Quais são os países mais leitores do mundo?

reproduzido do site METAMORFOSE DIGITAL, de 04.03.2014

 

educate-girls-1398200554684_956x500

Os benefícios de ler são múltiplos e comprovados.

Estimula a criatividade, enriquece o mapa referencial, reforça processos cognitivos, por exemplo, afinando a memória. Em um plano coletivo, uma sociedade que lê mais é uma sociedade menos vulnerável, mais inventiva e inclusive seu senso comum é menos medíocre. E neste sentido, e de forma paralela a uma luta cívica e a exigências como a transparência de prestação de contas de seus governos e a regulação de suas elites, acho que o melhor que uma população poderia fazer é tentar a leitura.

Quais são os países mais leitores do mundo?
Há algumas semanas a Market Research World publicou o Índice de Cultura Mundial, ranking que refere a relação de diversos países, ou melhor dito de sua população, com diferentes hábitos culturais, entre eles a leitura. E ao revisar este último quesito, os países que encabeçam o hábito de ler é verdadeiramente surpreendente. Suponho que, assim como eu, a maioria de nós pensaria que os países mais leitores do mundo seriam os escandinavos, Japão, talvez Alemanha, mas a verdade é que, ao menos de acordo com este relatório, em realidade é nos países asiáticos onde as pessoas se entregam mais a esta proveitosa prática.

O país que mais lê no mundo é a Índia e ocupa essa distinção desde 2005. Os indianos dedicam, em média, 10 horas e 42 minutos semanais para ler. Os seguintes três postos também são ocupados por países da Ásia, Tailândia, China e Filipinas, enquanto o quinto é, notavelmente, o Egito. Posteriormente vem a nação européia melhor localizada, República Tcheca, seguida da Rússia, Suécia empatada com a França, e depois Hungria empatada com a Arábia Saudita. Quanto a América Latina, o país mais leitor é a Venezuela, no 14º lugar, e depois vêm a Argentina (18º), México (25º) e Brasil (27º) com médias de leitura que rondam menos da metade de tempo que dedicam na Índia.

Chama a atenção que as duas economias com maior potencial, China e Índia, estejam acompanhando com educação seu crescimento explosivo na indústria, mercado e outros. Isto sugere que seu desenvolvimento não só responde ao fato de serem por muito as duas maiores populações do planeta, senão que também a uma verdadeira inteligência e estratégia. Por outro lado, não deixa de ser lamentável confirmar um indício a mais de que os latino-americanos, diferente dos asiáticos, estejamos ainda longe da maturidade necessária para, eventualmente, tomar o relevo de mãos da Europa e Estados Unidos, à cabeça do desenvolvimento econômico e cultural.

Enfim, talvez o fato de estar entre os países que mais tempo dedicam à leitura não assegure a sua população um melhor futuro de acordo às variáveis macroeconômicas ou de progresso, e nem sequer para os padrões de civismo ou felicidade, mas ao menos me parece que é um valioso indicador de maturidade, e sem dúvida, permite a construção de um panorama mais rico e interessante, algo que mais cedo ou mais tarde se materializará em melhores condições de vida.

Enquanto isso vamos ter a copa mais cara de todos os tempos nos estádios mais caros do mundo, algo que mais cedo ou mais tarde se materializará em uma quebradeira geral.

“Não é preciso queimar livros para destruir uma cultura. Basta fazer com que as pessoas deixem de lê-los!”
Ray Bradbury

“Desnorteio”, de Paula Fábrio, na TV São Judas

O grande romance de estreia da escritora Paula Fábrio – uma das experiências mais intensas que tive como leitor nos últimos tempos – é abordado, ao lado de Boatos do Corpo, de Marcelo Donatti, no programa Arteletra Literatura.

Os dois títulos foram publicados pela editora Patuá, que vem realizando com protagonismo um investimento sério em autores estreantes.

Confiram a entrevista.

Retorno das férias: e as leituras

Foram muitas, essa é a verdade, caros leitores, as leituras de dezembro e janeiro.

