O capote (1843)

“Todos nós descendemos de O capote“, declarou Dostoiévski, no mais antológico elogio à grandeza de Nicolau Gógol (1809-1852), escritor nascido na Ucrânia, mas filiado à literatura russa e um dos pilares de sua expressão moderna.

O capote é a tragicômica história de Akáki Akákievitch, um conselheiro titular, ou seja, alguém que tem a mísera função de copiar documentos, uma insignificante peça na rígida hierarquia da Rússia czarista. Akáki é um homem solitário, não tem mulher, parentes ou amigos.  É visto como ridículo pelos colegas da repartição. Sua opressão, como sua solidão e seu aspecto ridículo, causam pena.

Capa de Igor Grabar para edição russa

A existência de Akáki resume-se em copiar, de modo impecável, os documentos oficiais que lhes encaminham na repartição. Segundo o tradutor e crítico Paulo Bezerra (1), com sua função de copista Akáki sublima seus desejos, os mais secretos e profundos, inclusive o erótico:

“Corre a pena por sobre o papel em branco com o mesmo carinho e a mesma habilidade com que o homem apaixonado usa a magia da mão carinhosa para compor páginas inumeráveis de poesia sobre o corpo da mulher amada.”

Akáki é um homem rígido, aferrado à rotina e amante dela, estranho a tudo o que signifique novidade. A virada no enredo se dá quando, certa vez, esse homenzinho encontra-se diante da necessidade de adquirir um novo capote, pois o seu, já surrado pelo uso, não dava mais conta de protegê-lo do terrível frio de São Petersburgo. 

A  ideia em si da aquisição de algo novo (palavra que explode em sua mente como um pecado irresistível) desmonta inteiramente o quadro de referências de Akáki. O capote, que funcionava como uma insígnia, uma marca de distinção social, ameaça a retidão subserviente do copista: deslumbrado com uma milagrosa significação social, o copiador dos caracteres não consegue mais reproduzir de modo tão fiel (e servil) o mundo daqueles que o dominam. Sonhando mais alto, ele começa a errar – nos dois sentidos da palavra: comete incorreções gráficas, devaneia de felicidade.

Akáki é cômico. Segundo o narrador, suas faces têm tonalidades hemorroidais. Seu nome é um cacófato, além de ser uma cópia do nome do pai (seu papel é o de cópia e copiador, ou seja, o de uma nulidade). A ridicularização que Akáki sofre na repartição nos arranca, indisfarçavelmente, um risinho maldoso. Rimos de uma miséria involuntária. “O reverso trágico do riso” – como o consagrado crítico russo Vladimir Propp descreveu o talento de Gógol – é  a maior beleza de O capote, na qual tudo o que é engraçado é triste e tudo o que é triste é risível.

Ao indicar Gógol como pai de uma linhagem, Dostoiévski provavelmente pensasse especificamente na tradição literária russa. Mas os leitores da grande literatura moderna podem certamente reconhecer Akáki Akákevitch como uma matriz de personagens famosos como Gregor Samsa, de Kafka, Mersault, de  Camus ou  ainda Fabiano, de Graciliano Ramos. Akáki é o primeiro grande modelo dessa família de “humilhados e ofendidos”, para usar expressão de Dostoiévski.

Por estas e muitas outras razões, recomendo veementemente a leitura de O capote, uma das narrativas mais decisivas de minha vida.

Recomendo veementemente também um passeio virtual pelas pinturas de Igor Grabar e pelas animações (há várias no YouTube) de Yuriy Norshteyn.

Mais sobre Gógol e outros russos em outros posts.

Cena de “O capote”, animação de Yuriy Norshteyn

(1) Todos os comentários a respeito de O capote aqui partem da edição O capote e outras novelas (Civilização Brasileira, 1990), com tradução, notas e um riquíssimo prefácio  de Paulo Bezerra. Bezerra é certamente o mais importante tradutor de literatura russa no Brasil dos últimos vinte anos. Destaca-se principalmente pelas excelentes traduções da obra madura de Dostoiévski pela Editora 34: Crime e castigo, O idiota, Os irmãos Karamázov. A Editora 34, por sua vez, merece elogios repetidos pela ousadia e coragem com que vem lançando e relançando nos últimos anos, em sua Coleção Leste, autores fundamentais da literatura russa como Púchkin, Gógol, Dostoiévski, Tolstói e Tchekov, todas enriquecidas com notas, prefácios ou posfácios importantíssimos e contando invariavelmente com traduções diretas do russo. Trata-se do primeiro projeto editorial verdadeiramente sistemático de aproximação do público brasileiro da literatura russa.

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3 comentários sobre “O capote (1843)

  1. Francisco Silva 08/12/2010 / 19:12

    Eaí adriano.
    Aqui é o Chico, se formou em 2007, fez o curso de literatura russa com você, tudo certo?
    Ainda bem que me dei essa chance de ler você, porque o tempo tá escasso pra ler literatura, infelizmente.
    Parabéns aí, muito sossego e alegria com a família!

  2. blogs oswald 10/12/2010 / 0:24

    Ô, meu querido. Obrigado pela visita. Os livros estão à nossa espera, você retorna a eles, já que é um grande leitor. Abração.

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