Ndalu de Almeida) mora atualmente na cidade do Rio de Janeiro.

Autor de obra premiada e representante de uma literatura cada vez mais próxima do público brasileiro, as palavras de Ondjaki são um convite para ampliação de nossos horizontes linguísticos e culturais, levando-nos a refletir sobre nossa condição de povo mestiço.

“Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem”, de Michel Laub

17/11/2011

Reproduzo aqui no Prefácio mais um post da divertidíssima série de Michel Laub.

 

Boa leitura.

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (10)

Clarah Averbuck, autora de Vida de gato – “Sempre melhor sozinha e no silêncio. Às vezes levanto da cama depois de posicionada pra dormir entre travesseiros e edredons porque nos momentos de solidão e silêncio é que as ideias começam a se organizar. Quando tenho algum texto para entregar com prazo vou mentalmente trabalhando nele por aí, na feira, no supermercado, no ônibus. Quando chega a hora de escrever já está praticamente pronto. Outros vêm de supetão mesmo. São os que eu mais gosto;  respostas rápidas a inspirações momentâneas ou sentimentos fortes causados por algum outro texto. Sempre os melhores. cummings, como diz meu marido – ou ex-marido, nem eu sei mais, já que vivo no dia da marmota. No dia da marmota não tem texto.”

Douglas Diegues, autor de El astronauta paraguayo – “Para escrever um texto en português selvátiko ou portunhol selvagem tengo necessidades que son manías ou vice-versa. Eis algumas: 1) Estar solo, com las puertas bien trankadas, en un kuarto, escritório, sala kualker.  Con las puertas del kuarto bién trankadas, la imaginacione vagabundea mejor. 2) Estar com las baterias bem carregadas; se estiver medio sonolento, cansado, com dificuldade de concentracione, non vou além dum soneto salvaje. 3) Escrever una primeira vbersione a lápis y después digitar el resultado (cortando ou aumentando) numa vieja notebook sempre ayuda mais que escrever diretamente en la vieja notebook. 4) Tener la sensacione de estar escondido, camuflado, klandestino, nel momento de la escritura, ayjuda bastante; me es impossible escrever em publico, sozinho ou acompanhado, tipo mesa de bar, restaurante, café, choperia, etc.  5) Escrever sentado em apyká, assento guaranitiko de madeira, tipo banquinho, que non es lá muito confortable, para mantener la mente mais desperta, pues que el conforto me dá um sono desenfrenado. 6) Intensa concentracione; sem concentracione nunka me ha salido algo que preste. 7) Escribir com lágrimas paraguaias sinceramente sinceras. 8 ) Saber distinguir que una cosa es poner el guevo y otra es kacarejar. 9) Leer el texto em voz alta com autocrítika afiada como la navalha del niño alien travesti nazi de monopatin rojo.”

Joca Reiners Terron, autor de Do fundo do poço se vê a lua – “Em geral, eu não escrevo. Vivo prorrogando a escritura. Alguém já disse – talvez Donald Barthelme, mas não tenho certeza – que escrever um livro é ganhar o campeonato mundial de natação e não saber nadar quando cair na piscina de novo. Cada livro é um aprendizado, exige a invenção de novos métodos. Agora mesmo, que terminei um romance e preciso começar outro, não sei o que fazer. Ando da sala pro quarto, do quarto pra sala, meio deprimido. Deve ter alguma ética própria nisso, nesse sufoco. Às vezes acho que estou me afogando.”

Raimundo Carrero, autor de O amor não tem bons sentimentos – “Só tenho um hábito quando escrevo: rezo. Como todo bom sertanejo, acredito no Espírito Santo e faço minhas orações. Em geral, não preciso de horários ou circunstâncias. É claro que costumo acordar muito cedo para escrever. E estou sempre fazendo alguma coisa. Ando com uma agenda onde faço anotações. Agora mesmo estou escrevendo um Diário da Criação onde informo tudo o que acontece comigo no plano literário: personagens, cenas, cenários, diálogos, e adianto as informações técnicas: por que uso um diálogo direto ou indireto, qual a necessidade de uma cena – rapidez – ou de um cenário – lentidão. Explico a função e o efeito. Enfim, revelo as estratégias para escrever uma novela. Faço  tudo com muitos detalhes. Prefiro acreditar no trabalho obstinado. Não conheço domingos, feriados ou dias santos: trabalho e trabalho e trabalho. Sempre.”

