Cinefilia – dicas de filmes

No dia em que descobrirmos o mistério da poesia, descobriremos também o mistério da música.

É mais ou menos com essas palavras que o estudioso Segismundo Spina aborda a relação íntima que existe entre essas duas artes em seu livro Na madrugada das formas poéticas (Ateliê, 2002).

Para quem se interessa por essa riquíssima relação é fundamental assistir ao documentário Palavra encantada (2009), de Helena Solberg.

Valendo-se de entrevistas e depoimentos de mestres da música brasileira, tanto os clássicos quanto os mais jovens, o filme explora a profícua ligação entre palavra falada e palavra cantada.

O tema é tão bom e tão rico que poderia render uma verdadeira série, com muitas horas de filme. O único senão que fica para o documentário é, portanto, o “gostinho de quero mais”.

Vejam aqui o trailer:

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Graciliano Ramos: 60 anos de morte

O ABCD em Revista homenageia o grande escritor alagoano, morto há 60 anos, com “Graciliano Ramos: a escrita concisa e reveladora do Brasil.”

http://www.tvt.org.br/watch.php?id=12664&category=203

90 de 22 (3) Oswald de Andrade, por Antonio Candido, na FLIP de 2011

Antonio Candido, um dos maiores intelectuais brasileiros, produziu vários estudos sobre Oswald de Andrade, explorando tanto a vida quanto a obra do autor, destacando aspectos curiosos sobre o excêntrico e polêmico poeta com quem conviveu e de quem foi amigo.

Abaixo, breves depoimentos colhidos pela reportagem do Estadão durante a FLIP DE 2011, que teve Oswald de Andrade como homenageado.  São palavras sinceras e afetuosas de alguém que viveu (além de estudar) um dos processos mais significativos da história de nossa cultura: o Modernismo.

90 de 22 (2): “Oswaldo, Oswáld, Ôswald”, de Antonio Candido

Leia o famoso artigo de Antonio Candido, publicado na Folha de São Paulo em 21 de março de 1982.

O texto esclarece a grande confusão em torno da pronúncia do autor modernista.

Segue abaixo a reprodução parcial do artigo, a partir do livro Recortes (Rio de Janeiro, Ouro Sobre Azul, 2004):

Oswaldo, Oswáld, Ôswald

Oswáld de Andrade, cujo nome completo era José Oswáld de Souza Andrade (já se verá por que estou acentuando), achava graça na lenda segundo a qual ele teria alterado por excentricidade modernista o verdadeiro prenome, supostamente Oswaldo. Imaginem o que diria se pudesse saber que hoje é chamado cada vez mais – Ôswald, com acento na primeira sílaba… Paulo Emílio Salles Gomes disse certa vez que os homens da nossa idade estavam assistindo ao nascimento de um mito, tão afastado da realidade que até revestia designação própria, fazendo Oswáld virar Ôswald…

Portanto, Oswáld ou Oswaldo, como se dizia correntemente, achava graça no boato, e para mostrar a sua insubsistência explicava (segundo escreveu depois nas memórias) que herdara os prenomes do pai, José Oswáld (não Oswaldo) Nogueira de Andrade, e que esta forma peculiar fora iniciativa da avó, natural de Baependi e leitora do romance Corina, de Madame de Staël, onde a heroína assim chamada sofre e morre de amor por Oswald, lord Nelvil, escocês romântico (…) Tudo faz crer que o gosto não era individual, apenas da avó de Oswald, porque naquele canto do sul de Minas tornou-se frequente usar os nomes dos dois protagonistas. Ainda mais: houve gente com a mesma singularidade de adotar a forma inglesa, como se vê pela lista dos eleitores de Aiuruoca, cidade vizinha de Baependi, onde figura nos anos de 1880 um João Oswáld Diniz Junqueira (…)

Esta forma forma inglesa se manteve na família do nosso escritor por três gerações, sempre pronunciada Oswáld, à brasileira (como certamente pronunciaria também, mas aí à francesa, Madame de Staël), até o pintor Oswáld de Andrade Filho, que se chama José Antônio Oswáld. Portanto, se excentricidade houve foi da avó, em meados do século passado, não do neto.

Essa avó era Antônia Nogueira Cobra, trineta pelo pai do capitão-mor Tomé Rodrigues Nogueira do Ó, ilhéu da Madeira, que casou em Guaratinguetá com Maria Leme do Prado, e foi pró-homem em Baependi no começo do século XVIIII, fundando uma família enorme, espalhada até hoje por Minas, São Paulo e Rio. (…)

Dona Antônia casou em Baependi com Hipólito José de Andrade, de outra imensa família daquela zona, fazendeiro que perdeu os bens e abriu para sobreviver um pequeno hotel em Caxambu (Oswáld conta nas memórias a tristeza dele vendo as filhas servirem a mesa dos hóspedes). Para São Paulo veio um filho do casal, o referido José Oswáld Nogueira de Andrade, conhecido como seu Andrade, que depois de muita luta se destacou, foi vereador, fez fortuna com iniciativas de loteamento e urbanização arrojadas para o tempo. Já maduro casou com Inês Inglês de Sousa, paraense, irmã do autor d’ O missionário. (…)

Mas aqui não interessa a genealogia, e sim o nome, que como ficou dito é usual em famílias da zona de Baependi desde a geração de seu Andrade, e se espalhou com as migrações dessas famílias. É provável que muitas pessoas de lá, a partir de 1820, tenham lido ou ouvido falar do romance de Madame Staël, e por isso deram com certa frequência aos filhos a denominação dos protagonistas.

