Cor local (3)

A realidade como problema

Como decorrência do próprio projeto romântico, que em geral tinha uma visão eufórica da nação, brotará, principalmente por volta dos anos de 1860, uma literatura que investiga e denuncia a realidade brasileira, descortinando um aspecto que até então esteve convenientemente fora das grandes representações do país: a escravidão negra. Hoje temos consciência cada vez mais clara de que o elemento da negritude – cuja história evoca tanto tristeza quanto orgulho – é inseparável da brasilidade. Mas nas representações típicas do primeiro Romantismo – o da chamada geração indianista – o negro nem existe na paisagem literária: o que funda a nação é a mistura – quando não a amizade – entre índios e europeus. Isso aparece de modo explícito em histórias como Iracema e O guarani.

Apresentando situações como naturais, a obra de Debret, principalmente com o passar do tempo, parece na verdade uma voz de denúncia

Se a imagem transmitida a respeito do Brasil era um ideal e não a realidade, natural que a representação de nossa vida social fosse também envernizada, de modo a se ocultarem valores considerados nebulosos na formação de uma pintura perfeita: o país precisava aparentar grandiosidade, e a figura de negros acorrentados, sofrendo os mais terríveis castigos, só podia aparecer – como animais exóticos – em telas como a do francês Jean-Baptiste Debret, nas quais se procurava retratar os pitorescos costumes brasileiros (mas que podem também funcionar como denúncia de imensas injustiças).

A visão crítica da realidade propriamente, não só incluindo mas na verdade partindo da crítica à escravidão, começa a aparecer nas artes na segunda metade do século XIX. É sempre bom lembrar que a escravocracia era um dos elementos mais frágeis da nação brasileira se considerarmos, a partir de 1808 e de modo mais decisivo a partir de 1822, a tendência do país a se mostrar como “civilizado”. A atitude de escancarar essa realidade podia pôr em xeque os interesses mais conservadores, que sustentavam a imagem de nação ordeira e branca, tendo o indígena como uma decoração de fundo, um motivo alegórico, um adorno curioso.

A poesia social da década de 1860, que tem Tobias Barreto à sua frente, apresenta uma abordagem direta e indignada do tema da escravidão dos negros africanos. Sendo ele mesmo mulato e tendo sido vítima de preconceito por isso, Barreto foi precursor do chamado condodeirismo nas letras brasileiras, movimento de cunho libertário inspirado nas ideias e na literatura de Victor Hugo e que teve Castro Alves como figura central. O nome é uma alusão ao condor, ave de voo alto e solitário: tal como o condor em seu voo, o olhar do poeta condoreiro flagrava a realidade de um modo amplo, podendo captar seus aspectos injustos e denunciá-los.

Este poema de Tobias Barreto representa bem o espírito dessa geração:

A escravidão (1868)

Se Deus é quem deixa o mundo
Sob o peso que o oprime,
Se ele consente esse crime,
Que se chama escravidão,
Para fazer homens livres,
Para arrancá-los do abismo,
Existe um patriotismo
Maior que a religião.

Se não lhe importa o escravo
Que a seus pés queixas deponha,
Cobrindo assim de vergonha
A face dos anjos seus
Em seu delírio inefável,
Praticando a caridade,
Nesta hora a mocidade
Corrige o erro de Deus!…

A poesia e as artes brasileiras vão flagrar uma nova realidade e apresentar, portanto, uma nova cor local, rechaçando de vez a idealização romântica do Brasil e dando passagem para a estética do Realismo.

Mas esse já é outro capítulo…

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