Cinefilia – dicas de filmes

No dia em que descobrirmos o mistério da poesia, descobriremos também o mistério da música.

É mais ou menos com essas palavras que o estudioso Segismundo Spina aborda a relação íntima que existe entre essas duas artes em seu livro Na madrugada das formas poéticas (Ateliê, 2002).

Para quem se interessa por essa riquíssima relação é fundamental assistir ao documentário Palavra encantada (2009), de Helena Solberg.

Valendo-se de entrevistas e depoimentos de mestres da música brasileira, tanto os clássicos quanto os mais jovens, o filme explora a profícua ligação entre palavra falada e palavra cantada.

O tema é tão bom e tão rico que poderia render uma verdadeira série, com muitas horas de filme. O único senão que fica para o documentário é, portanto, o “gostinho de quero mais”.

Vejam aqui o trailer:

“O mito da língua perfeita”, por Sírio Possenti

Importante texto de Sírio Possenti, linguista e professor da Unicamp, com diversos livros publicados. A artigo foi copiado de seu blog, o qual, aliás, vale a pena conferir:

http://terramagazine.terra.com.br/blogdosirio/blog.

O mito da língua perfeita

Volto ao tema.

O filósofo Roberto Romano escreveu artigo (Estadão de 10/02/2013) cujo mote foi uma fala da presidenta, na qual ela empregava a palavra “vilipêndio”. Não vem ao caso discutir o artigo. Apenas me interessa uma de suas passagens: “vilipêndio vem do baixo latim,vilipendere, uma corrupção do termo clássico vili…”. Por que é corrupção? Por que não dizer simplesmente que houve uma mudança no sentido da palavra? Um velho discurso, desmentido por todas as teorias que levam em conta seja as estruturas internas das línguas e dialetos, especialmente se combinados com uma pitada, por mínima que seja, de história.

Um dos tópicos mais comuns no tratamento mítico das línguas é supor que, em algum momento, houve uma língua perfeita. O que veio depois teria sido corrupção / corruptela. Observe-se que o mesmo discurso se aplica às sociedades: nelas, a decadência seria constante. Mas é mesmo?

Os argumentos são ruins: num caso, porque ninguém sabe qual teria sido a tal língua perfeita e quais suas características; segundo, e mais importante, as formas que se conhecem e das quais dizemos que foram corrompidas não são as originais (segundo esse raciocínio, já podem / devem ter sido corrompidas).  Por que a palavra “vili”, em determinado período, teria um “sentido verdadeiro”? Só porque não conhecemos sua história anterior?

(É comum que o argumento seja invocado em discussões de costumes políticos. O que se diz sempre é que “república” não é apenas uma forma de governo; que a palavra vem de res publica, ‘coisa pública’, o que implica que deve haver moralidade, que não pode haver mistura de interesses públicos e privados etc. Ora, a república romana não foi assim; nem os impérios foram necessariamente mais sujos que elas).

Na semana passada, disse que não há bons argumentos para a defesa de formas mais antigas da língua; o único é o “respeito” à tradição. Não discuti se a tradição deve ser defendida. Apenas indiquei que, em muitos campos, ela não vale nada, é desprezada. Às vezes, é defendida no campo moral e familiar, mas quantos queremos uma família patriarcal com as mulheres nos papeis que conhecemos bem?

A questão é estética, disse uma leitora, que se horroriza com formas como “amá”. Pode ser, mas aposto que ela mesma diz amá, benzê, dançá, saí, í pro cinema etc. O que acontece é que a escrita registra dessa pronúncia do final dos infinitivos parece estranha. Faladas, ninguém as percebe como erros.

Sem contar que esquecemos a história: os infinitivos um dia tiveram um –e final:amare, scribere, ponere. Alguém sente falta dele? Ora, como sentiríamos falta, se nem sabíamos que existiu?

Questão estética: isso dá um bom debate. Quer dizer que a arte clássica é arte? Ticiano sim, Picasso não? E a literatura de João Antônio e de Rubem Fonseca? E a de Mark Twain, fundadora da americana, segundo Hemingway?

