Literatura brasileira em Cabo Verde

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A literatura cabo-verdiana estabeleceu um importante diálogo com o Modernismo brasileiro, tanto o dos anos 20 quanto o de 30.

Entre os autores que foram lidos nas ilhas, destacam-se Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queirós, Ribeiro Couto e Manuel Bandeira – este último acabou por se transformar em uma espécie de patrimônio cultural cab0-verdiano a partir principalmente de seu poema Vou-me embora pra Pasárgada:

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

É Osvaldo Alcântara (pseudônimo poético de Baltasar Lopes) quem inicia a série do pasargadismo cabo-verdiano:

Itinerário de Pasárgada

Saudade fina de Pasárgada…

Em Pasárgada eu saberia 

onde é que Deus tinha depositado 

o meu destino…

E na altura em que tudo morre…

(cavalinhos de Nosso Senhor correm no céu;

a vizinha acalenta o sono do filho rezingão;

Tói Mulato foge a bordo de um vapor;

o comerciante tirou a menina de casa;

os mocinhos de minha rua cantam:

Indo eu, indo eu

a caminho de Viseu…)

Na hora em que tudo morre,

esta saudade fina de Pasárgada

é um veneno gostoso dentro do meu coração.

O pasargadismo de Osvaldo Alcântara será entendido como evasionista e escapista, e encontrará críticos: por retratar o homem cabo-verdiano sem apontar soluções para os seus problemas.

Para o escritor e estudioso Manuel Ferreira, no entanto, o pasargadismo deve ser visto como:

“[…] desejo manifestado da fuga à degradada situação colonial que encarcerava o horizonte à juventude pensante e interrogadora. Era um protesto. Um desdém. Não é de mais dizer: era a fuga à erosão colonial, mas não era voltar as costas à cabo-verdianidade.”

Seja como for, os autores da geração seguinte, agrupados em torno da revista Certeza, de 1944, recusarão o dilema ir/ficar, num posicionamento mais assertivo e de engajamento sócio-político mais intenso, como podemos ver nesses versos de Ovídio Martins:

ANTI-EVASÃO

 

Pedirei

Suplicarei

Chorarei

 

Não vou para Pasárgada

 

Atirar-me-ei ao chão

E prenderei nas mãos convulsas

Ervas e pedras de sangue

 

Não vou para Pasárgada

 

Gritarei

Berrarei

Matarei

 

Não vou para Pasárgada

O estatuto dado a Pasárgada nesse caso é diferente: espaço renunciado, abortado dos anseios, renegado como fantasia luxuosa. A escolha do eu-lírico no poema de Ovídio Martins é fincar os pés na terra natal, numa postura ativista.

Saindo da temática do pasargadismo, encontramos outra expressiva manifestação de interesse pelo Brasil neste poema de Jorge Barbosa, umas das mais generosas demonstrações de carinho pelo nosso país:

Você, Brasil

Eu gosto de você, Brasil,

porque você é parecido com a minha terra.

Eu bem sei que você é um mundão

e que a minha terra são

dez ilhas perdidas no Atlântico,

sem nenhuma importância no mapa.

Eu já ouvi falar de suas cidades:

A maravilha do Rio de Janeiro,

São Paulo dinâmico, Pernambuco, Bahia de Todos-os-Santos.

Ao passo que as daqui

Não passam de três pequenas cidades.

Eu sei tudo isso perfeitamente bem,

mas Você é parecido com a minha terra.

 

E o seu povo que se parece com o meu,

que todos eles vieram de escravos

com o cruzamento depois de lusitanos e estrangeiros.

E o seu falar português que se parece com o nosso falar,

ambos cheios de um sotaque vagaroso,

de sílabas pisadas na ponta da língua,

de alongamentos timbrados nos lábios

e de expressões terníssimas e desconcertantes.

