Uma particularidade da língua portuguesa, por Cláudio Moreno

rápida e silenciosamente

Leia e veja por que -MENTE não pode ser classificado como um sufixo comum.

Uma leitora de Porto Alegre (muito jovem, a julgar por seu estilo pitoresco e pela forma com que assinou a mensagem — “Gauchinha”) escreve para pedir mais detalhes sobre uma construção que, segundo suas próprias palavras, acaba de descobrir: “Eu nunca tinha reparado nisso, mas num romance que estou lendo chamou minha atenção a hora em que o vampiro mais sábio fala calmapausadaesolenemente. Comentei com minha mãe, que lembrou que a gente usa todo dia a expressão pura e simplesmente, que deve ser mais ou menos a mesma coisa. Isso é obrigatório? Quando usamos uma carreirinha de advérbios de modo, só o último pode ganhar o sufixomente?”.

Não, prezada Gauchinha, obrigatório não é — mas é recomendável. Como acontece com a maior parte dos sufixos de nosso idioma, menteé tônico, e sua reiteração cria um efeito desagradável para o ouvido; costumamos, por isso, deixar o sufixo para o último advérbio da “carreirinha”, como dizes. Nos bons escritores podes encontrar centenas de exemplos semelhantes — “sacudiram tão feliz e animosamente o jugo” (Vieira); “elegante e simplesmente cortada” (Garrett); “poderia amar-te tranqüila e livremente” (Bernardo Guimarães); “Olhou fria e longamente para a inglesa”; “Estavam mudados física e moralmente” (Machado); “Achava aquilo, como ele dissera, pura e simplesmente insensato” (Eça de Queirós). Em determinados momentos, no entanto — e aqui se percebe a fineza do ouvido do escritor, que busca obter um efeito especial  —, o sufixo aparece em ambos os advérbios: “sem dizer uma palavra, sem fazer um só gesto, lentamente esilenciosamente se retirou para dentro de casa” (Garrett); “Depois, ainda falou gravemente e longamente sobre a promessa que fizera” (Machado); “A vogal, símbolo gráfico da interjeição primitiva, nascidaespontaneamente instintivamente do sentimento” (Raul Pompéia); “Sobre a calva tinha duas repas de cabelo, laboriosamente esingularmente arranjadas” (Eça de Queirós).

Ora, como pode acontecer algo tão esquisito? Como podemos desconjuntar assim uma palavra, separar seus elementos constitutivos e usar apenas um deles no lugar do todo? É evidente que são poucas — ao menos em nossa língua — as ocorrências dessa curiosa operação que alguns lingüistas chamam de “fatoração”. É bem conhecida, por exemplo, a autonomia de que desfrutam certos prefixos: em vez de “macroeconômico e microeconômico”, podemos falar em micro emacroeconômico — da mesma forma que pré e pós-fixado, intra eextramuros, hipo e hipercalórico, bi e trifásico, pró e antiaborto. O número de casos, contudo, é bastante limitado.

O mesmo não acontece com mente, que é plenamente “fatorável”, como percebeu nossa Gauchinha. Este elemento, tradicionalmente considerado um sufixo, é, na verdade, o nosso conhecido substantivomente, que se combina com adjetivos para formar legítimos vocábulos compostos (suave+mente, clara+mente, feliz+mente). Nos manuscritos medievais portugueses, muitos copistas ainda deixavam um espaço em branco entre os dois elementos, escrevendo calma menteserenamente, etc.; poderia ser assim até hoje, pois, como explica Mattoso Câmara, foi por mera convenção da língua escrita que passamos a grafar os dois vocábulos como um só. O processo é tão regular que os dicionários dele se aproveitam para economizar espaço; ao registrarsuave e triste, por exemplo, sabem que não é necessário registrarsuavemente ou tristemente.

Pois é exatamente essa condição de vocábulo composto que permite a coordenação de dois ou mais adjetivos: em silenciosa, furtiva e rapidamente, o substantivo mente só precisa aparecer no final daseqüência. Pelo mesmo motivo, também, silenciosofurtivo e rápidoestão na sua forma feminina, cumprindo o ritual obrigatório da concordância dos adjetivos com o substantivo que acompanham (é bom lembrar que os adjetivos que participam dessas construções devem manter, quando estão sozinhos, sua grafia costumeira, com acento e tudo: cômoda e confortavelmente, rápida e silenciosamente).

 

“Elogio aos livros difíceis e chatos”, por Michel Laub

Volta às aulas, fim de férias, e muitas leituras a comentar.

 

Como disparador para o nosso fórum, reproduzo no Prefácio este instigante artigo de Michel Laub, publicado em seu blog da Companhia das Letras.

