Leitura no Brasil do século XIX, entrevista com Alexandre Paixão

O século XIX é decisivo para se pensar a formação da literatura e da leitura no Brasil.

Quais eram os leitores do Brasil daquela época? Que tipo de pessoas liam textos literários? Que tipo de textos elas liam? Qual era e como se dava a circulação desses textos?

Essas e outras questões são abordadas na entrevista com o pesquisador da USP Alexandre Paixão, realizada pela Univesp TV e reproduzida aqui no Prefácio:

Anúncios

Último antes das férias

Caros queridos, hora de se levantar da mesa e dar aquele lento e agradável espreguiçar, vestir a bermuda e os chinelos e sair um pouco para a rua, quem sabe ir até a praia.

Hora de ler e de reler, de ver e de rever alguns filmes.

Pessoalmente, ando entusiasmado com autores africanos de língua portuguesa e francesa e com filmes do velho cinema italiano. Os amigos leitores ficam incumbidos de deixarem registradas, nos comentários, quais têm sido suas preferências atuais.

Como despedida do Prefácio ao ano de 2011, publico esta matéria divertida da Revista Trip, indicação de meu querido aluno André Massabki.

Gostei da matéria particularmente por nos fazer pensar no caráter controverso da noção de bom gosto. Insisto sempre na necessidade de lermos criticamente os textos literários, inclusive os mais consagrados pelo cânone acadêmico, e creio que a matéria confirma a importância disso: ver autores renomados – alguns até de modo irresponsável ou mesmo pouco elegante (o que eu não acho em si aprovável), mas quase sempre divertido e inteligente – achincalhando outros autores igualmente renomados é uma forma expressiva de confirmação de que os “imortais” não formam um “time”, com discurso unívoco ou unânime. Pelo contrário, sua noção de qualidade é diversa – mais que isso, é controversa.

Boas férias, boas leituras, bons filmes, boas festas, e, claro, boa preguiça, bons esquecimentos.

AUTOR VERSUS AUTOR

Trinta grandes nomes da literatura criticando duramente outros trinta autores eternos

É muito fácil criticar um autor iniciante ou aquele escritor que nunca teve um grande alcance, ainda mais se o crítico é um escritor veterano e considerado universal por sua importância histórica. Mas tem vezes que sobra até para algumas “vacas sagradas” da literatura universal, mesmo os nomes de maior peso como Dostoievsky, James Joyce ou até Mark Twain.

Nesta semana, o site Flavorwire compilou 30 das mais engraçadas provocações públicas da história literária do Ocidente, colocando autor contra autor em uma lista que, apesar de nem ser tão longa, já dá uma ideia em linhas gerais da opinião real que gênios tem de outros gênios. Na seleção, ninguém escapou das linhas afiadas destes romancistas e poetas que incluem Gustave Flaubert, Vladimir Nabokov, Virginia Woolf, Charles Baudelaire, Truman Capote e Henry James.

Logo abaixo você vê a lista completa de insultos de autores para outros autores, todos eles de renome internacional.

Reprodução

Vladimir Nabokov pronto para a briga

Vladimir Nabokov pronto para a briga

30. Gustave Flaubert (Madame Bovary) sobre George Sand (Mattéa)
“Uma grande vaca recheada de namquim”

29. Robert Louis Stevenson (O Médico e o Monstro) sobre Walt Whitman (Leaves of Grass)
“Ele escreve como um cachorro grande e desengonçado que escapou da coleira e vaga pelas praias do mundo latindo para a lua”

28. Friedrich Nietzsche (Assim Falou Zaratustra) sobre Dante Alighieri (A Divina Comédia)
“Uma hiena que escreu sua poesia em tumbas”

27. Harold Bloom (A Invenção do Humano) sobre J.K. Rowling (Harry Potter)
“Como ler Harry Potter e a Pedra Filosofal? Rapidamente, para começar, e talvez também para acabar logo. Por que ler esse livro? Presumivelmente, se você não pode ser convencido a ler nenhuma outra obra, Rowling vai ter que servir.”

26. Vladimir Nabokov (Lolita) sobre Fyodor Dostoievsky (Crime e Castigo)
“A falta de bom gosto do Dostoievsky, seus relatos monótonos sobre pessoas sofrendo com complexos pré-freudianos, a forma que ele tem de chafurdar nas trágicas desventuras da dignidade humana – tudo isso é muito difícil de admirar”

25. Gertrude Stein (The Making of Americans) sobre Ezra Pound (Lustra)
“Um guia turístico de vila. Excelente se você fosse a vila. Mas se você não é, então não é.”

