Cor local (4)

Os Corumbas, de Amando Fontes (1933)


Surgido num contexto de debate acalorado sobre a relação entre literatura e realidade nacional, o romance de Amando Fontes teve aprovação unânime ao ser publicado.

Os Corumbas conseguiu agradar autores de posições radicais, como o comunista Jorge Amado e o conservador Octavio de Faria, numa época em que os julgamentos estéticos eram associados muitas vezes de modo direto aos posicionamentos ideológicos.

A narrativa conta a história da família Corumbas, que, em busca de melhores condições de vida, abandona o pequeno povoado de Ribeira, no interior de Sergipe, e parte para Aracaju, onde enfrenta toda sorte de desgraças, de ordem material e moral. Como é constante nos processos migratórios, o centro urbano atrai vidas famintas para seu centro sedutor e as humilha, assinalando nelas seu desígnio letal: a perda da tradição (a cidade é a ruína das tradições) – lógica que pode ser vista também em obras como Angústia, talvez o romance mais intenso de Graciliano Ramos (embora o autor, cuja descomunal autoexigência era notória, considerasse-o um livro “cheio de gorduras”) e aparece ainda em outras obras-primas, como o famoso filme do italiano Lucchino Visconti Rocco e seus irmãos.

A primeira menção que encontrei a Os Corumbas foi em Uma história do romance de 30[1], de Luís Bueno, em que o autor descreve a intensa euforia que foi a recepção do romance pelos seus contemporâneos, que o consagraram imediatamente.

Fiquei bastante intrigado com os comentários do crítico. Eu, desde muito aficcionado pela Geração de 30, nunca tinha sequer ouvido falar no nome de Amando Fontes!

Então tratei de ir atrás de Os Corumbas e encontrei um exemplar da 25ª edição da José Olympio, de 2003. Devorei o livro em poucos dias e a satisfação foi completa. Tinha encontrado uma das boas fatias do romance nordestino de 30, um livro sem floreios e torneios, sem massa de linguiça – um livro só com o essencial.

O romance de Fontes se divide em 3 partes. A primeira se passa em Ribeira, e conta a história do agricultor Geraldo Corumba, que se casa com Josefa. A terrível seca de 1905 leva os produtores de cana à bancarrota e o casal, pais de quatro moças e um rapaz, decide migrar.

A segunda parte – onde se desenvolvem os elementos centrais da narrativa – mostra a família situada há um tempo já em Aracaju. Geraldo e as duas moças mais velhas, Rosenda e Albertina, são operários da fábrica de tecidos. O filho, Pedro, trabalha como mecânico numa oficina. As esperanças dos Corumbas estão depositadas todas na escolarização das duas filhas mais novas, que deverão tornar-se professoras e assim promover a mobilidade social da família. Josefa é uma dona de casa dedicada. A labuta diária é uma batalha extenuante, que desafia constantemente o senso de justiça e a honestidade dos pobres, pondo à prova, ou melhor, pondo em xeque seus valores centrais[2].

Geraldo e Josefa, que representam os velhos valores sertanejos, valores fixos, veem pouco a pouco seus princípios abalados diante de um mundo de valores fluidos, entorpecido pela necessidade de sobrevivência, que atropela a moral e qualquer tipo de escrúpulo: é o mundo prático, amoral – o mundo moderno –, que engole seus sonhos.

As ações em Os Corumbas seguem uma lógica convincente, como se as vidas que o livro apresenta não pudessem responder ao destino que as empuxa de modo diferente do que mostra o narrador. Esse efeito de verossimilhança é reforçado por uma outra qualidade que Mário de Andrade apontou no romance: “o dom da dialogação”[3].

Outro grande nome a defender Os Corumbas foi o poeta Manuel Bandeira, que caracterizou Fontes como “escritor despretensioso, indiferente às qualidades elegantes de expressão e só atento ao que é essencial ao romance, ao movimento do romance, às suas exigências de construção e de verossimilhança psicológica.”[4]

O meio social em Os Corumbas é espaço de opressão, injustiça, iniquidade. Sua cor local é cinza, triste, desalentadora. Ler esse livro me deu a sensação de conhecer uma peça fundamental da literatura brasileira, uma peça que se ajusta perfeitamente às intenções do romance de 30 mas que possui um brilho particular.

Curioso pensar que o livro, tão aclamado em sua época por figuras de relevo na vida intelectual do País, hoje está praticamente esquecido pela academia e consequentemente pelos livros didáticos e as salas de aula…  E a que se deve tal esquecimento?


[1] Edusp / Unicamp, 2006. Trata-se da mais importante publicação sobre o romance de 30 nos últimos anos.

 

[2] Vale lembrar que essa problemática da necessidade x honestidade aparece de modo antológico no maior clássico do cinema neorrealista italiano: Os ladrões de bicicleta, de Vittorio de Sica.

[3] A citação aparece na orelha de minha edição de Os Corumbas.

[4] A citação está presente no livro de Luís Bueno, na página 194.


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8 comentários sobre “Cor local (4)

  1. Guilherme Silva 09/08/2010 / 14:16

    Bom dia! Antes de mais nada, gostaria de expressar minha satisfação em ler seu artigo, e saber que minha filha será sua aluna algum dia.

    Quanto ao romance, atualíssimo, questiono-me também sobre o motivo de termos aprendido tão pouco nesses 80 anos …

  2. blogs oswald 11/08/2010 / 23:48

    Guilherme,

    Muito obrigado pelos elogios! Fico lisonjeado. Um dia ainda poderemos conversar pessoalmente lá no colégio, né?

    Abraço.

    Adriano.

  3. Carol 13/08/2010 / 16:55

    prazer em conhecê-lo, sr. fontes!
    nunca li menção alguma ao nome de amando fontes, que coisa. façamos justiça então, me empresta o livro?

  4. blogs oswald 23/08/2010 / 3:22

    OI Adriano, vc acha que essa história daria o roteiro de um filme? não seria uma boa forma de trazer o livro a tona? abraço
    jacó

  5. blogs oswald 23/08/2010 / 13:04

    Jacó, você tem toda razão, é uma excelente ideia. E como é um livro sem fluxo de consciência, seria uma transposição mais ou menos direta.

    Abração.

    Adriano.

  6. Margarida 27/05/2014 / 1:53

    Olá, gostei muito do seu artigo! Parabéns!
    Também aprecio as narrativas de 30, especialmente, as do Nordeste brasileiro.
    Gostaria de saber se você tem alguma informação se Os Corumbas sofreu transposição para o cinema. Não encontrei nada sobre isso e fiquei curiosa. Aguardo resposta.

    • blogs oswald 29/05/2014 / 14:39

      Caríssima, primeiramente, gostaria de agradecer pela visita e pelo comentário. Essa sua curiosidade é também minha. Pelo que vi, não há adaptação para o cinema. Eu mesmo pensei em fazer um roteiro, mas o pessoal do cinema que conheço está ocupado com outras coisas. Além do quê, teria que se um projeto grande, ou seja, de difícil viabilidade. Mas que dá vontade de ver, isso dá. Abraço.

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