“Elogio aos livros difíceis e chatos”, por Michel Laub

Volta às aulas, fim de férias, e muitas leituras a comentar.

 

Como disparador para o nosso fórum, reproduzo no Prefácio este instigante artigo de Michel Laub, publicado em seu blog da Companhia das Letras.

Elogio aos livros difíceis e chatos

Sempre que perguntam como alguém pega gosto pela leitura, minha resposta é: lendo. Nada contra programas públicos de compra de livros, investimento em bibliotecas, propaganda institucional na TV, clubes de leitura e qualquer recurso que traga a ficção para perto do dia a dia de professores e alunos, mas no fundo o caminho é individual. Existe uma vocação de leitor: ajuda tentar despertá-la, e essa deve ser uma tarefa de governo e educadores, mas não basta. Venho de uma casa onde sempre se estimulou esse gosto, e cada um dos meus irmãos deu resposta diferente ao incentivo.

Numa coluna passada, reclamei carinhosamente dos eventos literários em que não se discute literatura, e sim o aparato pedagógico/econômico/político ao redor da questão no Brasil. Poderia acrescentar o quanto há de mistificador nos slogans que tratam a ficção como um prazer, uma “viagem”, um atalho de ascensão social e libertação do espírito. Ler ficção pode ser tudo isso, mas antes e sempre é um exercício sem utilidade prática, em geral um obstáculo à vida social. Na adolescência, traz mais angústia, isolamento, tristeza e revolta que qualquer outra coisa. Na vida profissional, é mais vantajoso se dedicar a textos técnicos e de “aprendizado”.

Como apreciar um grande romance? Numa dimensão que dê conta de suas qualidades raras, o que só é possível por meio de repertório e comparação, é preciso um longo esforço anterior, anos e anos de contato com grandes, bons, médios, maus e péssimos outros romances. Não espero que uma campanha governamental diga que ler é trabalhoso e até chato muitas vezes, principalmente para quem está começando e não domina os códigos e manhas da prática  que vão do conhecimento vocabular à sabedoria de pular trechos e largar livros no meio  , mas de fato é. Quando se afirma que Machado de Assis é um autor inadequado para a escola, não é só porque alguém mais velho terá vivência para entender melhor os personagens de Dom Casmurro. Também porque, para uma apreciação de linguagem e estrutura narrativa, sem as quais esses personagens não existem como tais, faz diferença Dom Casmurro ser o quinto romance que o sujeito lê na vida ou o vigésimo, o centésimo e assim por diante.

Cultura é regra, disse Jean-Luc Godard, e arte é exceção. Qualquer incentivo à democratização do saber gira em torno da primeira, e não haveria como ser diferente. Apenas seria interessante, de vez em quando, ouvir alguém falar em larga escala sobre a última: como o prazer extraído da leitura não é necessariamente direto, fluido e emocional. E como pode ser compensador emergir ao final de dezenas ou centenas de páginas hostis como uma espécie de sobrevivente. O primeiro exemplar da chamada “alta literatura” que li foi O nome da rosa. Eu devia ter uns dezesseis anos e fôlego restrito a enredos policiais (me interessei pela obra de Umberto Eco porque era uma história de detetive). É possível que só tenha ido dali para textos de outros gêneros, registros e densidades porque resisti  por estoicismo, orgulho ou vaidade, não importa — ao cabedal de citações em latim e alusões históricas, religiosas e filosóficas sobre as quais não tinha a menor ideia.

Se ler é uma forma de ampliar a visão de mundo, é pobre limitar a experiência ao que, na forma e no conteúdo, com paternalismo ou demagogia, repete o que já sabemos. Por ocasião do lançamento da Granta  e da (bem-vinda) Geração subzero , voltou à tona o debate sem muito sentido que contrapõe qualidade literária e entretenimento. Como se uma coisa excluísse sempre, ou não fosse muitas vezes decorrência da outra. De qualquer forma, Hermano Vianna , Raquel Cozer  e Francisco Bosco  se estenderam com propriedade sobre o assunto, incluindo suas implicações políticas e mercadológicas, enquanto prefiro seguir falando do que sempre será o patinho feio da história: o livro que não é feito para vender, para agradar, para passar o tempo, para dar lição, para render explicações sem fim do autor no Twitter, para virar tese literária ou extraliterária nascida na academia ou na militância antiacadêmica.