Comecei o percurso lendo os poemas de Outro dia de folia, de Eduardo Lacerda, editor da Patuá, amigo meu e, segundo sua maior mentira, um não-poeta. Antes todos os poetas fossem não-poetas como ele!

folia

 

Os poemas de Eduardo Lacerda combinam bem o trabalho da lapidação, do cuidado na escolha com o efeito de espontaneidade, a impressão de um feliz acaso.

O eu-lírico, satírico, delicado ou melancólico, conduz o leitor para um abismo de dúvidas e desalentos, deixando escapar, na maior parte das vezes, um irresistível risinho de tudo.

 

Depois vieram as leituras teóricas.

Primeiramente, o brilhante livro de ensaios Cultura e sociedade no Brasil, de Carlos Nelson Coutinho (editora Expressão Popular). Uma abordagem lúcida e esclarecedora do processo de formação de nossa cultura, abordagem por vezes vinculada diretamente a escritores fundamentais para a construção do elemento “nacional-popular” na literatura brasileira, como Lima Barreto e Graciliano Ramos.  Leitura formativa, importantíssima.

Em segundo lugar, li Graciliano Ramos: um escritor personagem, de Maria Izabel Brunacci (editora Autêntica). Obra importante que relaciona as formas literárias do autor às estruturas sociais direta ou indiretamente vinculadas a elas. As reflexões sobre a particularidade da modernização no Brasil – seguindo a trilha de Sérgio Buarque de Holanda – são também significativas e dão boas lições.

Ainda no tópico Graciliano Ramos, tive a oportunidade de ler o livro Retrato fragmentado (editora Globo), de Ricardo Ramos, biografia de rara beleza e intensidade. Os “cacos” de memórias do filho de Graciliano oferecem-nos, em seu conjunto,  uma visão complexa e desmitificadora do escritor alagoano a partir de uma visão “de dentro” e portanto, muito especial. Alguns aspectos pessoais de Graciliano são, para seus leitores inveterados, imperdíveis.

retrato

Quem me instigou a ler o livro foi ninguém menos que Ricardo Ramos Filho, criatura gentilíssima, com quem tenho a honra de compor um grupo de estudos sobre a obra de Graciliano Ramos lá na USP. Bela dica, Ricardo, finalmente saldei minha dívida com essa leitura obrigatória.

Entre as muitas descobertas, o livro de Ricardo Ramos me fez conhecer um Graciliano apaixonado pela prosa de Marques Rebelo. Era o que faltava para fechar meu percurso de férias: li Os melhores contos de Marques Rebelo (editora Global).

Uma surpresa, uma grata surpresa tomar contato com a prosa tão viva do escritor carioca, uma espécie de Machado de Assis com frescor modernista.

rebelo

As narrativas de Rebelo conduzem o leitor pelo Rio de Janeiro dos anos 30 e 40 de modo tão vivo e realista que é inevitável a sensação de deslocamento no espaço e no tempo.

Destaco os contos Oscarina Estela me abriu a porta, que passaram a fazer parte definitivamente do que conheço de melhor na prosa em língua portuguesa. Um espetáculo narrativo! Cativante, divertido e comovente.

 

Não é à toa que o velho Graça dedicou-lhe tantos elogios.

E vocês, queridos leitores, o que têm a dizer desta vez ao Prefácio?

Saída para as férias

LIVROS NA PRAIA

A partir de hoje o Prefácio entra em férias.

A mala de livros já está quase pronta. Muita coisa de e sobre Graciliano Ramos e, se ainda tiver tempo, lerei autores brasileiros contemporâneos e saudarei uma dívida que venho arrastando desde 201o com Marques Rebelo.

Mais uma vez o Prefácio dedica o primeiro e-mail de retorno às atividades –  isso para os que seguem o calendário de colégio e universidade – com um fórum sobre leituras. Os que trabalham em outro calendário e terão férias menores ou apenas os feriados das festas, estão convidados também a participar, é claro.

Segue a pergunta direta, para ser respondida no fim de janeiro:

O que você andou lendo nestas férias? 

Meus sinceros agradecimentos aos que acompanharam os posts deste ano. Fica o convite reiterado para mais encontros por aqui.

Boas festas, com o significado que elas tiverem para cada um de vocês.

