“Rio de-Janeiro, Minas”, de Marily da Cunha Bezerra (1991)

Esse curta-metragem, que reencontrei um dia destes no Youtube, é a adaptação de um trecho do romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa.

Vale a pena conferir.

O curta pode também ser encontrado no site Porta Curtas

http://portacurtas.org.br/filme/?name=rio_de_janeiro_minas5235

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Cento e vinte anos de resistência

Em 27 de outubro de 1892, nasceu Graciliano Ramos, meu escritor brasileiro favorito.

O primeiro livro de Graciliano que li era um exemplar já malhado pelo tempo, que passou de meu avô para minha mãe: um Vidas secas de 1969, da editora Martins. O volume estava protegido com uma capa adicional de plástico, para que resistisse ao tempo. Resistiu. Está até hoje  inteiro.

Resistência, aliás, é uma palavra boa para o velho Graça. Seu estilo seco, duro, direto, compacto, verrumante, é capaz de fisgar adolescentes do Brasil de hoje, nas escolas e fora delas, como uma obra viva.

Resistência serve também para lembrar a enorme indisposição de Graciliano a ceder, na escrita, ao estilo aparatoso, rebuscado, cheio de pompa que predominava no Brasil da virada do XIX para o XX. Resistir, recusar esse estilo significou, na literatura e na vida de Graciliano, opor-se à falsa inteligência, a falsa complexidade, cujo fundo é a enganação, a mentira, a ostentação e a opressão. A falsa sofisticação das elites brasileiras de sempre que, por trás de seu verniz arrogante, esconde o espírito obtuso, o egoísmo indecente, a compreensão curta. Contra isso Graciliano lutou, obsessivamente.

Resistência ao arbítrio e ao totalitarismo do Estado de Vargas, que  atirou Graciliano na cadeia, sem qualquer acusação formal. Resistência também ao sectarismo do PCB, que lhe exigia uma literatura laudatória, quando para Graça o mais honesto, na ficção, era indagar. Mas na vida, como cidadão, em resistência ao comodismo e ao abstencionismo, Graciliano filiou-se ao PCB, defendendo abertamente o comunismo.

Um herói nacional? Tudo o que Graça mais detestaria. Um homem que se sentiu – em toda a sua estada no Rio de Janeiro e em suas (poucas) perambulações pelo mundo – eternamente sertanejo: rústico, seco, duro, como a sua prosa. Uma prosa que seguramente permanecerá, como resistência à pompa e às leituras simplificadoras da realidade.

***

Nota:

Em comemoração a esses 120 anos, a Boitempo Editorial acaba de lançar uma versão ampliada da brilhante biografia de Dênis de Morais O Velho Graça (já referida aqui no Prefácio).

“Elogio aos livros difíceis e chatos”, por Michel Laub

Volta às aulas, fim de férias, e muitas leituras a comentar.

 

Como disparador para o nosso fórum, reproduzo no Prefácio este instigante artigo de Michel Laub, publicado em seu blog da Companhia das Letras.

Elogio aos livros difíceis e chatos

Sempre que perguntam como alguém pega gosto pela leitura, minha resposta é: lendo. Nada contra programas públicos de compra de livros, investimento em bibliotecas, propaganda institucional na TV, clubes de leitura e qualquer recurso que traga a ficção para perto do dia a dia de professores e alunos, mas no fundo o caminho é individual. Existe uma vocação de leitor: ajuda tentar despertá-la, e essa deve ser uma tarefa de governo e educadores, mas não basta. Venho de uma casa onde sempre se estimulou esse gosto, e cada um dos meus irmãos deu resposta diferente ao incentivo.

