Coração das palavras, de Mário Viaro

Reproduzo abaixo o excelente artigo do filólogo Mário Viaro (de quem tive a honra de ser aluno um dia), retirado do site da Revista Língua Portuguesa.

Segue abaixo:

Coração das palavras

A longa história dos derivados do termo “coração”, órgão com núcleo semântico misto: porque se refere a algo que é concreto, mas em parte também abstrato
por Mário Eduardo Viaro

Não é incomum encontrarmos pessoas encantadas com as etimologias. A sua capacidade de associações e de explicações é tão grande, que, desde a Antiguidade, pelo menos desde as justificativas dos nomes pessoais no Gênesis ou desde o diálogo platônico do Crátilo, temos amostras desse fascínio. Quando se desenvolveram as chamadas leis fonéticas para os estudos etimológicos, no século 19, muita fantasia foi abandonada e uma segurança científica foi paulatinamente desenvolvida. Ainda hoje, os amantes da etimologia não estão livres de associações duvidosas, imprecisas ou até errôneas, mas conhecer a rede de cognatos de um termo continua sendo uma viagem pelos tempos e valores.
A palavra coração, por exemplo, nos ensina muito. Apesar de próxima do espanhol corazón, é um pouco diferente das outras línguas vindas do latim: francês coeur, italiano cuore, catalão cor, provençal cor, romanche cor ou cour, friulano cûr. O romeno tem outro étimo, uma vez que diz inima, que provém do latim anima, “alma”.

De cor
A palavra latina era cor, da qual as línguas-irmãs do português não se afastam muito. Mas, para se chegar ao espanhol, é preciso partir de um outro étimo, que foi reconstruído pelas leis fonéticas como *coratio ou, mais precisamente, por meio da forma acusativa *corationem. Do acusativo provém a esmagadora maioria das palavras não-eruditas do português. Essa forma acusativa indicava inicialmente apenas a palavra sendo usada como objeto direto ou direção de um movimento. Aos poucos, foi assumindo todas as posições na frase. A terminação *-atio(nem) é um sufixo formador de palavras abstratas.

Como isso é possível? De fato, a etimologia parecerá fantasiosa se não houver outras formas paralelas que a justifiquem. Ora, o coração e a cabeça são partes do corpo que têm um núcleo semântico misto: em parte se referem a algo concreto; em parte, a algo abstrato: a cabeça não é só o rosto, os cabelos ou o crânio, mas a sede dos pensamentos, da mesma forma que o coração não é apenas o órgão, mas a sede dos sentimentos. Também cabeça tem uma etimologia semelhante: a palavra latina caput sobrevive no romeno cap, mas, nas demais línguas, há outras etimologias, como no francês tête, italiano testa, que vêm de um uso latino (como gíria) da palavra testa, “tipo de vaso de argila, caco, telha” (da mesma forma que dizemos hoje faço o que me der na telha).

Cabeça e coração
Para se chegar a cabeça em português ou cabeza em espanhol, parte-se de *capitia, que tem uma terminação -ia, igualmente formadora de abstratos. Coração e cabeça são partes especiais do nosso corpo que podem conduzir a essa reconstrução por meio de abstratos, diferentemente de partes que não permitem facilmente essa leitura (cotovelo, pulmão etc.). No entanto, as palavras latinas cor e caput sobrevivem em expressões portuguesas como falar de cor, isto é, a partir do coração, ou de cabo a rabo, ou seja, da cabeça até o rabo. Da expressão de cor nasceu o verbo decorar e o povo não tardou em tachar pejorativamente o ato de decorar um assunto, comparativamente inferior ao de dominá-lo, com o sonoro decoreba.

Mas cuidado: decorar uma casa não tem nada a ver. Vem do latim decus (acusativo decorem), que quer dizer “enfeite”. Não se informar quanto a isso dá margem a explicações fantasiosas. Nem tudo que soa parecido está relacionado.
Analisemos mais de perto a palavra latina cor. Seu radical é, na verdade, cord- e provavelmente era assim que se pronunciava num período arcaico do latim, tendo perdido a última consoante (*cord > cor). Prova disso é o plural de cor, a saber, corda, apenas para citar um caso da flexão da palavra.

Daí quando dizemos que alguém é cordial, queremos dizer que suas atitudes provêm do coração. A palavra não existia entre os antigos, mas desenvolveu-se na Idade Média. Concordar com alguém é partilhar do mesmo coração, isto é, das mesmas idéias e sentimentos; discordar, por sua vez, é o movimento contrário. Os dois verbos já existiam em latim: concordare/discordare. Quantos pares de palavras assim não se formaram a partir desse prefixo com- que reúne, concilia, congrega e dis- que espalha, dissipa, dispersa: convergir / divergir, compor / dispor, contribuir / distribuir etc. Quando todos concordam, há concórdia, quando todos discordam, há discórdia. Mesmo em assuntos de gramática, quando se fala da concordância nominal, ali está, no fundo, a compatibilidade entre as palavras, como se elas tivessem um coração.

Variantes
No latim ainda havia outras palavras parecidas que, por acaso, não foram ressuscitadas pelos românticos: vecordia era a ausência de coração, a loucura, a insensatez; socordia (ou secordia), o afastar-se do coração, a covardia, a indolência, a apatia. Ao contrário dessa última palavra, um adjetivo *coraticum, “próprio do coração”, desenvolveu, em francês, a palavra courage, que veio para o português sob a forma coragem.

Já a palavra misericórdia sobrevive ainda hoje: a primeira parte da composição é a palavra miser, “pobre, miserável, lamentável”, ou seja, ter misericórdia é ter o coração contrito. O alemão, imitando essa palavra, criou a palavra Barmherzigkeit, composta de erbarmen “ter piedade”, Herz “coração” e os sufixos formadores de abstratos femininos -ig+keit.

Ir para perto do coração de alguém, ou seja, das idéias e dos sentimentos do outro, fazendo, assim, desaparecer as diferenças, é fazer um acordo. Quem concorda, aliás, é cordato. Em latim, cordatus é, no entanto, quem tem coração, melhor dizendo, raciocínio: é quem é prudente, sábio, sagaz.

Um acordo entre as notas musicais é um acorde, palavra que veio do francês accord. Dessa palavra formou-se a palavra alemã Akkordion, que, via francês, accordéon, chegou ao português como acordeom.

Trazer de volta ao coração lembranças perdidas é recordar. Em espanhol, diz-se, no entanto, para este sentido, acordar. Já o português acordar vem de acordado, palavra que no século 13 tinha o mesmo sentido do cordatus, ou seja, quem tem o juízo aguçado. Só está plenamente acordado quem tem a razão em pleno funcionamento, assim como esperto e despertar tem uma semelhança formal.

Outras línguas
A palavra latina cor, sob a forma antiga *cord, encontra parentes mais antigos em outras línguas: no germânico se dizia *hert (gótico hairto, inglês heart, alemão Herz, holandês hart, sueco hjärta, islandês hjarta, norueguês e dinamarquês hjerte); em eslavo, *serd (russo serdce, polonês serce, tcheco e eslovaco srdce, esloveno e croata srce, búlgaro sarce); no grego *kard (antigo kardía, moderno kardiá), o armênio sirt, o lituano sirdis, o letão sirds e línguas tão antigas quanto o hitita karts e o sânscrito hrd remontam a um indo-europeu *krd, *kerd, mostrando, dessa forma, quão longe uma palavra pode penetrar no passado, da mesma forma que a profusão de idéias que se lhe associam mostram o quão vivas eram e ainda são as línguas. O ditado está errado: nem tudo que está longe dos nossos olhos, está, portanto, longe do coração

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