Cinefilia – dicas de filmes

No dia em que descobrirmos o mistério da poesia, descobriremos também o mistério da música.

É mais ou menos com essas palavras que o estudioso Segismundo Spina aborda a relação íntima que existe entre essas duas artes em seu livro Na madrugada das formas poéticas (Ateliê, 2002).

Para quem se interessa por essa riquíssima relação é fundamental assistir ao documentário Palavra encantada (2009), de Helena Solberg.

Valendo-se de entrevistas e depoimentos de mestres da música brasileira, tanto os clássicos quanto os mais jovens, o filme explora a profícua ligação entre palavra falada e palavra cantada.

O tema é tão bom e tão rico que poderia render uma verdadeira série, com muitas horas de filme. O único senão que fica para o documentário é, portanto, o “gostinho de quero mais”.

Vejam aqui o trailer:

Os autores mais bem pagos

 

A Forbes, revista de negócios e economia americana, divulgou a lista dos escritores mais bem pagos do mundo dos últimos doze meses. E.L. James, autora de 50 Tons de Cinza, lidera o ranking com 95 milhões de dólares. James, ex-executiva de TV, ultrapassou nomes habituais da lista, como James Patterson, Danielle Steel e Stephen King.

 

Veja a lista dos 16 autores mais bem pagos:

 

1. E.L. James – US$ 95 milhões
2. James Patterson (O dia da caça) – US$ 91 milhões
3. Suzanne Collins (Jogos vorazes) – US$ 55 milhões
4. Bill O’Reilly (Os últimos dias de Kennedy) – US$ 28 milhões
5. Danielle Steel (O baile) – US$ 26 milhões
6. Jeff Kinney (Diário de um banana) – US$ 24 milhões
7. Janet Evanovich (Um dinheiro nada fácil) – US$ 24 milhões
8. Nora Roberts (Visão mortal) – US$ 23 milhões
9. Dan Brown (O código da Vinci) – US$ 22 milhões
10. Stephen King (Jogo perigoso) – US$ 20 milhões
11. Dean Koontz (O bom sujeito) – US$ 20 milhões
12. John Grisham (O dossiê pelicano) – US$ 18 milhões
13. David Baldacci (Traição em família) – US$ 15 milhões
14. Rick Riordan (Percy Jackson & Os olimpianos) – US$ 14 milhões
15. J.K. Rowling (Harry Potter) – US$ 13 milhões
16. George R.R. Martin (As crônicas de gelo e fogo) – US$ 12 milhões

 

Fonte: http://bibliotecadesaopaulo.org.br

 

 

 

Dez anos de Cooperifa

Mais uma modesta homenagem do Prefácio a este audacioso projeto cultural e literário que nasceu na periferia de São Paulo e que tem ganhado cada vez mais espaços.

Parabéns a Sérgio Vaz  e a todos os que apoiam direta e indiretamente a Cooperifa, que este ano comemora uma década de existência.

“Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, de Beto Brant

Beto Brant é o tipo de diretor com quem mantenho uma fidelidade quase canina.

Vi a maioria de seus filmes no cinema e, mesmo sendo ultimamente um cinéfilo mais amigo das sessões caseiras – na tv ou dvd – que das salas de exibição, na primeira oportunidade que tive fui assistir ao seu novo filme, que está em cartaz ainda em algumas salas de São Paulo.

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é uma adaptação do romance homônimo de Marçal Aquino. Dizer qual dos dois é melhor – o livro ou o filme – é bastante difícil. É também inútil: o filme é uma obra à parte, autônoma.

Claro que explorar a relação entre os dois – livro e filme – pode ser agradável e seguramente enriquecedor, para o cinema e para a literatura. Aliás, na produção de Brant, o tema da adaptação chega a ser obrigatório: suas duas obras-primas O invasor (2001) e Crime delicado (2005) são inspiradas em narrativas literárias, de Marçal Aquino e Sérgio Sant’Anna, respectivamente.

O que considero equivocado é o espectador buscar, numa obra cinematográfica, a exata experiência que viveu ao ler um livro. Fidelidade, no campo da adaptação artística, é uma palavra duvidosa, mesmo em se tratando de Marçal Aquino, um escritor que faz seus livros quase como roteiros de cinema. É sempre bom lembrar que a arte fílmica é algo de outra natureza e, sendo o filme bom ou ruim, deve ser julgado pelo que alcança como objeto relativamente autônomo, desprendido de sua fonte inspiradora.

O livro de Aquino é o mais expressivo para mim de toda a sua obra. Um texto literário envolvente, impactante, devorador. Não indicá-lo ao redigir este post é praticamente impossível. Mas – embora seja essa a vontade da maioria esmagadora dos amantes da literatura, eu incluso – a leitura anterior do livro de Aquino é dispensável para a fruição do filme de Brant. Aliás, nada impede que a primeira experiência seja ver o filme. Nada impede também que ela seja a única.