No caso da língua e também nos outros, trata-se da tradição. E, às vezes, de pouca informação.

Literatura brasileira em Cabo Verde

brasil_cabo

A literatura cabo-verdiana estabeleceu um importante diálogo com o Modernismo brasileiro, tanto o dos anos 20 quanto o de 30.

Entre os autores que foram lidos nas ilhas, destacam-se Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queirós, Ribeiro Couto e Manuel Bandeira – este último acabou por se transformar em uma espécie de patrimônio cultural cab0-verdiano a partir principalmente de seu poema Vou-me embora pra Pasárgada:

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

É Osvaldo Alcântara (pseudônimo poético de Baltasar Lopes) quem inicia a série do pasargadismo cabo-verdiano:

Itinerário de Pasárgada

Saudade fina de Pasárgada…

Em Pasárgada eu saberia 

onde é que Deus tinha depositado 

o meu destino…

E na altura em que tudo morre…

(cavalinhos de Nosso Senhor correm no céu;

a vizinha acalenta o sono do filho rezingão;

Tói Mulato foge a bordo de um vapor;

o comerciante tirou a menina de casa;

os mocinhos de minha rua cantam:

Indo eu, indo eu

a caminho de Viseu…)

Na hora em que tudo morre,

esta saudade fina de Pasárgada

é um veneno gostoso dentro do meu coração.

O pasargadismo de Osvaldo Alcântara será entendido como evasionista e escapista, e encontrará críticos: por retratar o homem cabo-verdiano sem apontar soluções para os seus problemas.

Para o escritor e estudioso Manuel Ferreira, no entanto, o pasargadismo deve ser visto como:

“[…] desejo manifestado da fuga à degradada situação colonial que encarcerava o horizonte à juventude pensante e interrogadora. Era um protesto. Um desdém. Não é de mais dizer: era a fuga à erosão colonial, mas não era voltar as costas à cabo-verdianidade.”

Seja como for, os autores da geração seguinte, agrupados em torno da revista Certeza, de 1944, recusarão o dilema ir/ficar, num posicionamento mais assertivo e de engajamento sócio-político mais intenso, como podemos ver nesses versos de Ovídio Martins:

ANTI-EVASÃO

 

Pedirei

Suplicarei

Chorarei

 

Não vou para Pasárgada

 

Atirar-me-ei ao chão

E prenderei nas mãos convulsas

Ervas e pedras de sangue

 

Não vou para Pasárgada

 

Gritarei

Berrarei

Matarei

 

Não vou para Pasárgada

O estatuto dado a Pasárgada nesse caso é diferente: espaço renunciado, abortado dos anseios, renegado como fantasia luxuosa. A escolha do eu-lírico no poema de Ovídio Martins é fincar os pés na terra natal, numa postura ativista.

Saindo da temática do pasargadismo, encontramos outra expressiva manifestação de interesse pelo Brasil neste poema de Jorge Barbosa, umas das mais generosas demonstrações de carinho pelo nosso país:

Você, Brasil

Eu gosto de você, Brasil,

porque você é parecido com a minha terra.

Eu bem sei que você é um mundão

e que a minha terra são

dez ilhas perdidas no Atlântico,

sem nenhuma importância no mapa.

Eu já ouvi falar de suas cidades:

A maravilha do Rio de Janeiro,

São Paulo dinâmico, Pernambuco, Bahia de Todos-os-Santos.

Ao passo que as daqui

Não passam de três pequenas cidades.

Eu sei tudo isso perfeitamente bem,

mas Você é parecido com a minha terra.

 

E o seu povo que se parece com o meu,

que todos eles vieram de escravos

com o cruzamento depois de lusitanos e estrangeiros.

E o seu falar português que se parece com o nosso falar,

ambos cheios de um sotaque vagaroso,

de sílabas pisadas na ponta da língua,

de alongamentos timbrados nos lábios

e de expressões terníssimas e desconcertantes.

