“O azul do filho morto” (2002), de Marcelo Mirisola

Taí um autor que conseguiu, com todos os senões a seu respeito – alguns injustos, outros justos – criar uma voz autêntica, inconfundivelmente sua na literatura brasileira.

Autor de contos e romances, alvo de elogios histéricos (e excessivos) e críticas intestinas (e excessivas), Mirisola alcançou entre a (justamente?) chamada Geração Noventa, à qual ele destesta (justamente?), o mais alto reconhecimento: nesse caso, em minha opinião, justamente, ao menos no que diz respeito ao romance O azul do filho morto, para mim o melhor de todos os seus livros.

O humor cáustico e doentio do narrador desse livro não por acaso levou muita gente a compará-lo a Philip Roth, especialmente o de O complexo de Portnoy, com sua sexualidade patológica e “empatada” e seus devaneios ao mesmo tempo acanalhados e culpados. Em ambos os casos, são personalidades extremamente vaidosas, com compreensão perfeita de seu lugar de exceção, o que lhes inspira ao mesmo tempo indignação e orgulho.

Seja como for, O azul do filho morto é um grito de ódio ao bom-mocismo reinante na moral e nos costumes contemporâneos, no cinismo da classe média intelectualizada. E é um grito de ódio muito bem humorado, engraçadíssimo, com um uso extremamente inteligente da palavra chula e do palavrão.

É um texto extremamente corajoso, que deve causar inveja a um grande número de escritores contemporâneos, um texto que nos faz lembrar a mais importante missão do escritor: acordar a língua, ressuscitá-la, retirá-la do limbo e da pasmaceira que a realidade ordinária lhe confere. E Mirisola não inova a partir de macaquices morfológicas ou eruditismos, mas da “simples” combinação eficaz de registros – o chulo e o literário -, um dos pontos nevrálgicos de sua prosa.

Mas qual é o enredo de Azul do filho morto? “Enredo é coisa de criança”, dirá Mirisola, com sua voz ferina, que confirma a cada parágrafo que literatura é COMO  e não O QUÊ.

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