A morte de Ivan Ilitch (1886)

Seria capaz de lembrar a primeira vez que ouvi falar sobre essa consagradíssima novela de Tolstói? Realmente não.

É um livro que eu sempre vi elencado como dos mais expressivos da literatura russa e, embora bem menos mencionado que Guerra e paz (que só conheço pelas adaptações para o cinema) e Ana Karênina (que eu li há uns quinze anos), A morte de Ivan Ilitch aparecia em geral descrito como uma das mais belas abordagens do tema. Lembro de ter lido grandes nomes, como o escritor Nabokov, apresentando-a como uma das mais importantes  obras da literatura russa.

Mais tarde, numas férias que passei em Ubatuba, ouvi o que meus conhecidos falavam sobre a narrativa de Tolstói. Faziam um rodízio de leitura – um terminava e já passava para o outro ler; ao final de duas semanas havia já cinco leitores comentando sobre o livro de Tolstói, todos empolgados, com grandes impressões. A despeito disso, eu, que estava envolvido com outras leituras, não peguei a “onda tolstoiana” daquelas férias e adiei meu encontro com Ivan Ilitch.

Verdade mesmo é que não me animava em ler Tolstói. Meu contato com os russos àquela época de poucas traduções diretas (vide nota do post “O capote“) era por meio de Tchekhov e principalmente Dostoiévski e, se é verdade que gostei de Ana Karênina, também é verdade que ele esteve longe de me impressionar. À época pareceu-me apenas uma boa narrativa realista, lógica, inteligente, com pontos intensos, mas no geral fria, mecânica, sem a chama vibrante de Dostoiévski, sem a ironia corrosiva e incisiva de Tchekhov. Era mais um narrador detalhista e imparcial do século XIX.

Acontece que há pouco mais de um ano li A Sonata a Kreutzer (Editora 34, tradução de Boris Schnaiderman), uma narrativa de grande intensidade, diria até mesmo violenta, que aborda o tema da infidelidade e do casamento de modo pessimista. Talvez a escolha da primeira pessoa tenho sido decisiva – como acontece nos grandes romances de Machado de Assis – para o aumento da potência do texto.

Exatamente o que não vi em Ana Karênina encontrei n’A Sonata a Kreutzer: vibração – e, inevitável dizê-lo, vibração parecida com a do próprio Dostoiévski, não só pela vitalidade da personagem e de seu discurso, mas também pela abordagem destemida da abjeção humana.  

A Sonata a Kreutzer é uma narrativa vertiginosa, impactante, que, como diz Boris Schnaiderman no posfácio de sua tradução, “desafia-nos (…) e parece insistir em que a literatura nos obriga às vezes a conviver com aquilo que nos parece mais odioso em nosso cotidiano.”

Essa leitura fez-me reconsiderar inteiramente a escrita de Tolstói, inclusive me fez levar em conta a possibilidade de reler Ana Karênina (quem sabe o problema era da tradução ou então de minha imaturidade) e projetar a leitura do gigantesco Guerra e paz – afinal, quando se trata de narrativa intensa, o número de páginas é o que menos importa: Crime e castigo e Os irmãos Karamázov, por exemplo, cada qual com mais de 500 páginas, não me desencorajaram nem um instante sequer pela sua extensão.

A morte de Ivan Ilitch (Editora 34, tradução de Boris Schnaiderman) serviu-me para confirmar o poder da prosa tolstoiana. Abordando um dos temas mais enigmáticos da humanidade – a morte, a única coisa para um ser humano tão importante quanto a vida -, Tolstói provou que consegue alcançar profundidade e ao mesmo tempo espontaneidade usando a terceira pessoa. A morte – ela, que põe termo a todas as alegrias e a todas as tristezas (“a todos os milagres”, escreveu Manuel Bandeira) – mete seus olhos frios num homem que somente então, quando passa a ter consciência de seu fim, percebe o quanto sua vida foi medíocre. Já não era mais possível fazer nada, apenas ter consciência de que a morte, esse credor inexorável, em breve bateria à sua porta.

