Graciliano aos onze anos

Em 1889, a família de Graciliano Ramos deixa a fazenda Pintadinho, em Buíque, no sertão de Pernambuco, por conta da seca cruel que devastava a região, e parte para Viçosa, pequena cidade no interior de Alagoas. A família passa a viver dos lucros de uma loja de tecidos, ferragens e miudezas chamada Sincera, ao fundo da qual, anos mais tarde, um Graciliano já viúvo e taciturno criaria algumas das personagens mais célebres da nossa literatura.

O menino Graciliano Ramos tomara amor ao mundo das letras por meio de sua prima Emília, e conseguia emprestados os livros do tabelião Jerônimo Barreto. Em Infância, livro imperdível do grande escritor alagoano, há um detalhamento belíssimo desse primeiro contato de Graciliano com os clássicos da literatura, especialmente José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo e Júlio Verne, que deixariam extasiada sua imaginação infantil com as aventuras de índios, reis, príncipes, donzelas e vilões que traziam.

Aos onze anos de idade Graciliano Ramos e seu primo Cícero de Vasconcelos fundam, a conselho de um professor dos meninos, um jornal no Internato Alagoano chamado O dilúculo. É neste jornal que Graciliano Ramos publica pela primeira vez um texto seu.

Interessante observar como algumas características marcantes de sua prosa madura já aparecem aí: a linguagem direta, sintética, seca, a voz contundente e o olhar atento às misérias alheias.

Reproduzo abaixo o texto do menino Graciliano:

O pequeno pedinte

Tinha oito anos.

A pobrezinha da criança sem pai nem mãe, que vagava pelas ruas da cidade pedindo esmola aos transeuntes caridosos, tinha oito anos.

Oh! Não ter um seio de mãe para afogar o pranto que existe no seu coração.

Pobre pequeno mendigo.

Quantas noites não passara dormindo pelas calçadas exposto ao frio e à chuva, sem o abrigo do teto.

Quantas vergonhas não passara quando, ao estender a pequenina mão, só recebia a indiferença e o motejo. Oh! Encontram-se muitos corações brutos e insensíveis.

É domingo.

O pequeno está à porta da igreja, pedindo, com o coração amargurado, que lhe deem uma esmola pelo amor de Deus.

Diversos indivíduos demoram-se para depositar uma pequena moeda na mão que se lhes está estendida.

Terminada a missa, volta quase alegre, porque sabe que naquele dia não passará fome.

Depois vêm os dias, os meses, os anos, cresce e passa a vida, enfim, sem tragar outro pão a não ser o negro pão amassado com o fel da caridade fingida.

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