É a alma da nossa gente humilde que reflete

A alma de sua gente simples,

 

Ambas cristãs e supersticiosas,

Sentindo ainda saudades antigas

dos serões africanos,

compreendendo uma poesia natural,

que ninguém lhes disse,

e sabendo uma filosofia sem erudição,

que ninguém lhes ensinou.

 

E gosto dos seus sambas, Brasil, das suas batucadas.     

dos seus cateretês, das suas todas de negros,

caiu também no gosto da gente de cá,

que os canta dança e sente,

com o mesmo entusiasmo

e com o mesmo desalinho também…

As nossas mornas, as nossas polcas, os nossos cantares,

fazem lembrar as suas músicas,

com igual simplicidade e igual emoção.

 

Você, Brasil, é parecido com a minha terra,

as secas do Ceará são as nossas estiagens,

com a mesma intensidade de dramas e renúncias.

Mas há no entanto uma diferença:

é que os seus retirantes

têm léguas sem conta para fugir dos flagelos,

ao passo que aqui nem chega a haver os que fogem

porque seria para se afogarem no mar…

 

Nós também temos a nossa cachaça,

O grog de cana que é bebida rija.

Temos também os nossos tocadores de violão

E sem eles não havia bailes de jeito.

Conhecem na perfeição todos os tons

e causam sucesso nas serenatas,

feitas de propósito para despertar as moças

que ficam na cama a dormir nas noites de lua cheia.

Temos também o nosso café da ilha do Fogo

que é pena ser pouco,

mas — você não fica zangado — é melhor do que o seu.

 

Eu gosto, de Você, Brasil.                                          

Você é parecido com a minha terra.

O que é é tudo e à grande

E tudo aqui é em ponto mais pequeno…

Eu desejava ir-lhe fazer uma visita

mas isso é coisa impossível.

Eu gostava de ver de perto as coisas

espantosas que todos me contam

de Você,

de assistir aos sambas nos morros,

de esta cidadezinha do interior

que Ribeiro Couto descobriu num dia de muita ternura,

de me deixar arrastar na Praça Onze

na terça-feira de Carnaval.

Eu gostava de ver de perto um lugar no Sertão,

de apertar a cintura de uma cabocla — Você deixa? —

e rolar com ela um maxixe requebrado.

Eu gostava enfim de o conhecer de mais perto

e você veria como é que eu sou bom camarada

 

Havia então de botar uma fala

ao poeta Manuel Bandeira

de fazer uma consulta ao Dr. Jorge de Lima

para ver como é que a poesia receitava

este meu fígado tropical bastante cansado.

Havia de falar como Você

Com um i no si

— “si faz favor —

de trocar sempre os pronomes para antes dos verbos

— “mi dá um cigarro!”.

Mas tudo isso são coisas impossíveis, — Você sabe?

Impossíveis.

De acordo com Simone Caputo Gomes, essa aproximação de Cabo Verde com a literatura brasileira pode ser explicada  assim:

“Ao assumir a afinidade com o Brasil e sua cultura mestiça e autônoma, os escritores […] evidenciaram a sua determinação em refletir-se em (e por meio de) outros espelhos, mais próximos porque detentores de um itinerário histórico igualmente colonizado.”

Bem, as leituras lusófonas prosseguem por aqui. Logo mais haverá post para as leituras de férias.

Escritores comentam sobre a variedade linguística

Importantíssima entrevista com Marcelino Freire e Cristóvão Tezza, em maio de 2011, para o programa Entre Aspas (Globo News), em que os dois reconhecidos escritores contemporâneos rechaçam a posição estreita e conservadora que as mídias  têm em geral em relação ao uso e ao ensino da Língua Portuguesa no Brasil.

Vale a pena conferir.

Uma particularidade da língua portuguesa, por Cláudio Moreno

rápida e silenciosamente

Leia e veja por que -MENTE não pode ser classificado como um sufixo comum.

