“Discurso de um ausente”, de Rubem Braga

O texto abaixo faz parte de uma obra raríssima na cultura brasileira: Homenagem a Graciliano Ramos, da Editora Alba, 1943. O livro, organizado por Augusto Frederico Schmidt, é uma coletânea dos discursos proferidos em homenagem a Graciliano Ramos em seu aniversário de 50 anos.

O discurso que reproduzo abaixo é o de Rubem Braga, autor de pérolas de nossa prosa, que conviveu intensamente com Graciliano Ramos, como se verá no texto. Rubem Braga não pôde comparecer à festa em homenagem ao amigo, mas enviou por escrito estas belíssimas palavras:

Discurso de um ausente[1]

Meus Senhores:

Não se pode levar muito a sério esse velho Graciliano, nem devemos lhe fazer festinha porque ele amanhã vai dizer que lhe demos uma comida “ruim como a peste” e lhe fizemos discursos “horríveis, não é, sem sintaxe nenhuma”. Também eu não sei quem teve essa ideia de trazer para um lugar decente, com discurso bonito de poeta transcendental, um cambembe tão desgraçado das Alagoas.

Graciliano! Eu gostaria de lhe oferecer hoje um almoço daqueles da pensão de Correia Dutra, e era capaz de mandar buscar no botequim da esquina de Bento Lisboa duas cervejas hamburguesas. Você podia encher bem o prato fazendo um monte de arroz, feijão, farinha e carne. Ali nos sentaríamos com as nossas famílias e mais a velha viúva que ia jogar trinta mil réis na roleta no número da catacumba do Tinoco; o tira da Ordem Social que ficava desesperado quando você dizia que Victor Hugo é uma besta; o rapazinho que queria ser poeta e o velho surdo; o sub-oficial palrador, o Vanderlino com sua cara de jaca e personagem de Dostoiévski; e também, para dar à nossa mesa a inquietação dos pecados, o vulto suave de D. Ester, tão desonesta e tão boazinha, que a tuberculose levou. Ah, naquele tempo você se chamava Brasiliano porque a dona da pensão achava que, cobrando seiscentos mil réis por quatro pessoas amontoadas num quarto, não tinha obrigação de aprender seu nome direito. Você se chamava Brasiliano! Seus cabelos, que haviam raspado na ilha, ainda não tinham crescido bem. Saíra há pouco da cadeia e já havia escrito Angústia. Toda manhã, bem cedo, abria o pequeno armário de pinho do seu quarto de pensão, tirava lá do fundo a garrafa de cachaça, tomava um gole em jejum e se sentava na mesa. A paisagem era um longo telhado sujo onde os gatos do Catete se amavam sem vergonha e um pátio de garage onde os motores dos caminhões sempre custavam a pegar. E ali, caneta na mão, fumando cigarro Selma, ia contando devagar, num papel pardo, as pobres aventuras da cachorra Baleia. Queria fazer um romance, mas a conta da pensão não podia esperar um romance. Por isso cada capítulo fi­cou sendo um conto que era vendido logo para um jornal do Rio e outro da Argentina, único meio de aplacar a fome de dinheiro semanal de D. Judite. E enquanto armava, peça por peça, seu romance desmontável, você ia fazendo um ou artigo ruim. Ah, Brasiliano, ganhava-se pouco, mas era divertido. Nas noites de verão a gente podia apagar a luz do banheiro e ficar espiando a janela da vizinha até que ela viesse tirar a roupa, mostrando um belo corpo moreno completamente nu. Como era bonita a nossa vizinha, Brasiliano! Você vivia zombando de mim e de Vanderlino porque nós gostávamos de espiar, mas uma noite te pegamos lá no escuro, de tocaia. Corremos para a outra janela. E sabemos que você cuspiu de nojo e disse a palavra “peste” quando no lugar da bela moça a rena quem se mostrou nua foi a caftina gorda de carnes brancas e bambas.