Leitura no Brasil do século XIX, entrevista com Alexandre Paixão

O século XIX é decisivo para se pensar a formação da literatura e da leitura no Brasil.

Quais eram os leitores do Brasil daquela época? Que tipo de pessoas liam textos literários? Que tipo de textos elas liam? Qual era e como se dava a circulação desses textos?

Essas e outras questões são abordadas na entrevista com o pesquisador da USP Alexandre Paixão, realizada pela Univesp TV e reproduzida aqui no Prefácio:

“Elogio aos livros difíceis e chatos”, por Michel Laub

Volta às aulas, fim de férias, e muitas leituras a comentar.

 

Como disparador para o nosso fórum, reproduzo no Prefácio este instigante artigo de Michel Laub, publicado em seu blog da Companhia das Letras.

Elogio aos livros difíceis e chatos

Sempre que perguntam como alguém pega gosto pela leitura, minha resposta é: lendo. Nada contra programas públicos de compra de livros, investimento em bibliotecas, propaganda institucional na TV, clubes de leitura e qualquer recurso que traga a ficção para perto do dia a dia de professores e alunos, mas no fundo o caminho é individual. Existe uma vocação de leitor: ajuda tentar despertá-la, e essa deve ser uma tarefa de governo e educadores, mas não basta. Venho de uma casa onde sempre se estimulou esse gosto, e cada um dos meus irmãos deu resposta diferente ao incentivo.

Numa coluna passada, reclamei carinhosamente dos eventos literários em que não se discute literatura, e sim o aparato pedagógico/econômico/político ao redor da questão no Brasil. Poderia acrescentar o quanto há de mistificador nos slogans que tratam a ficção como um prazer, uma “viagem”, um atalho de ascensão social e libertação do espírito. Ler ficção pode ser tudo isso, mas antes e sempre é um exercício sem utilidade prática, em geral um obstáculo à vida social. Na adolescência, traz mais angústia, isolamento, tristeza e revolta que qualquer outra coisa. Na vida profissional, é mais vantajoso se dedicar a textos técnicos e de “aprendizado”.

Como apreciar um grande romance? Numa dimensão que dê conta de suas qualidades raras, o que só é possível por meio de repertório e comparação, é preciso um longo esforço anterior, anos e anos de contato com grandes, bons, médios, maus e péssimos outros romances. Não espero que uma campanha governamental diga que ler é trabalhoso e até chato muitas vezes, principalmente para quem está começando e não domina os códigos e manhas da prática  que vão do conhecimento vocabular à sabedoria de pular trechos e largar livros no meio  , mas de fato é. Quando se afirma que Machado de Assis é um autor inadequado para a escola, não é só porque alguém mais velho terá vivência para entender melhor os personagens de Dom Casmurro. Também porque, para uma apreciação de linguagem e estrutura narrativa, sem as quais esses personagens não existem como tais, faz diferença Dom Casmurro ser o quinto romance que o sujeito lê na vida ou o vigésimo, o centésimo e assim por diante.

Cultura é regra, disse Jean-Luc Godard, e arte é exceção. Qualquer incentivo à democratização do saber gira em torno da primeira, e não haveria como ser diferente. Apenas seria interessante, de vez em quando, ouvir alguém falar em larga escala sobre a última: como o prazer extraído da leitura não é necessariamente direto, fluido e emocional. E como pode ser compensador emergir ao final de dezenas ou centenas de páginas hostis como uma espécie de sobrevivente. O primeiro exemplar da chamada “alta literatura” que li foi O nome da rosa. Eu devia ter uns dezesseis anos e fôlego restrito a enredos policiais (me interessei pela obra de Umberto Eco porque era uma história de detetive). É possível que só tenha ido dali para textos de outros gêneros, registros e densidades porque resisti  por estoicismo, orgulho ou vaidade, não importa — ao cabedal de citações em latim e alusões históricas, religiosas e filosóficas sobre as quais não tinha a menor ideia.