É a alma da nossa gente humilde que reflete

A alma de sua gente simples,

 

Ambas cristãs e supersticiosas,

Sentindo ainda saudades antigas

dos serões africanos,

compreendendo uma poesia natural,

que ninguém lhes disse,

e sabendo uma filosofia sem erudição,

que ninguém lhes ensinou.

 

E gosto dos seus sambas, Brasil, das suas batucadas.     

dos seus cateretês, das suas todas de negros,

caiu também no gosto da gente de cá,

que os canta dança e sente,

com o mesmo entusiasmo

e com o mesmo desalinho também…

As nossas mornas, as nossas polcas, os nossos cantares,

fazem lembrar as suas músicas,

com igual simplicidade e igual emoção.

 

Você, Brasil, é parecido com a minha terra,

as secas do Ceará são as nossas estiagens,

com a mesma intensidade de dramas e renúncias.

Mas há no entanto uma diferença:

é que os seus retirantes

têm léguas sem conta para fugir dos flagelos,

ao passo que aqui nem chega a haver os que fogem

porque seria para se afogarem no mar…

 

Nós também temos a nossa cachaça,

O grog de cana que é bebida rija.

Temos também os nossos tocadores de violão

E sem eles não havia bailes de jeito.

Conhecem na perfeição todos os tons

e causam sucesso nas serenatas,

feitas de propósito para despertar as moças

que ficam na cama a dormir nas noites de lua cheia.

Temos também o nosso café da ilha do Fogo

que é pena ser pouco,

mas — você não fica zangado — é melhor do que o seu.

 

Eu gosto, de Você, Brasil.                                          

Você é parecido com a minha terra.

O que é é tudo e à grande

E tudo aqui é em ponto mais pequeno…

Eu desejava ir-lhe fazer uma visita

mas isso é coisa impossível.

Eu gostava de ver de perto as coisas

espantosas que todos me contam

de Você,

de assistir aos sambas nos morros,

de esta cidadezinha do interior

que Ribeiro Couto descobriu num dia de muita ternura,

de me deixar arrastar na Praça Onze

na terça-feira de Carnaval.

Eu gostava de ver de perto um lugar no Sertão,

de apertar a cintura de uma cabocla — Você deixa? —

e rolar com ela um maxixe requebrado.

Eu gostava enfim de o conhecer de mais perto

e você veria como é que eu sou bom camarada

 

Havia então de botar uma fala

ao poeta Manuel Bandeira

de fazer uma consulta ao Dr. Jorge de Lima

para ver como é que a poesia receitava

este meu fígado tropical bastante cansado.

Havia de falar como Você

Com um i no si

— “si faz favor —

de trocar sempre os pronomes para antes dos verbos

— “mi dá um cigarro!”.

Mas tudo isso são coisas impossíveis, — Você sabe?

Impossíveis.

De acordo com Simone Caputo Gomes, essa aproximação de Cabo Verde com a literatura brasileira pode ser explicada  assim:

“Ao assumir a afinidade com o Brasil e sua cultura mestiça e autônoma, os escritores […] evidenciaram a sua determinação em refletir-se em (e por meio de) outros espelhos, mais próximos porque detentores de um itinerário histórico igualmente colonizado.”

Bem, as leituras lusófonas prosseguem por aqui. Logo mais haverá post para as leituras de férias.

“Terra sonâmbula”, de Mia Couto


Capa da edição de 2007 da Companhia das Letras, na qual se encontra a seguinte nota: “A editora optou por manter a grafia do português de Moçambique”

Eis um livro que há pouco tempo não teria a menor chance de figurar no  Prefácio como uma indicação entusiasmada.

Passei a evitar Mia Couto após ler alguns textos da antologia Estórias abensonhadas, a qual conheci em 2002 e cujo título me pareceu de muito mau gosto. Terra sonâmbula, embora, ao contrário, sempre me tenha soado um bom título sedutor – belo achado ao gosto dos surrealistas ou do realismo mágico latino-americano -, não era suficiente para levar de novo ao autor.