Rodrigo Lacerda, autor de Outra vida – “Gosto de começar a escrever bem cedo, de manhã. Como não gosto de café, tomo coca-cola, pois cada um tem a cafeína que merece. Num bom dia, posso escrever até cinco, seis horas seguidas, sem levantar da cadeira. Num mau dia, não só não sai nada como começo a achar todos os meus livros anteriores um horror. Então o jeito é sair do escritório e ler, até que algum outro escritor me dê vontade e coragem de escrever novamente. Quando fico mais de uma semana sem escrever nada, deprimo. Quando estou embalado em alguma coisa, todos os problemas parecem menos graves.”

Leitura no Brasil

10/11/2011

Sobre os hábitos de leitura no Brasil, vejam esta matéria produzida pelo canal da TV PUC Campinas, com depoimentos importantes. E você, caríssimo leitor, o que pensa sobre esse assunto?

 

Um dia para Drummond

04/11/2011

O intercâmbio entre culturas é fenômeno rico, politicamente necessário. É definidor, no fim das contas, da própria ideia de cultura. Que cultura, afinal, não tem, em sua base, a troca, a mistura?

Isso não significa, creio eu, naturalizar alguns processos de evidente hegemonia cultural, como a que vive o Brasil e grande parte do planeta em relação ao domínio cultural estadunidense. Lembremos que, para o caso de sociedades economicamente dependentes como a nossa, a palavra nacionalismo faz ainda algum sentido – é o caso de dar uma conferida nesse brilhante ensaio do mestre Antonio Candido: “Uma palavra instável”[1], em que ele procura esclarecer as várias conotações que essa palavra ganhou ao longo de nossa história, funcionando muitas vezes como bandeira de resistência contra a assimilação de modelos impostos pelos países mais poderosos.

Ainda uma outra dica – leitura também agradável e muito instrutiva: A invasão cultural norte-americana, de Júlia Falivene Alves[2]. O livro, que é abertamente provocativo, começa pela fundamental diferenciação entre troca cultural e dominação cultural. Uma diferenciação que vem ao caso, não?

Bem, tudo isso, gente, só para deixar bem claro que, para este Prefácio, o dia 31 de outubro (que já foi) é o Dia D, isto é, o Dia Dele, o Dia do Homem, o Dia de Drummond! Carlos Drummond de Andrade: o maior poeta que este País conheceu, o mais completo, o mais complexo, o mais profícuo, o mais volumoso e o mais influente – um cara que merece, sem sombra de dúvida, um dia em homenagem à data de seu nascimento.

Vejam o que algumas mídias publicaram a respeito do Dia D:

1000347-dia-d-celebra-drummond-em-varias-cidades-do-pais.shtml

dia-de-drummond

impresso,carlos-drummond-de-andrade-ganha-seu-dia,792753,0.htm

Depois de achincalharmos nossa cultura caipira com a importação das festas e rodeios no esquema cauboi estadunidense, vamos mesmo trocar o Saci pelo Halloween? Não é evidente prova de subserviência cultural?

Ah: em Itabira, Minas Gerais, terra de Drummond, acredita-se até hoje no Saci.

Vamos conhecer o Brasil, rapaziada?! Que tal?

Entre uma infinidade de outros, Drummond é autor deste famosíssimo poema:

Canção amiga (1930)

Eu preparo uma canção

em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

[1]“Uma palavra instável”. IN: CANDIDO, Antonio. Vários escritos. São Paulo, Duas Cidades, 1995.

[2] ALVES, Júlia Falivene. A invasão cultural norte-americana.Editora Moderna – Série Polêmica, 2008.

Eduardo Galeano e a utopia

27/10/2011

Belíssimas declaração e declamação de Eduardo Galeano, algo realmente imperdível, que divulgo aqui no Prefácio:

Programa “Lá e cá”, da TV Cultura

21/10/2011

Conheçam esse maravilhoso programa da TV Cultura, que busca investigar as aproximações e as distâncias entre a cultura brasileira e a portuguesa:

http://www.tvcultura.com.br/laeca/

 

 

 

 

 

Poema de Corsino Fortes, poeta cabo-verdiano

15/10/2011

Porta de sol (1974) 

I

Das colinas de colmo [1]

com portas de sol

Descem crianças

nuas e magras

como violas

As costelas dentro das cordas

Todas

primogénitas

do mesmo ventre

E filhas

Do mesmo vulcão E da mesma viola

Da mesma rocha E do mesmo grito

II

 

A ilha roda no rosto da criança

com a “vareta presa” na roda do vento

III

 

Nem sempre

A criança respira

um pulmão

roto de mapas

E assim

como as ilhas

Ao pôr-do-sol

Se alimentam

De fonema

Cada criança

É ditongo de leite

com sangue nas vogais

 

 


[1] Colmo: 1. Caule caracterizado por nós bem marcados e distintos, peculiar à família das gramíneas; 2. Palha longa extraída de várias plantas, empregada para cobrir cabanas, atar feixes, etc.


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