Uma leitora de Porto Alegre (muito jovem, a julgar por seu estilo pitoresco e pela forma com que assinou a mensagem — “Gauchinha”) escreve para pedir mais detalhes sobre uma construção que, segundo suas próprias palavras, acaba de descobrir: “Eu nunca tinha reparado nisso, mas num romance que estou lendo chamou minha atenção a hora em que o vampiro mais sábio fala calmapausadaesolenemente. Comentei com minha mãe, que lembrou que a gente usa todo dia a expressão pura e simplesmente, que deve ser mais ou menos a mesma coisa. Isso é obrigatório? Quando usamos uma carreirinha de advérbios de modo, só o último pode ganhar o sufixomente?”.

Não, prezada Gauchinha, obrigatório não é — mas é recomendável. Como acontece com a maior parte dos sufixos de nosso idioma, menteé tônico, e sua reiteração cria um efeito desagradável para o ouvido; costumamos, por isso, deixar o sufixo para o último advérbio da “carreirinha”, como dizes. Nos bons escritores podes encontrar centenas de exemplos semelhantes — “sacudiram tão feliz e animosamente o jugo” (Vieira); “elegante e simplesmente cortada” (Garrett); “poderia amar-te tranqüila e livremente” (Bernardo Guimarães); “Olhou fria e longamente para a inglesa”; “Estavam mudados física e moralmente” (Machado); “Achava aquilo, como ele dissera, pura e simplesmente insensato” (Eça de Queirós). Em determinados momentos, no entanto — e aqui se percebe a fineza do ouvido do escritor, que busca obter um efeito especial  —, o sufixo aparece em ambos os advérbios: “sem dizer uma palavra, sem fazer um só gesto, lentamente esilenciosamente se retirou para dentro de casa” (Garrett); “Depois, ainda falou gravemente e longamente sobre a promessa que fizera” (Machado); “A vogal, símbolo gráfico da interjeição primitiva, nascidaespontaneamente instintivamente do sentimento” (Raul Pompéia); “Sobre a calva tinha duas repas de cabelo, laboriosamente esingularmente arranjadas” (Eça de Queirós).

Ora, como pode acontecer algo tão esquisito? Como podemos desconjuntar assim uma palavra, separar seus elementos constitutivos e usar apenas um deles no lugar do todo? É evidente que são poucas — ao menos em nossa língua — as ocorrências dessa curiosa operação que alguns lingüistas chamam de “fatoração”. É bem conhecida, por exemplo, a autonomia de que desfrutam certos prefixos: em vez de “macroeconômico e microeconômico”, podemos falar em micro emacroeconômico — da mesma forma que pré e pós-fixado, intra eextramuros, hipo e hipercalórico, bi e trifásico, pró e antiaborto. O número de casos, contudo, é bastante limitado.

O mesmo não acontece com mente, que é plenamente “fatorável”, como percebeu nossa Gauchinha. Este elemento, tradicionalmente considerado um sufixo, é, na verdade, o nosso conhecido substantivomente, que se combina com adjetivos para formar legítimos vocábulos compostos (suave+mente, clara+mente, feliz+mente). Nos manuscritos medievais portugueses, muitos copistas ainda deixavam um espaço em branco entre os dois elementos, escrevendo calma menteserenamente, etc.; poderia ser assim até hoje, pois, como explica Mattoso Câmara, foi por mera convenção da língua escrita que passamos a grafar os dois vocábulos como um só. O processo é tão regular que os dicionários dele se aproveitam para economizar espaço; ao registrarsuave e triste, por exemplo, sabem que não é necessário registrarsuavemente ou tristemente.

Pois é exatamente essa condição de vocábulo composto que permite a coordenação de dois ou mais adjetivos: em silenciosa, furtiva e rapidamente, o substantivo mente só precisa aparecer no final daseqüência. Pelo mesmo motivo, também, silenciosofurtivo e rápidoestão na sua forma feminina, cumprindo o ritual obrigatório da concordância dos adjetivos com o substantivo que acompanham (é bom lembrar que os adjetivos que participam dessas construções devem manter, quando estão sozinhos, sua grafia costumeira, com acento e tudo: cômoda e confortavelmente, rápida e silenciosamente).

