“O cão e o frasco”, de Charles Baudelaire

Baudelaire retratado por um dos maiores fotógrafos de seu tempo, Félix Nadar

Considerado o fundador da literatura moderna, pai do movimento simbolista e guru dos escritores malditos, Charles Baudelaire (1821-1867) é uma dessas figuras que imprimem o seu nome a uma época: muitos estudiosos dividem a literatura entre o que se fez antes e o que se fez depois da produção do gênio francês.

Os livros mais importantes de Baudelaire são As flores do mal (1857) e Spleen de Paris (1869). O primeiro é um conjunto de poemas, uma verdadeira revolução de estilo e de temperamento poético. No segundo, uma publicação póstuma, Baudelaire fez uma combinação entre poesia e prosa que consagrou um novo gênero literário: a prosa poética (não por acaso, o nome original do livro era Pequenos poemas em prosa), que exerceu e ainda exerce grande influência em todos os seus sucessores.

O cão e o frasco, que reproduzo aqui (na famosa tradução de Aurélio Buarque de Hollanda), é um dos textos mais importantes do Spleen de Paris e sem dúvida uma das obras mais emblemáticas desse momento de divórcio entre produção artística e gosto das multidões. Produzida no nascedouro da cultura de massa, no início do que Walter Benjamin cunhou como “era da reprodutibilidade técnica”, a literatura de Baudelaire foi produzida como um ato de voluntária provocação, como um imenso prazer em desagradar, abrindo um debate que sem dúvida alguma ainda está vivo.

Boa leitura.

O cão e o frasco

— Meu belo cão, meu cãozinho, meu querido totó, vem cá, vem respirar um excelente

perfume comprado no melhor perfumista da cidade.

E o cão, agitando a cauda, o que é, suponho, entre esses pobres seres, o sinal

correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e, curioso, põe o nariz úmido no frasco

destampado; mas subitamente, recuando de susto, late contra mim, à maneira de reprimenda.

— Ah, miserável cão! se eu te houvesse oferecido um embrulho de excrementos, decerto o

cheirarias com delícia e talvez o tivesses devorado. Assim, ó indigno companheiro de minha triste

vida, tu te assemelhas ao público, a quem nunca se devem apresentar perfumes delicados, que o

exasperam, mas imundícies cuidadosamente escolhidas.

(BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas e prosa. Rio de Janeiro, José Olympio, 1950 – trad. Aurélio Buarque de Hollanda. p. 25)

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