Nas famílias Nogueira e Andrade, que eram as de Oswáld pelo lado do pai, e também Junqueira, muito ligada a ambas, encontramos diversos xarás dele, mas (com uma ou outra exceção) na forma vernaculizada. Por exemplo: Nas memórias e tradições da família Junqueira, de Frederico de Barros e Brotero, vemos em 1883 um José Oswaldo Diniz Junqueira a pedir dispensa para casar com parenta. Folheando por alto este livro, vemos que surgem depois: um quase homônimo, José Oswaldo de Andrade Junqueira, dois Oswaldos de Andrade Junqueira, um Oswaldo Martins de Andrade. Dezenas de outros tinham o nome e não o sobrenome, como os seguintes parentes dele (…): Domingos Oswaldo Gorgulho Nogueira, Oswaldo Gomes Nogueira, Oswaldo Gomes de Carvalho. Atualmente, um dos mais famosos peritos e criadores de cavalo manga-larga se chama José Oswaldo Junqueira. Por aí vemos que daquela zona saiu e se espalhou um gosto acentuado pelo prenome de lord Nelvil, isolado ou combinado a outros.

Pensando sempre na informação de Oswáld sobre a escolha da avó, conclui-se que ela tem maior alcance e vale também para explicar um gosto que é grupal e regional; e a favor disto há uma contraprova: na mesma zona, nessas e outras famílias, aparecem Corinas que são irmãs, primas, tias de Oswaldos, podendo daí saírem casais, por causa da endogamia. O referido Oswaldo Gomes de Carvalho, por exemplo, primo de Oswáld em terceiro grau, era casado com uma tia, Corina Nogueira Cobra, prima em segundo grau de Oswáld. (…) Na escolha de nomes para os filhos, o dos personagens femininos de ficção costumava acompanhar os masculinos, como as Floripes irmãs dos Oliveiros e dos Roldões, com base na História do imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França. Ou, já no século XX, as Lígias irmãs dos Vinícius e/ou dos Petrônios, numa trinca que seguia a voga imensa do romance Quo vadis?, de Sienkiewicz.

De modo que a imaginação romanesca de dona Antônia Nogueira Cobra se enquadra na imaginação do seu meio e grupo, aos quais ela e mais alguma outra mãe talvez tenham querido dar certa satisfação, ao compensarem o  preciosismo da forma inglesa, pela junção pacificadora dos banais João ou José. Conta Oswáld nas memórias que no caso do seu pai foi exigência do vigário, que recusou batizá-lo com nome estranho ao hagiológico corrente sem a compensação de um mais garantido. E isto mostra que aquelas senhoras de Baependi e Aiuruoca estavam sendo inovadoras, estavam introduzindo um nome antes inexistente por lá e que depois se tornou quase banal. Seja como for, a combinação de José com Oswáld constitui um discrepância associada a uma transigência, para forma o nome que seria no futuro de um grande rebelde.

No uso corrente formou-se uma transigência a mais a vista deste, porque toda a gente, como ficou dito, retificava na fala Oswáld para Oswaldo. Ligado ao sobrenome o prenome gerou ainda outro compromisso, que levava a aumentar a indecisão quanto à grafia, pois a pronúncia desprevenida era e é Oswál’ de Andrade. Mas sempre, como se vê, com a tônica na segunda sílaba, até que começasse essa bobagem de Oswald, que com certeza vai ficar e predominar, como tantas outras. Na peça sobre “os alegres rapazes e a sua semana de arte moderna” Carlos Queiroz Telles já a tinha denunciado implicitamente. Nela, quando o chamam Ôswald, o personagem brada de mau humor: “Oswáld!”.

Estas considerações e informações não são tão intempestivas quanto podem parecer. É preciso fazê-las, porque senão a moda pega e na próxima geração, quando estiver sendo por sua vez devidamente trabalhado pela lenda, Drummond pode virar Drúmon, se algum sabido decidir que a pronúncia de seu nome escocês deve ser reajustada.

90 de 22 (1)

Este post é o primeiro da série 90 de 22, dedicada à comemoração dos noventa anos de Semana de Arte Moderna de 1922.

Neste primeiro divulgo um vídeo-documentário do programa de “Lá pra cá” da TV Brasil sobre Oswald de Andrade, um dos nomes mais decisivos para a formação de nossa arte moderna.

Conheçam um pouco mais sobre esse gênio polêmico, provocar, ousado e imprescindível para a história de nosso país.