Um mestre no inferno do capitalismo

Na quinta-feira de 1º de julho, o programa Fora de Jogo da ESPN exibiu um vídeo-reportagem importantíssimo sobre os moradores das cidades de lata (Blikkiesdorp) da Cidade do Cabo, na África do Sul. Fiquei indignado com as condições de vida terrivelmente precárias da população (pobres, evidentemente) que foi forçada pelo governo a abandonar as áreas de maior prestígio – onde ocorreram os jogos e onde consequentemente instalaram-se os turistas – e ocupar, em cantos mais periféricos da cidade, moradias de qualidade inaceitável se considerarmos que estamos falando de habitações para seres humanos. Trata-se de moradias desconfortáveis, úmidas, gélidas: terríveis para quem vive o inverno rigoroso sul-africano. A certa altura – ponto mais forte da reportagem – um morador da Blikkiesdorp chamado Jonathan, indignado, bate no peito e implora: “Pensem em nós”.

O vídeo, imperdível, pode ser visto no site da ESPN. Eis o link:

http://espnbrasil.terra.com.br/copadomundofifa/noticia/129749_VIDEO+O+PAIS+DA+COPA+TEM+CAMPOS+DE+CONCENTRACAO+PARA+OS+EXCLUIDOS

A ambiguidade entre consumo de luxo (representado neste caso pela Copa do Mundo[1]) e as condições paupérrimas de grande parte da sociedade (representadas pela Blikkiesdorp) tem sido o estado essencial da grande maioria das ex-colônias europeias e/ou periferias do americanismo global.

Numa sociedade que convive com altos índices de desemprego e desigualdade social como a sul-africana, a Copa figura como um momento de exceção, interessante entre outras coisas pela capacidade de dar uma enorme visibilidade ao país, provavelmente uma visibilidade que ele nunca tinha atingido.

É de se esperar que, num evento desse porte, as “autoridades” – governo, grandes empresas, elite econômica em geral – prefiram exibir à grande plateia (simplesmente a maioria esmagadora da população mundial) um espetáculo “limpo”, clean, sem as nódoas que já perpetuaram a imagem da África como um lugar sujo, atrasado e miserável. Nós, brasileiros, já conhecemos bem essa história pelos vários processos de gentrificação que viveram e vivem cidades como São Paulo, Recife, Salvador, e muitas outras, tendo como modelo seminal a reforma urbana de Pereira Passos no Rio de Janeiro, na primeira década do século passado.

É de se esperar, mas é também de indignar: que os filhos pobres da exploração euro-estadunidense queiram varrer, para baixo do palco da Copa, as vítimas da miséria e exibir apenas os aspectos mais “nobres” de sua vida – para atrair atenção dos mais ricos, perpetuando assim sua relação de submissão e dependência. (É interessante lembrar o que disseram alguns comentaristas esportivos sobre os estádios da Copa: lindos, pomposos por fora, mas muitas vezes com péssimas condições internas, como as falhas dos gramados.)

Claro que na hora do jogo propriamente dito, a indignação com as mazelas sociais são – e devem ser – suspensas, para que outra experiência se faça possível: o espetáculo exclusivo do jogo. No entanto, agora que o espetáculo acabou (confessemos que ele nem foi tão grandioso), podemos aproveitar as atenções voltadas para a África do Sul e, em consonância com o grito indignado de Jonathan, o morador da Blikkiesdorp, tomar contato com uma abordagem bastante contundente e expressiva dos conflitos vividos no país da Copa: a obra-prima de um gênio da literatura, J. M. Coetzee.

Nascido na Cidade do Cabo em 1940, tornou-se mundialmente famoso principalmente com a conquista do Prêmio Nobel, em 2003. Nas palavras do escritor brasileiro Cristóvão Tezza, “Coetzee construiu uma obra ficcional que poderia ser talvez sintetizada como uma densa investigação ética sobre o homem contemporâneo. Em seus 15 romances, estão presentes temas que vão desde a violência e a brutalidade militar colonial (“À Espera dos Bárbaros”), até a denúncia da matança dos animais neste mundo carnívoro, num curioso elogio ficcional do vegetarianismo (“A Vida dos Animais”).” (In: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/757428-leia-critica-sobre-a-trilogia-autobiografica-do-sul-africano-coetzee.shtml)

Coetzee começou a ganhar alguma (pequena) fama no Brasil há pouco mais de cinco anos, com seguidas publicações da Companhia das Letras.