É ele, no fim das contas, que mantém a singularidade da ficção escrita, e portanto sua importância, num mundo em que divertir é tarefa cumprida  em geral com mais competência  por séries de TV, cinema, games e assemelhados. Nada contra quem opta por esse caminho ao contar uma história, repito, só não vejo aí superioridade estética ou moral, e nem mesmo despretensão. Na literatura infantil é aceita a regra de não subestimar a inteligência da criança, o que significa não poupá-la de desafios e recompensas proporcionais. No mundo adulto também pode ser assim: o que parece aridez, fragmentação, incoerência, gratuidade e entropia pode ser apenas disfarce do que ainda não se consegue entender numa narrativa. E do que ainda não se sabe que quer.

“Literatura tipo exportação”, de Rodrigo Lacerda

Transcrevo abaixo um importante artigo de Rodrigo Lacerda sobre a situação atual da ficção brasileira no exterior, extraído da revista Metáfora (número 5, fevereiro de 2012, editora Segmento. p. 16-18).

Literatura tipo exportação

Às vésperas de o Brasil ser homenageado na Feira de Frankfurt, em 2013, um impasse: ou atendemos à busca do exotismo pedido pelo mercado externo em nossa literatura ou nos mantemos na essência de nossa criação ficcional

[1]POR RODRIGO LACERDA

Há mais ou menos vinte anos, o agente literário que se dispusesse a representar autores brasileiros junto a editoras estrangeiras, tentando levar nossos livros de ficção a serem publicados lá fora, era visto como uma espécie de empresário de artistas esquisitos e exóticos. Um escritor brasileiro equivaleria a um maestro com mal de Parkinson, ou a um sapateador perneta. A língua portuguesa nunca havia ganhado um Prêmio Nobel e era menosprezada nos grandes centro do mundo.

Drummond e João Cabral mal haviam sido traduzidos no exterior, e o próprio Machado de Assis era desconhecido. Jorge Amado, a única exceção fazia sucesso pelo mundo graças ao seu imenso talento, claro, e também por seus vínculos com a inteligência comunista internacional. Mas tal sucesso, explica-se, sobretudo, por uma leitura quase antropológica que se fazia de seu universo ficcional e, por extensão, de nossa realidade nacional.

Nessa época, na famosa Feira de Livros de Frankfurt (…), onde profissionais do ramo editorial se encontram para comprar e vender direitos de tradução, os editores brasileiros atuavam meramente como compradores. Raramente ouvia-se falar de direitos de publicação de um romance brasileiro sendo negociado na França, na Alemanha, na Espanha etc.

O melhor exemplo de como os grandes centros editoriais eram, em geral, avessos a adquirir obras estrangeiras, eu vi certa vez, ao passar, na frente do estande de uma importante editora francesa. Os dois funcionários encarregados de fazer essas negociações estavam sentados em suas respectivas mesas, mas o contraste entre eles não poderia ser maior.

De um lado, estava uma francesinha típica: magrinha, bem penteada, bem vestida, perfumada e com um colarzinho de pérolas. Do outro, um francês, gordo, malajambrado, com caspa caindo pelos ombros do paletó e fumando um cachimbo fedorento (ainda se faziam essas coisas nos locais fechados). Era, enfim, um buldogue assustador. Encontrando a editora-chefe daquela casa editorial, comentei, brincando, que não dava para entender tamanha disparidade entre os dois funcionários escolhidos para estarem ali. Ela, com a maior naturalidade, me respondeu: “Claro que dá para entender. Ela está aqui para vender; ele, para comprar.”