 

“Literatura tipo exportação”, de Rodrigo Lacerda

Transcrevo abaixo um importante artigo de Rodrigo Lacerda sobre a situação atual da ficção brasileira no exterior, extraído da revista Metáfora (número 5, fevereiro de 2012, editora Segmento. p. 16-18).

Literatura tipo exportação

Às vésperas de o Brasil ser homenageado na Feira de Frankfurt, em 2013, um impasse: ou atendemos à busca do exotismo pedido pelo mercado externo em nossa literatura ou nos mantemos na essência de nossa criação ficcional

[1]POR RODRIGO LACERDA

Há mais ou menos vinte anos, o agente literário que se dispusesse a representar autores brasileiros junto a editoras estrangeiras, tentando levar nossos livros de ficção a serem publicados lá fora, era visto como uma espécie de empresário de artistas esquisitos e exóticos. Um escritor brasileiro equivaleria a um maestro com mal de Parkinson, ou a um sapateador perneta. A língua portuguesa nunca havia ganhado um Prêmio Nobel e era menosprezada nos grandes centro do mundo.

Drummond e João Cabral mal haviam sido traduzidos no exterior, e o próprio Machado de Assis era desconhecido. Jorge Amado, a única exceção fazia sucesso pelo mundo graças ao seu imenso talento, claro, e também por seus vínculos com a inteligência comunista internacional. Mas tal sucesso, explica-se, sobretudo, por uma leitura quase antropológica que se fazia de seu universo ficcional e, por extensão, de nossa realidade nacional.

Nessa época, na famosa Feira de Livros de Frankfurt (…), onde profissionais do ramo editorial se encontram para comprar e vender direitos de tradução, os editores brasileiros atuavam meramente como compradores. Raramente ouvia-se falar de direitos de publicação de um romance brasileiro sendo negociado na França, na Alemanha, na Espanha etc.

O melhor exemplo de como os grandes centros editoriais eram, em geral, avessos a adquirir obras estrangeiras, eu vi certa vez, ao passar, na frente do estande de uma importante editora francesa. Os dois funcionários encarregados de fazer essas negociações estavam sentados em suas respectivas mesas, mas o contraste entre eles não poderia ser maior.

De um lado, estava uma francesinha típica: magrinha, bem penteada, bem vestida, perfumada e com um colarzinho de pérolas. Do outro, um francês, gordo, malajambrado, com caspa caindo pelos ombros do paletó e fumando um cachimbo fedorento (ainda se faziam essas coisas nos locais fechados). Era, enfim, um buldogue assustador. Encontrando a editora-chefe daquela casa editorial, comentei, brincando, que não dava para entender tamanha disparidade entre os dois funcionários escolhidos para estarem ali. Ela, com a maior naturalidade, me respondeu: “Claro que dá para entender. Ela está aqui para vender; ele, para comprar.”

Hoje, no que se refere ao mercado europeu, a situação mudou para muito melhor. Muitos autores brasileiros, às vezes até estreantes, têm seus livros vendidos para um ou mais países do Velho Continente. Os mais bem-sucedidos comercialmente, ou os que não mais estudados nos departamentos de língua portuguesa nas universidades estrangeiras, recebem convites para palestras, residências, feiras e eventos literários de todo tipo.

No que se refere ao mercado norte-americano, as dificuldades continuam ainda maiores.

O público americano não tem familiaridade com escritores brasileiros, e não faz muita questão de tê-la. Contudo, junto à crítica e ao meio universitário, Machado de Assis já recebeu por lá seus devidos louros, Clarice Lispector furou a barreira recentemente, João Ubaldo Ribeiro, Márcio Souza, Moacyr Scliar, Milton Hatoum e alguns outros, poucos, conseguiram abrir essa porta para a difusão da nossa cultura.