Numa coluna passada, reclamei carinhosamente dos eventos literários em que não se discute literatura, e sim o aparato pedagógico/econômico/político ao redor da questão no Brasil. Poderia acrescentar o quanto há de mistificador nos slogans que tratam a ficção como um prazer, uma “viagem”, um atalho de ascensão social e libertação do espírito. Ler ficção pode ser tudo isso, mas antes e sempre é um exercício sem utilidade prática, em geral um obstáculo à vida social. Na adolescência, traz mais angústia, isolamento, tristeza e revolta que qualquer outra coisa. Na vida profissional, é mais vantajoso se dedicar a textos técnicos e de “aprendizado”.

Como apreciar um grande romance? Numa dimensão que dê conta de suas qualidades raras, o que só é possível por meio de repertório e comparação, é preciso um longo esforço anterior, anos e anos de contato com grandes, bons, médios, maus e péssimos outros romances. Não espero que uma campanha governamental diga que ler é trabalhoso e até chato muitas vezes, principalmente para quem está começando e não domina os códigos e manhas da prática  que vão do conhecimento vocabular à sabedoria de pular trechos e largar livros no meio  , mas de fato é. Quando se afirma que Machado de Assis é um autor inadequado para a escola, não é só porque alguém mais velho terá vivência para entender melhor os personagens de Dom Casmurro. Também porque, para uma apreciação de linguagem e estrutura narrativa, sem as quais esses personagens não existem como tais, faz diferença Dom Casmurro ser o quinto romance que o sujeito lê na vida ou o vigésimo, o centésimo e assim por diante.

Cultura é regra, disse Jean-Luc Godard, e arte é exceção. Qualquer incentivo à democratização do saber gira em torno da primeira, e não haveria como ser diferente. Apenas seria interessante, de vez em quando, ouvir alguém falar em larga escala sobre a última: como o prazer extraído da leitura não é necessariamente direto, fluido e emocional. E como pode ser compensador emergir ao final de dezenas ou centenas de páginas hostis como uma espécie de sobrevivente. O primeiro exemplar da chamada “alta literatura” que li foi O nome da rosa. Eu devia ter uns dezesseis anos e fôlego restrito a enredos policiais (me interessei pela obra de Umberto Eco porque era uma história de detetive). É possível que só tenha ido dali para textos de outros gêneros, registros e densidades porque resisti  por estoicismo, orgulho ou vaidade, não importa — ao cabedal de citações em latim e alusões históricas, religiosas e filosóficas sobre as quais não tinha a menor ideia.

Se ler é uma forma de ampliar a visão de mundo, é pobre limitar a experiência ao que, na forma e no conteúdo, com paternalismo ou demagogia, repete o que já sabemos. Por ocasião do lançamento da Granta  e da (bem-vinda) Geração subzero , voltou à tona o debate sem muito sentido que contrapõe qualidade literária e entretenimento. Como se uma coisa excluísse sempre, ou não fosse muitas vezes decorrência da outra. De qualquer forma, Hermano Vianna , Raquel Cozer  e Francisco Bosco  se estenderam com propriedade sobre o assunto, incluindo suas implicações políticas e mercadológicas, enquanto prefiro seguir falando do que sempre será o patinho feio da história: o livro que não é feito para vender, para agradar, para passar o tempo, para dar lição, para render explicações sem fim do autor no Twitter, para virar tese literária ou extraliterária nascida na academia ou na militância antiacadêmica.

É ele, no fim das contas, que mantém a singularidade da ficção escrita, e portanto sua importância, num mundo em que divertir é tarefa cumprida  em geral com mais competência  por séries de TV, cinema, games e assemelhados. Nada contra quem opta por esse caminho ao contar uma história, repito, só não vejo aí superioridade estética ou moral, e nem mesmo despretensão. Na literatura infantil é aceita a regra de não subestimar a inteligência da criança, o que significa não poupá-la de desafios e recompensas proporcionais. No mundo adulto também pode ser assim: o que parece aridez, fragmentação, incoerência, gratuidade e entropia pode ser apenas disfarce do que ainda não se consegue entender numa narrativa. E do que ainda não se sabe que quer.