Hoje, no que se refere ao mercado europeu, a situação mudou para muito melhor. Muitos autores brasileiros, às vezes até estreantes, têm seus livros vendidos para um ou mais países do Velho Continente. Os mais bem-sucedidos comercialmente, ou os que não mais estudados nos departamentos de língua portuguesa nas universidades estrangeiras, recebem convites para palestras, residências, feiras e eventos literários de todo tipo.

No que se refere ao mercado norte-americano, as dificuldades continuam ainda maiores.

O público americano não tem familiaridade com escritores brasileiros, e não faz muita questão de tê-la. Contudo, junto à crítica e ao meio universitário, Machado de Assis já recebeu por lá seus devidos louros, Clarice Lispector furou a barreira recentemente, João Ubaldo Ribeiro, Márcio Souza, Moacyr Scliar, Milton Hatoum e alguns outros, poucos, conseguiram abrir essa porta para a difusão da nossa cultura.

Em outubro de 2013, o Brasil será novamente o país homenageado da Feira de Frankfurt. Além disso, “ignorando-se as gritantes diferenças nos índices que medem a qualidade de vida dos povos”, nosso país está num momento economicamente mais favorável, ao menos aos olhos de europeus e americanos, cujas economias estão em frangalhos. O Brasil está na moda lá fora. Espera-se, portanto, que até 2013 os editores estrangeiros com autores brasileiros em seu catálogo sintam-se animados a ampliar o repertório, e os que ainda não os tenham, que deixem de moleza.

Contudo, na Feira de Frankfurt de 2011, realizada em outubro passado, ouvi falar de episódios que me fizeram entender um pouco melhor como essa absorção de nossa literatura pelo público estrangeiro está se dando. Uma compatriota nossa, contratada por uma das maiores editoras alemãs justamente para resenhar e indicar livros brasileiros para publicação, me disse: “Eles continuam procurando o exotismo: mulatas, carnaval, selva, samba etc.”

Um editor brasileiro, que visitou uma grande casa editorial alemã levando uma lista de títulos que lhe pareciam interessantes para aquele mercado, ouviu outro surpreendente critério de seleção:

“Ele ficou chocado como os romances brasileiros são curtos. E disse que nenhum romance com menos de 300 páginas pode ser grande coisa, pois é sinal de que o escritor não se soltou.”

Por fim, um colega escritor ouviu de uma agente literária americana:

“Eu pessoalmente gostei do seu livro, mas achei o andamento da ação muito lento. Ainda estou procurando o livro de um autor brasileiro que agarre o leitor como um tigre, rápida e impiedosamente.”

Como se vê, ainda que alguns grandes nomes de nossa literatura tenham furado as barreiras, ainda que alguns de nossos jovens autores estejam fazendo suas estreias lá fora, os editores e agentes estrangeiros estão sendo obrigados a se abrir para o “filão” brasileiro e, ao mesmo tempo, procurar nele obras que satisfaçam os padrões de gosto tradicionais do público de seus respectivos países. Isso é natural, sem dúvida, mas pode acabar gerando visões bastante distorcidas da literatura brasileira.

Contexto urbano e realista

Hoje, por exemplo, nossa literatura é majoritariamente urbana e realista. Logo, o livro de apelo exótico pinçado aqui e acolá pode parecer representar uma tendência mais forte do que ela realmente é. Nossos romancistas, em geral, não escrevem mesmo livros com mais de 250 páginas, a maioria dele é ainda menor.

Isso certamente se deve às condições materiais de produção, muito mais desfavoráveis para os nossos escritores que para os deles, mas, creio, tem relação também com a própria natureza dos textos aqui produzidos, em geral mais intimistas que os romances de entretenimento tão comuns nos mercados estrangeiros. Impor o critério do número de páginas pode fazer sentido lá, mas certamente não faz aqui (a não ser que os editores queiram dar razão aos críticos que dizem não estar se produzindo nada de bom entre nós).

