Um dia para Drummond

O intercâmbio entre culturas é fenômeno rico, politicamente necessário. É definidor, no fim das contas, da própria ideia de cultura. Que cultura, afinal, não tem, em sua base, a troca, a mistura?

Isso não significa, creio eu, naturalizar alguns processos de evidente hegemonia cultural, como a que vive o Brasil e grande parte do planeta em relação ao domínio cultural estadunidense. Lembremos que, para o caso de sociedades economicamente dependentes como a nossa, a palavra nacionalismo faz ainda algum sentido – é o caso de dar uma conferida nesse brilhante ensaio do mestre Antonio Candido: “Uma palavra instável”[1], em que ele procura esclarecer as várias conotações que essa palavra ganhou ao longo de nossa história, funcionando muitas vezes como bandeira de resistência contra a assimilação de modelos impostos pelos países mais poderosos.

Ainda uma outra dica – leitura também agradável e muito instrutiva: A invasão cultural norte-americana, de Júlia Falivene Alves[2]. O livro, que é abertamente provocativo, começa pela fundamental diferenciação entre troca cultural e dominação cultural. Uma diferenciação que vem ao caso, não?

Bem, tudo isso, gente, só para deixar bem claro que, para este Prefácio, o dia 31 de outubro (que já foi) é o Dia D, isto é, o Dia Dele, o Dia do Homem, o Dia de Drummond! Carlos Drummond de Andrade: o maior poeta que este País conheceu, o mais completo, o mais complexo, o mais profícuo, o mais volumoso e o mais influente – um cara que merece, sem sombra de dúvida, um dia em homenagem à data de seu nascimento.

Vejam o que algumas mídias publicaram a respeito do Dia D:

1000347-dia-d-celebra-drummond-em-varias-cidades-do-pais.shtml

dia-de-drummond

impresso,carlos-drummond-de-andrade-ganha-seu-dia,792753,0.htm

Depois de achincalharmos nossa cultura caipira com a importação das festas e rodeios no esquema cauboi estadunidense, vamos mesmo trocar o Saci pelo Halloween? Não é evidente prova de subserviência cultural?

Ah: em Itabira, Minas Gerais, terra de Drummond, acredita-se até hoje no Saci.

Vamos conhecer o Brasil, rapaziada?! Que tal?

Entre uma infinidade de outros, Drummond é autor deste famosíssimo poema:

Canção amiga (1930)

Eu preparo uma canção

em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

[1]“Uma palavra instável”. IN: CANDIDO, Antonio. Vários escritos. São Paulo, Duas Cidades, 1995.

[2] ALVES, Júlia Falivene. A invasão cultural norte-americana.Editora Moderna – Série Polêmica, 2008.

Anúncios

3 comentários sobre “Um dia para Drummond

  1. Roberta 05/11/2011 / 0:11

    Se olharmos apenas para EUA e Europa ao falar nacionalismo, posso até entender seu ponto de vista. Mas quando ouço essa palavra só consigo me lembrar dos bolivianos em SP, ou no Haiti com as tropas brasileiras a la Iraque. Viramos império e isso me entristece.

    • blogs oswald 05/11/2011 / 14:04

      Claro, toda periferia produz também sua periferia. O nome disso é capitalismo, não? Agora, o enfoque do artigo não era esse. Não tenho o menor interesse em defender uma soberania nacional, e acho que o Saci o Drummond representam algo bem diferente disso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s