O que procuro reforçar aqui é a importância de valorizarmos a obra cinematográfica pelo que ela tem a oferecer por si mesma. É muito difundida a ideia de que as adaptações cinematográficas em geral “estragam” os livros em que se inspiram. Em resposta, chamo a atenção para alguns casos expressivos como: Vidas secasA hora da estrelaSão Bernardo, Memórias do cárcere, Céu de estrelas (para ficar apenas em obras brasileiras): se não podemos falar em equivalência ou igualdade qualitativa (mensuração no mínimo ousada), mais difícil é dizer que são filmes que “estragaram” os livros adaptados.

Interessante lembrar a opinião do diretor inglês Alfred Hitchcock, que, com sua característica espirituosidade, dizia que um de seus talentos era transformar maus livros em excelentes filmes…

Enfim, o filme de Beto Brant é um espetáculo à parte, não precisa da obra de Aquino para contentar o espectador.

Minha dica portanto é: vá ao cinema e veja o grandioso filme realizado pelo mais que comprovado talento de Beto Brant, com um elenco primoroso (destaque para a atuação de Gero Camilo e José Carlos Machado, além dos protagonistas, obviamente) e a característica capacidade de Brant de abordar temas decisivos  e profundos – relações humanas e dramas sociais – com a complexidade que eles merecem, sem espaço para a fetichização da violência (Cidade de Deus) ou a visão paternalista da miséria (Central do Brasil) e sem espaço também para maniqueísmos.

Beto Brant sempre acerta no tom.  Por isso, para mim, é o maior, o mais importante cineasta brasileiro de nossos dias.

Abaixo o trailer do filme:

“Literatura tipo exportação”, de Rodrigo Lacerda

Transcrevo abaixo um importante artigo de Rodrigo Lacerda sobre a situação atual da ficção brasileira no exterior, extraído da revista Metáfora (número 5, fevereiro de 2012, editora Segmento. p. 16-18).

Literatura tipo exportação

Às vésperas de o Brasil ser homenageado na Feira de Frankfurt, em 2013, um impasse: ou atendemos à busca do exotismo pedido pelo mercado externo em nossa literatura ou nos mantemos na essência de nossa criação ficcional

[1]POR RODRIGO LACERDA

Há mais ou menos vinte anos, o agente literário que se dispusesse a representar autores brasileiros junto a editoras estrangeiras, tentando levar nossos livros de ficção a serem publicados lá fora, era visto como uma espécie de empresário de artistas esquisitos e exóticos. Um escritor brasileiro equivaleria a um maestro com mal de Parkinson, ou a um sapateador perneta. A língua portuguesa nunca havia ganhado um Prêmio Nobel e era menosprezada nos grandes centro do mundo.

Drummond e João Cabral mal haviam sido traduzidos no exterior, e o próprio Machado de Assis era desconhecido. Jorge Amado, a única exceção fazia sucesso pelo mundo graças ao seu imenso talento, claro, e também por seus vínculos com a inteligência comunista internacional. Mas tal sucesso, explica-se, sobretudo, por uma leitura quase antropológica que se fazia de seu universo ficcional e, por extensão, de nossa realidade nacional.

Nessa época, na famosa Feira de Livros de Frankfurt (…), onde profissionais do ramo editorial se encontram para comprar e vender direitos de tradução, os editores brasileiros atuavam meramente como compradores. Raramente ouvia-se falar de direitos de publicação de um romance brasileiro sendo negociado na França, na Alemanha, na Espanha etc.

O melhor exemplo de como os grandes centros editoriais eram, em geral, avessos a adquirir obras estrangeiras, eu vi certa vez, ao passar, na frente do estande de uma importante editora francesa. Os dois funcionários encarregados de fazer essas negociações estavam sentados em suas respectivas mesas, mas o contraste entre eles não poderia ser maior.

De um lado, estava uma francesinha típica: magrinha, bem penteada, bem vestida, perfumada e com um colarzinho de pérolas. Do outro, um francês, gordo, malajambrado, com caspa caindo pelos ombros do paletó e fumando um cachimbo fedorento (ainda se faziam essas coisas nos locais fechados). Era, enfim, um buldogue assustador. Encontrando a editora-chefe daquela casa editorial, comentei, brincando, que não dava para entender tamanha disparidade entre os dois funcionários escolhidos para estarem ali. Ela, com a maior naturalidade, me respondeu: “Claro que dá para entender. Ela está aqui para vender; ele, para comprar.”

Hoje, no que se refere ao mercado europeu, a situação mudou para muito melhor. Muitos autores brasileiros, às vezes até estreantes, têm seus livros vendidos para um ou mais países do Velho Continente. Os mais bem-sucedidos comercialmente, ou os que não mais estudados nos departamentos de língua portuguesa nas universidades estrangeiras, recebem convites para palestras, residências, feiras e eventos literários de todo tipo.

No que se refere ao mercado norte-americano, as dificuldades continuam ainda maiores.