Eis-me agora, dez anos depois, apaixonado por Terra sonâmbula, paixão intrigante porque implicou um processo de transformação conceitual e perceptiva, uma verdadeira revisão de gosto estético que, para ser franco, raras vezes experimento.

Além de ler um livro que me entusiasmou, Terra sonâmbula foi para mim uma espécie de renascimento como leitor. Considerei a experiência tão rica que, antes de abordar alguns aspectos da obra propriamente, gostaria de fazer uma explanação.  Peço licença ao leitor para isso.

Desejo versus dever?

É muito difundida a ideia – principalmente entre leitores mais jovens – de que a leitura obrigatória é desagradável, de que a obrigação torna menos intensa a relação do leitor com o livro ou diminui sua disposição para ler.

Não compartilho dessa opinião. Vou dizer meus motivos.

Como professor há mais de uma década, vejo brotar, a cada ano letivo, novos leitores apaixonados por obras que lhes chegaram às mãos por conta da “imposição” do programa escolar de leituras. Doistoiévski, Flaubert, Baudelaire, Kafka, Fitzgerald, Camus, Salinger, Fante, Philip Roth, Camões, Machado, Graciliano, Guimarães, Drummond, Bandeira, Cabral, Gullar, para ficar somente em alguns, durante todos estes anos vêm encontrando, “apesar” da  obrigatoriedade, trazendo alegrias evidentes, até mesmo leitores devotos.

Ponho “apesar” entre aspas porque acredito – como o poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz e como a estudiosa brasileira Leyla Perrone-Moisés (que são, acima de tudo, dois grandes leitores) – que o ato de leitura é necessariamente também um ato de trabalho.

Acredito que as paixões fulminantes não nascem exclusivamente da escolha. Se assim fosse, as multidões que têm a TV como única fonte de vivência estética poderiam ser explicadas como um caso de opção, e não – o que acredito ser um motivo considerável – por uma falta estrutural de investimento e de sustentação de uma cultura de lazer. Quando falo em falta estrutural não penso só no governo e nas suas escolas, mas também na imprensa, sobretudo na TV – maior usina de lazer e de fomentação do imaginário nacional -, que tem consciência de sua missão formativa (e inclusive se arroga disso) enquanto, contraditoriamente, insiste na exibição do besteirol diário sob a leviana alegação de que se trata do “gosto do povo” e de que ela – TV- apenas procura atender o desejo das multidões.  (Também os grandes tiranos usaram e ainda usam dessa justificativa para cometer barbaridades impunes).

A contradição é evidente: para formar cidadãos,  é fundamental desafiar o senso comum, abdicar do sucesso imediato e seguro (obviamente acompanhado de lucro também imediato e seguro) em nome de uma transformação cultural que é obviamente mais lenta e mais complexa: fazer a multidão de telespectadores apreciar o bom cinema, a boa música, o teatro, a dança, as artes em geral, incluindo – por que não, se alguns raros lampejos de ousadia provam que isso funciona? – a literatura. A TV está empenhada nisso? Obviamente não. Ela não tem, portanto, papel formativo, não está interessada em ousar, em produzir impactos culturais. Está muito mais preocupada em garantir seus lucros.

Ao dizer, como justificativa para a insistência no besteirol, que atende ao  gosto da população, incorre-se em cinismo e também em preconceito. Não creio que todos – pobres e ricos – que digerem essa massa de lixo cultural gostem  propriamente do que vejam. É preciso, no mínimo, considerar a dificuldade de mensurar a preferência de um contingente tão grande de pessoas. Mais difícil ainda quando não há empenho em oferecer alternativas por parte dos que detêm o controle das mídias. Só é possível ter hipóteses: a mais forte para mim, entre outras, é a de que haja tendência a se consumir o que se tem à disposição, pelo que, por aparecer com insistência, acaba sendo visto como melhor.

