Cinefilia – dicas de filmes

No dia em que descobrirmos o mistério da poesia, descobriremos também o mistério da música.

É mais ou menos com essas palavras que o estudioso Segismundo Spina aborda a relação íntima que existe entre essas duas artes em seu livro Na madrugada das formas poéticas (Ateliê, 2002).

Para quem se interessa por essa riquíssima relação é fundamental assistir ao documentário Palavra encantada (2009), de Helena Solberg.

Valendo-se de entrevistas e depoimentos de mestres da música brasileira, tanto os clássicos quanto os mais jovens, o filme explora a profícua ligação entre palavra falada e palavra cantada.

O tema é tão bom e tão rico que poderia render uma verdadeira série, com muitas horas de filme. O único senão que fica para o documentário é, portanto, o “gostinho de quero mais”.

Vejam aqui o trailer:

“Desnorteio”, de Paula Fábrio, na TV São Judas

O grande romance de estreia da escritora Paula Fábrio – uma das experiências mais intensas que tive como leitor nos últimos tempos – é abordado, ao lado de Boatos do Corpo, de Marcelo Donatti, no programa Arteletra Literatura.

Os dois títulos foram publicados pela editora Patuá, que vem realizando com protagonismo um investimento sério em autores estreantes.

Confiram a entrevista.

Retorno das férias: e as leituras

Foram muitas, essa é a verdade, caros leitores, as leituras de dezembro e janeiro.

Comecei o percurso lendo os poemas de Outro dia de folia, de Eduardo Lacerda, editor da Patuá, amigo meu e, segundo sua maior mentira, um não-poeta. Antes todos os poetas fossem não-poetas como ele!

folia

 

Os poemas de Eduardo Lacerda combinam bem o trabalho da lapidação, do cuidado na escolha com o efeito de espontaneidade, a impressão de um feliz acaso.

O eu-lírico, satírico, delicado ou melancólico, conduz o leitor para um abismo de dúvidas e desalentos, deixando escapar, na maior parte das vezes, um irresistível risinho de tudo.

 

Depois vieram as leituras teóricas.

Primeiramente, o brilhante livro de ensaios Cultura e sociedade no Brasil, de Carlos Nelson Coutinho (editora Expressão Popular). Uma abordagem lúcida e esclarecedora do processo de formação de nossa cultura, abordagem por vezes vinculada diretamente a escritores fundamentais para a construção do elemento “nacional-popular” na literatura brasileira, como Lima Barreto e Graciliano Ramos.  Leitura formativa, importantíssima.

Em segundo lugar, li Graciliano Ramos: um escritor personagem, de Maria Izabel Brunacci (editora Autêntica). Obra importante que relaciona as formas literárias do autor às estruturas sociais direta ou indiretamente vinculadas a elas. As reflexões sobre a particularidade da modernização no Brasil – seguindo a trilha de Sérgio Buarque de Holanda – são também significativas e dão boas lições.

Ainda no tópico Graciliano Ramos, tive a oportunidade de ler o livro Retrato fragmentado (editora Globo), de Ricardo Ramos, biografia de rara beleza e intensidade. Os “cacos” de memórias do filho de Graciliano oferecem-nos, em seu conjunto,  uma visão complexa e desmitificadora do escritor alagoano a partir de uma visão “de dentro” e portanto, muito especial. Alguns aspectos pessoais de Graciliano são, para seus leitores inveterados, imperdíveis.

retrato

Quem me instigou a ler o livro foi ninguém menos que Ricardo Ramos Filho, criatura gentilíssima, com quem tenho a honra de compor um grupo de estudos sobre a obra de Graciliano Ramos lá na USP. Bela dica, Ricardo, finalmente saldei minha dívida com essa leitura obrigatória.

Entre as muitas descobertas, o livro de Ricardo Ramos me fez conhecer um Graciliano apaixonado pela prosa de Marques Rebelo. Era o que faltava para fechar meu percurso de férias: li Os melhores contos de Marques Rebelo (editora Global).