Por fim, a evolução de nossa literatura não caminhou no mesmo sentido da literatura americana, de ritmo narrativo mais acelerado, daí parecer deslocada a expectativa de que um romance ataque ao público como um tigre.

Vamos ver no que vai dar. De qualquer forma, o momento é promissor para a literatura brasileira. Cabe a nós continuar produzindo sem nos preocuparmos com nada disso, sem procurarmos atender a exigências externas e satisfazer curiosidades alheias.

Ou acabaremos enchendo linguiça em nossos romances só para atingirmos as 350 páginas, ou reforçando estereótipos culturais ultrapassados. Foi o que fizemos na última vez em que o Brasil foi o país homenageado na Feira de Frankfurt, nos anos 1990, quando a exposição que montamos sobre nosso país não passava de fotos publicitárias da Amazônia, do desfile na Marquês de Sapucaí, do Pelé e do Ayrton Senna. Isso para não falar das mulatas que, de peito de fora, distribuíam caipirinhas aos convidados (é sério, eu vi com esses olhos que a terra há de comer).


[1] Rodrigo Lacerda é escritor, editor e tradutor. Autor de Outra vida. 

Último antes das férias

Caros queridos, hora de se levantar da mesa e dar aquele lento e agradável espreguiçar, vestir a bermuda e os chinelos e sair um pouco para a rua, quem sabe ir até a praia.

Hora de ler e de reler, de ver e de rever alguns filmes.

Pessoalmente, ando entusiasmado com autores africanos de língua portuguesa e francesa e com filmes do velho cinema italiano. Os amigos leitores ficam incumbidos de deixarem registradas, nos comentários, quais têm sido suas preferências atuais.

Como despedida do Prefácio ao ano de 2011, publico esta matéria divertida da Revista Trip, indicação de meu querido aluno André Massabki.

Gostei da matéria particularmente por nos fazer pensar no caráter controverso da noção de bom gosto. Insisto sempre na necessidade de lermos criticamente os textos literários, inclusive os mais consagrados pelo cânone acadêmico, e creio que a matéria confirma a importância disso: ver autores renomados – alguns até de modo irresponsável ou mesmo pouco elegante (o que eu não acho em si aprovável), mas quase sempre divertido e inteligente – achincalhando outros autores igualmente renomados é uma forma expressiva de confirmação de que os “imortais” não formam um “time”, com discurso unívoco ou unânime. Pelo contrário, sua noção de qualidade é diversa – mais que isso, é controversa.

Boas férias, boas leituras, bons filmes, boas festas, e, claro, boa preguiça, bons esquecimentos.

AUTOR VERSUS AUTOR

Trinta grandes nomes da literatura criticando duramente outros trinta autores eternos

É muito fácil criticar um autor iniciante ou aquele escritor que nunca teve um grande alcance, ainda mais se o crítico é um escritor veterano e considerado universal por sua importância histórica. Mas tem vezes que sobra até para algumas “vacas sagradas” da literatura universal, mesmo os nomes de maior peso como Dostoievsky, James Joyce ou até Mark Twain.

Nesta semana, o site Flavorwire compilou 30 das mais engraçadas provocações públicas da história literária do Ocidente, colocando autor contra autor em uma lista que, apesar de nem ser tão longa, já dá uma ideia em linhas gerais da opinião real que gênios tem de outros gênios. Na seleção, ninguém escapou das linhas afiadas destes romancistas e poetas que incluem Gustave Flaubert, Vladimir Nabokov, Virginia Woolf, Charles Baudelaire, Truman Capote e Henry James.

Logo abaixo você vê a lista completa de insultos de autores para outros autores, todos eles de renome internacional.