Voltando ao senso de obrigação. A TV não figura na vida cultural dos indivíduos como um desafio intelectual, cognitivo ou existencial. Basta ligá-la e vê-la, ainda que com desagrado. Ela está longe de ser associada, em nossa sociedade, a uma ideia de dever.

Já o livro representa uma necessidade de entrega, de aclimatação, de predisposição, de participação – ou seja, de trabalho -, sobretudo quando se trata de uma obra de qualidade.

A descoberta de um mundo

“Quantos homens já não iniciaram uma nova era em suas vidas ao ler um livro?”  (Henry David Thoreau)

Quando era adolescente e aluno do ginásio (hoje Ensino Fundamental II), tive como tarefa escolar a leitura do romance Casa de pensão, do escritor maranhense Aluísio Azevedo. Fiquei intrigado com a indicação de uma obra que na época eu considerava antiga (hoje chamaria de literatura moderna).

Eu não era um leitor no sentido pleno da palavra, isto é, eu não decidia por conta o que queria ler. Lia os poucos livros que havia em minha casa – uns dez, no máximo, guardados pela minha mãe, que era e ainda é uma leitora bissexta. Lia também o que emprestavam meus amigos: basicamente livros da Série Vaga-lume da Editora Ática (os maiores de trinta e cinco devem se lembrar da coleção).

O livro de Aluísio Azevedo, que inicialmente me intrigava, em pouco tempo (logo nas primeiras páginas) revelou-se-me uma fonte de imenso prazer.

Lembro até hoje que o professor, sabendo de meu entusiasmo, espantou-se e, um tanto cético, indicou-me também a obra mestra de Aluísio: O cortiço. O livro me encantou ainda mais e me fez chegar ao O mulato,  primeiro romance do autor, além de me tornar, ainda aos quinze anos, um leitor voraz da prosa oitocentista: Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco e outros.

Seria possível reduzir aquela oferta do professor à ideia de “obrigação”? Ou ainda: seria possível classificar o meu esforço (porque obviamente houve esforço) como uma tarefa sem papel significativo, um exercício  mecânico ou burocrático, com a finalidade apenas de agradar os mais velhos?

Não, não, nada disso: costumo pensar que com aquelas leituras começaram, em grande parte, a minha descoberta do mundo.

Esta foi a edição do “Casa de pensão” que li no ginásio, por indicação do professor de Português Dario Macri

Foi justamente uma lista de livros obrigatórios – para uma seleção de mestrado – que me levou à leitura de Terra sonâmbula.

Iniciei a leitura a contragosto, cheio de receios, mas, passadas poucas páginas, vi-me estupefato, impressionado com o texto.

Eis-me então boquiaberto diante de uma obra de Mia Couto, grato ao acaso e à obrigatoriedade da tal lista, que generosamente encaminhou-me para um livro fundamental, quando meu interesse ou meu instinto poderia facilmente derivar para uma outra escolha.

Conclusão: mesmo o leitor mais velho, “escolado”, deve desconfiar de sua capacidade de escolher e de seu poder de resistir ao que é imposto, ao que não é determinado pelas suas listas prévias.

Mais recentemente, como o leitor do Prefácio pode ter notado, vem crescendo minha vontade de conhecer a produção em língua portuguesa europeia e africana, sobretudo a do século XX e XXI. Entre as várias listas de autores que eu mesmo produzi, entretanto, o nome do moçambicano Mia Couto jamais esteve presente. É um autor importante, conhecido, muito citado, publicado por uma grande editora brasileira, a Companhia das Letras. Mas a experiência que tive, há dez anos, com Estórias abensonhadas, foi, desde a leitura do título, um imenso dissabor. Esse pequeno contato foi suficiente para eu passar a detestar o autor e comentar, com quem encontrasse, tratar-se de literatura de baixo quilate, imitação barata de Guimarães Rosa.