Uma surpresa, uma grata surpresa tomar contato com a prosa tão viva do escritor carioca, uma espécie de Machado de Assis com frescor modernista.

rebelo

As narrativas de Rebelo conduzem o leitor pelo Rio de Janeiro dos anos 30 e 40 de modo tão vivo e realista que é inevitável a sensação de deslocamento no espaço e no tempo.

Destaco os contos Oscarina Estela me abriu a porta, que passaram a fazer parte definitivamente do que conheço de melhor na prosa em língua portuguesa. Um espetáculo narrativo! Cativante, divertido e comovente.

 

Não é à toa que o velho Graça dedicou-lhe tantos elogios.

E vocês, queridos leitores, o que têm a dizer desta vez ao Prefácio?

Dez anos de Cooperifa

Mais uma modesta homenagem do Prefácio a este audacioso projeto cultural e literário que nasceu na periferia de São Paulo e que tem ganhado cada vez mais espaços.

Parabéns a Sérgio Vaz  e a todos os que apoiam direta e indiretamente a Cooperifa, que este ano comemora uma década de existência.

“A morte do editor”, de Luiz Schwarcz

Reproduzo abaixo o interessante texto de Luiz Schwarcz, publicado no Blog da Companhia. 

O tema mais discutido no momento no mercado editorial, principalmente nos Estados Unidos, é o self-publishing: as publicações digitais feitas diretamente pelos autores, sem a participação de qualquer editora. Em português, podemos chamá-las de “edições independentes”, ou “auto-edições”, numa tradução mais literal. Recentemente, o jornal inglês The Guardian divulgou que 28% dos livros da lista de mais vendidos  do New York Times eram oriundos do tal self-publishing. Do jeito que a coisa vai, não tardarão as matérias sobre a “morte dos editores”, manifestações e movimentos, tipicamente americanos, por no-publishersou algo do gênero.

Acho que o tema dá o que pensar e vale ser tratado com a maior isenção possível. (O Publishnews acaba de publicar uma matéria sobre o mesmo assunto, que você pode ler aqui . Escrevi este post antes de ler o artigo, e resolvi manter como estava.)

O sucesso extraordinário de livros que surgiram de auto-publicações como Cinquenta tons de cinza (traduzido e lançado no Brasil pela Intrínseca), ou Toda sua  (em breve nas livrarias brasileiras pela Editora Paralela), tem agitado o mercado editorial.

Não se trata ainda de discutir a divisão dos direitos autorais nos livros digitais, assunto igualmente polêmico, mas de pensar se caminhamos para um mundo sem livros físicos e, por conseguinte, sem editoras. A Amazon, a mais forte vendedora de livros eletrônicos no mundo, incentiva com veemência o movimento de auto-publicação. Além dela, uma série de outras empresas especializadas na prestação de serviços para autores que visam esse fim surgiram nos últimos tempos e vêm realizando um movimento financeiro digno de nota.

Imagino que o leitor desta coluna espere de mim uma crítica ao self-publishing, e uma defesa do papel do editor no mundo contemporâneo. Talvez decepcionarei parcialmente a alguns, pelo que se segue:

Se, por um lado, mais do que acredito, eu espero que o livro físico não venha a deixar de existir, por outro entendo que o mundo se abre enormemente com as publicações digitais independentes. Hoje em dia, é fácil e barato ter um livro publicado. Sendo esse o desejo de boa parte dos mortais, qual o mal em ver sonhos realizados, em tornar acessível o poder de expressão da maneira mais livre e direta? Durante meus anos de aluno de graduação na FGV fui fascinado pelas teorias anarquistas de representação política direta, que conheci nas aulas de um professor generoso chamado Maurício Tragtenberg. Na época, minhas leituras favoritas iam dos anarquistas russos a Foucault e Goffman, críticos das instituições que se interpunham entre os homens, e do forte teor de disciplinarização inerente a elas. Embora meus gostos políticos e literários tenham mudado com o tempo, não tenho como não ver com bons olhos um mundo de publicações diretas, de leitores que se transformam facilmente em autores e divulgam suas ideias livremente.

