Marcel Schwob e “A cruzada das crianças”

A cruzada das crianças, publicado em 1885 pelo judeu-francês Marcel Schwob, homem que viveu apenas de 1867 a 1905, é um dos mais fascinantes exemplos da relação entre História e Literatura.

Conheci essa obra, que anda esgotada no Brasil, pela extinta editora Paraula: uma edição bilíngue, com excelente tradução de Dorothée de Bruchard, o qual conseguiu reconstruir em português as sutilezas sonoras da narrativa original, um francês ritmado e metafórico, marcado de sensacionismos e sinestesias – um francês próximo ao do Spleen de Paris do mestre Baudelaire.

Retrato de Marcel Schwob por Félix Valloton.

Walter Carlos Costa, que é autor da introdução da excelente edição da Paraula, escreveu:

“A imprensa nos mostra o fantástico ocorrendo o tempo todo, mas custamos a acreditar que algum dia tenha havido uma cruzada de crianças, tanto os dois termos soam antitéticos à nossa sensibilidade. No entanto, a história registra não apenas uma, mas duas cruzadas infantis no século XIII europeu. A francesa, comandada por um menino pastor chamado Stéphane, rumou para Marselha, com a esperança de que o mar se abrisse facilitando a passagem para Jerusalém. A alemã, conduzida por um menino de nome Nicolas, marchou com a mesma ilusão e se dirigiu à Itália. No total, cerca de 30 mil crianças caminharam para um desastre completo: as da França foram raptadas por traficantes de escravos e vendidas no Egito e as da Alemanha se perderam em um mistério, de que a lenda do flautista de Hamelin seria uma reminiscência.

Este sacrifício infantil em massa ocupava um canto curioso da história, até que Schwob o transformou em matéria literária. Para elevar à literatura o escândalo de exércitos infantis marcharem para a morte sem que nada ou ninguém os detivesse, Schwob preferiu utilizar intrumentos bem testados pelos escritores de épocas passadas (…) – desenvolve seu dom de narrador usando o procedimento narrativo (…) segundo o qual o mesmo fato é apresentado a partir das diferentes perspectivas de seus protagonistas. A matéria narrada tampouco é inventada, mas escrupulosamente recolhida das crônicas medievais de que era tão íntimo.”

O  resultado desse trabalho são relatos, isto é, a representação direta da fala de pessoas que presenciaram tais fatos sinistros.

Reproduzo abaixo dois desses relatos.

Relato do leproso

SE QUISER COMPREENDER o que vou lhe falar, saiba que tenho a cabeça coberta com um capuz branco e ando chacoalhando um malho de madeira dura. Já não sei que rosto é o meu, mas tenho medo de minhas mãos. Correm diante de mim como bichos escamosos e lívidos. Gostaria de cortá-las fora. Tenho vergonha daquilo que tocam. Parecem-me desalentar os frutos vermelhos que colho e as pobres raízes que arranco nelas figuram fenecer. Domine ceterorum libera me! [1]. O Salvador não expiou meu pecado descorado. Fiquei esquecido até a ressurreição. Como o sapo, selado ao frio da lua numa pedra escura, seguirei encerrado em minha ganga hedionda quando os outros se ergueram com seus corpos claros. Domine ceterorum, fac me liberum: leprosus sum[2]. Sou solitário e tenho horror. Só meus dentes mantiveram sua brancura natural. Os bichos se assustam, e minha alma quisera fugir. A luz do dia se afasta de mim. Faz mil e duzentos e doze anos que seu Salvador os salvou, e não teve dó de mim. Não me tocou a lança sangrenta que o perfurou. O sangue do Senhor dos outros talvez me tivesse curado. Penso amiúde no sangue: eu poderia morder com meus dentes; são cândidos. Já que Ele não o quis me dar, tenho a avidez de tomar aquele que lhe pertence. Eis porque espreitei as crianças que desciam da terra de Vendôme rumo àquela floresta de Loire. Traziam cruzes e eram-Lhe submissas. Seus corpos eram Seu corpo e Ele não me fez parte de seu corpo. Sou na terra rodeado por pálida danação. Espiei para chupar sangue inocente no pescoço de uma de Suas crianças. Et caro nova fiet in die irae[3]. No dia de terror, minha carne será nova. E atrás das outras andava uma criança tenra de cabelos vermelhos. Fixei-me nela; saltei de súbito; tomei-lhe a boca em minhas mãos horríveis. Vestia apenas uma blusa grosseira; seus pés estavam descalços e seus olhos se quedaram plácidos. E considerou-me sem surpresa. Então, sabendo que ela não gritaria, tive o desejo de ainda ouvir uma voz humana e retirei minhas mãos de sua boca, e ela não enxugou a boca. E seus olhos pareciam distantes.

– Quem és tu? disse eu.

– Johannes, o Teutão, respondeu ele. E suas palavras eram salutares e límpidas.

– Aonde vais? disse eu ainda.

E ele respondeu:

– A Jerusalém, conquistar a Terra Santa.

Então pus-me a rir, e perguntei-lhe:

– Onde é Jerusalém?

E ele me respondeu:

– Não sei.

E eu disse ainda:

– O que é Jerusalém?

E ele me respondeu:

– É Nosso Senhor.

Então, pus-me a rir novamente e perguntei:

– O que é o teu Senhor?

E ele me disse:

– Não sei; ele é branco.

E aquela palavra lançou-me no furor e abri os dentes sob o capuz e me inclinei para o seu pescoço tenro e ele não recuou, e eu lhe disse:

– Por que não tem medo de mim?

E ele disse:

– Por que teria medo de ti, homem branco?

