“F for Fake” (1974), de Orson Welles

Uma das obras mais impactantes do gênio estadunidense – o diretor, roteirista, ator e narrador Orson Welles -, “F for Fake” (no Brasil, “Verdades e mentiras”) é um documentário de montagem extraordinariamente ousada, bem ao estilo de Welles, que indico aqui no Prefácio como forma de dar continuidade ao debate iniciado no post anterior, sobre a validação da obra de arte, trazendo agora outras questões – que julgo igualmente importantes e certamente polêmicas -, tais como: por que uma obra original de Monet vale mais do que uma cópia perfeita ou pelo menos idêntica de seu trabalho? A obra “falsa” não apresentaria igualmente, ou pelo menos não estaria perto de apresentar, um talento à altura de Monet? Por que então insistir-se no mito da autenticidade?

Em nossos dias, em que chegamos ao máximo da reprodutibilidade técnica de que falou Walter Benjamin, qual o sentido de se pensar no valor da unicidade de um objeto de arte?

A discussão de Welles, proposta nos anos 70, torna-se, no contexto contemporâneo, com os compartilhamentos de arquivos e as reproduções infinitas próprios da propagação da internet, ainda mais urgente.

Essa valorização da “obra única”, “autêntica” parece ter pouco a ver com gosto estético, com a valorização da singularidade do artista. Parece atender mais a um fetiche de consumo e a um vergonhoso capricho elitista.

Síntese do que penso do assunto: se a cópia é quase idêntica, quase indiscernível, por que buscar diferenciá-la da original? Se as duas são diferentes, a ambiguidade não existe, certo? Então devem ser julgadas como obras distintas. Ponto.

Mas quem vai levar essa discussão ao seu auge mesmo é esse “F for Fake”, do gênio Welles, que revi agora no Youtube e do qual reproduzo aqui a primeira parte:

O nome do impossível

“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez”.

Com esta frase o francês Jean Maurice Eugène Clément Cocteau – eternizado como Jean Cocteau –  sintetizou perfeitamente toda sua trajetória aventureira, ousada e inimitável. Para quem não conhece, Cocteau foi um artista no sentido mais pleno e amplo da palavra: foi poeta, escritor, dramaturgo, cenógrafo, ator, cineasta e argumentista de cinema, pintor e escultor.

Uma das grandes reencarnações do ímpeto romântico no século XX, Cocteau expressou em sua obra e sua vida (inseparáveis para ele) a grande inquietação existencial dos modernistas, em atitudes incansavelmente ousadas.

Outras duas de suas frases famosas:

“A juventude é uma conquista da maturidade”.

“O poeta lembra-se do futuro”.

Dá pra ter um gostinho desse infinito a que aspira a obra de Cocteau neste trechinho de Sangue de um poeta (1930), o qual ele roterizou, dirigiu e narrou:

Essa extraordinária aventura surrealista, com imagens inesquecíveis, é uma das experiências estéticas mais inusitadas que alguém pode ter.

Bon voyage.

População invisível

Não parece, mas a cidade de São Paulo possui uma série de monumentos em homenagem a poetas e escritores consagrados.

Na Praça Dom José Gaspar, onde fica a biblioteca Mário de Andrade, encontram-se, de uma vez só, seis deles: monumentos a Mário de Andrade, Cruz e Sousa e a outros quatro nomes retumbantes: Dante Alighieri, Luís de Camões, Miguel de Cervantes e Johann Goethe.

"Camões", de José Crucé. Peça de bronze

No Largo São Francisco, palco das primeiras agitações poéticas de São Paulo, encontra-se uma herma a uma das figuras centrais do Romantismo brasileiro, nosso primeiro poeta maldito: (Manuel Antônio) Álvares de Azevedo, ou, como era conhecido pelos seus condiscípulos da Faculdade de Direito: Maneco.

Vale a pena lembrar que  São Paulo nessa época, 1850, não passava de uma povoação pobre, com um número de habitantes inferior ao que tinham por exemplo Belém e Cuiabá. Nas palavras do próprio Maneco de Azevedo, São Paulo àquela época era “um bocejar infinito”.

"Herma de Álvares de Azevedo", de Amadeo Zani. Peça de bronze

Apenas alguns quarteirões do Largo São Francisco, deparamo-nos com a imagem daquele que pode ser considerado o primeiro homem das letras do Brasil: o padre jesuíta José de Anchieta. Esse homem, em 1554, participou da fundação do Colégio São Paulo, o embrião de nossa cidade; seu monumento não por acaso localiza-se no marco zero da capital: a Praça da Sé.