24. Virginia Woolf (Passeio ao Farol) sobre Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo)
“É tudo um protesto cru e mal cozido”

23. H. G. Wells (Guerra dos Mundos) sobre George Bernard Shaw (Pygmalion)
“Uma criança idiota gritando em um hospital”

22. Joseph Conrad (Coração das Trevas) sobre D.H. Lawrence (Filhos e amantes)
“Sujeira. Nada além de obscenidades.”

21. Lord Byron (Don Juan) on John Keats (To Autumn)
“Aqui temos a poesia ‘mija-na-cama’ do Johnny Keats e mais três romances de sei lá eu quem. Chega de Keats, eu peço. Queimem-o vivo! Se algum de vocês não o fizer eu devo arrancar a pele dele com minhas próprias mãos.”

Reprodução

Virginia Woolf

Virginia Woolf

20. Vladimir Nabokov sobre Joseph Conrad
“Eu não consigo tolerar o estilo loja de presentes de Conrad e os navios engarrafados e colares de concha de seus clichês românticos.”

19. Dylan Thomas (25 Poemas) sobre Rudyard Kipling (The Jungle Book)
“O senhor Kipling representa tudo o que há nesse mundo cancroso que eu gostaria que fosse diferente”

18. Ralph Waldo Emerson (Concord Hymn) sobre Jane Austen (Orgulho e Preconceito)
“Os romances da senhorita Austen me parecem vulgares no tom, estéreis em inventividade artística, presos nas apertadas convenções da sociedade inglesa, sem genialidade, sem perspicácia ou conhecimento de mundo. Nunca a vida foi tão embaraçosa e estreita.”

17. Martin Amis (Experiência) sobre Miguel Cervantes (Dom Quixote)
“Ler Don Quixote pode ser comparavel a uma visita sem data para acabar de seu parente velho mais impossível, com todas as suas brincadeiras, hábitos sujos, reminiscências imparaveis e sua intimidade terrível. Quando a experiência acaba (na página 846 com a prosa apertada, estreita e sem pausa para diálogos), você vai derramar lágrimas, isso é verdade. Mas não de alívio ou de arrependimento e sim lágrimas de orgulho. Você conseguiu!”

16. Charles Baudelaire (Paraísos Artificiais) sobre Voltaire (Cândido)
“Eu cresci entediado na França. E o maior motivo para isso é que todo mundo aqui me lembra o Voltaire… o rei dos idiotas, o príncipe da superficialidade, o antiartista, o porta-voz das serventes, o papai Gigone dos editores da revista Siecle”

15. William Faulkner (A Cidade) sobre Ernest Hemingway (Por Quem os Sinos Dobram)
“Ele nunca sequer pensou em usar uma palavra que pudesse mandar o leitor para um dicionário.”

14. Ernest Hemingway sobre William Faulkner
“Pobre Faulkner. Ele realmente pensa que grandes emoções vem de grandes palavras?”

13. Gore Vidal (O Julgamento de Paris) sobre Truman Capote (A Sangue Frio)
“Ele é uma dona de casa totalmente empenada do Kansas, com todos os seus preconceitos.”

12. Oscar Wilde (O Retrato de Dorian Grey) sobre Alexander Pope (Ensaio sobre a crítica)
“Existem duas formas de se odiar poesia: uma delas é não gostar, a outra é ler Pope.”

Reprodução

Mark Twain, o mestre do humor americano

Mark Twain, o mestre do humor americano

11. Vladimir Nabokov sobre Ernest Hemingway 
“Quanto ao Hemingway, eu li um livro dele pela primeira vez nos anos 40, algo sobre sinos, bolas e bois, e eu odiei.”

10. Henry James (Calafrio) sobre Edgar Allan Poe (Os Crimes da Rua Morgue)
“Se entusiasmar com o Poe é a marca de um estágio decididamente primitivo da reflexão.”

9. Truman Capote sobre Jack Kerouac (On The Road)
“Isso não é escrever. Isso é só datilografar.”

8. Elizabeth Bishop (Norte e Sul) sobre J.D. Salinger (Apanhador no Campo de Centeio)
“Eu odiei o ‘Apanhador no Campo de Centeio’. Demorei dias para começar a avançar, timidamente, uma página de cada vez e corando de vergonha por ele a cada sentença ridícula pelo caminho. Como deixaram ele fazer isso?”

7. D.H. Lawrence sobre Herman Melville (Moby Dick)
“Ninguém pode ser mais palhaço, mais desajeitado e sintaticamente de mau gosto como Herman, mesmo em um grande livro como Moby Dick. Tem algo falso sobre sua seriedade, esse é o Melville.”

6. W. H. Auden (Funeral Blues) sobre Robert Browning (Flautista de Hamelin)
“Eu não acho que Robert Browning era nada bom de cama. Sua mulher também provavelmente não ligava muito pra ele. Ele roncava e devia ter fantasias sobre garotas de 12 anos.”