No entanto, em se tratando da literatura mais elaborada, imaginar um mundo sem editores não é muito bom. O trabalho do editor sério, como profissional especializado na ligação entre autor e leitor, melhora a qualidade dos livros em vários sentidos. Num mundo sem esse elo, os livros ofertados pela novas possibilidade eletrônicas aumentarão sensivelmente, o que é positivo, mas certamente perderemos em qualidade de texto e reflexão. O leitor deixará de ter um guia importante para as suas escolhas de leitura, e o autor ficará sem seu maior aliado.

Além disso, no campo dos livros mais populares — onde os maiores fenômenos do self-publishing acontecem —, as vendas se multiplicaram significativamente depois que os lançamentos deixaram de ser feitos de maneira independente e passaram a fazer parte do catálogo das grandes editoras. Nesse caso, houve pouca contribuição para a melhoria dos textos por parte dessas editoras, que pescaram os sucessos espontâneos e apenas lhes deram novas roupagens. No entanto, o incremento das vendas se deu em espiral natural mas também pelo bom trabalho de marketing da Knopf Doubleday, que publicou Fifty shades após a edição independente, e da Berkley, que fez o mesmo com Bared to you. Outra razão surpreendente do aumento das vendas pós self-publishing é a ligação entre as edições digitais e de papel. Por incrível que possa parecer, em vez de competirem por um mesmo mercado, uma edição ajuda a outra. Parte dos leitores do livro digital compra também a edição em papel.

Se uma parcela dos editores dedica grande parte do seu trabalho para a descoberta de livros de puro entretenimento, isto é, para encontrar o que a grande massa de leitores quer ler, o alto índice de sucessos que surge das publicações espontâneas coloca em dúvida a eficiência do mercado editorial, principalmente de língua inglesa. Quem se auto-publica ou teve seu livro recusado por vários editores ou não conseguiu chegar a eles ou, o que é ainda pior, não confiou nos profissionais do ramo.

Vale também refletir sobre uma piora gradativa na qualidade literária dos livros que têm atingido esses enormes índices de leitura. Serão estes nocivos à propagação da boa literatura, ou, pelo contrário, funcionarão como porta de entrada de um novo público que não alcançávamos? Um livro mais elaborado, mesmo que de leitura fácil, encontra hoje maiores dificuldades para entrar nas listas de mais vendidos, preenchidas por livros de apelo mais imediato. Pioraram os livros, pioraram os editores comerciais ou pioramos todos? Uma visão mais otimista seria a de que, com o livro digital, apenas aumentou a oferta à disposição do leitor.

Todas essas dúvidas me parecem procedentes e podem tirar um pouco do sono dos que gostam de literatura e querem encontrar um lugar no mundo editorial que parece vir por aí. Não pretendo ter respostas imediatas, apenas compartilhar questões, afinal, esses são temas complexos e novos para todos. Se um mundo sem editores for melhor para os leitores e para a literatura, convido desde já todos que leem este blog para a festa da minha aposentadoria, quando celebraremos a vitória da “literatura direta”! Nessa ocasião, nós editores teremos de ser modestos e entender que nossos dias ficaram no passado.

Temo, porém, que nesta ocasião sentiremos uma grande nostalgia da época em que a literatura era verdadeiramente vigorosa, a ponto de exigir tempo para ser escrita, discutida, trabalhada e só então publicada.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais , entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamadaImprima-se, sobre suas experiências como editor.

“Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, de Beto Brant

Beto Brant é o tipo de diretor com quem mantenho uma fidelidade quase canina.

Vi a maioria de seus filmes no cinema e, mesmo sendo ultimamente um cinéfilo mais amigo das sessões caseiras – na tv ou dvd – que das salas de exibição, na primeira oportunidade que tive fui assistir ao seu novo filme, que está em cartaz ainda em algumas salas de São Paulo.

