Fruição estética e conhecimento: uma relação complexa

Eis uma questão que sempre me acompanhou, desde que decidi me aventurar no mundo das letras.

Sem dúvida alguma, os elementos extrínsecos à obra de arte fazem diferença em nossa relação com ela. Afinal, somos seres racionais, criamos nossos valores, nossos gostos a partir de um conjunto de referências, de informações, isto é, de um certo repertório. Nesse sentido, é possível que passemos a admirar algo que antes não nos agradava: é possível “aprender a gostar” ou ainda, em outras palavras, é possível “refinar” nosso gosto conforme aprimoramos nosso saber e conforme ampliamos nossas referências e intensificamos nossa relação com as obras de arte.

Por outro lado, se tudo o que uma obra tem a nos dizer pode ser transmitido por meio de informações exteriores a ela, então corremos o risco torná-la prescindível, de desvalorizarmos a relação imediata que podemos ter com ela.

São tantas as etiquetas colocadas sobre as obras – as velhas e as novas – que por vezes o expectador/leitor acaba por valorizar menos a capacidade que o objeto artístico tem de “falar sua língua e sua mensagem” autonomamente do que as referências previamente apresentadas a respeito: o guia de leitura.

Proponho esse debate entre valor intrínseco e extrínseco da obra de arte já há alguns anos em sala de aula. O tema dispara sempre discussões acaloradas e muito instigantes.

Costumo usar, como ponto de partida, este brilhante artigo de Contardo Calligaris, publicado na Folha de São Paulo em 27 de agosto de 2009:

SABER E EXPERIÊNCIA

Na sua próxima visita a um museu de arte, esqueça-se das obras e considere apenas os visitantes. Um bom número, talvez a maioria, não para diante de uma tela (por exemplo) sem antes ter lido a pequena placa com nome do artista, título e data. Bom, eles querem se cultivar, saber quem pintou, quando e o quê. Mas, dessa forma, muitos acabam, sobretudo, limitando sua experiência: ao constatar que o autor lhes é desconhecido, eles mal olham para a tela e passam à obra seguinte, enquanto, se o pintor for uma celebridade, contemplam com dedicação – as más línguas dirão que eles sentem-se assim “autorizados” a parar e contemplar. Os mais divertidos são os que adotam estratégias bizarras para dar uma espiada na placa sem que o amigo que os acompanha se dê conta e logo exclamam em voz alta, como se tivessem reconhecido a obra sem auxílio algum: “Aqui está o quadro de…”. E há os grupos de turistas, forçados a correr de uma “obra-prima” a outra, atropelando obras menores, que talvez fossem para eles (quem sabe, só para eles) decisivas. De fato, o saber pode aprimorar nossa experiência estética; por exemplo, é bom apreciar uma tela de El Greco tendo conhecimento do fato de que ele pintou no século 16, pois talvez, sem isso, sua incrível ousadia expressionista nos comova menos. Inversamente, se privilegiarmos demais o saber, tenderemos a nunca sair de caminhos trilhados e, pior, a forçar nossa experiência no molde do pouco que sabemos. A primeira vez que visitei o Museu do Prado, em Madri, aos 14 anos, eu só queira ver a pequena sala onde estavam os quadros de Hieronymus Bosch. Ao entrar, fui hipnotizado pelo azul estranho e intenso do céu numa paisagem de Joachim Patinir, um pintor flamengo da mesma época, que eu desconhecia. Não li a placa, “atribuí” a Bosch o quadro de Patinir e saí feliz de ter descoberto “meu Bosch preferido”, que era tão diferente dos quadros de Bosch mais conhecidos e reproduzidos. Se tivesse lido a placa, provavelmente eu teria me sentido na obrigação de esquecer o céu de Patinir e destinar minha atenção só aos quadros de Bosch; em obséquio ao meu saber, que era modesto e trivial, eu teria renunciado a uma experiência cuja lembrança ainda me encanta. Recentemente, visitei a exposição “In-Finitum”, no Palazzo Fortuny, em Veneza (até 15 de novembro), que reúne obras e objetos de todas as épocas ao redor de um tema, “In-finitum”, que, cá entre nós, é suficientemente vago para que qualquer coisa possa ser incluída na exposição. Instalações e quadros emprestados por museus e coleções particulares são assim misturados com objetos que enfeitavam a casa de Mariano Fortuny, quando ele estava vivo. Há de tudo: de um “conceito espacial” de Lucio Fontana a um banal ovo de avestruz. A regra (inusitada e atrevida) das exposições do Palazzo Fortuny quer que os objetos não sejam identificados por placa alguma, como se a gente estivesse visitando a casa de alguém. Para quem não aguenta o tranco, está disponível uma espécie de mapa que deveria permitir identificar os objetos expostos, mas cuidado: a duras penas. Para alguns, a visita se torna assim uma caça ao tesouro (as crianças adoram). Outros rejeitam o mapa e testam sua própria capacidade de atribuir algumas das obras a seus respectivos autores. Outros ainda, fiéis ao espírito da exposição, percorrem os andares do palácio permitindo-se uma experiência estética e meditativa, sem se preocupar em saber direito quais são os objetos nos quais eles esbarram. O catálogo obedece ao mesmo princípio da exposição: começa com as reproduções das obras expostas, sem nada que as identifique. Seguem os ensaios e, só em apêndice, a lista das reproduções. Antes de deixar o palácio, li o caderno em que os visitantes são convidados a escrever suas impressões. O leque vai de “Experiência única, por uma vez pensei e senti, em vez de querer saber quem fez o quê” até a (mais frequente) “Os curadores estão bêbados? Não se entende nada no mapa. Que tal uma plaquinha de vez em quando?”. Pergunta: o que aconteceria em nós, visitantes, se os museus escondessem toda informação sobre as obras expostas? Moral da história: o debate entre saber e experiência, por mais que seja um clássico do pensamento pedagógico, é sem solução. A falta de saber compromete e empobrece a experiência, mas, sem a liberdade da experiência imediata, o saber se torna chato, estupidamente repetitivo e, no fundo, frívolo.

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4 Respostas to “Fruição estética e conhecimento: uma relação complexa”

  1. maria helena Says:

    Gostei muito do texto e concordo com a análise do Contardo, sempre excelente !

  2. Tarcísio Says:

    Parabéns pelo post, muito bom!

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