Em outubro de 2013, o Brasil será novamente o país homenageado da Feira de Frankfurt. Além disso, “ignorando-se as gritantes diferenças nos índices que medem a qualidade de vida dos povos”, nosso país está num momento economicamente mais favorável, ao menos aos olhos de europeus e americanos, cujas economias estão em frangalhos. O Brasil está na moda lá fora. Espera-se, portanto, que até 2013 os editores estrangeiros com autores brasileiros em seu catálogo sintam-se animados a ampliar o repertório, e os que ainda não os tenham, que deixem de moleza.

Contudo, na Feira de Frankfurt de 2011, realizada em outubro passado, ouvi falar de episódios que me fizeram entender um pouco melhor como essa absorção de nossa literatura pelo público estrangeiro está se dando. Uma compatriota nossa, contratada por uma das maiores editoras alemãs justamente para resenhar e indicar livros brasileiros para publicação, me disse: “Eles continuam procurando o exotismo: mulatas, carnaval, selva, samba etc.”

Um editor brasileiro, que visitou uma grande casa editorial alemã levando uma lista de títulos que lhe pareciam interessantes para aquele mercado, ouviu outro surpreendente critério de seleção:

“Ele ficou chocado como os romances brasileiros são curtos. E disse que nenhum romance com menos de 300 páginas pode ser grande coisa, pois é sinal de que o escritor não se soltou.”

Por fim, um colega escritor ouviu de uma agente literária americana:

“Eu pessoalmente gostei do seu livro, mas achei o andamento da ação muito lento. Ainda estou procurando o livro de um autor brasileiro que agarre o leitor como um tigre, rápida e impiedosamente.”

Como se vê, ainda que alguns grandes nomes de nossa literatura tenham furado as barreiras, ainda que alguns de nossos jovens autores estejam fazendo suas estreias lá fora, os editores e agentes estrangeiros estão sendo obrigados a se abrir para o “filão” brasileiro e, ao mesmo tempo, procurar nele obras que satisfaçam os padrões de gosto tradicionais do público de seus respectivos países. Isso é natural, sem dúvida, mas pode acabar gerando visões bastante distorcidas da literatura brasileira.

Contexto urbano e realista

Hoje, por exemplo, nossa literatura é majoritariamente urbana e realista. Logo, o livro de apelo exótico pinçado aqui e acolá pode parecer representar uma tendência mais forte do que ela realmente é. Nossos romancistas, em geral, não escrevem mesmo livros com mais de 250 páginas, a maioria dele é ainda menor.

Isso certamente se deve às condições materiais de produção, muito mais desfavoráveis para os nossos escritores que para os deles, mas, creio, tem relação também com a própria natureza dos textos aqui produzidos, em geral mais intimistas que os romances de entretenimento tão comuns nos mercados estrangeiros. Impor o critério do número de páginas pode fazer sentido lá, mas certamente não faz aqui (a não ser que os editores queiram dar razão aos críticos que dizem não estar se produzindo nada de bom entre nós).

Por fim, a evolução de nossa literatura não caminhou no mesmo sentido da literatura americana, de ritmo narrativo mais acelerado, daí parecer deslocada a expectativa de que um romance ataque ao público como um tigre.

Vamos ver no que vai dar. De qualquer forma, o momento é promissor para a literatura brasileira. Cabe a nós continuar produzindo sem nos preocuparmos com nada disso, sem procurarmos atender a exigências externas e satisfazer curiosidades alheias.

Ou acabaremos enchendo linguiça em nossos romances só para atingirmos as 350 páginas, ou reforçando estereótipos culturais ultrapassados. Foi o que fizemos na última vez em que o Brasil foi o país homenageado na Feira de Frankfurt, nos anos 1990, quando a exposição que montamos sobre nosso país não passava de fotos publicitárias da Amazônia, do desfile na Marquês de Sapucaí, do Pelé e do Ayrton Senna. Isso para não falar das mulatas que, de peito de fora, distribuíam caipirinhas aos convidados (é sério, eu vi com esses olhos que a terra há de comer).


