Você já leu Decamerão?

"Um conto de Decamerão", obra do pintor John William Waterhouse (1849-1917)

A quarta novela da primeira jornada de Decamerão, obra-prima de Giovanni Bocaccio (1313-1375), é um exemplo perfeito do que pode ser chamado sua doutrina: a do direito ao amor carnal.

Trata-se da história de um jovem monge que, passeando pelos arredores do mosteiro, descobre uma lindíssima jovem, sozinha, a apanhar ervas pelos campos. O monge, “logo acometido pela concupiscência carnal”[1], trava conversa com a moça e, com seus ardis, consegue conduzi-la à sua cela, sem ser notado pelos outros religiosos, que dormiam a sesta.

Ocorre que o abade, tendo acordado, escuta a brincadeira dos jovens. Primeiramente pensa em interrompê-los, depois reconsidera, e decide voltar a seu quarto, de onde pode escutar tudo. o que fazem.  O monge, a certa altura, desconfiado, espia por um orifício da cela e flagra  o abade em seu posto. Na certeza de que seria punido, ele traça rapidamente um plano de defesa.

Aqui se desenvolve o que pode ser entendido como um dos princípios da ética de Decamerão: a astúcia dos amantes. Ela está livre para atuar contra os ciumentos, os pais da donzela, os maridos traídos e tudo o que se coloque como força avessa à experiência carnal.

É assim que o monge, trancando a moça em sua cela, decide procurar pelo abade e, com a mais perfeita dissimulação, dizer-lhe:

– Senhor abade, não pude, esta manhã, ordenar que trouxessem ao mosteiro toda a lenha que pude arranjar; por esta razão, com sua permissão, desejo ir ao bosque, para mandar que a tragam.

O monge sai e, ao deixar a chave com o superior, sabe bem o que quer: atraí-lo para o pecado e envolvê-lo na mesma culpa.

O abade pensa, primeiramente, em abrir a porta e retirar a moça do aposento do monge, revelando aos outros religiosos o pecado ali cometido. Em seguida considera tal atitude um desatino: com ela, poderia expor, indelicadamente, a filha ou esposa de alguém respeitável. Então decide ele próprio ir falar com ela. Logo que entra na cela e vê  jovem – “tão bela e sensual” – sente “inesperadamente, ainda que um tanto idoso, os apelos da carne”. Dominado por eles, não tem dúvida: quer convencer a moça a saciá-los, usando de um raciocínio muito particular: “pecado oculto é pecado perdoado.”

Com esta fala do abade, o prisma liberal do século XIX, que nos ensinou a ver o teocentrismo medieval como uma estrutura monolítica de pensamento, nos levaria a considerar a obra de Giovanni Bocaccio (1313-1375) como uma voz ateia, solitária ou dissonante de seu tempo. No entanto, esta ideia cai por terra se considerarmos o Trecento como uma parte do processo do humanismo italiano.

Nos séculos XII, XIII e XIV, os pensadores medievais se debruçavam sobre Platão, Aristóteles e Cícero, num interesse intenso pelos escritos da Antiguidade. Os complexos sistemas de pensamento, por onde atravessavam neoplatonismo e teologia, ocultismo e matemática, ou mesmo a cabala e a astrologia, formavam ideários inextricáveis, impressionantes a nosso senso moderno de coerência. Para pensadores como Lourenço Valla, Pico della Mirandola, Marsílio Ficino e outros, filosofia, teologia e poesia formavam uma unidade indivisível. O próprio Bocaccio deixou um legado importante sobre o paganismo, A genealogia dos deuses pagãos, que no fim da Idade Média viria servir de fonte para muitos estudiosos do assunto.

São alguns exemplos de “abertura” ou “pluralidade”, que no mínimo relativizam a rubrica sisuda com que muitas vezes, até hoje, cunha-se a Idade Média. Além disso, se o Decamerão nos aparenta uma ofensa à ética cristã medieval, deve-se considerar que esta já vinha sofrendo abalos pelo menos desde a crise teológica de Paris, no século XIII.

Mas, para além das guerras teológicas, as pretensões de Bocaccio podem ser entendidas no que têm de verdadeiramente particular – o realismo como é tratada a experiência amorosa, uma transformação da lírica trovadoresca, onde se veem igualados sacerdotes e leigos, tipos populares e nobres, aos olhos dos quais a mulher amada não é a senhora inatingível, e nem a encarnação da divindade: somente objeto do puro desejo carnal.

“Pecado oculto é pecado perdoado”, na boca do abade, muito mais do que uma ofensa teológica, é um exemplo dos muitos embustes usados pelos amantes do Decamerão para que possam, em paz, gozar da experiência do sexo.

A narrativa continua e o abade, temendo ter-se demorado demais, mantém a moça trancada e abandona a cela. Retorna a seu quarto e depois de algum tempo reencontra o monge. E a decisão que toma agora contra o jovem é apenas mais um artifício: “decidiu censurá-lo e mandar que o prendessem no cárcere; assim procedendo, pretendia ficar sozinho na posse da presa conquistada.” Mas o monge, usando daquela sua astúcia providencial retruca, e mais uma vez sem nenhuma hesitação:

– Senhor abade, não estou, ainda, há tempo bastante na Ordem de São Bento para conhecer todas as singularidades de sua disciplina. O senhor não me mostrara ainda que os monges precisam fazer-se mortificar pelas mulheres, assim como devem fazê-lo com jejuns e vigílias; agora, contudo, que o senhor acaba de mo demonstrar, prometo-lhe, se me conceder o perdão por esta vez, que nunca mais pecarei por esta forma; ao contrário, procederei sempre como vi o senhor fazer.

O abade, “homem astuto que era”, percebe logo que o monge sabia de suas ações. E, arrependido, conclui: os castigos que aplicaria ao jovem seriam também de seu merecimento. Concede-lhe então seu perdão, mas lhe impõe silêncio sobre o que tinha visto.

E assim, escapando aos protocolos da divina instituição, monge e abade se tornam cúmplices, para que possam receber outras vezes ali a jovem sensual. Diante do desejo físico, o celibato imposto pelo clero e a noção de pecado parecem menores. Pois se estes, acobertados, logo se anulam, aquele parece mesmo indomável. O abade, mesmo já velho, sente apelos “não menos ardentes do que aqueles que sentira o jovem monge”; eles se igualam em sua humanidade, e tudo por conta dos sentidos, isto é, da vida mundana. É uma moral prática, válida para todas as classes e que só vê como rivais aqueles que intimidam ou tentam proibir o prazer.

****************

Dioneio, narrador da novela, deixou a princípio magoadas as suas ouvintes, que sentiram uma “pontinha de vergonha” no início da narrativa.

Mas ao longo da história, no entanto, elas se entreolham:

Mal podem conter o riso.


[1] Todos os trechos citados são desta edição: Decamerão. São Paulo, Hemus Livraria, 1971.

 

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