Se ler é uma forma de ampliar a visão de mundo, é pobre limitar a experiência ao que, na forma e no conteúdo, com paternalismo ou demagogia, repete o que já sabemos. Por ocasião do lançamento da Granta  e da (bem-vinda) Geração subzero , voltou à tona o debate sem muito sentido que contrapõe qualidade literária e entretenimento. Como se uma coisa excluísse sempre, ou não fosse muitas vezes decorrência da outra. De qualquer forma, Hermano Vianna , Raquel Cozer  e Francisco Bosco  se estenderam com propriedade sobre o assunto, incluindo suas implicações políticas e mercadológicas, enquanto prefiro seguir falando do que sempre será o patinho feio da história: o livro que não é feito para vender, para agradar, para passar o tempo, para dar lição, para render explicações sem fim do autor no Twitter, para virar tese literária ou extraliterária nascida na academia ou na militância antiacadêmica.

É ele, no fim das contas, que mantém a singularidade da ficção escrita, e portanto sua importância, num mundo em que divertir é tarefa cumprida  em geral com mais competência  por séries de TV, cinema, games e assemelhados. Nada contra quem opta por esse caminho ao contar uma história, repito, só não vejo aí superioridade estética ou moral, e nem mesmo despretensão. Na literatura infantil é aceita a regra de não subestimar a inteligência da criança, o que significa não poupá-la de desafios e recompensas proporcionais. No mundo adulto também pode ser assim: o que parece aridez, fragmentação, incoerência, gratuidade e entropia pode ser apenas disfarce do que ainda não se consegue entender numa narrativa. E do que ainda não se sabe que quer.

“Terra sonâmbula”, de Mia Couto


Capa da edição de 2007 da Companhia das Letras, na qual se encontra a seguinte nota: “A editora optou por manter a grafia do português de Moçambique”

Eis um livro que há pouco tempo não teria a menor chance de figurar no  Prefácio como uma indicação entusiasmada.

Passei a evitar Mia Couto após ler alguns textos da antologia Estórias abensonhadas, a qual conheci em 2002 e cujo título me pareceu de muito mau gosto. Terra sonâmbula, embora, ao contrário, sempre me tenha soado um bom título sedutor – belo achado ao gosto dos surrealistas ou do realismo mágico latino-americano -, não era suficiente para levar de novo ao autor.

Eis-me agora, dez anos depois, apaixonado por Terra sonâmbula, paixão intrigante porque implicou um processo de transformação conceitual e perceptiva, uma verdadeira revisão de gosto estético que, para ser franco, raras vezes experimento.

Além de ler um livro que me entusiasmou, Terra sonâmbula foi para mim uma espécie de renascimento como leitor. Considerei a experiência tão rica que, antes de abordar alguns aspectos da obra propriamente, gostaria de fazer uma explanação.  Peço licença ao leitor para isso.

Desejo versus dever?

É muito difundida a ideia – principalmente entre leitores mais jovens – de que a leitura obrigatória é desagradável, de que a obrigação torna menos intensa a relação do leitor com o livro ou diminui sua disposição para ler.

Não compartilho dessa opinião. Vou dizer meus motivos.

Como professor há mais de uma década, vejo brotar, a cada ano letivo, novos leitores apaixonados por obras que lhes chegaram às mãos por conta da “imposição” do programa escolar de leituras. Doistoiévski, Flaubert, Baudelaire, Kafka, Fitzgerald, Camus, Salinger, Fante, Philip Roth, Camões, Machado, Graciliano, Guimarães, Drummond, Bandeira, Cabral, Gullar, para ficar somente em alguns, durante todos estes anos vêm encontrando, “apesar” da  obrigatoriedade, trazendo alegrias evidentes, até mesmo leitores devotos.

Ponho “apesar” entre aspas porque acredito – como o poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz e como a estudiosa brasileira Leyla Perrone-Moisés (que são, acima de tudo, dois grandes leitores) – que o ato de leitura é necessariamente também um ato de trabalho.