Reprodução

Vladimir Nabokov pronto para a briga

Vladimir Nabokov pronto para a briga

30. Gustave Flaubert (Madame Bovary) sobre George Sand (Mattéa)
“Uma grande vaca recheada de namquim”

29. Robert Louis Stevenson (O Médico e o Monstro) sobre Walt Whitman (Leaves of Grass)
“Ele escreve como um cachorro grande e desengonçado que escapou da coleira e vaga pelas praias do mundo latindo para a lua”

28. Friedrich Nietzsche (Assim Falou Zaratustra) sobre Dante Alighieri (A Divina Comédia)
“Uma hiena que escreu sua poesia em tumbas”

27. Harold Bloom (A Invenção do Humano) sobre J.K. Rowling (Harry Potter)
“Como ler Harry Potter e a Pedra Filosofal? Rapidamente, para começar, e talvez também para acabar logo. Por que ler esse livro? Presumivelmente, se você não pode ser convencido a ler nenhuma outra obra, Rowling vai ter que servir.”

26. Vladimir Nabokov (Lolita) sobre Fyodor Dostoievsky (Crime e Castigo)
“A falta de bom gosto do Dostoievsky, seus relatos monótonos sobre pessoas sofrendo com complexos pré-freudianos, a forma que ele tem de chafurdar nas trágicas desventuras da dignidade humana – tudo isso é muito difícil de admirar”

25. Gertrude Stein (The Making of Americans) sobre Ezra Pound (Lustra)
“Um guia turístico de vila. Excelente se você fosse a vila. Mas se você não é, então não é.”

24. Virginia Woolf (Passeio ao Farol) sobre Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo)
“É tudo um protesto cru e mal cozido”

23. H. G. Wells (Guerra dos Mundos) sobre George Bernard Shaw (Pygmalion)
“Uma criança idiota gritando em um hospital”

22. Joseph Conrad (Coração das Trevas) sobre D.H. Lawrence (Filhos e amantes)
“Sujeira. Nada além de obscenidades.”

21. Lord Byron (Don Juan) on John Keats (To Autumn)
“Aqui temos a poesia ‘mija-na-cama’ do Johnny Keats e mais três romances de sei lá eu quem. Chega de Keats, eu peço. Queimem-o vivo! Se algum de vocês não o fizer eu devo arrancar a pele dele com minhas próprias mãos.”

Reprodução

Virginia Woolf

Virginia Woolf

20. Vladimir Nabokov sobre Joseph Conrad
“Eu não consigo tolerar o estilo loja de presentes de Conrad e os navios engarrafados e colares de concha de seus clichês românticos.”

19. Dylan Thomas (25 Poemas) sobre Rudyard Kipling (The Jungle Book)
“O senhor Kipling representa tudo o que há nesse mundo cancroso que eu gostaria que fosse diferente”

18. Ralph Waldo Emerson (Concord Hymn) sobre Jane Austen (Orgulho e Preconceito)
“Os romances da senhorita Austen me parecem vulgares no tom, estéreis em inventividade artística, presos nas apertadas convenções da sociedade inglesa, sem genialidade, sem perspicácia ou conhecimento de mundo. Nunca a vida foi tão embaraçosa e estreita.”

17. Martin Amis (Experiência) sobre Miguel Cervantes (Dom Quixote)
“Ler Don Quixote pode ser comparavel a uma visita sem data para acabar de seu parente velho mais impossível, com todas as suas brincadeiras, hábitos sujos, reminiscências imparaveis e sua intimidade terrível. Quando a experiência acaba (na página 846 com a prosa apertada, estreita e sem pausa para diálogos), você vai derramar lágrimas, isso é verdade. Mas não de alívio ou de arrependimento e sim lágrimas de orgulho. Você conseguiu!”

16. Charles Baudelaire (Paraísos Artificiais) sobre Voltaire (Cândido)
“Eu cresci entediado na França. E o maior motivo para isso é que todo mundo aqui me lembra o Voltaire… o rei dos idiotas, o príncipe da superficialidade, o antiartista, o porta-voz das serventes, o papai Gigone dos editores da revista Siecle”

15. William Faulkner (A Cidade) sobre Ernest Hemingway (Por Quem os Sinos Dobram)
“Ele nunca sequer pensou em usar uma palavra que pudesse mandar o leitor para um dicionário.”