Elogio aos livros difíceis e chatos

Sempre que perguntam como alguém pega gosto pela leitura, minha resposta é: lendo. Nada contra programas públicos de compra de livros, investimento em bibliotecas, propaganda institucional na TV, clubes de leitura e qualquer recurso que traga a ficção para perto do dia a dia de professores e alunos, mas no fundo o caminho é individual. Existe uma vocação de leitor: ajuda tentar despertá-la, e essa deve ser uma tarefa de governo e educadores, mas não basta. Venho de uma casa onde sempre se estimulou esse gosto, e cada um dos meus irmãos deu resposta diferente ao incentivo.

Numa coluna passada, reclamei carinhosamente dos eventos literários em que não se discute literatura, e sim o aparato pedagógico/econômico/político ao redor da questão no Brasil. Poderia acrescentar o quanto há de mistificador nos slogans que tratam a ficção como um prazer, uma “viagem”, um atalho de ascensão social e libertação do espírito. Ler ficção pode ser tudo isso, mas antes e sempre é um exercício sem utilidade prática, em geral um obstáculo à vida social. Na adolescência, traz mais angústia, isolamento, tristeza e revolta que qualquer outra coisa. Na vida profissional, é mais vantajoso se dedicar a textos técnicos e de “aprendizado”.

Como apreciar um grande romance? Numa dimensão que dê conta de suas qualidades raras, o que só é possível por meio de repertório e comparação, é preciso um longo esforço anterior, anos e anos de contato com grandes, bons, médios, maus e péssimos outros romances. Não espero que uma campanha governamental diga que ler é trabalhoso e até chato muitas vezes, principalmente para quem está começando e não domina os códigos e manhas da prática  que vão do conhecimento vocabular à sabedoria de pular trechos e largar livros no meio  , mas de fato é. Quando se afirma que Machado de Assis é um autor inadequado para a escola, não é só porque alguém mais velho terá vivência para entender melhor os personagens de Dom Casmurro. Também porque, para uma apreciação de linguagem e estrutura narrativa, sem as quais esses personagens não existem como tais, faz diferença Dom Casmurro ser o quinto romance que o sujeito lê na vida ou o vigésimo, o centésimo e assim por diante.

Cultura é regra, disse Jean-Luc Godard, e arte é exceção. Qualquer incentivo à democratização do saber gira em torno da primeira, e não haveria como ser diferente. Apenas seria interessante, de vez em quando, ouvir alguém falar em larga escala sobre a última: como o prazer extraído da leitura não é necessariamente direto, fluido e emocional. E como pode ser compensador emergir ao final de dezenas ou centenas de páginas hostis como uma espécie de sobrevivente. O primeiro exemplar da chamada “alta literatura” que li foi O nome da rosa. Eu devia ter uns dezesseis anos e fôlego restrito a enredos policiais (me interessei pela obra de Umberto Eco porque era uma história de detetive). É possível que só tenha ido dali para textos de outros gêneros, registros e densidades porque resisti  por estoicismo, orgulho ou vaidade, não importa — ao cabedal de citações em latim e alusões históricas, religiosas e filosóficas sobre as quais não tinha a menor ideia.

Se ler é uma forma de ampliar a visão de mundo, é pobre limitar a experiência ao que, na forma e no conteúdo, com paternalismo ou demagogia, repete o que já sabemos. Por ocasião do lançamento da Granta  e da (bem-vinda) Geração subzero , voltou à tona o debate sem muito sentido que contrapõe qualidade literária e entretenimento. Como se uma coisa excluísse sempre, ou não fosse muitas vezes decorrência da outra. De qualquer forma, Hermano Vianna , Raquel Cozer  e Francisco Bosco  se estenderam com propriedade sobre o assunto, incluindo suas implicações políticas e mercadológicas, enquanto prefiro seguir falando do que sempre será o patinho feio da história: o livro que não é feito para vender, para agradar, para passar o tempo, para dar lição, para render explicações sem fim do autor no Twitter, para virar tese literária ou extraliterária nascida na academia ou na militância antiacadêmica.

É ele, no fim das contas, que mantém a singularidade da ficção escrita, e portanto sua importância, num mundo em que divertir é tarefa cumprida  em geral com mais competência  por séries de TV, cinema, games e assemelhados. Nada contra quem opta por esse caminho ao contar uma história, repito, só não vejo aí superioridade estética ou moral, e nem mesmo despretensão. Na literatura infantil é aceita a regra de não subestimar a inteligência da criança, o que significa não poupá-la de desafios e recompensas proporcionais. No mundo adulto também pode ser assim: o que parece aridez, fragmentação, incoerência, gratuidade e entropia pode ser apenas disfarce do que ainda não se consegue entender numa narrativa. E do que ainda não se sabe que quer.

“Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem”, de Michel Laub

Reproduzo aqui no Prefácio mais um post da divertidíssima série de Michel Laub.

 

Boa leitura.

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (10)

Clarah Averbuck, autora de Vida de gato – “Sempre melhor sozinha e no silêncio. Às vezes levanto da cama depois de posicionada pra dormir entre travesseiros e edredons porque nos momentos de solidão e silêncio é que as ideias começam a se organizar. Quando tenho algum texto para entregar com prazo vou mentalmente trabalhando nele por aí, na feira, no supermercado, no ônibus. Quando chega a hora de escrever já está praticamente pronto. Outros vêm de supetão mesmo. São os que eu mais gosto;  respostas rápidas a inspirações momentâneas ou sentimentos fortes causados por algum outro texto. Sempre os melhores. cummings, como diz meu marido – ou ex-marido, nem eu sei mais, já que vivo no dia da marmota. No dia da marmota não tem texto.”

Douglas Diegues, autor de El astronauta paraguayo – “Para escrever um texto en português selvátiko ou portunhol selvagem tengo necessidades que son manías ou vice-versa. Eis algumas: 1) Estar solo, com las puertas bien trankadas, en un kuarto, escritório, sala kualker.  Con las puertas del kuarto bién trankadas, la imaginacione vagabundea mejor. 2) Estar com las baterias bem carregadas; se estiver medio sonolento, cansado, com dificuldade de concentracione, non vou além dum soneto salvaje. 3) Escrever una primeira vbersione a lápis y después digitar el resultado (cortando ou aumentando) numa vieja notebook sempre ayuda mais que escrever diretamente en la vieja notebook. 4) Tener la sensacione de estar escondido, camuflado, klandestino, nel momento de la escritura, ayjuda bastante; me es impossible escrever em publico, sozinho ou acompanhado, tipo mesa de bar, restaurante, café, choperia, etc.  5) Escrever sentado em apyká, assento guaranitiko de madeira, tipo banquinho, que non es lá muito confortable, para mantener la mente mais desperta, pues que el conforto me dá um sono desenfrenado. 6) Intensa concentracione; sem concentracione nunka me ha salido algo que preste. 7) Escribir com lágrimas paraguaias sinceramente sinceras. 8 ) Saber distinguir que una cosa es poner el guevo y otra es kacarejar. 9) Leer el texto em voz alta com autocrítika afiada como la navalha del niño alien travesti nazi de monopatin rojo.”

Joca Reiners Terron, autor de Do fundo do poço se vê a lua – “Em geral, eu não escrevo. Vivo prorrogando a escritura. Alguém já disse – talvez Donald Barthelme, mas não tenho certeza – que escrever um livro é ganhar o campeonato mundial de natação e não saber nadar quando cair na piscina de novo. Cada livro é um aprendizado, exige a invenção de novos métodos. Agora mesmo, que terminei um romance e preciso começar outro, não sei o que fazer. Ando da sala pro quarto, do quarto pra sala, meio deprimido. Deve ter alguma ética própria nisso, nesse sufoco. Às vezes acho que estou me afogando.”

Raimundo Carrero, autor de O amor não tem bons sentimentos – “Só tenho um hábito quando escrevo: rezo. Como todo bom sertanejo, acredito no Espírito Santo e faço minhas orações. Em geral, não preciso de horários ou circunstâncias. É claro que costumo acordar muito cedo para escrever. E estou sempre fazendo alguma coisa. Ando com uma agenda onde faço anotações. Agora mesmo estou escrevendo um Diário da Criação onde informo tudo o que acontece comigo no plano literário: personagens, cenas, cenários, diálogos, e adianto as informações técnicas: por que uso um diálogo direto ou indireto, qual a necessidade de uma cena – rapidez – ou de um cenário – lentidão. Explico a função e o efeito. Enfim, revelo as estratégias para escrever uma novela. Faço  tudo com muitos detalhes. Prefiro acreditar no trabalho obstinado. Não conheço domingos, feriados ou dias santos: trabalho e trabalho e trabalho. Sempre.”

Rodrigo Lacerda, autor de Outra vida – “Gosto de começar a escrever bem cedo, de manhã. Como não gosto de café, tomo coca-cola, pois cada um tem a cafeína que merece. Num bom dia, posso escrever até cinco, seis horas seguidas, sem levantar da cadeira. Num mau dia, não só não sai nada como começo a achar todos os meus livros anteriores um horror. Então o jeito é sair do escritório e ler, até que algum outro escritor me dê vontade e coragem de escrever novamente. Quando fico mais de uma semana sem escrever nada, deprimo. Quando estou embalado em alguma coisa, todos os problemas parecem menos graves.”

“Escritores e manias”, do blog de Michel Laub

Reproduzo aqui um dos posts da deliciosa série Escritores e manias, do blog do escritor jornalista e editor Michel Laub.