5. Evelyn Waugh (Memórias de Brideshead) sobre Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido)
“Estou lendo Proust pela primeira vez. É uma coisa muito pobre. Eu acho que ele tinha algum problema mental.”

4. Mark Twain (As Aventuras de Huckleberry Finn) sobre Jane Austen
“Eu não tenho o direito de criticar nenhum livro e eu nunca faço isso, a não ser quando eu odeio um. Eu sempre quero criticar a Jane Austen, mas seus livros me deixam tão bravo que eu não consigo separar minha raiva do leitor, portanto eu tenho que parar a cada vez que eu começo. Cada vez eu eu tento ler Orgulho e Preconceito eu quero exumar seu cadáver e acertá-la na cabeça com seu osso do queixo.”

3. Virginia Woolf sobre James Joyce (Ulisses)
“Ulisses é o trabalho de um estudante universitário enjoado coçando as suas espinhas”

2. William Faulkner sobre Mark Twain
“Um escritor mercenário que não conseguia nem ser considerado da quarta divisão na Europa e que enganou alguns esqueletos literários de tiro-certo com cores suficientemente locais para intrigar os superficiais e preguiçosos.”

1. D.H. Lawrence sobre James Joyce
“Meu deus, que idiota desastrado esse James Joyce é. Não é nada além de velhos trabalhos e tocos de repolho de citações bíblicas com um resto cozido em suco de um jornalismo deliberadamente sujo.”

Vai lá: www.flavorwire.com

“O cão e o frasco”, de Charles Baudelaire

Baudelaire retratado por um dos maiores fotógrafos de seu tempo, Félix Nadar

Considerado o fundador da literatura moderna, pai do movimento simbolista e guru dos escritores malditos, Charles Baudelaire (1821-1867) é uma dessas figuras que imprimem o seu nome a uma época: muitos estudiosos dividem a literatura entre o que se fez antes e o que se fez depois da produção do gênio francês.

Os livros mais importantes de Baudelaire são As flores do mal (1857) e Spleen de Paris (1869). O primeiro é um conjunto de poemas, uma verdadeira revolução de estilo e de temperamento poético. No segundo, uma publicação póstuma, Baudelaire fez uma combinação entre poesia e prosa que consagrou um novo gênero literário: a prosa poética (não por acaso, o nome original do livro era Pequenos poemas em prosa), que exerceu e ainda exerce grande influência em todos os seus sucessores.

O cão e o frasco, que reproduzo aqui (na famosa tradução de Aurélio Buarque de Hollanda), é um dos textos mais importantes do Spleen de Paris e sem dúvida uma das obras mais emblemáticas desse momento de divórcio entre produção artística e gosto das multidões. Produzida no nascedouro da cultura de massa, no início do que Walter Benjamin cunhou como “era da reprodutibilidade técnica”, a literatura de Baudelaire foi produzida como um ato de voluntária provocação, como um imenso prazer em desagradar, abrindo um debate que sem dúvida alguma ainda está vivo.

Boa leitura.

O cão e o frasco

— Meu belo cão, meu cãozinho, meu querido totó, vem cá, vem respirar um excelente

perfume comprado no melhor perfumista da cidade.

E o cão, agitando a cauda, o que é, suponho, entre esses pobres seres, o sinal

correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e, curioso, põe o nariz úmido no frasco

destampado; mas subitamente, recuando de susto, late contra mim, à maneira de reprimenda.

— Ah, miserável cão! se eu te houvesse oferecido um embrulho de excrementos, decerto o

cheirarias com delícia e talvez o tivesses devorado. Assim, ó indigno companheiro de minha triste

vida, tu te assemelhas ao público, a quem nunca se devem apresentar perfumes delicados, que o

exasperam, mas imundícies cuidadosamente escolhidas.

(BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas e prosa. Rio de Janeiro, José Olympio, 1950 – trad. Aurélio Buarque de Hollanda. p. 25)

“Liberdade”, de Paul Éluard

Mais do que um poema, este texto de Paul Éluard, para mim e muitos outros leitores, é uma espécie de oração:

Liberdade

Nos meus cadernos de escola

Sobre a carteira nas árvores

Sobre a neve sobre a areia

Grifo teu nome

Em toda página lida

Em toda página em branco

Sem papel na pedra ou cinza

Grifo teu nome

Sobre as gravuras douradas

Sobre as armas dos guerreiros

Sobre a coroa dos reis

Grifo teu nome

Na floresta e no deserto

Sobre os ninhos sobre as gestas

Nos ecos da minha infãncia

Grifo teu nome

Nas maravilhas das noites

No pão branco das jornadas

Nas estações de noivado

Grifo teu nome

Nos fiapos de azul-celeste

No tanque solar bolor

No lago lua vibrante

Grifo teu nome

Nos campos nos horizontes

Nas asas dos passarinhos

Sobre os moinhos de sombras

Grifo teu nome

Em cada sopro de aurora

Sobre o mar sobre os navios

Na insensatez das montanhas

Grifo teu nome

Nas nuvens soltas revoltas

Na tormenta transpirada

Na chuva insistente e boba

Grifo teu nome

Sobre as formas cintilantes

Nas campânulas de cores

Por sobre a verdade física

Grifo teu nome

Sobre as veredas despertas

Nos caminhos desdobrados

Sobre as praças transbordantes

Grifo teu nome

Na lâmpada que se acende

Na lâmpada que se apaga

Nas casas cheias de gente

Grifo teu nome

No fruto cortado em dois

O do espelho e o do meu quarto

Na concha sem mim depois

Grifo teu nome

No meu cão terno e guloso

Mas sempre de orelha em pé

E patas destrambelhadas

Grifo teu nome

No trampolim da minha porta

Nos objetos familiares

Nas línguas do lume bento

Grifo teu nome

Em toda carne acordada

Na fronte dos meus amigos

Em cada mão que me afaga

Grifo teu nome

Na vidraça das surpresas

Sobre os lábios expectantes

Muito acima do silêncio

Grifo teu nome

Nos refúgios descobertos

Nos maus faróis desmontados

Nas paredes do meu tédio

Grifo teu nome

Sobre a ausência do desejo

Sobre a solidão desnuda

Nos descaminhos da morte

Grifo teu nome

No retorno da saúde

No risco que se correu

Na esperança sem lembrança

Grifo teu nome

E pelo poder de um nome

Começo a viver de fato

Nasci pra te conhecer

E te chamar

Liberdade

(Tradução de M. C. Ferreira)

Obra de René Magritte, mais um surrealista a cavar fissuras na "razão vigilante" e a nos convidar para o voo cego da utopia

 

“Balada dos enforcados”, arte e moralidade

François Villon nasceu em Paris no ano de 1430. De sua morte, são desconhecidas a data e a circunstância.

Dois aspectos centrais estão ligados ao nome desse homem: primeiramente, o de ser o primeiro poeta moderno da literatura francesa. Nas palavras de Otto Maria Carpeaux, é “um homem inteiramente moderno em pleno século XV: poeta nosso.”[1]

Segundo fato: François Villon era um criminoso. Boêmio, encrenqueiro, ladrão, assassino, uma criatura de reputação pouco louvável. Uma vida marcada por prisões, fugas e mentiras.

A presença indubitável de Villon entre a galeria dos gênios da arte nos traz uma questão intrigante: conseguimos aprovar uma obra cujo produtor reprovamos? Ou seja, como é ou como deve ser a relação que estabelecemos entre a apreciação de uma obra de arte e o nosso juízo acerca da pessoa que a produz?

Deixo a questão em aberto, para debatermos nos comentários.

Desenho de Goya

A Balada dos enforcados, reproduzido abaixo, é um dos pontos mais altos da poesia de Villon. Sobre ela, comentou Carpeaux:

(…) o malandro condenado, sabendo que a forca o espera, toma a liberdade de exprimir aqueles lugares- comuns de maneira diferente, quer dizer, pessoal.[2]

O texto foi colhido da antologia traduzida por Péricles Eugênio da Silva Ramos[3]:

Balada dos enforcados

Irmãos humanos que depois de nós viveis,

Não tenhais duro contra nós o coração,

Porquanto se de nós, pobres, vos condoeis,

Deus vos concederá mais cedo o seu perdão.

Aqui nos vede pendurados, cinco, seis:

Quanto à carne, por nós demais alimentada,

Temo-la há muito apodrecida e devorada,

E nós, os ossos, cinza e pó vamos virar.

De nossa desventura ninguém dê risada:

Rogai a Deus que a todos queira nos salvar!

Chamamo-vos irmãos: disso não desdenheis,

Apesar de a justiça a nossa execução

Ter ordenado. Vós, contudo, conheceis

Que nem todos possuem juízo firme e são.

Exculpai-nos – que mortos, mortos nos sabeis –

Com o filho de Maria, a nunca profanada;

A sua graça, para nós, não finde em nada,

No inferno não nos venha o raio despenhar.

Ninguém nos atormente a vida já acabada.

Rogai a Deus que a todos queira nos salvar!

A chuva nos lavou, limpou-nos, percebeis;

O sol nos ressequiu até à negridão;

Pegas, corvos cavaram nossos olhos – eis! –,

Tiraram-nos a barba, a bico e repuxão.

