Leitura no Brasil do século XIX, entrevista com Alexandre Paixão

O século XIX é decisivo para se pensar a formação da literatura e da leitura no Brasil.

Quais eram os leitores do Brasil daquela época? Que tipo de pessoas liam textos literários? Que tipo de textos elas liam? Qual era e como se dava a circulação desses textos?

Essas e outras questões são abordadas na entrevista com o pesquisador da USP Alexandre Paixão, realizada pela Univesp TV e reproduzida aqui no Prefácio:

Último antes das férias

Caros queridos, hora de se levantar da mesa e dar aquele lento e agradável espreguiçar, vestir a bermuda e os chinelos e sair um pouco para a rua, quem sabe ir até a praia.

Hora de ler e de reler, de ver e de rever alguns filmes.

Pessoalmente, ando entusiasmado com autores africanos de língua portuguesa e francesa e com filmes do velho cinema italiano. Os amigos leitores ficam incumbidos de deixarem registradas, nos comentários, quais têm sido suas preferências atuais.

Como despedida do Prefácio ao ano de 2011, publico esta matéria divertida da Revista Trip, indicação de meu querido aluno André Massabki.

Gostei da matéria particularmente por nos fazer pensar no caráter controverso da noção de bom gosto. Insisto sempre na necessidade de lermos criticamente os textos literários, inclusive os mais consagrados pelo cânone acadêmico, e creio que a matéria confirma a importância disso: ver autores renomados – alguns até de modo irresponsável ou mesmo pouco elegante (o que eu não acho em si aprovável), mas quase sempre divertido e inteligente – achincalhando outros autores igualmente renomados é uma forma expressiva de confirmação de que os “imortais” não formam um “time”, com discurso unívoco ou unânime. Pelo contrário, sua noção de qualidade é diversa – mais que isso, é controversa.

Boas férias, boas leituras, bons filmes, boas festas, e, claro, boa preguiça, bons esquecimentos.

AUTOR VERSUS AUTOR

Trinta grandes nomes da literatura criticando duramente outros trinta autores eternos

É muito fácil criticar um autor iniciante ou aquele escritor que nunca teve um grande alcance, ainda mais se o crítico é um escritor veterano e considerado universal por sua importância histórica. Mas tem vezes que sobra até para algumas “vacas sagradas” da literatura universal, mesmo os nomes de maior peso como Dostoievsky, James Joyce ou até Mark Twain.

Nesta semana, o site Flavorwire compilou 30 das mais engraçadas provocações públicas da história literária do Ocidente, colocando autor contra autor em uma lista que, apesar de nem ser tão longa, já dá uma ideia em linhas gerais da opinião real que gênios tem de outros gênios. Na seleção, ninguém escapou das linhas afiadas destes romancistas e poetas que incluem Gustave Flaubert, Vladimir Nabokov, Virginia Woolf, Charles Baudelaire, Truman Capote e Henry James.

Logo abaixo você vê a lista completa de insultos de autores para outros autores, todos eles de renome internacional.

Reprodução

Vladimir Nabokov pronto para a briga

Vladimir Nabokov pronto para a briga

30. Gustave Flaubert (Madame Bovary) sobre George Sand (Mattéa)
“Uma grande vaca recheada de namquim”

29. Robert Louis Stevenson (O Médico e o Monstro) sobre Walt Whitman (Leaves of Grass)
“Ele escreve como um cachorro grande e desengonçado que escapou da coleira e vaga pelas praias do mundo latindo para a lua”

28. Friedrich Nietzsche (Assim Falou Zaratustra) sobre Dante Alighieri (A Divina Comédia)
“Uma hiena que escreu sua poesia em tumbas”

27. Harold Bloom (A Invenção do Humano) sobre J.K. Rowling (Harry Potter)
“Como ler Harry Potter e a Pedra Filosofal? Rapidamente, para começar, e talvez também para acabar logo. Por que ler esse livro? Presumivelmente, se você não pode ser convencido a ler nenhuma outra obra, Rowling vai ter que servir.”

26. Vladimir Nabokov (Lolita) sobre Fyodor Dostoievsky (Crime e Castigo)
“A falta de bom gosto do Dostoievsky, seus relatos monótonos sobre pessoas sofrendo com complexos pré-freudianos, a forma que ele tem de chafurdar nas trágicas desventuras da dignidade humana – tudo isso é muito difícil de admirar”

25. Gertrude Stein (The Making of Americans) sobre Ezra Pound (Lustra)
“Um guia turístico de vila. Excelente se você fosse a vila. Mas se você não é, então não é.”

24. Virginia Woolf (Passeio ao Farol) sobre Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo)
“É tudo um protesto cru e mal cozido”

23. H. G. Wells (Guerra dos Mundos) sobre George Bernard Shaw (Pygmalion)
“Uma criança idiota gritando em um hospital”

22. Joseph Conrad (Coração das Trevas) sobre D.H. Lawrence (Filhos e amantes)
“Sujeira. Nada além de obscenidades.”

21. Lord Byron (Don Juan) on John Keats (To Autumn)
“Aqui temos a poesia ‘mija-na-cama’ do Johnny Keats e mais três romances de sei lá eu quem. Chega de Keats, eu peço. Queimem-o vivo! Se algum de vocês não o fizer eu devo arrancar a pele dele com minhas próprias mãos.”