90 de 22 (2): “Oswaldo, Oswáld, Ôswald”, de Antonio Candido

Leia o famoso artigo de Antonio Candido, publicado na Folha de São Paulo em 21 de março de 1982.

O texto esclarece a grande confusão em torno da pronúncia do autor modernista.

Segue abaixo a reprodução parcial do artigo, a partir do livro Recortes (Rio de Janeiro, Ouro Sobre Azul, 2004):

Oswaldo, Oswáld, Ôswald

Oswáld de Andrade, cujo nome completo era José Oswáld de Souza Andrade (já se verá por que estou acentuando), achava graça na lenda segundo a qual ele teria alterado por excentricidade modernista o verdadeiro prenome, supostamente Oswaldo. Imaginem o que diria se pudesse saber que hoje é chamado cada vez mais – Ôswald, com acento na primeira sílaba… Paulo Emílio Salles Gomes disse certa vez que os homens da nossa idade estavam assistindo ao nascimento de um mito, tão afastado da realidade que até revestia designação própria, fazendo Oswáld virar Ôswald…

Portanto, Oswáld ou Oswaldo, como se dizia correntemente, achava graça no boato, e para mostrar a sua insubsistência explicava (segundo escreveu depois nas memórias) que herdara os prenomes do pai, José Oswáld (não Oswaldo) Nogueira de Andrade, e que esta forma peculiar fora iniciativa da avó, natural de Baependi e leitora do romance Corina, de Madame de Staël, onde a heroína assim chamada sofre e morre de amor por Oswald, lord Nelvil, escocês romântico (…) Tudo faz crer que o gosto não era individual, apenas da avó de Oswald, porque naquele canto do sul de Minas tornou-se frequente usar os nomes dos dois protagonistas. Ainda mais: houve gente com a mesma singularidade de adotar a forma inglesa, como se vê pela lista dos eleitores de Aiuruoca, cidade vizinha de Baependi, onde figura nos anos de 1880 um João Oswáld Diniz Junqueira (…)

Esta forma forma inglesa se manteve na família do nosso escritor por três gerações, sempre pronunciada Oswáld, à brasileira (como certamente pronunciaria também, mas aí à francesa, Madame de Staël), até o pintor Oswáld de Andrade Filho, que se chama José Antônio Oswáld. Portanto, se excentricidade houve foi da avó, em meados do século passado, não do neto.

Essa avó era Antônia Nogueira Cobra, trineta pelo pai do capitão-mor Tomé Rodrigues Nogueira do Ó, ilhéu da Madeira, que casou em Guaratinguetá com Maria Leme do Prado, e foi pró-homem em Baependi no começo do século XVIIII, fundando uma família enorme, espalhada até hoje por Minas, São Paulo e Rio. (…)

Dona Antônia casou em Baependi com Hipólito José de Andrade, de outra imensa família daquela zona, fazendeiro que perdeu os bens e abriu para sobreviver um pequeno hotel em Caxambu (Oswáld conta nas memórias a tristeza dele vendo as filhas servirem a mesa dos hóspedes). Para São Paulo veio um filho do casal, o referido José Oswáld Nogueira de Andrade, conhecido como seu Andrade, que depois de muita luta se destacou, foi vereador, fez fortuna com iniciativas de loteamento e urbanização arrojadas para o tempo. Já maduro casou com Inês Inglês de Sousa, paraense, irmã do autor d’ O missionário. (…)

Mas aqui não interessa a genealogia, e sim o nome, que como ficou dito é usual em famílias da zona de Baependi desde a geração de seu Andrade, e se espalhou com as migrações dessas famílias. É provável que muitas pessoas de lá, a partir de 1820, tenham lido ou ouvido falar do romance de Madame Staël, e por isso deram com certa frequência aos filhos a denominação dos protagonistas.

