Cinefilia – dicas de filmes

No dia em que descobrirmos o mistério da poesia, descobriremos também o mistério da música.

É mais ou menos com essas palavras que o estudioso Segismundo Spina aborda a relação íntima que existe entre essas duas artes em seu livro Na madrugada das formas poéticas (Ateliê, 2002).

Para quem se interessa por essa riquíssima relação é fundamental assistir ao documentário Palavra encantada (2009), de Helena Solberg.

Valendo-se de entrevistas e depoimentos de mestres da música brasileira, tanto os clássicos quanto os mais jovens, o filme explora a profícua ligação entre palavra falada e palavra cantada.

O tema é tão bom e tão rico que poderia render uma verdadeira série, com muitas horas de filme. O único senão que fica para o documentário é, portanto, o “gostinho de quero mais”.

Vejam aqui o trailer:

“Desnorteio”, de Paula Fábrio, na TV São Judas

O grande romance de estreia da escritora Paula Fábrio – uma das experiências mais intensas que tive como leitor nos últimos tempos – é abordado, ao lado de Boatos do Corpo, de Marcelo Donatti, no programa Arteletra Literatura.

Os dois títulos foram publicados pela editora Patuá, que vem realizando com protagonismo um investimento sério em autores estreantes.

Confiram a entrevista.

Retorno das férias: e as leituras

Foram muitas, essa é a verdade, caros leitores, as leituras de dezembro e janeiro.

Comecei o percurso lendo os poemas de Outro dia de folia, de Eduardo Lacerda, editor da Patuá, amigo meu e, segundo sua maior mentira, um não-poeta. Antes todos os poetas fossem não-poetas como ele!

folia

 

Os poemas de Eduardo Lacerda combinam bem o trabalho da lapidação, do cuidado na escolha com o efeito de espontaneidade, a impressão de um feliz acaso.

O eu-lírico, satírico, delicado ou melancólico, conduz o leitor para um abismo de dúvidas e desalentos, deixando escapar, na maior parte das vezes, um irresistível risinho de tudo.

 

Depois vieram as leituras teóricas.

Primeiramente, o brilhante livro de ensaios Cultura e sociedade no Brasil, de Carlos Nelson Coutinho (editora Expressão Popular). Uma abordagem lúcida e esclarecedora do processo de formação de nossa cultura, abordagem por vezes vinculada diretamente a escritores fundamentais para a construção do elemento “nacional-popular” na literatura brasileira, como Lima Barreto e Graciliano Ramos.  Leitura formativa, importantíssima.

Em segundo lugar, li Graciliano Ramos: um escritor personagem, de Maria Izabel Brunacci (editora Autêntica). Obra importante que relaciona as formas literárias do autor às estruturas sociais direta ou indiretamente vinculadas a elas. As reflexões sobre a particularidade da modernização no Brasil – seguindo a trilha de Sérgio Buarque de Holanda – são também significativas e dão boas lições.

Ainda no tópico Graciliano Ramos, tive a oportunidade de ler o livro Retrato fragmentado (editora Globo), de Ricardo Ramos, biografia de rara beleza e intensidade. Os “cacos” de memórias do filho de Graciliano oferecem-nos, em seu conjunto,  uma visão complexa e desmitificadora do escritor alagoano a partir de uma visão “de dentro” e portanto, muito especial. Alguns aspectos pessoais de Graciliano são, para seus leitores inveterados, imperdíveis.

retrato

Quem me instigou a ler o livro foi ninguém menos que Ricardo Ramos Filho, criatura gentilíssima, com quem tenho a honra de compor um grupo de estudos sobre a obra de Graciliano Ramos lá na USP. Bela dica, Ricardo, finalmente saldei minha dívida com essa leitura obrigatória.

Entre as muitas descobertas, o livro de Ricardo Ramos me fez conhecer um Graciliano apaixonado pela prosa de Marques Rebelo. Era o que faltava para fechar meu percurso de férias: li Os melhores contos de Marques Rebelo (editora Global).

Uma surpresa, uma grata surpresa tomar contato com a prosa tão viva do escritor carioca, uma espécie de Machado de Assis com frescor modernista.

rebelo

As narrativas de Rebelo conduzem o leitor pelo Rio de Janeiro dos anos 30 e 40 de modo tão vivo e realista que é inevitável a sensação de deslocamento no espaço e no tempo.

Destaco os contos Oscarina Estela me abriu a porta, que passaram a fazer parte definitivamente do que conheço de melhor na prosa em língua portuguesa. Um espetáculo narrativo! Cativante, divertido e comovente.

 

Não é à toa que o velho Graça dedicou-lhe tantos elogios.

E vocês, queridos leitores, o que têm a dizer desta vez ao Prefácio?

Dez anos de Cooperifa

Mais uma modesta homenagem do Prefácio a este audacioso projeto cultural e literário que nasceu na periferia de São Paulo e que tem ganhado cada vez mais espaços.

Parabéns a Sérgio Vaz  e a todos os que apoiam direta e indiretamente a Cooperifa, que este ano comemora uma década de existência.