Reprodução

Virginia Woolf

Virginia Woolf

20. Vladimir Nabokov sobre Joseph Conrad
“Eu não consigo tolerar o estilo loja de presentes de Conrad e os navios engarrafados e colares de concha de seus clichês românticos.”

19. Dylan Thomas (25 Poemas) sobre Rudyard Kipling (The Jungle Book)
“O senhor Kipling representa tudo o que há nesse mundo cancroso que eu gostaria que fosse diferente”

18. Ralph Waldo Emerson (Concord Hymn) sobre Jane Austen (Orgulho e Preconceito)
“Os romances da senhorita Austen me parecem vulgares no tom, estéreis em inventividade artística, presos nas apertadas convenções da sociedade inglesa, sem genialidade, sem perspicácia ou conhecimento de mundo. Nunca a vida foi tão embaraçosa e estreita.”

17. Martin Amis (Experiência) sobre Miguel Cervantes (Dom Quixote)
“Ler Don Quixote pode ser comparavel a uma visita sem data para acabar de seu parente velho mais impossível, com todas as suas brincadeiras, hábitos sujos, reminiscências imparaveis e sua intimidade terrível. Quando a experiência acaba (na página 846 com a prosa apertada, estreita e sem pausa para diálogos), você vai derramar lágrimas, isso é verdade. Mas não de alívio ou de arrependimento e sim lágrimas de orgulho. Você conseguiu!”

16. Charles Baudelaire (Paraísos Artificiais) sobre Voltaire (Cândido)
“Eu cresci entediado na França. E o maior motivo para isso é que todo mundo aqui me lembra o Voltaire… o rei dos idiotas, o príncipe da superficialidade, o antiartista, o porta-voz das serventes, o papai Gigone dos editores da revista Siecle”

15. William Faulkner (A Cidade) sobre Ernest Hemingway (Por Quem os Sinos Dobram)
“Ele nunca sequer pensou em usar uma palavra que pudesse mandar o leitor para um dicionário.”

14. Ernest Hemingway sobre William Faulkner
“Pobre Faulkner. Ele realmente pensa que grandes emoções vem de grandes palavras?”

13. Gore Vidal (O Julgamento de Paris) sobre Truman Capote (A Sangue Frio)
“Ele é uma dona de casa totalmente empenada do Kansas, com todos os seus preconceitos.”

12. Oscar Wilde (O Retrato de Dorian Grey) sobre Alexander Pope (Ensaio sobre a crítica)
“Existem duas formas de se odiar poesia: uma delas é não gostar, a outra é ler Pope.”

Reprodução

Mark Twain, o mestre do humor americano

Mark Twain, o mestre do humor americano

11. Vladimir Nabokov sobre Ernest Hemingway 
“Quanto ao Hemingway, eu li um livro dele pela primeira vez nos anos 40, algo sobre sinos, bolas e bois, e eu odiei.”

10. Henry James (Calafrio) sobre Edgar Allan Poe (Os Crimes da Rua Morgue)
“Se entusiasmar com o Poe é a marca de um estágio decididamente primitivo da reflexão.”

9. Truman Capote sobre Jack Kerouac (On The Road)
“Isso não é escrever. Isso é só datilografar.”

8. Elizabeth Bishop (Norte e Sul) sobre J.D. Salinger (Apanhador no Campo de Centeio)
“Eu odiei o ‘Apanhador no Campo de Centeio’. Demorei dias para começar a avançar, timidamente, uma página de cada vez e corando de vergonha por ele a cada sentença ridícula pelo caminho. Como deixaram ele fazer isso?”

7. D.H. Lawrence sobre Herman Melville (Moby Dick)
“Ninguém pode ser mais palhaço, mais desajeitado e sintaticamente de mau gosto como Herman, mesmo em um grande livro como Moby Dick. Tem algo falso sobre sua seriedade, esse é o Melville.”

6. W. H. Auden (Funeral Blues) sobre Robert Browning (Flautista de Hamelin)
“Eu não acho que Robert Browning era nada bom de cama. Sua mulher também provavelmente não ligava muito pra ele. Ele roncava e devia ter fantasias sobre garotas de 12 anos.”

5. Evelyn Waugh (Memórias de Brideshead) sobre Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido)
“Estou lendo Proust pela primeira vez. É uma coisa muito pobre. Eu acho que ele tinha algum problema mental.”

4. Mark Twain (As Aventuras de Huckleberry Finn) sobre Jane Austen
“Eu não tenho o direito de criticar nenhum livro e eu nunca faço isso, a não ser quando eu odeio um. Eu sempre quero criticar a Jane Austen, mas seus livros me deixam tão bravo que eu não consigo separar minha raiva do leitor, portanto eu tenho que parar a cada vez que eu começo. Cada vez eu eu tento ler Orgulho e Preconceito eu quero exumar seu cadáver e acertá-la na cabeça com seu osso do queixo.”

3. Virginia Woolf sobre James Joyce (Ulisses)
“Ulisses é o trabalho de um estudante universitário enjoado coçando as suas espinhas”

2. William Faulkner sobre Mark Twain
“Um escritor mercenário que não conseguia nem ser considerado da quarta divisão na Europa e que enganou alguns esqueletos literários de tiro-certo com cores suficientemente locais para intrigar os superficiais e preguiçosos.”