Graciliano Ramos — Hoje, que você completa 50 anos de vida ganha um banquete cobrado a mil-réis por ano, eu achei que devia falar.

Ninguém me pediu que fizesse isso, eu estou falando por conta própria. Mas não é apenas como meu amigo de pensão do Catete nem como seu colega de ofício e parceiro de conversa-mole na livraria José Olympio. Que a minha voz, nesta festa de hoje, seja uma voz de companheiro. Vamos ser mais exatos e pronunciar a palavra horrível, a palavra de mau gosto, a palavra quase proibida a reuniões amenas: companheiro de política. Peço que ninguém saia da mesa ou finja não estar escutando; ninguém tenha medo, que não falarei de mais. Mas alguma coisa é preciso dizer. É preciso dizer que um dia de festa de Graciliano Ramos é um dia de festa para toda uma grande turma de pessoas do Brasil que perante ele não são apenas leitores e admiradores, são companheiros também. Dessas pessoas umas estão aqui dentro e milhares e milhares de outras arcam por aí pelo Brasil afora. Devemos confessar que não é uma gente muito distinta nem bem educada. É gente que vive brigando e fazendo bobagem e às vezes vai até parar na cadeia. Não, Graciliano, você sabe que eu não vejo essa nossa turma como um bando de anjos. Se fosse possível reunir todos eles aí fora na praça do Lido para cantar em coro em seu louvor é mais que provável que a festa acabasse em discussão e pancadaria. Nosso Reino não é o do Céu, e às vezes se parece um pouco de mais com o Inferno. Com seu pessimismo desgraçado, pessimismo de velhote ingênuo, você chega a dizer que essa nossa gente é a pior que há. Não é verdade. Não somos piores que os outros. Se os nossos defeitos aparecem maiores é porque somos exigentes conosco mesmos e de vez em quando somos submetidos a provas que os outros não conhecem. Eu por mim nunca me espantei de­masiado com os espetáculos a que tenho assistido em nosso meio – com as transigências, as fraquezas, a intolerância, a confusão, a safadeza, a presunção, a má fé, e tudo o mais. Somos homens, lidamos com homens, e jamais devemos esperar grande coisa. É difícil, à primeira vista, distinguir D. Quixote de Gil Blas, e todos os dois são igualmente perigosos e úteis, e marcham no mesmo trote pelas estradas poeirentas de nossas aventuras. O que me espanta, Graciliano, nessas campanhas atrapalhadas, não é que tantos fraquejem, é que tantos aguentem a mão e, entre esses seres, alguns aguentem até onde aguentaram e estão sempre aguentando.

O que me espanta não é a traição que dá na vista, não é a tolice que brilha em público: é a decência que se mantém, é a dignidade que se preserva, é a honradez que se resguarda, é o sacrifício obscuro e cotidiano que se continua. Eu lhe digo, porque tenho vivido em muitos cantos do Brasil e mexido com muita gente – eu posso lhe dizer que, entre milhares de homens tão diferentes e de caráter e mesmo de ideias, sempre se tem conservado, através de todas as tribulações e contingências, um patrimônio comum. E você, Graciliano Ramos, faz parte de nosso patrimônio.

O que senti vontade de lhe dizer hoje, e fica dito agora, é o seguinte: que, tanto quanto eu, há milhares de pessoas no Brasil que não estão presentes ao banquete mas que desejam que você fique sabendo que estão ao seu lado. Conte conosco, não apenas na hora de comer e de beber, como também na hora de ter ódio de Julião Tavares[2], de lutar contra Julião Tavares – e de matar Julião Tavares.


[1] Este texto foi extraído revista Teresa – número 2, 2001, Editora 34 / USP.

[2] Personagem do livro Angústia, personificação de tudo o que há de pior no ser humano para o narrador-personagem do livro, e possivelmente também para Graciliano Ramos.

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