“A morte do editor”, de Luiz Schwarcz

Reproduzo abaixo o interessante texto de Luiz Schwarcz, publicado no Blog da Companhia. 

O tema mais discutido no momento no mercado editorial, principalmente nos Estados Unidos, é o self-publishing: as publicações digitais feitas diretamente pelos autores, sem a participação de qualquer editora. Em português, podemos chamá-las de “edições independentes”, ou “auto-edições”, numa tradução mais literal. Recentemente, o jornal inglês The Guardian divulgou que 28% dos livros da lista de mais vendidos  do New York Times eram oriundos do tal self-publishing. Do jeito que a coisa vai, não tardarão as matérias sobre a “morte dos editores”, manifestações e movimentos, tipicamente americanos, por no-publishersou algo do gênero.

Acho que o tema dá o que pensar e vale ser tratado com a maior isenção possível. (O Publishnews acaba de publicar uma matéria sobre o mesmo assunto, que você pode ler aqui . Escrevi este post antes de ler o artigo, e resolvi manter como estava.)

O sucesso extraordinário de livros que surgiram de auto-publicações como Cinquenta tons de cinza (traduzido e lançado no Brasil pela Intrínseca), ou Toda sua  (em breve nas livrarias brasileiras pela Editora Paralela), tem agitado o mercado editorial.

Não se trata ainda de discutir a divisão dos direitos autorais nos livros digitais, assunto igualmente polêmico, mas de pensar se caminhamos para um mundo sem livros físicos e, por conseguinte, sem editoras. A Amazon, a mais forte vendedora de livros eletrônicos no mundo, incentiva com veemência o movimento de auto-publicação. Além dela, uma série de outras empresas especializadas na prestação de serviços para autores que visam esse fim surgiram nos últimos tempos e vêm realizando um movimento financeiro digno de nota.

Imagino que o leitor desta coluna espere de mim uma crítica ao self-publishing, e uma defesa do papel do editor no mundo contemporâneo. Talvez decepcionarei parcialmente a alguns, pelo que se segue:

Se, por um lado, mais do que acredito, eu espero que o livro físico não venha a deixar de existir, por outro entendo que o mundo se abre enormemente com as publicações digitais independentes. Hoje em dia, é fácil e barato ter um livro publicado. Sendo esse o desejo de boa parte dos mortais, qual o mal em ver sonhos realizados, em tornar acessível o poder de expressão da maneira mais livre e direta? Durante meus anos de aluno de graduação na FGV fui fascinado pelas teorias anarquistas de representação política direta, que conheci nas aulas de um professor generoso chamado Maurício Tragtenberg. Na época, minhas leituras favoritas iam dos anarquistas russos a Foucault e Goffman, críticos das instituições que se interpunham entre os homens, e do forte teor de disciplinarização inerente a elas. Embora meus gostos políticos e literários tenham mudado com o tempo, não tenho como não ver com bons olhos um mundo de publicações diretas, de leitores que se transformam facilmente em autores e divulgam suas ideias livremente.

No entanto, em se tratando da literatura mais elaborada, imaginar um mundo sem editores não é muito bom. O trabalho do editor sério, como profissional especializado na ligação entre autor e leitor, melhora a qualidade dos livros em vários sentidos. Num mundo sem esse elo, os livros ofertados pela novas possibilidade eletrônicas aumentarão sensivelmente, o que é positivo, mas certamente perderemos em qualidade de texto e reflexão. O leitor deixará de ter um guia importante para as suas escolhas de leitura, e o autor ficará sem seu maior aliado.

Além disso, no campo dos livros mais populares — onde os maiores fenômenos do self-publishing acontecem —, as vendas se multiplicaram significativamente depois que os lançamentos deixaram de ser feitos de maneira independente e passaram a fazer parte do catálogo das grandes editoras. Nesse caso, houve pouca contribuição para a melhoria dos textos por parte dessas editoras, que pescaram os sucessos espontâneos e apenas lhes deram novas roupagens. No entanto, o incremento das vendas se deu em espiral natural mas também pelo bom trabalho de marketing da Knopf Doubleday, que publicou Fifty shades após a edição independente, e da Berkley, que fez o mesmo com Bared to you. Outra razão surpreendente do aumento das vendas pós self-publishing é a ligação entre as edições digitais e de papel. Por incrível que possa parecer, em vez de competirem por um mesmo mercado, uma edição ajuda a outra. Parte dos leitores do livro digital compra também a edição em papel.

Se uma parcela dos editores dedica grande parte do seu trabalho para a descoberta de livros de puro entretenimento, isto é, para encontrar o que a grande massa de leitores quer ler, o alto índice de sucessos que surge das publicações espontâneas coloca em dúvida a eficiência do mercado editorial, principalmente de língua inglesa. Quem se auto-publica ou teve seu livro recusado por vários editores ou não conseguiu chegar a eles ou, o que é ainda pior, não confiou nos profissionais do ramo.