1. D.H. Lawrence sobre James Joyce
“Meu deus, que idiota desastrado esse James Joyce é. Não é nada além de velhos trabalhos e tocos de repolho de citações bíblicas com um resto cozido em suco de um jornalismo deliberadamente sujo.”

Vai lá: www.flavorwire.com

Leituras de férias, uma nova enquete

Pintura de Arcimboldo

Caros leitores,

Este post, com o qual reativo o Prefácio para o segundo semestre, tem exclusivamente a finalidade de servir como um fórum sobre leituras de férias, aquelas que fazemos por puro prazer e lazer, sem qualquer preocupação com as exigências (as boas e as ruins) de nossa vida profissional ou acadêmica.

O espaço de comentários, portanto, terá mais importância do que o post em si: deve ser usado e abusado para que haja uma troca interessante de impressões (breves ou longas) de leituras.

Mas deixo, antes de tudo, o registro das minhas, as leituras que eu fiz nestas férias de julho.

São as seguintes.

1. A Louca (Dix Editorial, 2007), de meu amigo e colega de trabalho Del Candeias. Li esse livro num misto de prazer e orgulho. Prazer porque o livro é uma maravilha estética e orgulho porque sou amigo dele, e é bom demais admirarmos esteticamente quem já estimamos pessoalmente.

A Louca é um romance que aborda de modo aberto, autêntico, criativo e divertido o universo da boate de maior reputação da cultura underground da São Paulo dos anos 90/2000: A Lôca.

Ao mesmo tempo em que caracteriza a boate de modo exímio, Del também (ele sabe que seria preciso fazer isso) amplia suas significações particulares de modo a apresentar-nos o universo das principais pulsões do mal-estar contemporâneo. No fim, não temos apenas um conjunto de impressões parciais, mas um bom parâmetro para entender a condição subjetiva deste início de século, em que as relações humanas se complexificam de modo vertiginoso.[1]

Além do charme de retomar de modo inteligentíssimo velhos ritmos, estilos, motivos e situações de autores clássicos – como Raul Pompeia, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Cruz e Sousa e Guimarães Rosa, – em paródias inesperadas e deliciosas, A Louca certamente pode se transformar (os futuros leitores dirão) num parâmetro altamente qualificado para fixação de um modo de ser de uma das maiores cidades do mundo.[2]

 2. Pai (Editora Terceiro Nome, 2006). Um texto forte, impactante, poderoso, na trilha da Carta ao pai de Kafka. A autora é a importante atriz brasileira Cristina Mutarelli, que se não me engano tem nesse livro sua única publicação literária. Mereceria mais. Em prosa fluida e agradável – um monólogo, como ela mesma o caracteriza -, a autora aborda o conflituoso labirinto das relações entre pais e filhos.

 3. Golpe de ar (Editora 34, 2009), de Fabrício Corsaletti. Uma prosa deliciosa, onírica, que parece ter sido escrita nos anos 60, pela sensação de liberdade e pelo frescor que sugere.

4. Releituras de textos de Tchekhov das coletâneas A dama do cachorrinho e outros contos (Editora 34, 1999) e O beijo e outras histórias (Editora 34, 2006). É sempre bom voltar a um dos maiores mestres da narrativa de toda a literatura universal. Em meu reencontro com esses textos, destaco Uma história enfadonha, Ventoinha e Um caso clínico, que para mim estão entre as melhores narrativas de Tchekhov.

Bem, agora o espaço é do leitor.


[1] Quanto mais avançam as conquistas das formas plurais de sexualidade, afetividade e formação familiar no Brasil – como se percebe pela ampliação da Lei da União Estável para pessoas do mesmo sexo ou pelo imenso sucesso da Parada Gay –, mais se mostram violentas e incisivas as reações moralistas, preconceituosas e repressoras – seja nas sucessivas agressões físicas registradas quase rotineiramente em São Paulo, seja na lei do vereador evangélico Carlos Apolinário (DEM), já aprovada na Câmara, como uma das muitas provas da incapacidade paulista de superar sua tendência ao conservadorismo. Num contexto como esse, a abordagem destemida da complexidade de nossos labirintos afetivo-sexuais torna ainda mais louvável e fundamental um livro como o de Del Candeias.

[2] Considere-se o fato de que São Paulo tem sido comentada na imprensa nacional e internacional como uma das mais ricas “cenas cosmopolitas” da atualidade.

Cor local (7)

Bernardo Guimarães, protocolar, popular & marginal

Além de literato, Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1825-1884) foi juiz, jornalista, crítico literário e professor. Era um homem modesto, tendo recusado várias vezes o título de barão, oferecido a ele por ninguém menos que o próprio Imperador Dom Pedro II, seu mais eminente admirador.