Acredito que as paixões fulminantes não nascem exclusivamente da escolha. Se assim fosse, as multidões que têm a TV como única fonte de vivência estética poderiam ser explicadas como um caso de opção, e não – o que acredito ser um motivo considerável – por uma falta estrutural de investimento e de sustentação de uma cultura de lazer. Quando falo em falta estrutural não penso só no governo e nas suas escolas, mas também na imprensa, sobretudo na TV – maior usina de lazer e de fomentação do imaginário nacional -, que tem consciência de sua missão formativa (e inclusive se arroga disso) enquanto, contraditoriamente, insiste na exibição do besteirol diário sob a leviana alegação de que se trata do “gosto do povo” e de que ela – TV- apenas procura atender o desejo das multidões.  (Também os grandes tiranos usaram e ainda usam dessa justificativa para cometer barbaridades impunes).

A contradição é evidente: para formar cidadãos,  é fundamental desafiar o senso comum, abdicar do sucesso imediato e seguro (obviamente acompanhado de lucro também imediato e seguro) em nome de uma transformação cultural que é obviamente mais lenta e mais complexa: fazer a multidão de telespectadores apreciar o bom cinema, a boa música, o teatro, a dança, as artes em geral, incluindo – por que não, se alguns raros lampejos de ousadia provam que isso funciona? – a literatura. A TV está empenhada nisso? Obviamente não. Ela não tem, portanto, papel formativo, não está interessada em ousar, em produzir impactos culturais. Está muito mais preocupada em garantir seus lucros.

Ao dizer, como justificativa para a insistência no besteirol, que atende ao  gosto da população, incorre-se em cinismo e também em preconceito. Não creio que todos – pobres e ricos – que digerem essa massa de lixo cultural gostem  propriamente do que vejam. É preciso, no mínimo, considerar a dificuldade de mensurar a preferência de um contingente tão grande de pessoas. Mais difícil ainda quando não há empenho em oferecer alternativas por parte dos que detêm o controle das mídias. Só é possível ter hipóteses: a mais forte para mim, entre outras, é a de que haja tendência a se consumir o que se tem à disposição, pelo que, por aparecer com insistência, acaba sendo visto como melhor.

Voltando ao senso de obrigação. A TV não figura na vida cultural dos indivíduos como um desafio intelectual, cognitivo ou existencial. Basta ligá-la e vê-la, ainda que com desagrado. Ela está longe de ser associada, em nossa sociedade, a uma ideia de dever.

Já o livro representa uma necessidade de entrega, de aclimatação, de predisposição, de participação – ou seja, de trabalho -, sobretudo quando se trata de uma obra de qualidade.

A descoberta de um mundo

“Quantos homens já não iniciaram uma nova era em suas vidas ao ler um livro?”  (Henry David Thoreau)

Quando era adolescente e aluno do ginásio (hoje Ensino Fundamental II), tive como tarefa escolar a leitura do romance Casa de pensão, do escritor maranhense Aluísio Azevedo. Fiquei intrigado com a indicação de uma obra que na época eu considerava antiga (hoje chamaria de literatura moderna).

Eu não era um leitor no sentido pleno da palavra, isto é, eu não decidia por conta o que queria ler. Lia os poucos livros que havia em minha casa – uns dez, no máximo, guardados pela minha mãe, que era e ainda é uma leitora bissexta. Lia também o que emprestavam meus amigos: basicamente livros da Série Vaga-lume da Editora Ática (os maiores de trinta e cinco devem se lembrar da coleção).

O livro de Aluísio Azevedo, que inicialmente me intrigava, em pouco tempo (logo nas primeiras páginas) revelou-se-me uma fonte de imenso prazer.

Lembro até hoje que o professor, sabendo de meu entusiasmo, espantou-se e, um tanto cético, indicou-me também a obra mestra de Aluísio: O cortiço. O livro me encantou ainda mais e me fez chegar ao O mulato,  primeiro romance do autor, além de me tornar, ainda aos quinze anos, um leitor voraz da prosa oitocentista: Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco e outros.

Seria possível reduzir aquela oferta do professor à ideia de “obrigação”? Ou ainda: seria possível classificar o meu esforço (porque obviamente houve esforço) como uma tarefa sem papel significativo, um exercício  mecânico ou burocrático, com a finalidade apenas de agradar os mais velhos?

Não, não, nada disso: costumo pensar que com aquelas leituras começaram, em grande parte, a minha descoberta do mundo.