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (15)

Postado em Enquetes, Escritores e manias em 02/12/2010 por Michel Laub

Amilcar Bettega Barbosa, autor de Os lados do círculo – “Minhas manias são para não escrever. Faço de tudo para fugir do momento de escrever. Sou o rei da procrastinação, principalmente quando se trata da escrita. Posso ficar semanas, meses até, sem escrever. Aí, de repente, num só dia sou capaz de escrever uma página. E me sinto o cara mais feliz do mundo. Talvez algumas manias para escrever me ajudassem na disciplina, coisa que absolutamente não tenho. O que tenho são preferências, mas não posso dizer que são condições para escrever, longe disso. Por exemplo : gosto de uma mesa limpa e organizada, mas normalmente ela é uma bagunça; gosto de um incenso queimando, mas quase sempre esqueço de comprar; gosto de escrever de manhã, mas faço quando dá. Ultimamente comecei a escrever em lugares públicos, tipo cafés e bibliotecas. As únicas coisas que não mudam nunca são: 1) escrevo sempre à mão, em cadernos (de preferência com folhas sem linhas) e com caneta tipo roller ball de tinta preta; e 2) não consigo escrever de noite.”

Luiz Alfredo Garcia-Roza, autor de Céu de origamis – “Escrevo no meu escritório, fora de casa, sozinho, durante o dia. Preciso de isolamento e silêncio. Trabalho diretamente no computador, quando muito me sirvo de um borrador onde registro a lápis uma ideia repentina ou uma palavra solta. Quando um bloqueio persiste, saio andando pelo centro da cidade.”

Paulo Henriques Britto, autor de Paraísos artificiais – “Não tenho hora certa para escrever, não tenho nenhum ritual; escrevo de manhã ou de noite, com música ou sem. Poesia escrevo primeiro a caneta num caderno, e depois, quando o poema chega a ser concluído (um em cada vinte dos que inicio, mais ou menos), passo para o computador e imprimo uma cópia. Prosa escrevo direto no computador, e também só imprimo quando dou por pronto.”

Reinaldo Moraes, autor de Pornopopéia – “Escrevo de qualquer jeito, sem música, secundado por uma xícara de café bem forte, se for de manhã, ou por um cigarrinho de artista e uma loirinha gelada (nenhuma daquelas 3 ninfetas, infelizmente), se já for mais de 6 da tarde. Prefiro não escrever minhas coisas à tarde, período do dia que utilizo mais para sestas e leituras. Mas, se estiver no pique, escrevo, sem problemas. Funciono melhor de manhã, às vezes com o sol raiando, e à noite, entre 7 e 1/2 noite – mas não de madrugada. Obviamente, solidão e silêncio são bem-vindos. De resto, é cadeira e mesa para apoiar o notebook, e uma janela ao alcance do olhar que se abra para uma paisagem não excessivamente confinada e opressiva.”

Simone Campos, autora de Amostragem completa – “Eu não dirijo, então escrevo muito em transportes públicos (ou bancos de carona). A letra é ininteligível, primeiro porque ônibus balança muito e segundo porque tenho paranoia de alguém ver o que estou escrevendo. O toque de glamour fica por conta do material empregado, geralmente canetas Lakubo ou Bic 4 cores sobre cadernos Paperblanks. Neles, além de literatura, também copio citações, faço esquemas, defino personagens e tramas… os cadernos acabam rapidinho. Depois passo os textos para o computador. Como agora sou assalariada, acabo entrando pela madrugada e chegando atrasada no trabalho; ou escrevendo no horário de almoço; ou, ainda, no fim de semana. Antes, quando fazia traduções em casa, eu não tinha horário para escrever: agora tenho estado nesse esquema ou-vai-ou-racha. Funciona.”

“Em causa própria”

Escrevo este post apenas para indicar aos leitores o brilhante texto de meu amigo antropólogo Tonico Vieira.

Em causa própria é uma inteligente associação entre capitalismo contemporâneo e relações humanas, com alguma semelhança com as reflexões do sociólogo polonês Zygmunt Bauman e sua teoria sobre o “amor líquido”[1].

O estilo de Tonico Vieira é solto, ágil, informal, literário no melhor sentido da palavra e além de tudo divertidíssimo.

Aproveitem para se familiarizar com o  CUMACHAMA, blog dele e de Guilherme Flynn.

Vai aí o link do texto:

em-causa-propria

Boa leitura.


[1] BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido. Jorge Zahar, 2004. Nesta obra, Bauman procura explorar as relações entre a lógica da concorrência e da descartabilidade próprias do capitalismo contemporâneo com as relações afetivas atuais. É uma leitura muito elucidativa, e também bastante desoladora.