14. Ernest Hemingway sobre William Faulkner
“Pobre Faulkner. Ele realmente pensa que grandes emoções vem de grandes palavras?”

13. Gore Vidal (O Julgamento de Paris) sobre Truman Capote (A Sangue Frio)
“Ele é uma dona de casa totalmente empenada do Kansas, com todos os seus preconceitos.”

12. Oscar Wilde (O Retrato de Dorian Grey) sobre Alexander Pope (Ensaio sobre a crítica)
“Existem duas formas de se odiar poesia: uma delas é não gostar, a outra é ler Pope.”

Reprodução

Mark Twain, o mestre do humor americano

Mark Twain, o mestre do humor americano

11. Vladimir Nabokov sobre Ernest Hemingway 
“Quanto ao Hemingway, eu li um livro dele pela primeira vez nos anos 40, algo sobre sinos, bolas e bois, e eu odiei.”

10. Henry James (Calafrio) sobre Edgar Allan Poe (Os Crimes da Rua Morgue)
“Se entusiasmar com o Poe é a marca de um estágio decididamente primitivo da reflexão.”

9. Truman Capote sobre Jack Kerouac (On The Road)
“Isso não é escrever. Isso é só datilografar.”

8. Elizabeth Bishop (Norte e Sul) sobre J.D. Salinger (Apanhador no Campo de Centeio)
“Eu odiei o ‘Apanhador no Campo de Centeio’. Demorei dias para começar a avançar, timidamente, uma página de cada vez e corando de vergonha por ele a cada sentença ridícula pelo caminho. Como deixaram ele fazer isso?”

7. D.H. Lawrence sobre Herman Melville (Moby Dick)
“Ninguém pode ser mais palhaço, mais desajeitado e sintaticamente de mau gosto como Herman, mesmo em um grande livro como Moby Dick. Tem algo falso sobre sua seriedade, esse é o Melville.”

6. W. H. Auden (Funeral Blues) sobre Robert Browning (Flautista de Hamelin)
“Eu não acho que Robert Browning era nada bom de cama. Sua mulher também provavelmente não ligava muito pra ele. Ele roncava e devia ter fantasias sobre garotas de 12 anos.”

5. Evelyn Waugh (Memórias de Brideshead) sobre Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido)
“Estou lendo Proust pela primeira vez. É uma coisa muito pobre. Eu acho que ele tinha algum problema mental.”

4. Mark Twain (As Aventuras de Huckleberry Finn) sobre Jane Austen
“Eu não tenho o direito de criticar nenhum livro e eu nunca faço isso, a não ser quando eu odeio um. Eu sempre quero criticar a Jane Austen, mas seus livros me deixam tão bravo que eu não consigo separar minha raiva do leitor, portanto eu tenho que parar a cada vez que eu começo. Cada vez eu eu tento ler Orgulho e Preconceito eu quero exumar seu cadáver e acertá-la na cabeça com seu osso do queixo.”

3. Virginia Woolf sobre James Joyce (Ulisses)
“Ulisses é o trabalho de um estudante universitário enjoado coçando as suas espinhas”

2. William Faulkner sobre Mark Twain
“Um escritor mercenário que não conseguia nem ser considerado da quarta divisão na Europa e que enganou alguns esqueletos literários de tiro-certo com cores suficientemente locais para intrigar os superficiais e preguiçosos.”

1. D.H. Lawrence sobre James Joyce
“Meu deus, que idiota desastrado esse James Joyce é. Não é nada além de velhos trabalhos e tocos de repolho de citações bíblicas com um resto cozido em suco de um jornalismo deliberadamente sujo.”