Hoje me pergunto se o que experimentei foi dissabor ou puro preconceito.

A mistura como bandeira poética

Com a prosa poética no centro de tudo, Terra sonâmbula fundamenta-se  no cruzamento de registros: o culto e o popular, o escrito e o falado, o mítico e o real.

Esse cruzamento – que se dá no plano imagético, sintático e vocabular -parece provar que esses diferentes registros não se opõem, mas sim se complementam. E essa complementaridade, parece-me, é a principal responsável pela eficácia do discurso.

A desqualificação que se baseia na semelhança da obra de Mia Couto com a de Guimarães Rosa é bastante problemática.

Primeiramente porque parte do pressuposto de que Guimarães Rosa está sozinho em algumas de suas principais escolhas estilísticas, pressuposto que desconsidera o complexo desenvolvimento de nosso Modernismo, que tem a mistura poética de registros como importante bandeira e encontra na prosa do  Mário de Andrade de Macunaíma e Contos de Belazarte um de seus pontos decisivos. Se considerado com cuidado, Mário de Andrade – sobretudo no caso de Belazarte – pode ser visto como manancial decisivo da carpintaria do mestre mineiro. Isso diminui o valor da obra de Guimarães?

A bandeira poética da mistura de registros é um dos aspectos decisivos também na formação da literatura luso-africana, na qual há, além da diversidade social do idioma português, a coexistência dele com vários outros idiomas. Se o modernismo brasileiro figurou como modelo para muitos autores luso-africanos, é mais certo dizer que ele fortaleceu ou intensificou uma tendência do que afirmar que a inaugurou. Suas principais contribuições funcionaram mais como confirmações solidárias do que já havia como busca, interesse latente ou mesmo expressão consolidada na África lusófona. É um caso em que, mais que influência, devemos falar em confluência.

Alargando nosso horizonte referencial, podemos ver que a tentativa de entender e incluir o homem pobre e analfabeto no corpo do discurso literário foi (e é ainda) uma das grandes missões da literatura lusófona. É natural que, nesse conjunto, semelhanças estilísticas apareçam: entre autores como Mário de Andrade, Guimarães Rosa, João Cabral de Mello Neto, José Luandino Vieira,  José Craveirinha, Manuel Ferreira ou Mia Couto.

Acalanto da Mãe-África

Claro, dizer que houve “imitação” é diferente de dizer que houve “imitação barata”, porque a segunda afirmação envolve um aspecto valorativo. Vamos a ele então. Obviamente é o mais difícil, e obviamente não conseguirei esgotá-lo.

Depois de aderir às malhas da sintaxe e sentir-me envolvido em sua musicalidade (sem ainda deixar de estranhar e até me incomodar eventualmente com algumas combinações lexicais, confesso), ocorreu-me que o livro, ao abordar a realidade de miséria e violência extremas, corria o risco de ser um exercício de embelezamento do mal, um discurso compensatório e oportunista, e que se encaixaria portanto na expressão feliz que a crítica de cinema Ivana Bentes usou para caracterizar parte da produção cinematográfica brasileira dos últimos anos:  “cosmética da fome” (1).

Eu me perguntava então se Terra sonâmbula se Terra sonâmbula seria mais um exemplo de tal categoria estética. A questão foi, ao longo da leitura, minha principal inquietação: seria o livro de Mia Couto um  exercício de estetização da precariedade, da dor, da violência e da miséria alheia, isto é, seria um movimento de aceitação, relativização da barbárie, transformado-a em música aprazível?

Terminado o livro, minha resposta agora é: NÃO.

Não se pode dizer que Terra sonâmbula atenua a tragicidade da realidade que representa. Se a leitura do mundo é marcado pela poesia, essa poesia está longe de significar embelezamento enganador, está longe de esconder o aspecto trágico dos acontecimentos e de ludibriar o leitor.