Bernardo Guimarães escreveu romances, poemas, contos e crônicas. Mas foi A escrava Isaura, de 1875, quem lhe deu de fato notabilidade e o transformou numa espécie de escritor protocolar do século XIX, símbolo de uma literatura que podemos chamar standard para seu tempo, paradigmática do Romantismo e mesmo da ficção brasileira, de tal modo que, mais de um século depois de sua publicação, em 1976, A escrava Isaura é adaptada por Gilberto Braga para telenovela da Rede Globo e, extravasando portanto o âmbito literário, vira uma ficção de multidões – multidões não apenas brasileiras, lembremos, multidões mundiais, até mesmo de países como China, que teve  um bilhão de espectadores e que publicou uma tiragem do livro de mais ou menos 300 mil exemplares. Cerca de 150 países assistiram à versão global do romance de Guimarães, o que representou, para muita gente, o primeiro contato com imagens televisivas do Brasil. Isso nos obriga a concluir que muitos estrangeiros tiveram, como primeira imagem do Brasil, nossa sociedade escravocrata do século XIX, não a do Brasil dos anos 70, época da telenovela. Sendo assim, se considerarmos a escravidão negra como solo básico da nação brasileira, sua condição de ser, sua constituição mais básica – como já apontaram tantas vezes nossos historiadores e cientistas sociais –, é possível pensar que aqueles espectadores estrangeiros de A escrava Isaura conheceram o Brasil já pelo seu elemento fundante – para usarmos a expressão de Sérgio Buarque de Hollanda: conheceram “As raízes do Brasil”. Qual terá sido sua reação? O que pensaram sobre nós?[1] Questões profundamente instigantes para se pensar a identidade nacional.

Rubens de Falco e Lucélia Santos contracenam na adaptação da Globo

Essa versão de A escrava Isaura foi reprisada cinco vezes no Brasil, a primeira entre 1976 a 1977 e a última em 1990, como parte das comemorações da Rede Globo pelos seus 25 anos de existência. A Rede Record, depois de imbroglio judicial com a Globo, relançou a telenovela em 2004, obtendo altos índices de audiência e grande aceitação inclusive do público português. É bom lembrar que antes dessas duas adaptações televisivas, A escrava Isaura já havia sido adaptada várias vezes para o cinema, sem grande sucesso de bilheteria, o que não quer dizer muita coisa num país de pouca tradição cinéfila.

Não vi nenhuma dessas adaptações, li apenas o livro de Bernardo Guimarães e é bom lembrar que ele não é exatamente a expressão de inconformismo abolicionista, pois sua Isaura é destacada entre os outros servos por possuir qualidades particulares, uma “escrava menos escrava” que as outras.

Como nos lembra o grande crítico Alfredo Bosi, “O nosso romancista estava mais ocupado em contar as perseguições que a cobiça de um senhor movia à bela Isaura que em reconstruir as misérias do regime servil. E, apesar de algumas palavras sinceras contra as distinções de cor (cap. XV), toda a beleza da escrava é posta no seu não parece negra, mas nívea donzela, como vem descrita desde o primeiro capítulo:

A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por uma nuança delicada, que não sabereis dizer se é leve palidez ou cor-de-rosa desmaiada. (…) Na fronte calma e lisa como mármore polido, a luz do ocaso esbatia um róseo e suave reflexo; di-la-íeis misteriosa lâmpada de alabastro guardando no seio diáfano o fogo celeste da inspiração.

Mas, ainda conforme Alfredo Bosi: “Seria néscio falar em ‘preconceito’ como atitude etnicamente responsável. Pelo contrário, em Rosaura, a Enjeitada, obra da maturidade, Bernardo chega a dizer: ‘Em nossa terra é uma sandice querer a gente gloriar-se de ser descendente de ilustres avós; é como dizia um velho tio meu: no Brasil ninguém pode gabar-se de que entre seus avós não haja quem não tenha puxado flecha ou puxado marimba’. O que explica a beleza branca ‘branca’ de Isaura é a permanência de padrões estéticos europeus. E mais uma razão para marcar o caráter híbrido dessa novelística sertaneja e semipopular de que Bernardo foi o primeiro representante de mérito.”[2]

Terão as adaptações – filmes ou telenovelas – transformado o drama amoroso de Bernardo Guimarães em libelo antiescravista ou foi mantida, apesar da distância temporal e das consequentes e enormes alterações que a temática da escravidão recebeu, a abordagem de Isaura como exceção à regra, segundo a eurocêntrica convenção romântica, esperável numa escrita protocolar como a de Bernardo Guimarães, mas condenável em nossos dias? Peço a opinião do leitor que conheça alguma dessas adaptações.

As obras mais lidas de Bernardo Guimarães são A escrava Isaura e O seminarista, este também adaptado para o cinema, em 1979, e apontado por Antonio Candido como a melhor obra do autor[3]. Nela, Guimarães investiga as tensões entre o amor e o celibato clerical, tema abordado de modo mais cru e contundente no famosíssimo O crime do padre Amaro, de Eça de Queirós, e que também foi base para algumas narrativas de Machado de Assis, por exemplo os consagrados O caso da vara e Dom Casmurro. Possivelmente Bernardo Guimarães tenha sido entre nós o primeiro ou pelo o primeiro importante autor a abordar essa problemática entre desejo e dogma religioso.

Cópia em VHS do filme "O seminarista" (1977), de Geraldo Santos Pereira

Candido destaca a qualidade de Guimarães como contador de histórias: “boa prosa de roça, cadenciada pelo fumo de rolo que vai  caindo no côncavo da mão ou pela marcha das bestas de viagem, sem outro ritmo além do que lhes imprime a disposição de narrar sadiamente, com simplicidade, o fruto de uma pitoresca experiência humana e artística.”[4] Se existe algo de interessante nesses livros de argumentos ingênuos e em geral terrivelmente inverossímeis, livros de análises psicológicas pobres e de verborragia irritante, Candido parece ter sintetizado perfeitamente o que pode ser atraente neles: eu chamaria de convite para o conforto, para o tom caseiro e casual, aconchegante como uma visita à casa dos avós.