Vai lá: www.flavorwire.com

“F for Fake” (1974), de Orson Welles

Uma das obras mais impactantes do gênio estadunidense – o diretor, roteirista, ator e narrador Orson Welles -, “F for Fake” (no Brasil, “Verdades e mentiras”) é um documentário de montagem extraordinariamente ousada, bem ao estilo de Welles, que indico aqui no Prefácio como forma de dar continuidade ao debate iniciado no post anterior, sobre a validação da obra de arte, trazendo agora outras questões – que julgo igualmente importantes e certamente polêmicas -, tais como: por que uma obra original de Monet vale mais do que uma cópia perfeita ou pelo menos idêntica de seu trabalho? A obra “falsa” não apresentaria igualmente, ou pelo menos não estaria perto de apresentar, um talento à altura de Monet? Por que então insistir-se no mito da autenticidade?

Em nossos dias, em que chegamos ao máximo da reprodutibilidade técnica de que falou Walter Benjamin, qual o sentido de se pensar no valor da unicidade de um objeto de arte?

A discussão de Welles, proposta nos anos 70, torna-se, no contexto contemporâneo, com os compartilhamentos de arquivos e as reproduções infinitas próprios da propagação da internet, ainda mais urgente.

Essa valorização da “obra única”, “autêntica” parece ter pouco a ver com gosto estético, com a valorização da singularidade do artista. Parece atender mais a um fetiche de consumo e a um vergonhoso capricho elitista.

Síntese do que penso do assunto: se a cópia é quase idêntica, quase indiscernível, por que buscar diferenciá-la da original? Se as duas são diferentes, a ambiguidade não existe, certo? Então devem ser julgadas como obras distintas. Ponto.

Mas quem vai levar essa discussão ao seu auge mesmo é esse “F for Fake”, do gênio Welles, que revi agora no Youtube e do qual reproduzo aqui a primeira parte:

Fruição estética e conhecimento: uma relação complexa

Eis uma questão que sempre me acompanhou, desde que decidi me aventurar no mundo das letras.

Sem dúvida alguma, os elementos extrínsecos à obra de arte fazem diferença em nossa relação com ela. Afinal, somos seres racionais, criamos nossos valores, nossos gostos a partir de um conjunto de referências, de informações, isto é, de um certo repertório. Nesse sentido, é possível que passemos a admirar algo que antes não nos agradava: é possível “aprender a gostar” ou ainda, em outras palavras, é possível “refinar” nosso gosto conforme aprimoramos nosso saber e conforme ampliamos nossas referências e intensificamos nossa relação com as obras de arte.

Por outro lado, se tudo o que uma obra tem a nos dizer pode ser transmitido por meio de informações exteriores a ela, então corremos o risco torná-la prescindível, de desvalorizarmos a relação imediata que podemos ter com ela.

São tantas as etiquetas colocadas sobre as obras – as velhas e as novas – que por vezes o expectador/leitor acaba por valorizar menos a capacidade que o objeto artístico tem de “falar sua língua e sua mensagem” autonomamente do que as referências previamente apresentadas a respeito: o guia de leitura.

Proponho esse debate entre valor intrínseco e extrínseco da obra de arte já há alguns anos em sala de aula. O tema dispara sempre discussões acaloradas e muito instigantes.

Costumo usar, como ponto de partida, este brilhante artigo de Contardo Calligaris, publicado na Folha de São Paulo em 27 de agosto de 2009:

