Autorretrato aos 56 anos, do Mestre Graça

Este post é dedicado a uma pérola da autobiografia brasileira; sobretudo para quem, como eu, é fascinado pela obra de Graciliano Ramos.

O velho Graça[1] usa aqui seu característico estilo – seco, direto e despojado – para falar de um assunto que se enquadra perfeitamente a esse estilo: sua própria pessoa.

Segue abaixo o texto, com algumas notas minhas destacando curiosidades:

Autorretrato aos 56 anos

Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas.
Casado duas vezes, tem sete filhos.
Altura 1,75.
Sapato n.º 41.
Colarinho n.º 39.
Prefere não andar.
Não gosta de vizinhos.
Detesta rádio, telefone e campainhas.
Tem horror às pessoas que falam alto.
Usa óculos. Meio calvo.
Não tem preferência por nenhuma comida.
Não gosta de frutas nem de doces.
Indiferente à música.
Sua leitura predileta: a Bíblia[2].
Escreveu Caetés[3] com 34 anos de idade.
Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados.
Gosta de beber aguardente.[4]
É ateu[5]. Indiferente à Academia.
Odeia a burguesia[6]. Adora crianças.[7]
Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz.
Gosta de palavrões escritos e falados[8].
Deseja a morte do capitalismo.
Escreveu seus livros pela manhã.
Fuma cigarros Selma (três maços por dia).[9]
É inspetor de ensino, trabalha no “Correio do Manhã”.
Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo.[10]
Só tem cinco ternos de roupa, estragados.
Refaz seus romances várias vezes.
Esteve preso duas vezes.
É-Ihe indiferente estar preso ou solto[11].
Escreve a mão.
Seus maiores amigos: Capitão Lobo[12], Cubano[13], José Lins do Rego e José Olympio.
Tem poucas dívidas.
Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas[14].
Espera morrer com 57 anos[15].


[1] Graça era como chamavam Graciliano Ramos alguns de seus amigos. Outra forma usada pelos íntimos era Mestre Graça ou ainda Velho Graça. Na biografia de Dênis de Moraes (O  Velho Graça, Editora José Oympio),  a qual estou lendo no momento, descobri que os familiares tratavam Graciliano pela forma abreviada Grace.

[2] Como muitos escritores e intelectuais, Graciliano tinha a Bíblia como uma obra literária, importante para a formação cultural do indivíduo.

[3] A história da publicação desse romance, o primeiro de Graciliano Ramos, merece comentários. Graciliano, quando prefeito de Palmeira dos Índios (de 1928 a 1930), envia para o governador de Alagoas o relatório de prestação de contas do município. Esse relatório, por suas qualidades literárias, acaba indo parar nas mãos do editor Augusto Schmidt, que procura Graciliano para saber se ele possui outros escritos que pudessem ser publicados. O que Graciliano tinha era exatamente o romance Caetés, e publicou-o.

[4] Em um dos momentos mais perturbadores de Memórias do cárcere, Graciliano, deprimido, sem comer e sem apetite, procura atenuar seu desespero bebendo uma garrafa de cachaça que consegue com dificuldade nos porões do Manaus, navio no qual foi transportado com mais algumas centenas de presos.

[5] Em Memórias do cárcere, Graciliano Ramos narra a situação insólita que viveu com um policial que não conseguia fazer seu registro de prisioneiro na Ilha Grande unicamente porque não havia nenhum campo na ficha a preencher onde coubesse o adjetivo ateu. O episódio é interessante por fazer-nos pensar na singularidade da posição de Graciliano Ramos, ateu numa época e num lugar onde isso era mais que uma aberração: era praticamente um crime. A despeito de estarmos em pleno século XXI, a sociedade brasileira tem dado mostras (como podemos ver nas disputas eleitorais deste ano) de atitudes regressivas semelhantes às que Graciliano Ramos enfrentou ao longo de sua vida – somos uma sociedade ainda marcada, em muitas instâncias, pela presença de um moralismo e de um dogmatismo cristãos que oprimem moral e politicamente quem se coloca de modo contrário aos princípios defendidos pelas igrejas e pelos seus fiéis.