Sofrimento, dureza, violência, precariedade, falta. O incômodo permanece ao longo de toda a narrativa. A “estetização da barbárie” – no sentido de relativização ou diluição das tensões – não caracteriza absolutamente a obra de Mia Couto.

Publicação da editora  portuguesa Caminho, 2004

Minha redescoberta do mundo  

O livro se divide em dois núcleos narrativos.

Um deles é a história do garoto Muidinga e do velho Tuahir. Os dois  perambulam por um cenário de devastação, marcado pelo cheiro da morte, até que se abrigam na carcaça de um ônibus, onde dividem espaço com corpos carbonizados. O menino, temeroso, reclama; o velho, que dissimula preocupação e carinho com gestos e palavras ríspidas, exige silêncio, paciência resignação.

Um sinal de alento aparece entre esses dois:  é a leitura que Muidinga faz de uns cadernos que encontraram numa mala abandonada. São as notas de Kindzu, e constituem o segundo núcleo da história.

Os cadernos de Kindzu se intercalam com os capítulos da peregrinação sem rumo de Muidinga e Tuahir.

A narrativa do menino e do velho corresponde a um presente estático, com sua paisagem imóvel, a atmosfera de morte, indecisão,  desesperança. Já o núcleo de Kindzu é marcado por ações e por procuras mais específicas, ou seja, é um núcleo mais dinâmico. Essa variação de movimentos dá ritmo à composição de Mia Couto.

O núcleo de Tuahir e Muidinga é marcado mais pelas consequências da guerra, como se fosse o resultado de um processo. No núcleo de Kindzu o que vemos é o próprio processo se desenvolvendo: a guerra, suas abominações,  disputas, as idas e vindas de uma população que já não sabe mais dormir e portanto sonhar. Uma população sonâmbula.

Kindzu é ainda capaz de sonhar e, com seus escritos, compartilhar seus sonhos:

“Ponho o sonho, em sua selvagem desordem: eu estava descendo um vale molhado de tanta luz, cheio de manhã. Aquela parecia a primeira madrugada do mundo. A luz se espantava de sua própria estreia, experimentando sua grandeza ao iluminar as mais pequenas coisas. As cores, de tanto serem novas, se cambiavam incessantemente. Foi então que vi avançar um enorme grupo de pessoas, pobres, embrulhadas em cascas e fiapos. Eram centenas de centenas. Foram-me enchendo o sono À frente seguia o feiticeiro da minha aldeia. Envergava uma sarapilheira encardida, cujos farrapos poeiravam pelo chão. O adivinho olhou a terra como se dele dependesse o destino do universo. Pesava nos seus olhos a gravíssima decisão de criar um outro dia.”

Os escritos de Kindzu representam, para o velho e o menino, novos horizontes. Somente a palavra, em Terra sonâmbula, tem o poder de reordenar a existência, de ressignificá-la, acordar seus sentidos. É ela a única resposta ao sonambulismo da terra.

A certa altura, Tuahir comenta:

“O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.”

O escritor moçambicano Mia Couto nasceu em Beira, em 1955

E foi o próprio Mia Couto quem disse:

“Para se libertar da prisão que é a realidade fechada com a chave da razão, é preciso desvalorizar suas paredes”, (palestra de Mia Couto na UFMG, em julho de 2007)

Misturando mito e história, narrativa e poesia, Mia Couto oferece com Terra sonâmbula um monumento de inusitada beleza. Uma beleza que oferece à barbárie o único elemento que a literatura possui: a palavra. Essa arma indestrutível.

(1) Com esse termo Ivana Bentes procurou contrastar criticamente parte da produção atual do cinema brasileiro com a “estética da fome”, defendida por Gláuber Rocha nos anos 60.

Leituras de férias

Como é tradição do Prefácio,  retorno das férias comentando as leituras que fiz no período em que andei afastado das atividades docentes.

Dessa vez foram leituras dedicadas a escritores estrangeiros de língua portuguesa.