Nas famílias Nogueira e Andrade, que eram as de Oswáld pelo lado do pai, e também Junqueira, muito ligada a ambas, encontramos diversos xarás dele, mas (com uma ou outra exceção) na forma vernaculizada. Por exemplo: Nas memórias e tradições da família Junqueira, de Frederico de Barros e Brotero, vemos em 1883 um José Oswaldo Diniz Junqueira a pedir dispensa para casar com parenta. Folheando por alto este livro, vemos que surgem depois: um quase homônimo, José Oswaldo de Andrade Junqueira, dois Oswaldos de Andrade Junqueira, um Oswaldo Martins de Andrade. Dezenas de outros tinham o nome e não o sobrenome, como os seguintes parentes dele (…): Domingos Oswaldo Gorgulho Nogueira, Oswaldo Gomes Nogueira, Oswaldo Gomes de Carvalho. Atualmente, um dos mais famosos peritos e criadores de cavalo manga-larga se chama José Oswaldo Junqueira. Por aí vemos que daquela zona saiu e se espalhou um gosto acentuado pelo prenome de lord Nelvil, isolado ou combinado a outros.

Pensando sempre na informação de Oswáld sobre a escolha da avó, conclui-se que ela tem maior alcance e vale também para explicar um gosto que é grupal e regional; e a favor disto há uma contraprova: na mesma zona, nessas e outras famílias, aparecem Corinas que são irmãs, primas, tias de Oswaldos, podendo daí saírem casais, por causa da endogamia. O referido Oswaldo Gomes de Carvalho, por exemplo, primo de Oswáld em terceiro grau, era casado com uma tia, Corina Nogueira Cobra, prima em segundo grau de Oswáld. (…) Na escolha de nomes para os filhos, o dos personagens femininos de ficção costumava acompanhar os masculinos, como as Floripes irmãs dos Oliveiros e dos Roldões, com base na História do imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França. Ou, já no século XX, as Lígias irmãs dos Vinícius e/ou dos Petrônios, numa trinca que seguia a voga imensa do romance Quo vadis?, de Sienkiewicz.

De modo que a imaginação romanesca de dona Antônia Nogueira Cobra se enquadra na imaginação do seu meio e grupo, aos quais ela e mais alguma outra mãe talvez tenham querido dar certa satisfação, ao compensarem o  preciosismo da forma inglesa, pela junção pacificadora dos banais João ou José. Conta Oswáld nas memórias que no caso do seu pai foi exigência do vigário, que recusou batizá-lo com nome estranho ao hagiológico corrente sem a compensação de um mais garantido. E isto mostra que aquelas senhoras de Baependi e Aiuruoca estavam sendo inovadoras, estavam introduzindo um nome antes inexistente por lá e que depois se tornou quase banal. Seja como for, a combinação de José com Oswáld constitui um discrepância associada a uma transigência, para forma o nome que seria no futuro de um grande rebelde.

No uso corrente formou-se uma transigência a mais a vista deste, porque toda a gente, como ficou dito, retificava na fala Oswáld para Oswaldo. Ligado ao sobrenome o prenome gerou ainda outro compromisso, que levava a aumentar a indecisão quanto à grafia, pois a pronúncia desprevenida era e é Oswál’ de Andrade. Mas sempre, como se vê, com a tônica na segunda sílaba, até que começasse essa bobagem de Oswald, que com certeza vai ficar e predominar, como tantas outras. Na peça sobre “os alegres rapazes e a sua semana de arte moderna” Carlos Queiroz Telles já a tinha denunciado implicitamente. Nela, quando o chamam Ôswald, o personagem brada de mau humor: “Oswáld!”.

Estas considerações e informações não são tão intempestivas quanto podem parecer. É preciso fazê-las, porque senão a moda pega e na próxima geração, quando estiver sendo por sua vez devidamente trabalhado pela lenda, Drummond pode virar Drúmon, se algum sabido decidir que a pronúncia de seu nome escocês deve ser reajustada.