A primeira obra sua que li foi À espera dos bárbaros, que me surpreendeu muito, pelo ataque duro e direto à crueldade, pelo tom seco e pela linguagem enxuta. A impressão imediata que tive foi a de estar diante de um gigante literário.

Foi então que, depois de alguns meses, ganhei de presente Desonra, a obra mais  famosa de Coetzee, e para muitos seu melhor livro.

Logo no começo de Desonra,  desconfiei que tinha encontrado, finalmente, entre os vivos, um gênio literário.

O mesmo tom: sóbrio, elegante, contido, domínio completo do assunto – o tom nunca maior nem menor do que os fatos. Uma impressionante verdade em falar das coisas.  Tudo, no livro, tem uma razão de ser: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”, já disse o mestre Graciliano Ramos.

Foi imenso meu entusiasmo quando descobri que Coetzee havia escrito um livro simplesmente sobre meu autor favorito, Fiódor Dostoiévski: O mestre de Petersburgo. Nada mais extraordinário do que ver como um grande escritor recria, como personagem de sua prosa, outro grande escritor. Uma experiência singular, que aliás pode nos ensinar sobre Dostoiévski mais do que muitas biografias.

Li outros livros de Coetzee ainda[2] – mas seria exaustivo comentar todos eles num único post.

Rápidos comentários apenas sobre mais dois:

Juventude. Obra perfeita para conhecer mais de perto o desenvolvimento do autor e do homem J. M. Coetzee. O livro descreve as obsessões e as descobertas de um jovem aspirante a escritor (alter ego de Coetzee) que se transfere da Cidade do Cabo para Londres, com todos os choques culturais e guinadas existenciais implicados nessa mudança.

Ao lado de Desonra, o livro que mais me encanta na obra de Coetzee é A idade do ferro (Editora Dom Quixote)[3], ficção em que se apresentam de modo intenso os conflitos raciais e sociais do apartheid, de uma contundência inconfundível, talvez a marca central do escritor.

A África do Sul, com Coetzee, prova que é capaz de oferecer belezas mais dignas, que incluem as criaturas pobres da Blikkiesdorp, deixando-as falar sua voz:

“Pensem em nós”.

Boas leituras.


[1] O que não significa que um evento esportivo como a Copa tenha apenas esse significado (o de “consumo de luxo”): do meu ponto de vista, seria redutor pensar o futebol apenas dessa maneira. Para uma reflexão mais cuidadosa sobre o esporte, aliás, indico veementemente a obra-prima de José Miguel Wisnik Veneno-remédio (Companhia das Letras), em o que autor discorre brilhantemente sobre os múltiplos e complexos papéis do futebol na cultura brasileira e mundial.

 

[2] Não gostei de nenhum daqueles que mesclam narrativa com ensaística, pelos aspectos que aponta Sérgio Rodrigues no seu Todo Prosa: “é um campo tão coalhado de minas pós-modernas que não permite ao autor exercitar sua maior qualidade.” http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/resenha/por-que-nao-gostei-do-%E2%80%98verao%E2%80%99-de-coetzee/

[3] A editora Dom Quixote é portuguesa. Pelo que pude entender até agora, A idade do ferro não foi publicado no Brasil. Consegui meu exemplar num sebo.

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9 comentários sobre “Um mestre no inferno do capitalismo

  1. Roberta 17/07/2010 / 20:08

    Esse é um bom panorama para o que será 2014 por aqui. E 2016. Boa coisa não nos espera.

  2. Dmitri 19/07/2010 / 2:21

    Convenceu-me a largar o preconceito contra os vivos. Lerei uma de suas obras. Abraços.

  3. blogs oswald 19/07/2010 / 16:54

    Bacana adriano, até nas suas paixões (futebol) consegue tirar análises críticas…abraço
    jacó

  4. Carol 20/07/2010 / 14:03

    Adriano é o embaixador do Coetzee no Brasil! Obrigada por me apresentá-lo 🙂

  5. antonio 02/08/2010 / 23:32

    meu amigo , que titulo maravilhoso, um mestre no inferno do capitalismo

  6. biu 15/08/2010 / 15:32

    puta livro legal o mestre de são petesburgo. valeu a dica.

  7. Aline 17/08/2010 / 23:31

    Adorei o post, Adriano.
    (E também as dicas de leitura!)

    Abraço!

  8. Flávia Dip 18/08/2011 / 22:07

    Lindo post! Anciosa para ler algum livro do Coetzee.

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