O Bernardo Guimarães moço curtiu a vida boêmia da estudantada paulistana de 1840-50, viveu as folias e a aura inspiradora que a minúscula, fria e vazia São Paulo daquele tempo incutia nas naturezas afeitas à introspecção.

São Paulo, conhecidana época  como Burgo Estudantil, afora o núcleo formado em torno da Faculdade São Francisco, com sua rotina intelectual e literária, era, nas palavras de Álvares de Azevedo “Um bocejar infinito”.

E era com Álvares de Azevedo e com Aureliano Lessa que Bernardo Guimarães dividia suas noitadas boêmias. Esses três, inseparáveis, referidos como O Triunvirato, projetaram escrever um livro a três, mas não passou de projeto. O melhor da poesia dessa geração talvez seja mesmo A lira dos vinte anos, com seus suspiros profundos e alguma boa ironia.

Mas há outra coisa, impublicável na época e que talvez tenha interesse para o leitor de hoje: uma poesia nonsense e boca-suja, estranha, bem estranha para sua época, recebendo de alguns o nome de pré-surrealismo, produção de um outro Bernardo Guimarães – não o imortal e protocolar autor de tramas novelescas, mas o poeta jovem, cômico e desarmado com seus bestialógicos. Para intelectuais como Haroldo de Campos, essa verve cômica da poesia de Bernardo Guimarães é a melhor parte de sua obra.

Veja abaixo a primeira parte de A orgia dos duendes, poema que faz parte desse flanco singular da criação de Guimarães:

A orgia dos duendes

I

Meia-noite soou na floresta
No relógio de sino de pau;
E a velhinha, rainha da festa,
Se assentou sobre o grande jirau.

Lobisome apanhava os gravetos
E a fogueira no chão acendia,
Revirando os compridos espetos,
Para a ceia da grande folia.

Junto dele um vermelho diabo
Que saíra do antro das focas,
Pendurado num pau pelo rabo,
No borralho torrava pipocas.

Taturana, uma bruxa amarela,
Resmungando com ar carrancudo,
Se ocupava em frigir na panela
Um menino com tripas e tudo.

Jetirana com todo o sossego
A caldeira da sopa adubava
Com o sangue de um velho morcego,
que ali mesmo co’as unhas sangrava.

Mamangava frigia nas banhas
Que tirou do cachaço de um frade
Adubado com pernas de aranhas,
Fresco lombo de um frei dom abade.

Ventou sul sobiou na cumbuca,
Galo-preto na cinza espojou;
Por três vezes zumbiu a mutuca,
No cupim o macuco piou.

E a rainha co’as mão ressequidas
O sinal por três vezes foi dando,
A coorte das almas perdidas
Desta sorte ao batuque chamando:

“Vinde, ó filhas do oco do pau,
Lagartixas do rabo vermelho,
Vinde, vinde tocar marimbau,
Que hoje é festa de grande aparelho.

Raparigas do monte das cobras,
Que fazeis lá no fundo da brenha?
Do sepulcro trazei-me as abobras,
E do inferno os meus feixes de lenha.

Ide já procurar-me a bandurra
Que me deu minha tia Marselha,
E que aos ventos da noite sussura,
Pendurada no arco-da-velha.

Onde estás, que inda aqui não te vejo,
Esqueleto gamenho e gentil?
Eu quisera acordar-te c’um beijo
Lá no teu tenebroso covil.

Galo-preto da torre da morte,
Que te aninhas em leito de brasas,
Vem agora esquecer tua sorte,
Vem-me em torno arrastar tuas asas.

Sapo-inchado, que moras na cova
Onde a mão do defunto enterrei,
Tu não sabes que hoje é lua nova,
Que é o dia das danças da lei?

Tu também, ó gentil Crocodilo,
Não deplores o suco das uvas;
Vem beber excelente restilo
Que eu do pranto extraí das viúvas.

Lobisome, que fazes, meu bem
Que não vens ao sagrado batuque?
Como tratas com tanto desdém,
Quem a c’roa te deu de grão-duque?”


[1] A esse respeito, mas especificamente em relação à cultura russa, é imperdível a leitura de Relações literárias e culturais entre Rússia e Brasil, de Leonid A. Shur (Editora Elos), em que o autor analisa os contatos entre os dois países durante os séculos XVIII e XIX.

[2] BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. Editora Cultrix, p.139.

[3] CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. Editora Itatiaia, p. 216.

[4] IDEM, p. 212.

Marcel Schwob e “A cruzada das crianças”

A cruzada das crianças, publicado em 1885 pelo judeu-francês Marcel Schwob, homem que viveu apenas de 1867 a 1905, é um dos mais fascinantes exemplos da relação entre História e Literatura.

Conheci essa obra, que anda esgotada no Brasil, pela extinta editora Paraula: uma edição bilíngue, com excelente tradução de Dorothée de Bruchard, o qual conseguiu reconstruir em português as sutilezas sonoras da narrativa original, um francês ritmado e metafórico, marcado de sensacionismos e sinestesias – um francês próximo ao do Spleen de Paris do mestre Baudelaire.

Retrato de Marcel Schwob por Félix Valloton.