Então um grande pranto me agitou, estendi-me no solo, beijei a terra com meus lábios terríveis, e gritei:

– Porque sou leproso!

E a criança teuta me considerou, e disse limpidamente:

– Não sei.

Ela não teve medo de mim! Não teve medo de mim! Minha monstruosa brancura semelha para ela a de seu Senhor. E peguei um punhado de capim e enxuguei-lhe a boca e as mãos. E eu lhe disse:

– Vai em paz rumo ao teu Senhor branco, e dize-lhe que ele me esqueceu.

E a criança me olhou sem dizer nada. Acompanhei-a para fora da escuridão desta floresta. Ela andava sem tremer. Vi sumir seu cabelo vermelho, ao longe, no sol. Domine infantium, libera me[4]. Que o som do meu malho de madeira te alcance, como o som puro dos sinos! Mestre daqueles que não sabem, liberta-me!

"A dança macabra", iconografia medieval

 

Relato de três criancinhas

NÓS TRÊS, Nicolas que não sabe falar, Alain e Denis, saímos pelas estradas rumo a Jerusalém. Faz tempo que estamos andando. Foram vozes brancas que nos chamaram na noite. Chamavam todas as criancinhas. Eram como as vozes dos pássaros mortos durante o inverno. E vimos a princípio muitos pássaros, coitados, estendidos na terra congelada, muitos passarinhos com a garganta vermelha. Vimos depois as primeiras flores e as primeiras folhas e com elas trançamos cruzes. Cantamos diante das aldeias, como costumávamos fazer no ano novo. E todas as crianças corriam para nós. E avançamos como uma tropa. Havia homens que nos maldiziam, por desconhecerem o Senhor. Havia mulheres que nos seguravam pelo braço e nos interrogavam, e cobriam nosso rosto de beijos. E houve também boas almas que nos trouxeram tigelas de madeira, leite morno e frutas. E todo o mundo tinha dó de nós. Pois eles não sabem para onde vamos e eles não escutaram as vozes.

Por sobre a terra há densas florestas, e rios, e montanhas, e sendas cheias de espinheiros. E no fim da terra encontra-se o mar que iremos cruzar em breve. E no fim do mar encontra-se Jerusalém. Não temos governantes nem guias. Para nós todas as estradas são boas. Embora não saiba falar, Nicolas caminha como nós, Alain e Denis, e as terras são todas iguais, e igualmente perigosas para as crianças. Em toda parte há densas florestas, e rios, e montanhas, e espinhos. Mas em toda parte as vozes estarão conosco. Há entre nós uma criança chamada Eustáquio, que nasceu com os olhos fechados. Anda com os braços estendidos e sorri. Não vemos nada que ele não veja. Uma menina é quem o guia e carrega a sua cruz. Chama-se Allys. Nunca fala e nunca chora: mantém os olhos fixos nos pés de Eustáquio, a fim de ampará-lo quando ele tropeça. Nós gostamos deles dois. Eustáquio não vai poder ver as santas lâmpadas do sepulcro. Mas Allys lhe tomará as mãos, para fazer com que toque as lajes do túmulo.

Oh! como são belas as coisas da terra! Não nos lembramos de nada, porque nunca aprendemos nada. Vimos, contudo, velhas árvores e rochas vermelhas. Às vezes passamos dentro de longas trevas. Às vezes andamos até à noite em prados claros. Gritamos o nome de Jesus nos ouvidos de Nicolas, e ele o conhece bem. Mas não sabe dizê-lo. Ele se alegra conosco com aquilo que vemos. Pois seus lábios podem se abrir para a alegria, e ele nos afaga os ombros. E eles, assim, não são infelizes: pois Allys vela por Eustáquio e nós, Alain e Denis, velamos por Nicolas.

Diziam que nos bosques nos depararíamos com ogros e lobisomens. Mentira. Ninguém nos assustou; ninguém nos fez mal algum. Os solitários e os doentes vêm nos olhar e as velhas acendem, para nós, luzes nas cabanas. Mandam tocar por nós os sinos das igrejas. Os camponeses erguem-se de sobre os sulcos da terra para espiar-nos. Os bichos também olham para nós e não fogem. E desde que estamos andando, o sol se tornou mais quente, e já não colhemos as mesmas flores. Mas todas as hastes podem trançar-se com a mesma forma, e nossas cruzes estão sempre viçosas. Assim temos grande esperança, e logo veremos o mar azul. E no fim do mar azul está Jerusalém. E o Senhor deixará vir até seu túmulo todas as criancinhas. E as vozes brancas estarão alegres na noite.

"A cruzada das crianças", desenho de Gustave Doré

[1]Domine ceterorum libera me!: Ó Senhor de todas as coisas, libertai-me!

[2] Domine ceterorum, fac me liberum: leprosus sum: Ó Senhor de todas as coisas, fazei-me livre: leproso sou.

[3] Et caro nova fiet in die irae: E serei feito carne nova no dia final.

[4] Domine infantium, libera me!:  senhor dos mais novos, libertai-me!

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4 comentários sobre “Marcel Schwob e “A cruzada das crianças”

  1. ANTONIO SOUZA 14/03/2011 / 0:10

    sempre bom, Adriano ´[e muito bom no que faz

  2. Roberta 15/03/2011 / 23:21

    Realmente impressionante.

  3. Pedro Augusto 08/04/2011 / 2:34

    Ainda não li o livro, mas cabe comentar que acabou de sair uma edição recém-traduzida, pela Hedra. Não tinha dado atenção, mas agora fiquei curisoso.

    Parabéns pelo belo trabalho neste blog!

    Pedro Augusto

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