Esta foi a edição do “Casa de pensão” que li no ginásio, por indicação do professor de Português Dario Macri

Foi justamente uma lista de livros obrigatórios – para uma seleção de mestrado – que me levou à leitura de Terra sonâmbula.

Iniciei a leitura a contragosto, cheio de receios, mas, passadas poucas páginas, vi-me estupefato, impressionado com o texto.

Eis-me então boquiaberto diante de uma obra de Mia Couto, grato ao acaso e à obrigatoriedade da tal lista, que generosamente encaminhou-me para um livro fundamental, quando meu interesse ou meu instinto poderia facilmente derivar para uma outra escolha.

Conclusão: mesmo o leitor mais velho, “escolado”, deve desconfiar de sua capacidade de escolher e de seu poder de resistir ao que é imposto, ao que não é determinado pelas suas listas prévias.

Mais recentemente, como o leitor do Prefácio pode ter notado, vem crescendo minha vontade de conhecer a produção em língua portuguesa europeia e africana, sobretudo a do século XX e XXI. Entre as várias listas de autores que eu mesmo produzi, entretanto, o nome do moçambicano Mia Couto jamais esteve presente. É um autor importante, conhecido, muito citado, publicado por uma grande editora brasileira, a Companhia das Letras. Mas a experiência que tive, há dez anos, com Estórias abensonhadas, foi, desde a leitura do título, um imenso dissabor. Esse pequeno contato foi suficiente para eu passar a detestar o autor e comentar, com quem encontrasse, tratar-se de literatura de baixo quilate, imitação barata de Guimarães Rosa.

Hoje me pergunto se o que experimentei foi dissabor ou puro preconceito.

A mistura como bandeira poética

Com a prosa poética no centro de tudo, Terra sonâmbula fundamenta-se  no cruzamento de registros: o culto e o popular, o escrito e o falado, o mítico e o real.

Esse cruzamento – que se dá no plano imagético, sintático e vocabular -parece provar que esses diferentes registros não se opõem, mas sim se complementam. E essa complementaridade, parece-me, é a principal responsável pela eficácia do discurso.

A desqualificação que se baseia na semelhança da obra de Mia Couto com a de Guimarães Rosa é bastante problemática.

Primeiramente porque parte do pressuposto de que Guimarães Rosa está sozinho em algumas de suas principais escolhas estilísticas, pressuposto que desconsidera o complexo desenvolvimento de nosso Modernismo, que tem a mistura poética de registros como importante bandeira e encontra na prosa do  Mário de Andrade de Macunaíma e Contos de Belazarte um de seus pontos decisivos. Se considerado com cuidado, Mário de Andrade – sobretudo no caso de Belazarte – pode ser visto como manancial decisivo da carpintaria do mestre mineiro. Isso diminui o valor da obra de Guimarães?

A bandeira poética da mistura de registros é um dos aspectos decisivos também na formação da literatura luso-africana, na qual há, além da diversidade social do idioma português, a coexistência dele com vários outros idiomas. Se o modernismo brasileiro figurou como modelo para muitos autores luso-africanos, é mais certo dizer que ele fortaleceu ou intensificou uma tendência do que afirmar que a inaugurou. Suas principais contribuições funcionaram mais como confirmações solidárias do que já havia como busca, interesse latente ou mesmo expressão consolidada na África lusófona. É um caso em que, mais que influência, devemos falar em confluência.

Alargando nosso horizonte referencial, podemos ver que a tentativa de entender e incluir o homem pobre e analfabeto no corpo do discurso literário foi (e é ainda) uma das grandes missões da literatura lusófona. É natural que, nesse conjunto, semelhanças estilísticas apareçam: entre autores como Mário de Andrade, Guimarães Rosa, João Cabral de Mello Neto, José Luandino Vieira,  José Craveirinha, Manuel Ferreira ou Mia Couto.

Acalanto da Mãe-África

Claro, dizer que houve “imitação” é diferente de dizer que houve “imitação barata”, porque a segunda afirmação envolve um aspecto valorativo. Vamos a ele então. Obviamente é o mais difícil, e obviamente não conseguirei esgotá-lo.