Walter Carlos Costa, que é autor da introdução da excelente edição da Paraula, escreveu:

“A imprensa nos mostra o fantástico ocorrendo o tempo todo, mas custamos a acreditar que algum dia tenha havido uma cruzada de crianças, tanto os dois termos soam antitéticos à nossa sensibilidade. No entanto, a história registra não apenas uma, mas duas cruzadas infantis no século XIII europeu. A francesa, comandada por um menino pastor chamado Stéphane, rumou para Marselha, com a esperança de que o mar se abrisse facilitando a passagem para Jerusalém. A alemã, conduzida por um menino de nome Nicolas, marchou com a mesma ilusão e se dirigiu à Itália. No total, cerca de 30 mil crianças caminharam para um desastre completo: as da França foram raptadas por traficantes de escravos e vendidas no Egito e as da Alemanha se perderam em um mistério, de que a lenda do flautista de Hamelin seria uma reminiscência.

Este sacrifício infantil em massa ocupava um canto curioso da história, até que Schwob o transformou em matéria literária. Para elevar à literatura o escândalo de exércitos infantis marcharem para a morte sem que nada ou ninguém os detivesse, Schwob preferiu utilizar intrumentos bem testados pelos escritores de épocas passadas (…) – desenvolve seu dom de narrador usando o procedimento narrativo (…) segundo o qual o mesmo fato é apresentado a partir das diferentes perspectivas de seus protagonistas. A matéria narrada tampouco é inventada, mas escrupulosamente recolhida das crônicas medievais de que era tão íntimo.”

O  resultado desse trabalho são relatos, isto é, a representação direta da fala de pessoas que presenciaram tais fatos sinistros.

Reproduzo abaixo dois desses relatos.

Relato do leproso

SE QUISER COMPREENDER o que vou lhe falar, saiba que tenho a cabeça coberta com um capuz branco e ando chacoalhando um malho de madeira dura. Já não sei que rosto é o meu, mas tenho medo de minhas mãos. Correm diante de mim como bichos escamosos e lívidos. Gostaria de cortá-las fora. Tenho vergonha daquilo que tocam. Parecem-me desalentar os frutos vermelhos que colho e as pobres raízes que arranco nelas figuram fenecer. Domine ceterorum libera me! [1]. O Salvador não expiou meu pecado descorado. Fiquei esquecido até a ressurreição. Como o sapo, selado ao frio da lua numa pedra escura, seguirei encerrado em minha ganga hedionda quando os outros se ergueram com seus corpos claros. Domine ceterorum, fac me liberum: leprosus sum[2]. Sou solitário e tenho horror. Só meus dentes mantiveram sua brancura natural. Os bichos se assustam, e minha alma quisera fugir. A luz do dia se afasta de mim. Faz mil e duzentos e doze anos que seu Salvador os salvou, e não teve dó de mim. Não me tocou a lança sangrenta que o perfurou. O sangue do Senhor dos outros talvez me tivesse curado. Penso amiúde no sangue: eu poderia morder com meus dentes; são cândidos. Já que Ele não o quis me dar, tenho a avidez de tomar aquele que lhe pertence. Eis porque espreitei as crianças que desciam da terra de Vendôme rumo àquela floresta de Loire. Traziam cruzes e eram-Lhe submissas. Seus corpos eram Seu corpo e Ele não me fez parte de seu corpo. Sou na terra rodeado por pálida danação. Espiei para chupar sangue inocente no pescoço de uma de Suas crianças. Et caro nova fiet in die irae[3]. No dia de terror, minha carne será nova. E atrás das outras andava uma criança tenra de cabelos vermelhos. Fixei-me nela; saltei de súbito; tomei-lhe a boca em minhas mãos horríveis. Vestia apenas uma blusa grosseira; seus pés estavam descalços e seus olhos se quedaram plácidos. E considerou-me sem surpresa. Então, sabendo que ela não gritaria, tive o desejo de ainda ouvir uma voz humana e retirei minhas mãos de sua boca, e ela não enxugou a boca. E seus olhos pareciam distantes.

– Quem és tu? disse eu.

– Johannes, o Teutão, respondeu ele. E suas palavras eram salutares e límpidas.

– Aonde vais? disse eu ainda.

E ele respondeu:

– A Jerusalém, conquistar a Terra Santa.

Então pus-me a rir, e perguntei-lhe:

– Onde é Jerusalém?

E ele me respondeu:

– Não sei.

E eu disse ainda:

– O que é Jerusalém?

E ele me respondeu:

– É Nosso Senhor.

Então, pus-me a rir novamente e perguntei:

– O que é o teu Senhor?

E ele me disse:

– Não sei; ele é branco.

E aquela palavra lançou-me no furor e abri os dentes sob o capuz e me inclinei para o seu pescoço tenro e ele não recuou, e eu lhe disse:

– Por que não tem medo de mim?

E ele disse:

– Por que teria medo de ti, homem branco?

Então um grande pranto me agitou, estendi-me no solo, beijei a terra com meus lábios terríveis, e gritei:

– Porque sou leproso!

E a criança teuta me considerou, e disse limpidamente:

– Não sei.

Ela não teve medo de mim! Não teve medo de mim! Minha monstruosa brancura semelha para ela a de seu Senhor. E peguei um punhado de capim e enxuguei-lhe a boca e as mãos. E eu lhe disse:

– Vai em paz rumo ao teu Senhor branco, e dize-lhe que ele me esqueceu.