[6] A situação da “conversão” de Graciliano Ramos ao comunismo é curiosa. Quase dez anos depois de ser preso por suas ideias progressistas (mas os motivos formais de sua prisão nunca foram declarados pelas autoridades; Graciliano não teve sequer um processo judicial), o escritor encontrou, numa viagem a Belo Horizonte, por acaso, ninguém menos que o líder comunista Luís Carlos Prestes. Essa conversa foi decisiva para a filiação de Graciliano ao Partido Comunista Brasileiro.

[7] Vemos isso pela foto, em que Graciliano Ramos aparece paparicado pelas netinhas Sandra e Vânia.

[8] Nada que possa pôr Graciliano no patamar de um Jorge Amado, escritor mais “boca-suja” de nossa literatura. Mas a presença do palavrão e mesmo de termos considerados chulos se faz marcante na obra de Graciliano, aliás um dos traços que confirmam – ao contrário do que muitas vezes se diz –  sua comunhão com alguns pressupostos modernistas.

[9] Não por acaso, o velho Graça morreu de câncer pulmonar.

[10] Eis uma frase exótica, perfeita para o epitáfio de um niilista.

[11] Essa “indiferença” chega a soar ofensiva: Como pode um homem ser tão desapegado, tão forte? Esse é o tipo de pergunta que eu me fiz insistentemente ao longo da leitura das Memórias do cárcere.

[12] Capitão Lobo: oficial comandante do quartel em que Graciliano esteve preso, no Recife, em 1936.

[13] Cubano: ladrão que o escritor conheceu na prisão.

[14] Graciliano Ramos foi prefeito de Palmeira dos Índios de 1928 a 1930. Seu governo, pela seriedade, incomodava os privilégios dos chefões locais.

[15] Ao contrário dessa previsão, que revela de modo até espantoso seu completo desapego, Graciliano morreu aos sessenta e um anos, em 1953. Outra previsão em que se saiu mal foi em relação ao desenvolvimento do futebol no Brasil: ao saber que o esporte se popularizava pelo País, Graciliano exclamou algo como “Essa bobagem inglesa nunca vai pegar aqui!” Errou feio, meu caro, tornamo-nos simplesmente o País do Futebol, somos pentacampeões! Mas numa previsão Graça foi perfeito: depois de ler o volume de contos Sagarana, ele previu que Guimarães Rosa escreveria um livro maior, de mais fôlego, um imenso romance, imenso no tamanho e na importância, o mais importante do século XX, livro que não poderia ser lido por ele, que na ocasião já estaria morto. Batata: Grande sertão: veredas, que parece realmente um desdobramento dos contos de Sagarana, foi publicado em 1956, ou seja, três anos após a morte de Graciliano, e é considerado por muitos o maior romance brasileiro do século XX. Outra curiosidade é que Ricardo Ramos, filho de Graça, também escritor, morreu, em 1992, no mesmo dia do mês e da semana que o pai.  Este post ficou meio agourento? Escreverei num próximo sobre outros aspectos de Graciliano Ramos, meu autor favorito.

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7 comentários sobre “Autorretrato aos 56 anos, do Mestre Graça

  1. samdra 17/10/2010 / 2:20

    adorei lembrar desses fatos. agradecida pelo prazer dessa leitura.

  2. Luiza 20/10/2010 / 2:56

    faltou a nota 4…

  3. André Carrera Massabki 18/11/2011 / 0:26

    Quando li que Mestre Graça “refaz seus romances várias vezes”, me veio a pergunta: é possível que ele tenha queimado algum, assim como fez Gógol à segunda parte de “Almas Mortas” (isso, prezado Adriano, que no momento é mera curiosidade estudantil de minha parte, bem que poderia se tornar uma faísca inicial para se discutir a relação calorosa – e nem sempre pacífica – entre autor e obra, que muitas vezes resulta em “almas cremadas”, não acha?) ?

    • blogs oswald 22/11/2011 / 17:16

      Massabki, querido,
      De acordo com os biógrafos (Dênis de Morais deve ser o melhor), Graciliano pediu que Ricardo Ramos jogasse fora muitas de suas coisas – tudo o que escreveu em verso, por exemplo, foi parar no lixo. Ao que me consta, não existe poesia de G. Ramos na sua obra completa.
      Abraço.

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