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é uma adaptação do romance homônimo de Marçal Aquino. Dizer qual dos dois é melhor – o livro ou o filme – é bastante difícil. É também inútil: o filme é uma obra à parte, autônoma.

Claro que explorar a relação entre os dois – livro e filme – pode ser agradável e seguramente enriquecedor, para o cinema e para a literatura. Aliás, na produção de Brant, o tema da adaptação chega a ser obrigatório: suas duas obras-primas O invasor (2001) e Crime delicado (2005) são inspiradas em narrativas literárias, de Marçal Aquino e Sérgio Sant’Anna, respectivamente.

O que considero equivocado é o espectador buscar, numa obra cinematográfica, a exata experiência que viveu ao ler um livro. Fidelidade, no campo da adaptação artística, é uma palavra duvidosa, mesmo em se tratando de Marçal Aquino, um escritor que faz seus livros quase como roteiros de cinema. É sempre bom lembrar que a arte fílmica é algo de outra natureza e, sendo o filme bom ou ruim, deve ser julgado pelo que alcança como objeto relativamente autônomo, desprendido de sua fonte inspiradora.

O livro de Aquino é o mais expressivo para mim de toda a sua obra. Um texto literário envolvente, impactante, devorador. Não indicá-lo ao redigir este post é praticamente impossível. Mas – embora seja essa a vontade da maioria esmagadora dos amantes da literatura, eu incluso – a leitura anterior do livro de Aquino é dispensável para a fruição do filme de Brant. Aliás, nada impede que a primeira experiência seja ver o filme. Nada impede também que ela seja a única.

O que procuro reforçar aqui é a importância de valorizarmos a obra cinematográfica pelo que ela tem a oferecer por si mesma. É muito difundida a ideia de que as adaptações cinematográficas em geral “estragam” os livros em que se inspiram. Em resposta, chamo a atenção para alguns casos expressivos como: Vidas secasA hora da estrelaSão Bernardo, Memórias do cárcere, Céu de estrelas (para ficar apenas em obras brasileiras): se não podemos falar em equivalência ou igualdade qualitativa (mensuração no mínimo ousada), mais difícil é dizer que são filmes que “estragaram” os livros adaptados.

Interessante lembrar a opinião do diretor inglês Alfred Hitchcock, que, com sua característica espirituosidade, dizia que um de seus talentos era transformar maus livros em excelentes filmes…

Enfim, o filme de Beto Brant é um espetáculo à parte, não precisa da obra de Aquino para contentar o espectador.

Minha dica portanto é: vá ao cinema e veja o grandioso filme realizado pelo mais que comprovado talento de Beto Brant, com um elenco primoroso (destaque para a atuação de Gero Camilo e José Carlos Machado, além dos protagonistas, obviamente) e a característica capacidade de Brant de abordar temas decisivos  e profundos – relações humanas e dramas sociais – com a complexidade que eles merecem, sem espaço para a fetichização da violência (Cidade de Deus) ou a visão paternalista da miséria (Central do Brasil) e sem espaço também para maniqueísmos.

Beto Brant sempre acerta no tom.  Por isso, para mim, é o maior, o mais importante cineasta brasileiro de nossos dias.

Abaixo o trailer do filme:

“Literatura tipo exportação”, de Rodrigo Lacerda

Transcrevo abaixo um importante artigo de Rodrigo Lacerda sobre a situação atual da ficção brasileira no exterior, extraído da revista Metáfora (número 5, fevereiro de 2012, editora Segmento. p. 16-18).

Literatura tipo exportação

Às vésperas de o Brasil ser homenageado na Feira de Frankfurt, em 2013, um impasse: ou atendemos à busca do exotismo pedido pelo mercado externo em nossa literatura ou nos mantemos na essência de nossa criação ficcional

[1]POR RODRIGO LACERDA

Há mais ou menos vinte anos, o agente literário que se dispusesse a representar autores brasileiros junto a editoras estrangeiras, tentando levar nossos livros de ficção a serem publicados lá fora, era visto como uma espécie de empresário de artistas esquisitos e exóticos. Um escritor brasileiro equivaleria a um maestro com mal de Parkinson, ou a um sapateador perneta. A língua portuguesa nunca havia ganhado um Prêmio Nobel e era menosprezada nos grandes centro do mundo.