E a criança me olhou sem dizer nada. Acompanhei-a para fora da escuridão desta floresta. Ela andava sem tremer. Vi sumir seu cabelo vermelho, ao longe, no sol. Domine infantium, libera me[4]. Que o som do meu malho de madeira te alcance, como o som puro dos sinos! Mestre daqueles que não sabem, liberta-me!

"A dança macabra", iconografia medieval

 

Relato de três criancinhas

NÓS TRÊS, Nicolas que não sabe falar, Alain e Denis, saímos pelas estradas rumo a Jerusalém. Faz tempo que estamos andando. Foram vozes brancas que nos chamaram na noite. Chamavam todas as criancinhas. Eram como as vozes dos pássaros mortos durante o inverno. E vimos a princípio muitos pássaros, coitados, estendidos na terra congelada, muitos passarinhos com a garganta vermelha. Vimos depois as primeiras flores e as primeiras folhas e com elas trançamos cruzes. Cantamos diante das aldeias, como costumávamos fazer no ano novo. E todas as crianças corriam para nós. E avançamos como uma tropa. Havia homens que nos maldiziam, por desconhecerem o Senhor. Havia mulheres que nos seguravam pelo braço e nos interrogavam, e cobriam nosso rosto de beijos. E houve também boas almas que nos trouxeram tigelas de madeira, leite morno e frutas. E todo o mundo tinha dó de nós. Pois eles não sabem para onde vamos e eles não escutaram as vozes.

Por sobre a terra há densas florestas, e rios, e montanhas, e sendas cheias de espinheiros. E no fim da terra encontra-se o mar que iremos cruzar em breve. E no fim do mar encontra-se Jerusalém. Não temos governantes nem guias. Para nós todas as estradas são boas. Embora não saiba falar, Nicolas caminha como nós, Alain e Denis, e as terras são todas iguais, e igualmente perigosas para as crianças. Em toda parte há densas florestas, e rios, e montanhas, e espinhos. Mas em toda parte as vozes estarão conosco. Há entre nós uma criança chamada Eustáquio, que nasceu com os olhos fechados. Anda com os braços estendidos e sorri. Não vemos nada que ele não veja. Uma menina é quem o guia e carrega a sua cruz. Chama-se Allys. Nunca fala e nunca chora: mantém os olhos fixos nos pés de Eustáquio, a fim de ampará-lo quando ele tropeça. Nós gostamos deles dois. Eustáquio não vai poder ver as santas lâmpadas do sepulcro. Mas Allys lhe tomará as mãos, para fazer com que toque as lajes do túmulo.

Oh! como são belas as coisas da terra! Não nos lembramos de nada, porque nunca aprendemos nada. Vimos, contudo, velhas árvores e rochas vermelhas. Às vezes passamos dentro de longas trevas. Às vezes andamos até à noite em prados claros. Gritamos o nome de Jesus nos ouvidos de Nicolas, e ele o conhece bem. Mas não sabe dizê-lo. Ele se alegra conosco com aquilo que vemos. Pois seus lábios podem se abrir para a alegria, e ele nos afaga os ombros. E eles, assim, não são infelizes: pois Allys vela por Eustáquio e nós, Alain e Denis, velamos por Nicolas.

Diziam que nos bosques nos depararíamos com ogros e lobisomens. Mentira. Ninguém nos assustou; ninguém nos fez mal algum. Os solitários e os doentes vêm nos olhar e as velhas acendem, para nós, luzes nas cabanas. Mandam tocar por nós os sinos das igrejas. Os camponeses erguem-se de sobre os sulcos da terra para espiar-nos. Os bichos também olham para nós e não fogem. E desde que estamos andando, o sol se tornou mais quente, e já não colhemos as mesmas flores. Mas todas as hastes podem trançar-se com a mesma forma, e nossas cruzes estão sempre viçosas. Assim temos grande esperança, e logo veremos o mar azul. E no fim do mar azul está Jerusalém. E o Senhor deixará vir até seu túmulo todas as criancinhas. E as vozes brancas estarão alegres na noite.

"A cruzada das crianças", desenho de Gustave Doré

[1]Domine ceterorum libera me!: Ó Senhor de todas as coisas, libertai-me!

[2] Domine ceterorum, fac me liberum: leprosus sum: Ó Senhor de todas as coisas, fazei-me livre: leproso sou.

[3] Et caro nova fiet in die irae: E serei feito carne nova no dia final.

[4] Domine infantium, libera me!:  senhor dos mais novos, libertai-me!

A morte de Ivan Ilitch (1886)

Seria capaz de lembrar a primeira vez que ouvi falar sobre essa consagradíssima novela de Tolstói? Realmente não.

É um livro que eu sempre vi elencado como dos mais expressivos da literatura russa e, embora bem menos mencionado que Guerra e paz (que só conheço pelas adaptações para o cinema) e Ana Karênina (que eu li há uns quinze anos), A morte de Ivan Ilitch aparecia em geral descrito como uma das mais belas abordagens do tema. Lembro de ter lido grandes nomes, como o escritor Nabokov, apresentando-a como uma das mais importantes  obras da literatura russa.