Em tempo algum tranqüilos nos contemplareis:

Para cá, para lá, o vento de virada

A seu talante leva-nos, sem dar pousada;

Mais que o dedal, picam-nos pássaros no ar.

Não queirais pertencer a esta nossa enfiada.

Rogai a Deus que a todos queira nos salvar!

 

Príncipe bom Jesus, de universal mandar,

Guardai-nos, ou o inferno então nos arrecada:

Lá nada temos a fazer, nada a pagar.

Homens, aqui a zombaria é inadequada:

Rogai a Deus que a todos queira nos salvar!


[1] CARPEAUX, Otto Maria. História da literatura ocidental. Rio de Janeiro, Alhambra, 1985, p. 265.

[2] Idem, p. 266.

[3] VILLON, François. Poemas de François Villon. São Paulo, Art Editora, 1986.

Marcel Schwob e “A cruzada das crianças”

A cruzada das crianças, publicado em 1885 pelo judeu-francês Marcel Schwob, homem que viveu apenas de 1867 a 1905, é um dos mais fascinantes exemplos da relação entre História e Literatura.

Conheci essa obra, que anda esgotada no Brasil, pela extinta editora Paraula: uma edição bilíngue, com excelente tradução de Dorothée de Bruchard, o qual conseguiu reconstruir em português as sutilezas sonoras da narrativa original, um francês ritmado e metafórico, marcado de sensacionismos e sinestesias – um francês próximo ao do Spleen de Paris do mestre Baudelaire.

Retrato de Marcel Schwob por Félix Valloton.

Walter Carlos Costa, que é autor da introdução da excelente edição da Paraula, escreveu:

“A imprensa nos mostra o fantástico ocorrendo o tempo todo, mas custamos a acreditar que algum dia tenha havido uma cruzada de crianças, tanto os dois termos soam antitéticos à nossa sensibilidade. No entanto, a história registra não apenas uma, mas duas cruzadas infantis no século XIII europeu. A francesa, comandada por um menino pastor chamado Stéphane, rumou para Marselha, com a esperança de que o mar se abrisse facilitando a passagem para Jerusalém. A alemã, conduzida por um menino de nome Nicolas, marchou com a mesma ilusão e se dirigiu à Itália. No total, cerca de 30 mil crianças caminharam para um desastre completo: as da França foram raptadas por traficantes de escravos e vendidas no Egito e as da Alemanha se perderam em um mistério, de que a lenda do flautista de Hamelin seria uma reminiscência.

Este sacrifício infantil em massa ocupava um canto curioso da história, até que Schwob o transformou em matéria literária. Para elevar à literatura o escândalo de exércitos infantis marcharem para a morte sem que nada ou ninguém os detivesse, Schwob preferiu utilizar intrumentos bem testados pelos escritores de épocas passadas (…) – desenvolve seu dom de narrador usando o procedimento narrativo (…) segundo o qual o mesmo fato é apresentado a partir das diferentes perspectivas de seus protagonistas. A matéria narrada tampouco é inventada, mas escrupulosamente recolhida das crônicas medievais de que era tão íntimo.”

O  resultado desse trabalho são relatos, isto é, a representação direta da fala de pessoas que presenciaram tais fatos sinistros.

Reproduzo abaixo dois desses relatos.

Relato do leproso

SE QUISER COMPREENDER o que vou lhe falar, saiba que tenho a cabeça coberta com um capuz branco e ando chacoalhando um malho de madeira dura. Já não sei que rosto é o meu, mas tenho medo de minhas mãos. Correm diante de mim como bichos escamosos e lívidos. Gostaria de cortá-las fora. Tenho vergonha daquilo que tocam. Parecem-me desalentar os frutos vermelhos que colho e as pobres raízes que arranco nelas figuram fenecer. Domine ceterorum libera me! [1]. O Salvador não expiou meu pecado descorado. Fiquei esquecido até a ressurreição. Como o sapo, selado ao frio da lua numa pedra escura, seguirei encerrado em minha ganga hedionda quando os outros se ergueram com seus corpos claros. Domine ceterorum, fac me liberum: leprosus sum[2]. Sou solitário e tenho horror. Só meus dentes mantiveram sua brancura natural. Os bichos se assustam, e minha alma quisera fugir. A luz do dia se afasta de mim. Faz mil e duzentos e doze anos que seu Salvador os salvou, e não teve dó de mim. Não me tocou a lança sangrenta que o perfurou. O sangue do Senhor dos outros talvez me tivesse curado. Penso amiúde no sangue: eu poderia morder com meus dentes; são cândidos. Já que Ele não o quis me dar, tenho a avidez de tomar aquele que lhe pertence. Eis porque espreitei as crianças que desciam da terra de Vendôme rumo àquela floresta de Loire. Traziam cruzes e eram-Lhe submissas. Seus corpos eram Seu corpo e Ele não me fez parte de seu corpo. Sou na terra rodeado por pálida danação. Espiei para chupar sangue inocente no pescoço de uma de Suas crianças. Et caro nova fiet in die irae[3]. No dia de terror, minha carne será nova. E atrás das outras andava uma criança tenra de cabelos vermelhos. Fixei-me nela; saltei de súbito; tomei-lhe a boca em minhas mãos horríveis. Vestia apenas uma blusa grosseira; seus pés estavam descalços e seus olhos se quedaram plácidos. E considerou-me sem surpresa. Então, sabendo que ela não gritaria, tive o desejo de ainda ouvir uma voz humana e retirei minhas mãos de sua boca, e ela não enxugou a boca. E seus olhos pareciam distantes.

– Quem és tu? disse eu.

– Johannes, o Teutão, respondeu ele. E suas palavras eram salutares e límpidas.

– Aonde vais? disse eu ainda.

E ele respondeu:

– A Jerusalém, conquistar a Terra Santa.

Então pus-me a rir, e perguntei-lhe:

– Onde é Jerusalém?

E ele me respondeu:

– Não sei.

E eu disse ainda:

– O que é Jerusalém?

E ele me respondeu:

– É Nosso Senhor.

Então, pus-me a rir novamente e perguntei:

– O que é o teu Senhor?

E ele me disse:

– Não sei; ele é branco.

E aquela palavra lançou-me no furor e abri os dentes sob o capuz e me inclinei para o seu pescoço tenro e ele não recuou, e eu lhe disse:

– Por que não tem medo de mim?

E ele disse:

– Por que teria medo de ti, homem branco?

Então um grande pranto me agitou, estendi-me no solo, beijei a terra com meus lábios terríveis, e gritei:

– Porque sou leproso!

E a criança teuta me considerou, e disse limpidamente:

– Não sei.

Ela não teve medo de mim! Não teve medo de mim! Minha monstruosa brancura semelha para ela a de seu Senhor. E peguei um punhado de capim e enxuguei-lhe a boca e as mãos. E eu lhe disse:

– Vai em paz rumo ao teu Senhor branco, e dize-lhe que ele me esqueceu.

E a criança me olhou sem dizer nada. Acompanhei-a para fora da escuridão desta floresta. Ela andava sem tremer. Vi sumir seu cabelo vermelho, ao longe, no sol. Domine infantium, libera me[4]. Que o som do meu malho de madeira te alcance, como o som puro dos sinos! Mestre daqueles que não sabem, liberta-me!

"A dança macabra", iconografia medieval

 

Relato de três criancinhas

NÓS TRÊS, Nicolas que não sabe falar, Alain e Denis, saímos pelas estradas rumo a Jerusalém. Faz tempo que estamos andando. Foram vozes brancas que nos chamaram na noite. Chamavam todas as criancinhas. Eram como as vozes dos pássaros mortos durante o inverno. E vimos a princípio muitos pássaros, coitados, estendidos na terra congelada, muitos passarinhos com a garganta vermelha. Vimos depois as primeiras flores e as primeiras folhas e com elas trançamos cruzes. Cantamos diante das aldeias, como costumávamos fazer no ano novo. E todas as crianças corriam para nós. E avançamos como uma tropa. Havia homens que nos maldiziam, por desconhecerem o Senhor. Havia mulheres que nos seguravam pelo braço e nos interrogavam, e cobriam nosso rosto de beijos. E houve também boas almas que nos trouxeram tigelas de madeira, leite morno e frutas. E todo o mundo tinha dó de nós. Pois eles não sabem para onde vamos e eles não escutaram as vozes.

Por sobre a terra há densas florestas, e rios, e montanhas, e sendas cheias de espinheiros. E no fim da terra encontra-se o mar que iremos cruzar em breve. E no fim do mar encontra-se Jerusalém. Não temos governantes nem guias. Para nós todas as estradas são boas. Embora não saiba falar, Nicolas caminha como nós, Alain e Denis, e as terras são todas iguais, e igualmente perigosas para as crianças. Em toda parte há densas florestas, e rios, e montanhas, e espinhos. Mas em toda parte as vozes estarão conosco. Há entre nós uma criança chamada Eustáquio, que nasceu com os olhos fechados. Anda com os braços estendidos e sorri. Não vemos nada que ele não veja. Uma menina é quem o guia e carrega a sua cruz. Chama-se Allys. Nunca fala e nunca chora: mantém os olhos fixos nos pés de Eustáquio, a fim de ampará-lo quando ele tropeça. Nós gostamos deles dois. Eustáquio não vai poder ver as santas lâmpadas do sepulcro. Mas Allys lhe tomará as mãos, para fazer com que toque as lajes do túmulo.

Oh! como são belas as coisas da terra! Não nos lembramos de nada, porque nunca aprendemos nada. Vimos, contudo, velhas árvores e rochas vermelhas. Às vezes passamos dentro de longas trevas. Às vezes andamos até à noite em prados claros. Gritamos o nome de Jesus nos ouvidos de Nicolas, e ele o conhece bem. Mas não sabe dizê-lo. Ele se alegra conosco com aquilo que vemos. Pois seus lábios podem se abrir para a alegria, e ele nos afaga os ombros. E eles, assim, não são infelizes: pois Allys vela por Eustáquio e nós, Alain e Denis, velamos por Nicolas.

Diziam que nos bosques nos depararíamos com ogros e lobisomens. Mentira. Ninguém nos assustou; ninguém nos fez mal algum. Os solitários e os doentes vêm nos olhar e as velhas acendem, para nós, luzes nas cabanas. Mandam tocar por nós os sinos das igrejas. Os camponeses erguem-se de sobre os sulcos da terra para espiar-nos. Os bichos também olham para nós e não fogem. E desde que estamos andando, o sol se tornou mais quente, e já não colhemos as mesmas flores. Mas todas as hastes podem trançar-se com a mesma forma, e nossas cruzes estão sempre viçosas. Assim temos grande esperança, e logo veremos o mar azul. E no fim do mar azul está Jerusalém. E o Senhor deixará vir até seu túmulo todas as criancinhas. E as vozes brancas estarão alegres na noite.

"A cruzada das crianças", desenho de Gustave Doré

[1]Domine ceterorum libera me!: Ó Senhor de todas as coisas, libertai-me!

[2] Domine ceterorum, fac me liberum: leprosus sum: Ó Senhor de todas as coisas, fazei-me livre: leproso sou.

[3] Et caro nova fiet in die irae: E serei feito carne nova no dia final.

[4] Domine infantium, libera me!:  senhor dos mais novos, libertai-me!

E você, meu caro, o que está lendo no momento?

Vêm chegando as férias e com elas o direito às leituras renunciadas ao longo do semestre. Eu mais ou menos sei o que quero ler nesses momentos, não o livro exato, mas o tipo de leitura: em geral, a) os grandes clássicos universais, b) os autores vivos, mas também – como não? –  c) as releituras.

Já me aconteceu várias vezes de voltar, por exemplo, ao delicioso Don Quijote de la Mancha, não ao livro todo, mas a trechos inesquecíveis, para os quais sinto necessidade de retornar, como quem volta a uma velha cidade conhecida. Com sua concepção de literatura como entretenimento[1] e seu “escribo como hablo”, Cervantes é um autor agradabilíssimo. Sua sintaxe flui, provocando risos e sorrisos: solta, colorida. E vale a pena, mesmo para alguém tão inábil com línguas estrangeiras como eu, a aventura de ler ao menos alguns trechos em espanhol. A criatura de Cervantes – El ingenioso hidalgo Don Qvixote de La Mancha – inaugura o conflito central do herói das narrativas modernas: o descompasso entre o ser e o meio, a cisão entre o desejo e a realidade, conflito que é o de Werther (Os sofrimentos do jovem Werther, Goethe), o de Julien Sorel (O vermelho e o negro, de Stendhal), o de Ema Bovary (Madame Bovary, de Flaubert) e o de Raskólnikov (Crime e castigo, de Dostoiévksi), para ficar em alguns exemplos expressivos.

Li o Quixote aos vinte e tantos anos, com indicação e orientação da grande professa Maria Augusta da Costa Vieira, autora de um trabalho maravilhoso sobre a obra de Cervantes[2], o qual ampliou e deu significado ainda mais especial à minha leitura. Li a tradução de Sérgio Molina, na belíssima edição bilíngue da Editora 34, com ilustrações de Gustave Doré e excelente apresentação da própria Maria Augusta Vieira.

Ilustração de Gustave Doré, originalmente publicada numa edição francesa de "Dom Quixote", em 1863.

Volto ao livro quando posso, quando quero. E confesso que às vezes me pego simplesmente pensando nele, no vigor de sua expressão, em sua grandeza, em seu mistério extraordinário de poder ser conhecido mesmo daqueles que jamais folhearam suas páginas – porque Dom Quixote é mais que um livro, é um universo, do qual mesmo não-leitores participam.

Convivo com o fidalgo de La Mancha por meio de outras personagens, reencontro-o no singelo Policarpo Quaresma (Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto), no divertidíssimo Geraldo Viramundo (O Grande Mentecapto, de Fernando Sabino) e entre dezenas de sonhadores incompreendidos, soterrados pelo pragmatismo e atropelados pela anomia moderna.

Crime e castigo é outro livro ao qual sempre retorno. Li-o três vezes. A primeira leitura foi ardorosa e provavelmente bastante ingênua, aos dezessete anos. Uma tradução indireta, do escritor Marques Rebelo, já que na época não existia esse grande volume de traduções diretas do russo. Daquela primeira leitura, as recordações são vivas. Lembro-me até dos lugares onde me sentei para ler: praças, terminais de ônibus, a mesa da cozinha de casa. Uma experiência fulminante. Riquíssimo foi o reencontro, mais de dez anos depois, pela tradução direta do russo, realizada pelo grande Paulo Bezerra. Ao contrário do riso, que salpica o trágico percurso de Quixote, a companhia de Raskólnikov provoca desassossego, desamparo, tristeza, paixões desesperadas. E mesmo assim é uma grande companhia, cujos ensinamentos calam profundamente. Pela técnica de Dostoiévski, que prima em dar voz a várias personagens, oferecendo assim diversos ângulos sobre os fatos do enredo, fica difícil classificar como secundárias as figuras de Razumíkhin, Sônia ou Svidrigáilov, pois têm um sentido profundo no enredo e oferecem, tanto quanto o herói, possibilidades de leitura da realidade. Por isso Raskólnikov é também o que dizem e pensam sobre ele as outras personagens da narrativa. A companhia então, nesse caso, se alarga: é uma galeria de pessoas que passam a fazer parte de sua vida.  Sempre que me perguntam qual o livro de que mais gosto, respondo sem titubear: Crime e castigo. Não quer dizer que seja a pura verdade, mas quer dizer alguma coisa.

Raskólnikov, personagem de "Crime e castigo" (imagem encontrada no blog "Mote do desafio")

Não me satisfaço só com releituras. Comecei o ciclo de leituras destas férias com Bartleby, o escrivão, de Herman Melville. Eu esperava por esse encontro há alguns anos. Para mim o século XIX sempre foi russo e francês e obviamente, por razões profissionais, luso-brasileiro, e, à exceção de Poe (aquele maluco), sempre tive preferência pelos americanos do século XX, como Fitzgerald, Fante e Philip Roth. Sabia obviamente da excelência narrativa de Melville, mas adiava o encontro, como adio muitos outros: meu encontro com Proust, por exemplo.

Mas Bartleby, essa criatura que eu sabia filiar-se à galeria dos “homens sem importância” [3], me atraía e me pedia urgentemente sua leitura. Ganhei o livro num amigo-secreto com os alunos do primeiro ano (valeu, Bruno!). Mais cinco páginas e eu concluo a leitura. Mas já não há dúvida: Bartleby é alguém que vou sempre querer reencontrar: em releituras, rememorações, ou simplesmente em devaneios. O tipo estranho que se recusa ao que lhe pedem ou ordenam com seu imutável “Acho melhor não” já faz parte de mim. E o narrador de Melville, com suas indagações incisivas, certeiras, com seu desajeitado senso de humanidade, sim, é extraordinário!

Adorei começar esse ciclo com Bartleby e acho que vou repetir a dose: ou seja, provavelmente tenha de novo um primeiro encontro com um clássico do século XIX. Quem sabe Tolstói ou mesmo Dostoiévski?

Imagem encontrada no blog "Pringles"

Quando existe algum tempo para o ócio, bom mesmo é deixar que os livros venham acidentalmente, ao sabor do acaso.

E você, meu caro, o que está lendo no momento? Registre aqui nos comentários suas leituras de férias.


[1] “O entretenimento, Cervantes dá a entender claramente, é a função primordial da prosa narrativa.” E.C Riley, em Teoria de la novela en Cervantes – Versión de Carlos Sahagún. Madrid, Taurus, 1981. p. 137. Vale a pena lembrar que o tipo de entretenimento de Cervantes está longe de ser uma diversão sem consequências éticas ou existenciais: sua literatura é um docere cum delectare (educar com prazer) dos antigos.

[2] VIEIRA, Maria Augusta da Costa. O dito pelo não-dito: paradoxos de Dom Quixote. São Paulo, EDUSP – FAPESP, 1998.

[3] Em sua obra magistral e singular Os arquétipos literários (Ateliê Editorial), o estudioso russo E. M. Meletínski apresenta, entre outras, a personagem arquetípica do “homem sem importância”, criada por Gógol em novelas como O capote e O diário de um louco.