Já no Largo do Arouche, pode ser vistos outros monumentos: ao poeta modernista Guilherme de Almeida, ao escritor Visconde de Taunay,  autor de Inocência, a Vicente de Carvalho, poeta nascido em Santos e a Luís Gama, o verdadeiro Poeta dos Escravos. A história de Luís Gama mereceria um texto à parte: filho de mãe africana da nação Nagô, ex-escrava, Gama viveu ele mesmo a experiência do cativeiro quando foi, aos dez anos de idade, vendido, ilegalmente, pelo próprio pai, um fidalgo português falido. É uma das personalidades mais incríveis da nossa história, além de um importante autor de poesia social.

"Luís Gama", de Yolando Mallozzi. Peça de bronze

Não muito longe do centro, no bairro da Vila Mariana, encontram-se mais três significativas homenagens: a Cora Coralina, poetisa e escritora goiana, na praça que tem seu nome; ao célebre poeta parnasiano Olavo Bilac, na Avenida Sargento Mário Kozel e, na Avenida Sagres [1], ao gigante português Fernando Pessoa, um dos maiores nomes da literatura moderna.

Esses monumentos, como muitos outros, em São Paulo e em outras cidades, passam despercebidos, como se não existissem, o que é uma ironia do destino, afinal o que se pretende com um monumento é justamente perpetuar a memória de um evento ou de uma personalidade. Não é bem o que acontece.

E você, já viu alguma dessas celebridades por aí?


[1] Maiores informações sobre as obras, como autores e material de que são feitas, podem ser encontradas no site Monumentos de São Paulo (www.monumentos.art.br), uma espécie de mapa dos monumentos da cidade. Apesar de não ser rico em datações, o site é uma boa fonte de pesquisa.

 

No MASP, vale a pena ver: ousadia e entusiasmo

O que foi a arte romântica? Pergunta complexa que merece ao menos duas respostas.

Primeira: um movimento transcorrido entre o século XVIII e XIX.  Segunda: uma tendência da arte ocidental, encarnada de modo mais expressivo entre os séculos XVIII e XIX, mas presente também em outros períodos.

Essa segunda formulação, não muito convencional (embora cada vez mais aceita e até presente em alguns livros didáticos), ficou famosa no mundo das letras com o texto Romantismo, o nosso contemporâneo[1], do canônico professor Antonio Candido (na verdade é transcrição de uma aula inaugural ministrada por ele na PUC do Rio de Janeiro). Não seria o caso de repetir aqui os argumentos do grande crítico. Limito-me a dizer que para Candido, “nós ainda estamos vivendo algumas obsessões fundamentais do romantismo”. Uma delas, evidente: as mudanças sucessivas, aceleradas e imprevisíveis pelas quais nosso mundo passa cotidianamente: produto direto do espírito romântico, “baseado sobretudo no movimento e na transformação”. A negatividade, o fragmentarismo, a liberdade criativa, tônicas contemporâneas, seriam, entre muitas outras, algumas marcas da perpetuação do espírito romântico entre nós.

Mas se Candido pensa o Romantismo como algo que ultrapassa o século XIX e percorre todo o XX, chegando pelo menos até 1988 (data de seu texto), isto é, se ele amplia o Romantismo para o tempo futuro, o curador Teixeira Coelho, com sua exposição Romantismo: a arte do entusiasmo, em cartaz no MASP desde 05 de fevereiro deste ano, vai ainda mais longe: mostra sinais dessa tendência artística já no Renascimento flamengo de Hieronymus Bosch, isto é, nada menos que há 500 anos. Sob o signo do Romantismo, Teixeira Coelho reúne artistas tão distantes em estilo e época como El Greco, Turner e Matisse.

Palavras do curador:

“Embora essa sensibilidade tenha, na arte, um período central de referência (entre a segunda metade do século XVIII e a primeira do XIX), o Romantismo revela-se uma estrutura profunda do imaginário manifestando-se de modo diverso em diferentes momentos da cultura ocidental. Esta exposição mostra, com o acervo MASP, diferentes presenças do Romantismo, de suas primeiras manifestações a sua marcas contemporâneas.”

Uma proposta ousadíssima. E instigante.

Por contar apenas com obras do acervo do MASP, a exposição também vale como uma advertência severa para os que se esqueceram de nosso museu: ok, o MASP não é nenhum Louvre, Hermitage ou Metropolitan, mas tem algumas das obras mais expressivas da história da arte ocidental, poxa!

Oportunidade para conferir.


[1] in: Suplemento Idéias, Jornal do Brasil, 19.03.1988. (RESUMO DE CLÁUDIO BOJUNGA)