Mais tarde, numas férias que passei em Ubatuba, ouvi o que meus conhecidos falavam sobre a narrativa de Tolstói. Faziam um rodízio de leitura – um terminava e já passava para o outro ler; ao final de duas semanas havia já cinco leitores comentando sobre o livro de Tolstói, todos empolgados, com grandes impressões. A despeito disso, eu, que estava envolvido com outras leituras, não peguei a “onda tolstoiana” daquelas férias e adiei meu encontro com Ivan Ilitch.

Verdade mesmo é que não me animava em ler Tolstói. Meu contato com os russos àquela época de poucas traduções diretas (vide nota do post “O capote“) era por meio de Tchekhov e principalmente Dostoiévski e, se é verdade que gostei de Ana Karênina, também é verdade que ele esteve longe de me impressionar. À época pareceu-me apenas uma boa narrativa realista, lógica, inteligente, com pontos intensos, mas no geral fria, mecânica, sem a chama vibrante de Dostoiévski, sem a ironia corrosiva e incisiva de Tchekhov. Era mais um narrador detalhista e imparcial do século XIX.

Acontece que há pouco mais de um ano li A Sonata a Kreutzer (Editora 34, tradução de Boris Schnaiderman), uma narrativa de grande intensidade, diria até mesmo violenta, que aborda o tema da infidelidade e do casamento de modo pessimista. Talvez a escolha da primeira pessoa tenho sido decisiva – como acontece nos grandes romances de Machado de Assis – para o aumento da potência do texto.

Exatamente o que não vi em Ana Karênina encontrei n’A Sonata a Kreutzer: vibração – e, inevitável dizê-lo, vibração parecida com a do próprio Dostoiévski, não só pela vitalidade da personagem e de seu discurso, mas também pela abordagem destemida da abjeção humana.  

A Sonata a Kreutzer é uma narrativa vertiginosa, impactante, que, como diz Boris Schnaiderman no posfácio de sua tradução, “desafia-nos (…) e parece insistir em que a literatura nos obriga às vezes a conviver com aquilo que nos parece mais odioso em nosso cotidiano.”

Essa leitura fez-me reconsiderar inteiramente a escrita de Tolstói, inclusive me fez levar em conta a possibilidade de reler Ana Karênina (quem sabe o problema era da tradução ou então de minha imaturidade) e projetar a leitura do gigantesco Guerra e paz – afinal, quando se trata de narrativa intensa, o número de páginas é o que menos importa: Crime e castigo e Os irmãos Karamázov, por exemplo, cada qual com mais de 500 páginas, não me desencorajaram nem um instante sequer pela sua extensão.

A morte de Ivan Ilitch (Editora 34, tradução de Boris Schnaiderman) serviu-me para confirmar o poder da prosa tolstoiana. Abordando um dos temas mais enigmáticos da humanidade – a morte, a única coisa para um ser humano tão importante quanto a vida -, Tolstói provou que consegue alcançar profundidade e ao mesmo tempo espontaneidade usando a terceira pessoa. A morte – ela, que põe termo a todas as alegrias e a todas as tristezas (“a todos os milagres”, escreveu Manuel Bandeira) – mete seus olhos frios num homem que somente então, quando passa a ter consciência de seu fim, percebe o quanto sua vida foi medíocre. Já não era mais possível fazer nada, apenas ter consciência de que a morte, esse credor inexorável, em breve bateria à sua porta.

"Tudo é vaidade", de Charles Allan Gilbert, 1892.

O mais marcante na leitura para mim foi a sensação de adentrar o estranho império da morte – dos lugares que desconhecemos, o único que temos certeza de que iremos conhecer. Nunca é demais lembrar que a morte é nossa única certeza e ao mesmo tempo nosso maior mistério. Essas questões sobre a morte, que vez por outra nos toca, são suscitadas no livro de Tolstói a partir da experiência de alguém que realmente está prestes a enfrentá-la.

O modo como o narrador de Tolstói descreve a reação de Ivan diante da iminência e mesmo diante da própria morte (a página final do livro) é uma das coisas mais brilhantes que já li.

Um texto do grande intelectual Paulo Rónai serve de posfácio à edição da 34. Nele encontramos uma citação do estudioso Merejkóvski: “Se hoje temos da morte um medo vergonhoso, como nunca a humanidade o sentira, se diante dela ficamos tomados de um arrepio gelado que nos atravessa o corpo e a alma e nos coagula o sangue nas veias, (…) tudo isso devemo-lo em grande parte a Tolstói.”

Em seu rico posfácio, Rónai chama a atenção para o caráter crítico da obra de Tolstói:

“Imanente e, no entanto, inseparável do momento e do ambiente, a novela contém um quadro terrivelmente cruel da vida da alta burguesia russa. Submetido ao lento desgaste da agonia, Ivan Ilitch passa involuntariamente revista a toda a sua vida anterior, e, como Brás Cubas, embora por um artifício menos grotesco, procede a uma revisão de todos os valores de seu passado. Desse processo se utiliza o escritor para aplicar impiedosa crítica a toda uma forma de viver, a uma série de práticas sociais que visam unicamente as aparências e não satisfazem as nossas íntimas necessidades de amor e comunhão.”

A morte de Ivan Ilitch é um ensinamento sobre a morte e por isso também uma advertência para a valorização da vida.

Conclusão de boca cheia: é um texto imperdível.

"The Masque of the Red Death", 1883, de Odilon Redon