Comecei por Predadores, do angolano Pepetela, publicado pela Língua Geral na coleção Ponta-de-Lança (Rio de Janeiro, 2008).

Como já observei em outros posts, a leitura de textos escritos na língua portuguesa falada fora do eixo Brasil-Portugal já é, em si mesma, uma experiência fascinante, que ando procurando cultivar intensamente.

No caso da leitura de Predadores, o fascínio foi garantido com a ajuda da Língua Geral, cujo proposta se vê pela nota à edição:

“Respeitam-se integralmente, nesta edição brasileira de Predadores, as singularidades lexicais, ortográficas e sintáticas do português de Angola.”

O texto de Pepetela flui deliciosamente, seu exame psicológico em geral é convincente (algumas vezes incomodou-me o tom caricatural).

Predadores aborda a história recente de Angola – da descolonização à instauração do regime socialista – como um processo catastrófico que culimou no puro e simples favorecimento de grupos oportunistas, os quais se apropriaram da máquina do Estado para enriquecer, deixando à míngua os projetos revolucionários.

Numa máquina estatal burocrática, mantida por indivíduos preocupados exclusivamente em melhorar suas próprias condições, praticando para isso inclusive crimes graves, o sonho revolucionário se esvai e o espaço fica livre para os mais inescrupulosos interesses, como os de Vladimiro Caposso, protagonista do livro.

Para onde vão então – o leitor se pergunta – os sonhos revolucionários que animaram, não só Angola, mas boa parte daquela África que se descolonizava e buscava encontrar, aos trancos e barrancos, mas com esperança, um destino mais humano?

Na trama de Predadores alguns indivíduos continuam defendendo ideais humanitários; mas suas ações isoladas, embora persistentes, não conseguem converter-se num projeto. No fundo, são apenas gestos que confirmam o diagnóstico que o livro parece sustentar: o de que intenções humanitárias não combinam com Estados socialistas.

O livro me deixou intrigado, indeciso, e até desconfiado, com a mesma reação que tive com outras obras que procuram examinar criticamente as experiências do que se convencionou chamar “socialismo real”: o filme A vida dos outros (2006), do diretor alemão Florian Henckel von Donnersmarck, o livro Libertação, do escritor húngaro Sándor Márai (que, embora em 1945, foi publicado somente após a morte do autor, em 1989).

Questões que me surgem depois de conhecer obras como essas: será que as populações pobres de países como Hungria, Alemanha e Angola teriam alcançado melhores condições de vida sem a experiência do socialismo? Será que essa experiência (agora pensando particularmente no Leste Europeu) não foi a responsável por pautar de outro modo – mais crítico pelo menos – o destino desses países? Última pergunta – e talvez a mais importante: as populações pobres desses países ganharam melhores condições de vida depois da Queda do Muro? Parece-me que não, considerando o desmantelamento do estado de bem-estar social vivido por quase todos os países europeus.

Enfim, começo a pensar que, num mundo como o nosso – que cada vez abre menos espaço para a crítica às desigualdades estruturais produzidas pela lógica capitalista – a insistência em se associar comunismo a barbárie é um caminho simplificador e, convenhamos, bem conveniente para outros tantos ‘predadores’.

A minha segunda leitura de férias foi O ano da morte de Ricardo Reis (1984), de José Saramago.

O autor português, como muitos sabem, sempre exigiu que as edições de sua obra no Brasil saíssem sem qualquer revisão, de modo que ler Saramago significa sempre entrar em contato com um dos mais gloriosos prazeres literários para um leitor brasileiro: o duplo movimento identificação-diferenciação, o de transportar-se para outra língua sem sair da sua.

Minha paixão pela literatura desse autor surgiu exatamente há vinte anos, em 1992, quando O evangelho segundo Jesus Cristo era quase moda entre alguns círculos de leitores. A paixão se confirmou logo depois, com a leitura de Manual de pintura e caligrafia e, mais recentemente, com O memorial do convento.