SABER E EXPERIÊNCIA

Na sua próxima visita a um museu de arte, esqueça-se das obras e considere apenas os visitantes. Um bom número, talvez a maioria, não para diante de uma tela (por exemplo) sem antes ter lido a pequena placa com nome do artista, título e data. Bom, eles querem se cultivar, saber quem pintou, quando e o quê. Mas, dessa forma, muitos acabam, sobretudo, limitando sua experiência: ao constatar que o autor lhes é desconhecido, eles mal olham para a tela e passam à obra seguinte, enquanto, se o pintor for uma celebridade, contemplam com dedicação – as más línguas dirão que eles sentem-se assim “autorizados” a parar e contemplar. Os mais divertidos são os que adotam estratégias bizarras para dar uma espiada na placa sem que o amigo que os acompanha se dê conta e logo exclamam em voz alta, como se tivessem reconhecido a obra sem auxílio algum: “Aqui está o quadro de…”. E há os grupos de turistas, forçados a correr de uma “obra-prima” a outra, atropelando obras menores, que talvez fossem para eles (quem sabe, só para eles) decisivas. De fato, o saber pode aprimorar nossa experiência estética; por exemplo, é bom apreciar uma tela de El Greco tendo conhecimento do fato de que ele pintou no século 16, pois talvez, sem isso, sua incrível ousadia expressionista nos comova menos. Inversamente, se privilegiarmos demais o saber, tenderemos a nunca sair de caminhos trilhados e, pior, a forçar nossa experiência no molde do pouco que sabemos. A primeira vez que visitei o Museu do Prado, em Madri, aos 14 anos, eu só queira ver a pequena sala onde estavam os quadros de Hieronymus Bosch. Ao entrar, fui hipnotizado pelo azul estranho e intenso do céu numa paisagem de Joachim Patinir, um pintor flamengo da mesma época, que eu desconhecia. Não li a placa, “atribuí” a Bosch o quadro de Patinir e saí feliz de ter descoberto “meu Bosch preferido”, que era tão diferente dos quadros de Bosch mais conhecidos e reproduzidos. Se tivesse lido a placa, provavelmente eu teria me sentido na obrigação de esquecer o céu de Patinir e destinar minha atenção só aos quadros de Bosch; em obséquio ao meu saber, que era modesto e trivial, eu teria renunciado a uma experiência cuja lembrança ainda me encanta. Recentemente, visitei a exposição “In-Finitum”, no Palazzo Fortuny, em Veneza (até 15 de novembro), que reúne obras e objetos de todas as épocas ao redor de um tema, “In-finitum”, que, cá entre nós, é suficientemente vago para que qualquer coisa possa ser incluída na exposição. Instalações e quadros emprestados por museus e coleções particulares são assim misturados com objetos que enfeitavam a casa de Mariano Fortuny, quando ele estava vivo. Há de tudo: de um “conceito espacial” de Lucio Fontana a um banal ovo de avestruz. A regra (inusitada e atrevida) das exposições do Palazzo Fortuny quer que os objetos não sejam identificados por placa alguma, como se a gente estivesse visitando a casa de alguém. Para quem não aguenta o tranco, está disponível uma espécie de mapa que deveria permitir identificar os objetos expostos, mas cuidado: a duras penas. Para alguns, a visita se torna assim uma caça ao tesouro (as crianças adoram). Outros rejeitam o mapa e testam sua própria capacidade de atribuir algumas das obras a seus respectivos autores. Outros ainda, fiéis ao espírito da exposição, percorrem os andares do palácio permitindo-se uma experiência estética e meditativa, sem se preocupar em saber direito quais são os objetos nos quais eles esbarram. O catálogo obedece ao mesmo princípio da exposição: começa com as reproduções das obras expostas, sem nada que as identifique. Seguem os ensaios e, só em apêndice, a lista das reproduções. Antes de deixar o palácio, li o caderno em que os visitantes são convidados a escrever suas impressões. O leque vai de “Experiência única, por uma vez pensei e senti, em vez de querer saber quem fez o quê” até a (mais frequente) “Os curadores estão bêbados? Não se entende nada no mapa. Que tal uma plaquinha de vez em quando?”. Pergunta: o que aconteceria em nós, visitantes, se os museus escondessem toda informação sobre as obras expostas? Moral da história: o debate entre saber e experiência, por mais que seja um clássico do pensamento pedagógico, é sem solução. A falta de saber compromete e empobrece a experiência, mas, sem a liberdade da experiência imediata, o saber se torna chato, estupidamente repetitivo e, no fundo, frívolo.