Drummond e João Cabral mal haviam sido traduzidos no exterior, e o próprio Machado de Assis era desconhecido. Jorge Amado, a única exceção fazia sucesso pelo mundo graças ao seu imenso talento, claro, e também por seus vínculos com a inteligência comunista internacional. Mas tal sucesso, explica-se, sobretudo, por uma leitura quase antropológica que se fazia de seu universo ficcional e, por extensão, de nossa realidade nacional.

Nessa época, na famosa Feira de Livros de Frankfurt (…), onde profissionais do ramo editorial se encontram para comprar e vender direitos de tradução, os editores brasileiros atuavam meramente como compradores. Raramente ouvia-se falar de direitos de publicação de um romance brasileiro sendo negociado na França, na Alemanha, na Espanha etc.

O melhor exemplo de como os grandes centros editoriais eram, em geral, avessos a adquirir obras estrangeiras, eu vi certa vez, ao passar, na frente do estande de uma importante editora francesa. Os dois funcionários encarregados de fazer essas negociações estavam sentados em suas respectivas mesas, mas o contraste entre eles não poderia ser maior.

De um lado, estava uma francesinha típica: magrinha, bem penteada, bem vestida, perfumada e com um colarzinho de pérolas. Do outro, um francês, gordo, malajambrado, com caspa caindo pelos ombros do paletó e fumando um cachimbo fedorento (ainda se faziam essas coisas nos locais fechados). Era, enfim, um buldogue assustador. Encontrando a editora-chefe daquela casa editorial, comentei, brincando, que não dava para entender tamanha disparidade entre os dois funcionários escolhidos para estarem ali. Ela, com a maior naturalidade, me respondeu: “Claro que dá para entender. Ela está aqui para vender; ele, para comprar.”

Hoje, no que se refere ao mercado europeu, a situação mudou para muito melhor. Muitos autores brasileiros, às vezes até estreantes, têm seus livros vendidos para um ou mais países do Velho Continente. Os mais bem-sucedidos comercialmente, ou os que não mais estudados nos departamentos de língua portuguesa nas universidades estrangeiras, recebem convites para palestras, residências, feiras e eventos literários de todo tipo.

No que se refere ao mercado norte-americano, as dificuldades continuam ainda maiores.

O público americano não tem familiaridade com escritores brasileiros, e não faz muita questão de tê-la. Contudo, junto à crítica e ao meio universitário, Machado de Assis já recebeu por lá seus devidos louros, Clarice Lispector furou a barreira recentemente, João Ubaldo Ribeiro, Márcio Souza, Moacyr Scliar, Milton Hatoum e alguns outros, poucos, conseguiram abrir essa porta para a difusão da nossa cultura.

Em outubro de 2013, o Brasil será novamente o país homenageado da Feira de Frankfurt. Além disso, “ignorando-se as gritantes diferenças nos índices que medem a qualidade de vida dos povos”, nosso país está num momento economicamente mais favorável, ao menos aos olhos de europeus e americanos, cujas economias estão em frangalhos. O Brasil está na moda lá fora. Espera-se, portanto, que até 2013 os editores estrangeiros com autores brasileiros em seu catálogo sintam-se animados a ampliar o repertório, e os que ainda não os tenham, que deixem de moleza.

Contudo, na Feira de Frankfurt de 2011, realizada em outubro passado, ouvi falar de episódios que me fizeram entender um pouco melhor como essa absorção de nossa literatura pelo público estrangeiro está se dando. Uma compatriota nossa, contratada por uma das maiores editoras alemãs justamente para resenhar e indicar livros brasileiros para publicação, me disse: “Eles continuam procurando o exotismo: mulatas, carnaval, selva, samba etc.”