Para os leitores de Fernando Pessoa, O ano da morte de Ricardo Reis pode ser um verdadeiro fetiche. Saramago – num desafio ousado, do qual, acredito, sai vitorioso – procura dar continuidade  à história do heterônimo pessoano. Vejamos que jogo intricado é esse: um ser inventado (Ricardo Reis) teve a sua não-vida inconclusa pelas mãos de seu criador (Fernando Pessoa). Outro criador (José Saramago) tomou para si a missão de reanimar essa não-vida para dar-lhe de volta aquilo que ela sempre teve: uma vida apenas literária. A lógica se complexifica ainda mais quando levamos em conta que: a personagem Ricardo Reis no livro de Saramago é, fundamentalmente, um não-ser, alguém apartado do que existe à sua volta. Uma personagem que procura o tempo todo alhear-se de tudo o que venha a pesar sobre seus ombros, num estoicismo egocêntrico e mesmo doentio.

Vertiginoso? Sim, e ainda mais quando se vê que a intenção fundamental de Saramago é desafiar a impassibilidade desse ser, atirando-o contra a força da mundanidade, com toda sua violência e prazer:  como se quisesse dar-lhe vida (humana) finalmente.

Vertiginoso? E mais ainda se considerarmos que a sintaxe saramaguiana são como corredores compridos ou escadas encaracoladas que perdemos o fôlego para percorrer, e de onde não se sai tão facilmente.

Sim, e também é vertiginoso ver Ricardo Reis encontrando Fernando Pessoa, que existiu de facto, mas que, no tempo da narrativa, está morto. Ou seja: o não-ser (que nunca existiu) dialoga com um ser (que existiu) morto.

É supreendente a naturalidade com que Saramago – em sua fingida imparcialidade, com aquele risinho machadiano que  escapa sobretudo ao final dos períodos – aborda a diferença entre a vida e a morte – uma diferença mínima; ele nos parece dizer algo como: a diferença que separa um homem vivo de um morto não é maior do que a que separa um homem vivo de outro homem vivo.

Também é surpreendente a relação que Saramago estabelece entre as convicções monarquistas de Ricardo Reis e o contexto da ascensão do fascismo na Península Ibérica e Europa como um todo – relação que talvez seja uma das razões de ser do livro de Saramago.

Sair desse livro e querer voltar para as páginas da história do Salazarismo é quase inevitável. É também inevitável revisitar, não só a obra de Ricardo Reis, mas de todo o Fernando Pessoa, coisa que vem sempre a calhar.

É isso. Fico por aqui.

Como prometido, registrei minhas leituras de férias com breve impressões a respeito.

Deixo agora a palavra com o leitor: para que registre, nos comentários, suas leituras de férias, como no semestre passado, formando uma espécie de fórum.

Em tempo:

– as fotos espalhadas pelo post são de André Kertèsz, que publicou em 1971 o livro On reading: são flagrantes de pessoas lendo, em diversas posições e situações.

– que este ano de Drummond (nascido em 1902) e da Semana de 22 (que completa seus 90 anos), seja também o ano de muitas leituras, grandes experiências estéticas e muitas aprendizagens.

Abraço a todos.

NOTA: Li somente depois de ter postado o texto, no Estadão de hoje, que o famoso crítico Massaud Moisés acredita que a ideologia em Saramago limitou sua literatura. Respeito demais a erudição do Prof. Massaud Moisés, cujos manuais sempre me ajudaram muito, mas, sinceramente, não consigo ver o homem senão como ser ideológico. Negar a ideologia é, para mim, como negar a racionalidade ou a subjetividade. É uma batalha (positivista ou neoclássica) perdida. Ficaria mais bonito, para o universo das Musas, se Saramago, em vez de ideologia (vermelha!) tivesse ‘cosmovisão’? Poxa, mas aí chama o Bilac, por favor.