"Tudo é vaidade", de Charles Allan Gilbert, 1892.

O mais marcante na leitura para mim foi a sensação de adentrar o estranho império da morte – dos lugares que desconhecemos, o único que temos certeza de que iremos conhecer. Nunca é demais lembrar que a morte é nossa única certeza e ao mesmo tempo nosso maior mistério. Essas questões sobre a morte, que vez por outra nos toca, são suscitadas no livro de Tolstói a partir da experiência de alguém que realmente está prestes a enfrentá-la.

O modo como o narrador de Tolstói descreve a reação de Ivan diante da iminência e mesmo diante da própria morte (a página final do livro) é uma das coisas mais brilhantes que já li.

Um texto do grande intelectual Paulo Rónai serve de posfácio à edição da 34. Nele encontramos uma citação do estudioso Merejkóvski: “Se hoje temos da morte um medo vergonhoso, como nunca a humanidade o sentira, se diante dela ficamos tomados de um arrepio gelado que nos atravessa o corpo e a alma e nos coagula o sangue nas veias, (…) tudo isso devemo-lo em grande parte a Tolstói.”

Em seu rico posfácio, Rónai chama a atenção para o caráter crítico da obra de Tolstói:

“Imanente e, no entanto, inseparável do momento e do ambiente, a novela contém um quadro terrivelmente cruel da vida da alta burguesia russa. Submetido ao lento desgaste da agonia, Ivan Ilitch passa involuntariamente revista a toda a sua vida anterior, e, como Brás Cubas, embora por um artifício menos grotesco, procede a uma revisão de todos os valores de seu passado. Desse processo se utiliza o escritor para aplicar impiedosa crítica a toda uma forma de viver, a uma série de práticas sociais que visam unicamente as aparências e não satisfazem as nossas íntimas necessidades de amor e comunhão.”

A morte de Ivan Ilitch é um ensinamento sobre a morte e por isso também uma advertência para a valorização da vida.

Conclusão de boca cheia: é um texto imperdível.

"The Masque of the Red Death", 1883, de Odilon Redon
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2 comentários sobre “A morte de Ivan Ilitch (1886)

  1. Igor 07/02/2011 / 2:12

    Só li este do Tolstói e, na verdade, foi um pequeno choque lê-lo, já que esperava, não sei bem porque, algo no estilo do Dostoiévski. A diferença mais forte é que o texto, e as personagens, do D. são extremamente vibrantes, febris, “romeuejuliéticas”; do assassino que delira com febre, e parece que transporta a própria angústia para a narrativa, passando pelo príncipe epilético que se apaixona perdidamente olhando uma foto (Míchkin), pelos atormentados Karamázov, pelo homem do subsolo etc. Todos são bastante enérgicos, tem um espírito, digamos, de jovem. Já o Tolstói, e todo meu julgamento se dá unicamente por esse livro, é bem mais “maduro” – o que não é juízo de valor – no sentido que é bem mais comedido. Mesmo em agonia, os pensamentos do personagem são quase burocráticos (quando ele analisa o silogismo “todo homem é mortal”, por exemplo). Na verdade, isso cai por terra no fim, na “catarse”, mas todo o resto é cuidadoso.

    Eu tenho o Anna Kariênina aqui, mas tenho um certo medo de começá-lo.

  2. blogs oswald 08/02/2011 / 0:40

    Caríssimo, “comedido” é uma boa palavra para a narrativa de Tolstói. Mas, creia, não é o caso de “Sonata a Kreutzer”, vai ver que aí entra mesmo o papel do narrador em primeira pessoa. Sobre o que disse a respeito das personagens do velho Fiódor, assino embaixo: são mais “vibrantes” e “febris”.
    Abraço e valeu pela visita.
    Adriano.

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