Um editor brasileiro, que visitou uma grande casa editorial alemã levando uma lista de títulos que lhe pareciam interessantes para aquele mercado, ouviu outro surpreendente critério de seleção:

“Ele ficou chocado como os romances brasileiros são curtos. E disse que nenhum romance com menos de 300 páginas pode ser grande coisa, pois é sinal de que o escritor não se soltou.”

Por fim, um colega escritor ouviu de uma agente literária americana:

“Eu pessoalmente gostei do seu livro, mas achei o andamento da ação muito lento. Ainda estou procurando o livro de um autor brasileiro que agarre o leitor como um tigre, rápida e impiedosamente.”

Como se vê, ainda que alguns grandes nomes de nossa literatura tenham furado as barreiras, ainda que alguns de nossos jovens autores estejam fazendo suas estreias lá fora, os editores e agentes estrangeiros estão sendo obrigados a se abrir para o “filão” brasileiro e, ao mesmo tempo, procurar nele obras que satisfaçam os padrões de gosto tradicionais do público de seus respectivos países. Isso é natural, sem dúvida, mas pode acabar gerando visões bastante distorcidas da literatura brasileira.

Contexto urbano e realista

Hoje, por exemplo, nossa literatura é majoritariamente urbana e realista. Logo, o livro de apelo exótico pinçado aqui e acolá pode parecer representar uma tendência mais forte do que ela realmente é. Nossos romancistas, em geral, não escrevem mesmo livros com mais de 250 páginas, a maioria dele é ainda menor.

Isso certamente se deve às condições materiais de produção, muito mais desfavoráveis para os nossos escritores que para os deles, mas, creio, tem relação também com a própria natureza dos textos aqui produzidos, em geral mais intimistas que os romances de entretenimento tão comuns nos mercados estrangeiros. Impor o critério do número de páginas pode fazer sentido lá, mas certamente não faz aqui (a não ser que os editores queiram dar razão aos críticos que dizem não estar se produzindo nada de bom entre nós).

Por fim, a evolução de nossa literatura não caminhou no mesmo sentido da literatura americana, de ritmo narrativo mais acelerado, daí parecer deslocada a expectativa de que um romance ataque ao público como um tigre.

Vamos ver no que vai dar. De qualquer forma, o momento é promissor para a literatura brasileira. Cabe a nós continuar produzindo sem nos preocuparmos com nada disso, sem procurarmos atender a exigências externas e satisfazer curiosidades alheias.

Ou acabaremos enchendo linguiça em nossos romances só para atingirmos as 350 páginas, ou reforçando estereótipos culturais ultrapassados. Foi o que fizemos na última vez em que o Brasil foi o país homenageado na Feira de Frankfurt, nos anos 1990, quando a exposição que montamos sobre nosso país não passava de fotos publicitárias da Amazônia, do desfile na Marquês de Sapucaí, do Pelé e do Ayrton Senna. Isso para não falar das mulatas que, de peito de fora, distribuíam caipirinhas aos convidados (é sério, eu vi com esses olhos que a terra há de comer).


[1] Rodrigo Lacerda é escritor, editor e tradutor. Autor de Outra vida. 

“Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem”, de Michel Laub

Reproduzo aqui no Prefácio mais um post da divertidíssima série de Michel Laub.

 

Boa leitura.

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (10)

Clarah Averbuck, autora de Vida de gato – “Sempre melhor sozinha e no silêncio. Às vezes levanto da cama depois de posicionada pra dormir entre travesseiros e edredons porque nos momentos de solidão e silêncio é que as ideias começam a se organizar. Quando tenho algum texto para entregar com prazo vou mentalmente trabalhando nele por aí, na feira, no supermercado, no ônibus. Quando chega a hora de escrever já está praticamente pronto. Outros vêm de supetão mesmo. São os que eu mais gosto;  respostas rápidas a inspirações momentâneas ou sentimentos fortes causados por algum outro texto. Sempre os melhores. cummings, como diz meu marido – ou ex-marido, nem eu sei mais, já que vivo no dia da marmota. No dia da marmota não tem texto.”

Douglas Diegues, autor de El astronauta paraguayo – “Para escrever um texto en português selvátiko ou portunhol selvagem tengo necessidades que son manías ou vice-versa. Eis algumas: 1) Estar solo, com las puertas bien trankadas, en un kuarto, escritório, sala kualker.  Con las puertas del kuarto bién trankadas, la imaginacione vagabundea mejor. 2) Estar com las baterias bem carregadas; se estiver medio sonolento, cansado, com dificuldade de concentracione, non vou além dum soneto salvaje. 3) Escrever una primeira vbersione a lápis y después digitar el resultado (cortando ou aumentando) numa vieja notebook sempre ayuda mais que escrever diretamente en la vieja notebook. 4) Tener la sensacione de estar escondido, camuflado, klandestino, nel momento de la escritura, ayjuda bastante; me es impossible escrever em publico, sozinho ou acompanhado, tipo mesa de bar, restaurante, café, choperia, etc.  5) Escrever sentado em apyká, assento guaranitiko de madeira, tipo banquinho, que non es lá muito confortable, para mantener la mente mais desperta, pues que el conforto me dá um sono desenfrenado. 6) Intensa concentracione; sem concentracione nunka me ha salido algo que preste. 7) Escribir com lágrimas paraguaias sinceramente sinceras. 8 ) Saber distinguir que una cosa es poner el guevo y otra es kacarejar. 9) Leer el texto em voz alta com autocrítika afiada como la navalha del niño alien travesti nazi de monopatin rojo.”

Joca Reiners Terron, autor de Do fundo do poço se vê a lua – “Em geral, eu não escrevo. Vivo prorrogando a escritura. Alguém já disse – talvez Donald Barthelme, mas não tenho certeza – que escrever um livro é ganhar o campeonato mundial de natação e não saber nadar quando cair na piscina de novo. Cada livro é um aprendizado, exige a invenção de novos métodos. Agora mesmo, que terminei um romance e preciso começar outro, não sei o que fazer. Ando da sala pro quarto, do quarto pra sala, meio deprimido. Deve ter alguma ética própria nisso, nesse sufoco. Às vezes acho que estou me afogando.”

Raimundo Carrero, autor de O amor não tem bons sentimentos – “Só tenho um hábito quando escrevo: rezo. Como todo bom sertanejo, acredito no Espírito Santo e faço minhas orações. Em geral, não preciso de horários ou circunstâncias. É claro que costumo acordar muito cedo para escrever. E estou sempre fazendo alguma coisa. Ando com uma agenda onde faço anotações. Agora mesmo estou escrevendo um Diário da Criação onde informo tudo o que acontece comigo no plano literário: personagens, cenas, cenários, diálogos, e adianto as informações técnicas: por que uso um diálogo direto ou indireto, qual a necessidade de uma cena – rapidez – ou de um cenário – lentidão. Explico a função e o efeito. Enfim, revelo as estratégias para escrever uma novela. Faço  tudo com muitos detalhes. Prefiro acreditar no trabalho obstinado. Não conheço domingos, feriados ou dias santos: trabalho e trabalho e trabalho. Sempre.”

Rodrigo Lacerda, autor de Outra vida – “Gosto de começar a escrever bem cedo, de manhã. Como não gosto de café, tomo coca-cola, pois cada um tem a cafeína que merece. Num bom dia, posso escrever até cinco, seis horas seguidas, sem levantar da cadeira. Num mau dia, não só não sai nada como começo a achar todos os meus livros anteriores um horror. Então o jeito é sair do escritório e ler, até que algum outro escritor me dê vontade e coragem de escrever novamente. Quando fico mais de uma semana sem escrever nada, deprimo. Quando estou embalado em alguma coisa, todos os problemas parecem menos graves.”

“Escritores e manias”, do blog de Michel Laub

Reproduzo aqui um dos posts da deliciosa série Escritores e manias, do blog do escritor jornalista e editor Michel Laub.

Cem escritores brasileiros e suas manias quando escrevem (15)

Postado em Enquetes, Escritores e manias em 02/12/2010 por Michel Laub

Amilcar Bettega Barbosa, autor de Os lados do círculo – “Minhas manias são para não escrever. Faço de tudo para fugir do momento de escrever. Sou o rei da procrastinação, principalmente quando se trata da escrita. Posso ficar semanas, meses até, sem escrever. Aí, de repente, num só dia sou capaz de escrever uma página. E me sinto o cara mais feliz do mundo. Talvez algumas manias para escrever me ajudassem na disciplina, coisa que absolutamente não tenho. O que tenho são preferências, mas não posso dizer que são condições para escrever, longe disso. Por exemplo : gosto de uma mesa limpa e organizada, mas normalmente ela é uma bagunça; gosto de um incenso queimando, mas quase sempre esqueço de comprar; gosto de escrever de manhã, mas faço quando dá. Ultimamente comecei a escrever em lugares públicos, tipo cafés e bibliotecas. As únicas coisas que não mudam nunca são: 1) escrevo sempre à mão, em cadernos (de preferência com folhas sem linhas) e com caneta tipo roller ball de tinta preta; e 2) não consigo escrever de noite.”

Luiz Alfredo Garcia-Roza, autor de Céu de origamis – “Escrevo no meu escritório, fora de casa, sozinho, durante o dia. Preciso de isolamento e silêncio. Trabalho diretamente no computador, quando muito me sirvo de um borrador onde registro a lápis uma ideia repentina ou uma palavra solta. Quando um bloqueio persiste, saio andando pelo centro da cidade.”

Paulo Henriques Britto, autor de Paraísos artificiais – “Não tenho hora certa para escrever, não tenho nenhum ritual; escrevo de manhã ou de noite, com música ou sem. Poesia escrevo primeiro a caneta num caderno, e depois, quando o poema chega a ser concluído (um em cada vinte dos que inicio, mais ou menos), passo para o computador e imprimo uma cópia. Prosa escrevo direto no computador, e também só imprimo quando dou por pronto.”

Reinaldo Moraes, autor de Pornopopéia – “Escrevo de qualquer jeito, sem música, secundado por uma xícara de café bem forte, se for de manhã, ou por um cigarrinho de artista e uma loirinha gelada (nenhuma daquelas 3 ninfetas, infelizmente), se já for mais de 6 da tarde. Prefiro não escrever minhas coisas à tarde, período do dia que utilizo mais para sestas e leituras. Mas, se estiver no pique, escrevo, sem problemas. Funciono melhor de manhã, às vezes com o sol raiando, e à noite, entre 7 e 1/2 noite – mas não de madrugada. Obviamente, solidão e silêncio são bem-vindos. De resto, é cadeira e mesa para apoiar o notebook, e uma janela ao alcance do olhar que se abra para uma paisagem não excessivamente confinada e opressiva.”

Simone Campos, autora de Amostragem completa – “Eu não dirijo, então escrevo muito em transportes públicos (ou bancos de carona). A letra é ininteligível, primeiro porque ônibus balança muito e segundo porque tenho paranoia de alguém ver o que estou escrevendo. O toque de glamour fica por conta do material empregado, geralmente canetas Lakubo ou Bic 4 cores sobre cadernos Paperblanks. Neles, além de literatura, também copio citações, faço esquemas, defino personagens e tramas… os cadernos acabam rapidinho. Depois passo os textos para o computador. Como agora sou assalariada, acabo entrando pela madrugada e chegando atrasada no trabalho; ou escrevendo no horário de almoço; ou, ainda, no fim de semana. Antes, quando fazia traduções em casa, eu não tinha horário para escrever: agora tenho estado nesse esquema ou-vai-ou-racha. Funciona.”