Vale também refletir sobre uma piora gradativa na qualidade literária dos livros que têm atingido esses enormes índices de leitura. Serão estes nocivos à propagação da boa literatura, ou, pelo contrário, funcionarão como porta de entrada de um novo público que não alcançávamos? Um livro mais elaborado, mesmo que de leitura fácil, encontra hoje maiores dificuldades para entrar nas listas de mais vendidos, preenchidas por livros de apelo mais imediato. Pioraram os livros, pioraram os editores comerciais ou pioramos todos? Uma visão mais otimista seria a de que, com o livro digital, apenas aumentou a oferta à disposição do leitor.

Todas essas dúvidas me parecem procedentes e podem tirar um pouco do sono dos que gostam de literatura e querem encontrar um lugar no mundo editorial que parece vir por aí. Não pretendo ter respostas imediatas, apenas compartilhar questões, afinal, esses são temas complexos e novos para todos. Se um mundo sem editores for melhor para os leitores e para a literatura, convido desde já todos que leem este blog para a festa da minha aposentadoria, quando celebraremos a vitória da “literatura direta”! Nessa ocasião, nós editores teremos de ser modestos e entender que nossos dias ficaram no passado.

Temo, porém, que nesta ocasião sentiremos uma grande nostalgia da época em que a literatura era verdadeiramente vigorosa, a ponto de exigir tempo para ser escrita, discutida, trabalhada e só então publicada.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais , entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamadaImprima-se, sobre suas experiências como editor.

“Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, de Beto Brant

Beto Brant é o tipo de diretor com quem mantenho uma fidelidade quase canina.

Vi a maioria de seus filmes no cinema e, mesmo sendo ultimamente um cinéfilo mais amigo das sessões caseiras – na tv ou dvd – que das salas de exibição, na primeira oportunidade que tive fui assistir ao seu novo filme, que está em cartaz ainda em algumas salas de São Paulo.

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é uma adaptação do romance homônimo de Marçal Aquino. Dizer qual dos dois é melhor – o livro ou o filme – é bastante difícil. É também inútil: o filme é uma obra à parte, autônoma.

Claro que explorar a relação entre os dois – livro e filme – pode ser agradável e seguramente enriquecedor, para o cinema e para a literatura. Aliás, na produção de Brant, o tema da adaptação chega a ser obrigatório: suas duas obras-primas O invasor (2001) e Crime delicado (2005) são inspiradas em narrativas literárias, de Marçal Aquino e Sérgio Sant’Anna, respectivamente.

O que considero equivocado é o espectador buscar, numa obra cinematográfica, a exata experiência que viveu ao ler um livro. Fidelidade, no campo da adaptação artística, é uma palavra duvidosa, mesmo em se tratando de Marçal Aquino, um escritor que faz seus livros quase como roteiros de cinema. É sempre bom lembrar que a arte fílmica é algo de outra natureza e, sendo o filme bom ou ruim, deve ser julgado pelo que alcança como objeto relativamente autônomo, desprendido de sua fonte inspiradora.

O livro de Aquino é o mais expressivo para mim de toda a sua obra. Um texto literário envolvente, impactante, devorador. Não indicá-lo ao redigir este post é praticamente impossível. Mas – embora seja essa a vontade da maioria esmagadora dos amantes da literatura, eu incluso – a leitura anterior do livro de Aquino é dispensável para a fruição do filme de Brant. Aliás, nada impede que a primeira experiência seja ver o filme. Nada impede também que ela seja a única.

O que procuro reforçar aqui é a importância de valorizarmos a obra cinematográfica pelo que ela tem a oferecer por si mesma. É muito difundida a ideia de que as adaptações cinematográficas em geral “estragam” os livros em que se inspiram. Em resposta, chamo a atenção para alguns casos expressivos como: Vidas secasA hora da estrelaSão Bernardo, Memórias do cárcere, Céu de estrelas (para ficar apenas em obras brasileiras): se não podemos falar em equivalência ou igualdade qualitativa (mensuração no mínimo ousada), mais difícil é dizer que são filmes que “estragaram” os livros adaptados.

Interessante lembrar a opinião do diretor inglês Alfred Hitchcock, que, com sua característica espirituosidade, dizia que um de seus talentos era transformar maus livros em excelentes filmes…

Enfim, o filme de Beto Brant é um espetáculo à parte, não precisa da obra de Aquino para contentar o espectador.

Minha dica portanto é: vá ao cinema e veja o grandioso filme realizado pelo mais que comprovado talento de Beto Brant, com um elenco primoroso (destaque para a atuação de Gero Camilo e José Carlos Machado, além dos protagonistas, obviamente) e a característica capacidade de Brant de abordar temas decisivos  e profundos – relações humanas e dramas sociais – com a complexidade que eles merecem, sem espaço para a fetichização da violência (Cidade de Deus) ou a visão paternalista da miséria (Central do Brasil) e sem espaço também para maniqueísmos.

Beto Brant sempre acerta no tom.  Por isso, para mim, é o maior, o mais importante cineasta brasileiro de nossos dias.

Abaixo o trailer do filme: