Cor local (2)

O Romantismo e a invenção da cor local

Para a estética árcade, a paisagem era uma criação retórica, uma tópica literária que respeitava os padrões clássicos: prados, campos, ribeiras, riachos. A ausência das densas florestas e da vastíssima costa litorânea – marcas fortes da brasilidade – não se explica apenas pelo fato de a paisagem real dos poetas ser as “duras penhas”, ou seja, a região montanhosa das Minas Gerais. Sem levar muito em conta que alguns desses poetas conviveram com a paisagem do Rio de Janeiro, o que importa é notarmos que os autores árcades estavam mais atendendo a uma convenção universal (entenda-se europeia) que respeitando sua experiência concreta como porta-vozes de uma realidade.

O Romantismo deixa de lado a paisagem meramente retórica ou literária e tenta não exatamente mostrar, mas inventar uma cor local, sustentando-se na busca por uma identidade para o país recentemente independente.

O Brasil foi representado pelos românticos com a convicção dos apaixonados, de modo idealizado, a partir de seus “primores” inigualáveis, de suas abundantes matas e sua natureza generosa. Nossos índios, idealizados, foram pintados como o mais acabado exemplo de bravura e retidão de caráter.

Foi em geral desse modo mesmo – apaixonado ou ingênuo e ufanista – que o Brasil foi apresentado em obras como as de Gonçalves Dias, n’A canção do exílio e em seus poemas indianistas, ou os romances de Alencar.

Essa visão positiva, eufórica da cor local desaguará no século XX para formar uma larga tradição.

Nossa música popular possui exemplos notórios dessa tendência, sendo um dos casos mais célebres a Aquarela do Brasil, de 1939, de Ary Barroso, uma verdadeira declaração de amor à pátria:

Ah, ouve essas fontes murmurantes

Aonde eu mato a minha sede

E onde a lua vem brincar

Ah, este Brasil lindo e trigueiro

É o meu Brasil, brasileiro

Terra de samba e pandeiro

Outro exemplo significativo dessa tradição é a música de Dorival Caymmi, que, tomando a Bahia como metonímia do País, dedicou belíssimos louvores à brasilidade, como vemos nestes versos finais da canção João Valentão, de 1958:

E assim adormece esse homem

Que nunca precisa dormir pra sonhar

Porque não há sonho mais lindo

Do que sua terra, não há.

Como diz a piada popular, a Bahia tem três ritmos: o lento, o muito lento e o Dorival Caymmi - um tempo devagar quase parando

Para terminar, um caso muito expressivo de reencarnação do nacionalismo romântico: a canção Alma de tupi, de 1933, do já esquecido Augusto Calheiros, grande cantor e compositor alagoano que tinha o apelido de A Patativa do Norte e ficou famoso em sua época por possuir uma voz muito afinada e um modo peculiar de cantar. É impressionante como a letra dessa música encarna o que há de mais essencial no nacionalismo romântico. Vale a pena reproduzi-la por inteiro:

Alma de Tupi

Sou caboclo brasileiro,
Tenho sangue de guerreiro,
Descendente de Tupi,
Já andei por outras terras,
Tenho visto muitas serras,
Como a nossa nunca vi,
Tenho amor à minha terra,
Que belezas ela encerra,
Nesses matos do sertão!
Onde os nossos índios bravos,
Nunca se fizeram escravos,
De qualquer outra nação!
Minha terra tem cascatas,
Tem mistérios nestas matas
Que traduz belezas mil!
Minha terra tem perfume,
Que até Deus já tem ciúme,
Destas terras do Brasil!
Folhas verdes e amarelas,
Céu azul cheio de estrelas,
Como não existe igual,
A imagem da bandeira,
Desta terra brasileira,
Neste mundo é sem rival.

Atenção para o fato de que, se em Aquarela do Brasil diz-se que o Brasil é a “terra de Nosso Senhor”, em Alma de tupi, Deus chega mesmo a sentir ciúme do Brasil: ou seja, para o compositor, a beleza de nossa terra é tão grande que provoca inveja a ninguém menos que o Todo Poderoso.

Agora um comentário pessoal: conheci essa música numa daquelas maravilhosas seleções da Cultura AM. Durante um tempo, fui tão fanático por essa rádio e suas seleções de canções brasileiras antigas que enchi com elas uma média de dez fitas cassetes, as quais trago até hoje comigo. Mas, claro, essa mania de ouvir fita velha é problema meu.

Outras abordagens da nossa cor local logo mais, em outro post.

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2 comentários sobre “Cor local (2)

  1. blogs oswald 17/06/2010 / 13:52

    adriano, resta saber se essas fitas ainda tocam né? já testou? talvez seja melhor converter pra cd ou outra mídia digital..abraço
    jacó

  2. blogs oswald 17/06/2010 / 22:13

    Sim, eu as ouço de tempos em tempos… Conversão? Pois é, eu tenho imensa preguiça dessas coisas… Apesar de adorar velharia, jamais serei um verdadeiro colecionador porque não tenho paciência para administrar arquivos. Vou guardando e usando, e só. Mas valeu por lembrar.

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