[1] Rodrigo Lacerda é escritor, editor e tradutor. Autor de Outra vida. 

90 de 22 (2): “Oswaldo, Oswáld, Ôswald”, de Antonio Candido

Leia o famoso artigo de Antonio Candido, publicado na Folha de São Paulo em 21 de março de 1982.

O texto esclarece a grande confusão em torno da pronúncia do autor modernista.

Segue abaixo a reprodução parcial do artigo, a partir do livro Recortes (Rio de Janeiro, Ouro Sobre Azul, 2004):

Oswaldo, Oswáld, Ôswald

Oswáld de Andrade, cujo nome completo era José Oswáld de Souza Andrade (já se verá por que estou acentuando), achava graça na lenda segundo a qual ele teria alterado por excentricidade modernista o verdadeiro prenome, supostamente Oswaldo. Imaginem o que diria se pudesse saber que hoje é chamado cada vez mais – Ôswald, com acento na primeira sílaba… Paulo Emílio Salles Gomes disse certa vez que os homens da nossa idade estavam assistindo ao nascimento de um mito, tão afastado da realidade que até revestia designação própria, fazendo Oswáld virar Ôswald…

Portanto, Oswáld ou Oswaldo, como se dizia correntemente, achava graça no boato, e para mostrar a sua insubsistência explicava (segundo escreveu depois nas memórias) que herdara os prenomes do pai, José Oswáld (não Oswaldo) Nogueira de Andrade, e que esta forma peculiar fora iniciativa da avó, natural de Baependi e leitora do romance Corina, de Madame de Staël, onde a heroína assim chamada sofre e morre de amor por Oswald, lord Nelvil, escocês romântico (…) Tudo faz crer que o gosto não era individual, apenas da avó de Oswald, porque naquele canto do sul de Minas tornou-se frequente usar os nomes dos dois protagonistas. Ainda mais: houve gente com a mesma singularidade de adotar a forma inglesa, como se vê pela lista dos eleitores de Aiuruoca, cidade vizinha de Baependi, onde figura nos anos de 1880 um João Oswáld Diniz Junqueira (…)

Esta forma forma inglesa se manteve na família do nosso escritor por três gerações, sempre pronunciada Oswáld, à brasileira (como certamente pronunciaria também, mas aí à francesa, Madame de Staël), até o pintor Oswáld de Andrade Filho, que se chama José Antônio Oswáld. Portanto, se excentricidade houve foi da avó, em meados do século passado, não do neto.

Essa avó era Antônia Nogueira Cobra, trineta pelo pai do capitão-mor Tomé Rodrigues Nogueira do Ó, ilhéu da Madeira, que casou em Guaratinguetá com Maria Leme do Prado, e foi pró-homem em Baependi no começo do século XVIIII, fundando uma família enorme, espalhada até hoje por Minas, São Paulo e Rio. (…)

Dona Antônia casou em Baependi com Hipólito José de Andrade, de outra imensa família daquela zona, fazendeiro que perdeu os bens e abriu para sobreviver um pequeno hotel em Caxambu (Oswáld conta nas memórias a tristeza dele vendo as filhas servirem a mesa dos hóspedes). Para São Paulo veio um filho do casal, o referido José Oswáld Nogueira de Andrade, conhecido como seu Andrade, que depois de muita luta se destacou, foi vereador, fez fortuna com iniciativas de loteamento e urbanização arrojadas para o tempo. Já maduro casou com Inês Inglês de Sousa, paraense, irmã do autor d’ O missionário. (…)

Mas aqui não interessa a genealogia, e sim o nome, que como ficou dito é usual em famílias da zona de Baependi desde a geração de seu Andrade, e se espalhou com as migrações dessas famílias. É provável que muitas pessoas de lá, a partir de 1820, tenham lido ou ouvido falar do romance de Madame Staël, e por isso deram com certa frequência aos filhos a denominação dos protagonistas.