O público americano não tem familiaridade com escritores brasileiros, e não faz muita questão de tê-la. Contudo, junto à crítica e ao meio universitário, Machado de Assis já recebeu por lá seus devidos louros, Clarice Lispector furou a barreira recentemente, João Ubaldo Ribeiro, Márcio Souza, Moacyr Scliar, Milton Hatoum e alguns outros, poucos, conseguiram abrir essa porta para a difusão da nossa cultura.

Em outubro de 2013, o Brasil será novamente o país homenageado da Feira de Frankfurt. Além disso, “ignorando-se as gritantes diferenças nos índices que medem a qualidade de vida dos povos”, nosso país está num momento economicamente mais favorável, ao menos aos olhos de europeus e americanos, cujas economias estão em frangalhos. O Brasil está na moda lá fora. Espera-se, portanto, que até 2013 os editores estrangeiros com autores brasileiros em seu catálogo sintam-se animados a ampliar o repertório, e os que ainda não os tenham, que deixem de moleza.

Contudo, na Feira de Frankfurt de 2011, realizada em outubro passado, ouvi falar de episódios que me fizeram entender um pouco melhor como essa absorção de nossa literatura pelo público estrangeiro está se dando. Uma compatriota nossa, contratada por uma das maiores editoras alemãs justamente para resenhar e indicar livros brasileiros para publicação, me disse: “Eles continuam procurando o exotismo: mulatas, carnaval, selva, samba etc.”

Um editor brasileiro, que visitou uma grande casa editorial alemã levando uma lista de títulos que lhe pareciam interessantes para aquele mercado, ouviu outro surpreendente critério de seleção:

“Ele ficou chocado como os romances brasileiros são curtos. E disse que nenhum romance com menos de 300 páginas pode ser grande coisa, pois é sinal de que o escritor não se soltou.”

Por fim, um colega escritor ouviu de uma agente literária americana:

“Eu pessoalmente gostei do seu livro, mas achei o andamento da ação muito lento. Ainda estou procurando o livro de um autor brasileiro que agarre o leitor como um tigre, rápida e impiedosamente.”

Como se vê, ainda que alguns grandes nomes de nossa literatura tenham furado as barreiras, ainda que alguns de nossos jovens autores estejam fazendo suas estreias lá fora, os editores e agentes estrangeiros estão sendo obrigados a se abrir para o “filão” brasileiro e, ao mesmo tempo, procurar nele obras que satisfaçam os padrões de gosto tradicionais do público de seus respectivos países. Isso é natural, sem dúvida, mas pode acabar gerando visões bastante distorcidas da literatura brasileira.

Contexto urbano e realista

Hoje, por exemplo, nossa literatura é majoritariamente urbana e realista. Logo, o livro de apelo exótico pinçado aqui e acolá pode parecer representar uma tendência mais forte do que ela realmente é. Nossos romancistas, em geral, não escrevem mesmo livros com mais de 250 páginas, a maioria dele é ainda menor.

Isso certamente se deve às condições materiais de produção, muito mais desfavoráveis para os nossos escritores que para os deles, mas, creio, tem relação também com a própria natureza dos textos aqui produzidos, em geral mais intimistas que os romances de entretenimento tão comuns nos mercados estrangeiros. Impor o critério do número de páginas pode fazer sentido lá, mas certamente não faz aqui (a não ser que os editores queiram dar razão aos críticos que dizem não estar se produzindo nada de bom entre nós).

Por fim, a evolução de nossa literatura não caminhou no mesmo sentido da literatura americana, de ritmo narrativo mais acelerado, daí parecer deslocada a expectativa de que um romance ataque ao público como um tigre.

Vamos ver no que vai dar. De qualquer forma, o momento é promissor para a literatura brasileira. Cabe a nós continuar produzindo sem nos preocuparmos com nada disso, sem procurarmos atender a exigências externas e satisfazer curiosidades alheias.

Ou acabaremos enchendo linguiça em nossos romances só para atingirmos as 350 páginas, ou reforçando estereótipos culturais ultrapassados. Foi o que fizemos na última vez em que o Brasil foi o país homenageado na Feira de Frankfurt, nos anos 1990, quando a exposição que montamos sobre nosso país não passava de fotos publicitárias da Amazônia, do desfile na Marquês de Sapucaí, do Pelé e do Ayrton Senna. Isso para não falar das mulatas que, de peito de fora, distribuíam caipirinhas aos convidados (é sério, eu vi com esses olhos que a terra há de comer).


[1] Rodrigo Lacerda é escritor, editor e tradutor. Autor de Outra vida. 

“O preço do livro”, do programa Entrelinhas (TV Cultura)

O livro no Brasil é muito caro?

Essa pergunta, que serve como mote do programa, acaba por trazer umas tantas outras questões sobre a cultura do livro e da leitura em nosso país.

O programa ainda é interessante por oferecer ao espectador, por meio de entrevistas com editores, explicações didáticas sobre os processos e os custos envolvidos na confecção e comercialização do livro.

Altamente recomendável, para educadores, professores, escritores e leitores.