Depois de aderir às malhas da sintaxe e sentir-me envolvido em sua musicalidade (sem ainda deixar de estranhar e até me incomodar eventualmente com algumas combinações lexicais, confesso), ocorreu-me que o livro, ao abordar a realidade de miséria e violência extremas, corria o risco de ser um exercício de embelezamento do mal, um discurso compensatório e oportunista, e que se encaixaria portanto na expressão feliz que a crítica de cinema Ivana Bentes usou para caracterizar parte da produção cinematográfica brasileira dos últimos anos:  “cosmética da fome” (1).

Eu me perguntava então se Terra sonâmbula se Terra sonâmbula seria mais um exemplo de tal categoria estética. A questão foi, ao longo da leitura, minha principal inquietação: seria o livro de Mia Couto um  exercício de estetização da precariedade, da dor, da violência e da miséria alheia, isto é, seria um movimento de aceitação, relativização da barbárie, transformado-a em música aprazível?

Terminado o livro, minha resposta agora é: NÃO.

Não se pode dizer que Terra sonâmbula atenua a tragicidade da realidade que representa. Se a leitura do mundo é marcado pela poesia, essa poesia está longe de significar embelezamento enganador, está longe de esconder o aspecto trágico dos acontecimentos e de ludibriar o leitor.

Sofrimento, dureza, violência, precariedade, falta. O incômodo permanece ao longo de toda a narrativa. A “estetização da barbárie” – no sentido de relativização ou diluição das tensões – não caracteriza absolutamente a obra de Mia Couto.

Publicação da editora  portuguesa Caminho, 2004

Minha redescoberta do mundo  

O livro se divide em dois núcleos narrativos.

Um deles é a história do garoto Muidinga e do velho Tuahir. Os dois  perambulam por um cenário de devastação, marcado pelo cheiro da morte, até que se abrigam na carcaça de um ônibus, onde dividem espaço com corpos carbonizados. O menino, temeroso, reclama; o velho, que dissimula preocupação e carinho com gestos e palavras ríspidas, exige silêncio, paciência resignação.

Um sinal de alento aparece entre esses dois:  é a leitura que Muidinga faz de uns cadernos que encontraram numa mala abandonada. São as notas de Kindzu, e constituem o segundo núcleo da história.

Os cadernos de Kindzu se intercalam com os capítulos da peregrinação sem rumo de Muidinga e Tuahir.

A narrativa do menino e do velho corresponde a um presente estático, com sua paisagem imóvel, a atmosfera de morte, indecisão,  desesperança. Já o núcleo de Kindzu é marcado por ações e por procuras mais específicas, ou seja, é um núcleo mais dinâmico. Essa variação de movimentos dá ritmo à composição de Mia Couto.

O núcleo de Tuahir e Muidinga é marcado mais pelas consequências da guerra, como se fosse o resultado de um processo. No núcleo de Kindzu o que vemos é o próprio processo se desenvolvendo: a guerra, suas abominações,  disputas, as idas e vindas de uma população que já não sabe mais dormir e portanto sonhar. Uma população sonâmbula.

Kindzu é ainda capaz de sonhar e, com seus escritos, compartilhar seus sonhos:

“Ponho o sonho, em sua selvagem desordem: eu estava descendo um vale molhado de tanta luz, cheio de manhã. Aquela parecia a primeira madrugada do mundo. A luz se espantava de sua própria estreia, experimentando sua grandeza ao iluminar as mais pequenas coisas. As cores, de tanto serem novas, se cambiavam incessantemente. Foi então que vi avançar um enorme grupo de pessoas, pobres, embrulhadas em cascas e fiapos. Eram centenas de centenas. Foram-me enchendo o sono À frente seguia o feiticeiro da minha aldeia. Envergava uma sarapilheira encardida, cujos farrapos poeiravam pelo chão. O adivinho olhou a terra como se dele dependesse o destino do universo. Pesava nos seus olhos a gravíssima decisão de criar um outro dia.”

Os escritos de Kindzu representam, para o velho e o menino, novos horizontes. Somente a palavra, em Terra sonâmbula, tem o poder de reordenar a existência, de ressignificá-la, acordar seus sentidos. É ela a única resposta ao sonambulismo da terra.

A certa altura, Tuahir comenta:

“O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.”

O escritor moçambicano Mia Couto nasceu em Beira, em 1955

E foi o próprio Mia Couto quem disse:

“Para se libertar da prisão que é a realidade fechada com a chave da razão, é preciso desvalorizar suas paredes”, (palestra de Mia Couto na UFMG, em julho de 2007)

Misturando mito e história, narrativa e poesia, Mia Couto oferece com Terra sonâmbula um monumento de inusitada beleza. Uma beleza que oferece à barbárie o único elemento que a literatura possui: a palavra. Essa arma indestrutível.

(1) Com esse termo Ivana Bentes procurou contrastar criticamente parte da produção atual do cinema brasileiro com a “estética da fome”, defendida por Gláuber Rocha nos anos 60.

“O preço do livro”, do programa Entrelinhas (TV Cultura)

O livro no Brasil é muito caro?

Essa pergunta, que serve como mote do programa, acaba por trazer umas tantas outras questões sobre a cultura do livro e da leitura em nosso país.

O programa ainda é interessante por oferecer ao espectador, por meio de entrevistas com editores, explicações didáticas sobre os processos e os custos envolvidos na confecção e comercialização do livro.

Altamente recomendável, para educadores, professores, escritores e leitores.

NOVA E REVOLUCIONÁRIA TECNOLOGIA DE ARMAZENAGEM E RECUPERAÇÃO DE INFORMAÇÕES, por Millôr Fernandes

Reencontrei entre meus arquivos este divertido texto de Millôr Fernandes, escrito há mais de uma década.

É um convite bem-humorado para o convívio com os livros e uma ironia inteligente contra os excessos da empolgação acrítica com as novidades tecnológicas.

Este post dialoga com Tecnologia e educação, de meu colega Jacó Izidro:

http://12dimensao.wordpress.com/2012/01/27/tecnologia-e-educacao/

Segue o texto do Millôr:

NOVA E REVOLUCIONÁRIA TECNOLOGIA DE ARMAZENAGEM E RECUPERAÇÃO DE INFORMAÇÕES

Na deixa da virada do milênio, anuncia-se um revolucionário conceito de tecnologia de informação, chamado de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas – L.I.V.R.O.

Esta inovação – L.I.V.R.O. – representa um avanço fantástico na tecnologia de informação:

– Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas.

– Não necessita ser conectado a nada nem ligado.

– É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. – Basta abri-lo!

Cada L.I.V.R.O. é formado por uma sequência de páginas numeradas, feitas de papel reciclável e capazes de conter milhares de informações.

As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantêm automaticamente em sua sequência correta.

Através do uso intensivo do recurso TPA – Tecnologia do Papel Opaco – permite-se que os fabricantes usem as duas faces da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os seus custos pela metade!

Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para se fazer L.I.V.R.O.s com mais informações, basta se usar mais páginas. Isso, porém, os torna mais grossos e mais difíceis de serem transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema.

Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, em seu cérebro. Lembramos que quanto maior e mais complexa a informação a ser transmitida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.

Outra vantagem do sistema é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite o acesso instantâneo à próxima página. O L.I.V.R.O. pode ser rapidamente retomado a qualquer momento, bastando abri-lo. Ele nunca apresenta “ERRO GERAL DE PROTEÇÃO”, nem precisa ser reinicializado, embora se torne inutilizável caso caia no mar, por exemplo.

O comando “browse” permite fazer o acesso a qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com o equipamento “índice” instalado, o qual indica a localização exata de grupos de dados selecionados.

Um acessório opcional, o marca-páginas, permite que você faça um acesso ao L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou marca de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração.

Além disso, qualquer L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso seu usuário deseje manter selecionados vários trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com o número de páginas.

Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O. através de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada – L.A.P.I.S.

Portátil, durável e barato, o L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro. Milhares de programadores desse sistema já disponibilizaram vários títulos e upgrades utilizando a plataforma L.I.V.R.O.

Imagem de Giuseppe Arcimboldo