Nas famílias Nogueira e Andrade, que eram as de Oswáld pelo lado do pai, e também Junqueira, muito ligada a ambas, encontramos diversos xarás dele, mas (com uma ou outra exceção) na forma vernaculizada. Por exemplo: Nas memórias e tradições da família Junqueira, de Frederico de Barros e Brotero, vemos em 1883 um José Oswaldo Diniz Junqueira a pedir dispensa para casar com parenta. Folheando por alto este livro, vemos que surgem depois: um quase homônimo, José Oswaldo de Andrade Junqueira, dois Oswaldos de Andrade Junqueira, um Oswaldo Martins de Andrade. Dezenas de outros tinham o nome e não o sobrenome, como os seguintes parentes dele (…): Domingos Oswaldo Gorgulho Nogueira, Oswaldo Gomes Nogueira, Oswaldo Gomes de Carvalho. Atualmente, um dos mais famosos peritos e criadores de cavalo manga-larga se chama José Oswaldo Junqueira. Por aí vemos que daquela zona saiu e se espalhou um gosto acentuado pelo prenome de lord Nelvil, isolado ou combinado a outros.

Pensando sempre na informação de Oswáld sobre a escolha da avó, conclui-se que ela tem maior alcance e vale também para explicar um gosto que é grupal e regional; e a favor disto há uma contraprova: na mesma zona, nessas e outras famílias, aparecem Corinas que são irmãs, primas, tias de Oswaldos, podendo daí saírem casais, por causa da endogamia. O referido Oswaldo Gomes de Carvalho, por exemplo, primo de Oswáld em terceiro grau, era casado com uma tia, Corina Nogueira Cobra, prima em segundo grau de Oswáld. (…) Na escolha de nomes para os filhos, o dos personagens femininos de ficção costumava acompanhar os masculinos, como as Floripes irmãs dos Oliveiros e dos Roldões, com base na História do imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França. Ou, já no século XX, as Lígias irmãs dos Vinícius e/ou dos Petrônios, numa trinca que seguia a voga imensa do romance Quo vadis?, de Sienkiewicz.

De modo que a imaginação romanesca de dona Antônia Nogueira Cobra se enquadra na imaginação do seu meio e grupo, aos quais ela e mais alguma outra mãe talvez tenham querido dar certa satisfação, ao compensarem o  preciosismo da forma inglesa, pela junção pacificadora dos banais João ou José. Conta Oswáld nas memórias que no caso do seu pai foi exigência do vigário, que recusou batizá-lo com nome estranho ao hagiológico corrente sem a compensação de um mais garantido. E isto mostra que aquelas senhoras de Baependi e Aiuruoca estavam sendo inovadoras, estavam introduzindo um nome antes inexistente por lá e que depois se tornou quase banal. Seja como for, a combinação de José com Oswáld constitui um discrepância associada a uma transigência, para forma o nome que seria no futuro de um grande rebelde.

No uso corrente formou-se uma transigência a mais a vista deste, porque toda a gente, como ficou dito, retificava na fala Oswáld para Oswaldo. Ligado ao sobrenome o prenome gerou ainda outro compromisso, que levava a aumentar a indecisão quanto à grafia, pois a pronúncia desprevenida era e é Oswál’ de Andrade. Mas sempre, como se vê, com a tônica na segunda sílaba, até que começasse essa bobagem de Oswald, que com certeza vai ficar e predominar, como tantas outras. Na peça sobre “os alegres rapazes e a sua semana de arte moderna” Carlos Queiroz Telles já a tinha denunciado implicitamente. Nela, quando o chamam Ôswald, o personagem brada de mau humor: “Oswáld!”.

Estas considerações e informações não são tão intempestivas quanto podem parecer. É preciso fazê-las, porque senão a moda pega e na próxima geração, quando estiver sendo por sua vez devidamente trabalhado pela lenda, Drummond pode virar Drúmon, se algum sabido decidir que a pronúncia de seu nome escocês deve ser reajustada.