“Rio de-Janeiro, Minas”, de Marily da Cunha Bezerra (1991)

Esse curta-metragem, que reencontrei um dia destes no Youtube, é a adaptação de um trecho do romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa.

Vale a pena conferir.

O curta pode também ser encontrado no site Porta Curtas

http://portacurtas.org.br/filme/?name=rio_de_janeiro_minas5235

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“Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, de Beto Brant

Beto Brant é o tipo de diretor com quem mantenho uma fidelidade quase canina.

Vi a maioria de seus filmes no cinema e, mesmo sendo ultimamente um cinéfilo mais amigo das sessões caseiras – na tv ou dvd – que das salas de exibição, na primeira oportunidade que tive fui assistir ao seu novo filme, que está em cartaz ainda em algumas salas de São Paulo.

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é uma adaptação do romance homônimo de Marçal Aquino. Dizer qual dos dois é melhor – o livro ou o filme – é bastante difícil. É também inútil: o filme é uma obra à parte, autônoma.

Claro que explorar a relação entre os dois – livro e filme – pode ser agradável e seguramente enriquecedor, para o cinema e para a literatura. Aliás, na produção de Brant, o tema da adaptação chega a ser obrigatório: suas duas obras-primas O invasor (2001) e Crime delicado (2005) são inspiradas em narrativas literárias, de Marçal Aquino e Sérgio Sant’Anna, respectivamente.

O que considero equivocado é o espectador buscar, numa obra cinematográfica, a exata experiência que viveu ao ler um livro. Fidelidade, no campo da adaptação artística, é uma palavra duvidosa, mesmo em se tratando de Marçal Aquino, um escritor que faz seus livros quase como roteiros de cinema. É sempre bom lembrar que a arte fílmica é algo de outra natureza e, sendo o filme bom ou ruim, deve ser julgado pelo que alcança como objeto relativamente autônomo, desprendido de sua fonte inspiradora.

O livro de Aquino é o mais expressivo para mim de toda a sua obra. Um texto literário envolvente, impactante, devorador. Não indicá-lo ao redigir este post é praticamente impossível. Mas – embora seja essa a vontade da maioria esmagadora dos amantes da literatura, eu incluso – a leitura anterior do livro de Aquino é dispensável para a fruição do filme de Brant. Aliás, nada impede que a primeira experiência seja ver o filme. Nada impede também que ela seja a única.

O que procuro reforçar aqui é a importância de valorizarmos a obra cinematográfica pelo que ela tem a oferecer por si mesma. É muito difundida a ideia de que as adaptações cinematográficas em geral “estragam” os livros em que se inspiram. Em resposta, chamo a atenção para alguns casos expressivos como: Vidas secasA hora da estrelaSão Bernardo, Memórias do cárcere, Céu de estrelas (para ficar apenas em obras brasileiras): se não podemos falar em equivalência ou igualdade qualitativa (mensuração no mínimo ousada), mais difícil é dizer que são filmes que “estragaram” os livros adaptados.

Interessante lembrar a opinião do diretor inglês Alfred Hitchcock, que, com sua característica espirituosidade, dizia que um de seus talentos era transformar maus livros em excelentes filmes…

Enfim, o filme de Beto Brant é um espetáculo à parte, não precisa da obra de Aquino para contentar o espectador.

Minha dica portanto é: vá ao cinema e veja o grandioso filme realizado pelo mais que comprovado talento de Beto Brant, com um elenco primoroso (destaque para a atuação de Gero Camilo e José Carlos Machado, além dos protagonistas, obviamente) e a característica capacidade de Brant de abordar temas decisivos  e profundos – relações humanas e dramas sociais – com a complexidade que eles merecem, sem espaço para a fetichização da violência (Cidade de Deus) ou a visão paternalista da miséria (Central do Brasil) e sem espaço também para maniqueísmos.

Beto Brant sempre acerta no tom.  Por isso, para mim, é o maior, o mais importante cineasta brasileiro de nossos dias.

Abaixo o trailer do filme:

“O crime do padre Amaro”, o filme mexicano com Gael Bernal

A obra canônica de Eça de Queirós, para quem não sabe, foi adaptada em 2002 pelo cinema mexicano:  “O crime do padre Amaro”, dirigido por Carlos Carrera e estrelado por ninguém menos que o galã Gael Garcia Bernal.

Além de manter o teor crítico e contundente dessa que é, para mim, a melhor obra de Eça, o filme tem a importantíssima missão de “testar” a atualidade e a universalidade do tema, pois o enredo se passa, não n0 Portugal do século XIX, mas no México do século XX. Sim, o filme prova: o tema de Eça está fresquíssimo, e é ainda digno de atenção.

Os elementos próprios do contexto atual e mexicano (os que não estão na obra portuguesa, como a questão do tráfico de drogas) aparecem de modo pertinente e – isso vale principalmente para quem já leu a obra de Eça – causam agradável surpresa.

Aquela velha história: não se julga um filme pelo livro, no caso de adaptações. Ou seja, não é pela fidelidade ou traição à obra de Eça que o filme de Carrera deve ser apreciado, mas como obra autônoma. Sim, esse princípio é básico. Mas também é um princípio básico que a nova obra forma com sua antecessora uma relação, um diálogo – para usar o termo certo: uma intertextualidade. O que se tem então é uma reação ambígua com a nova obra, porque ela é velha e nova ao mesmo tempo. E essa ambiguidade é o que tanto me instiga nas adaptações.

Vi o filme no cinema quando saiu no Brasil. Acredito que é um acontecimento na tradição da literatura de língua portuguesa ter um ator em tanta evidência como Bernal encarnando a figura do padre Amaro (o padre Amaro do Eça ou o de Carrera? As duas coisas, certamente).

O filme vale muito para quem já leu o livro de Eça, mas vale muito também para quem só quer assistir a um bom filme.

Reproduzo aqui o trailler: