“Na hora de pôr a mesa”, em vídeo

 

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“O crime do padre Amaro”, o filme mexicano com Gael Bernal

A obra canônica de Eça de Queirós, para quem não sabe, foi adaptada em 2002 pelo cinema mexicano:  “O crime do padre Amaro”, dirigido por Carlos Carrera e estrelado por ninguém menos que o galã Gael Garcia Bernal.

Além de manter o teor crítico e contundente dessa que é, para mim, a melhor obra de Eça, o filme tem a importantíssima missão de “testar” a atualidade e a universalidade do tema, pois o enredo se passa, não n0 Portugal do século XIX, mas no México do século XX. Sim, o filme prova: o tema de Eça está fresquíssimo, e é ainda digno de atenção.

Os elementos próprios do contexto atual e mexicano (os que não estão na obra portuguesa, como a questão do tráfico de drogas) aparecem de modo pertinente e – isso vale principalmente para quem já leu a obra de Eça – causam agradável surpresa.

Aquela velha história: não se julga um filme pelo livro, no caso de adaptações. Ou seja, não é pela fidelidade ou traição à obra de Eça que o filme de Carrera deve ser apreciado, mas como obra autônoma. Sim, esse princípio é básico. Mas também é um princípio básico que a nova obra forma com sua antecessora uma relação, um diálogo – para usar o termo certo: uma intertextualidade. O que se tem então é uma reação ambígua com a nova obra, porque ela é velha e nova ao mesmo tempo. E essa ambiguidade é o que tanto me instiga nas adaptações.

Vi o filme no cinema quando saiu no Brasil. Acredito que é um acontecimento na tradição da literatura de língua portuguesa ter um ator em tanta evidência como Bernal encarnando a figura do padre Amaro (o padre Amaro do Eça ou o de Carrera? As duas coisas, certamente).

O filme vale muito para quem já leu o livro de Eça, mas vale muito também para quem só quer assistir a um bom filme.

Reproduzo aqui o trailler:

Em homenagem a Pessoa, alguns pitacos lusófonos

No último dia 13, comemoraram-se os 123 anos de nascimento de Fernando Pessoa, considerado, ao lado de Camões, o maior poeta da literatura portuguesa. Leitores importantes, no mundo todo, reconhecerem em Pessoa um dos maiores talentos de toda a história da arte.

A língua portuguesa, claro, foi um dos elementos limitadores para uma maior difusão da obra do poeta, provavelmente menos conhecido na Europa que Neruda e Borges, apesar de representar, em termos de inovação estética, uma contribuição no mínimo à altura.

Apesar de ser a quinta mais falada do mundo e a mais falada de todo o hemisfério  sul,  a língua portuguesa é inexpressiva nos meios acadêmicos, desinteressante para os editores de países não lusófonos e muito pouco falada e também muito pouco conhecida pelos falantes desses países.

Explicar a limitada difusão do grande poeta Fernando Pessoa é mais ou menos o mesmo que explicar a mínima penetração dos grandes autores brasileiros – Machado de Assis é um bom exemplo – entre leitores estrangeiros. Os casos de Woody Allen e Philip Roth, exemplos de leitores célebres de Machado, são exceções.

Lembro que em minhas poucas e limitadas pesquisas pelas livrarias do centro de Paris (em 2006), por exemplo, não encontrei um título sequer do velho Machado nas seções de autores latino-americanos, onde ficam em geral os escritores brasileiros. Na seção de poesia estrangeira de uma dessas livrarias, encontrei alguma coisa de Fernando Pessoa, mas confesso que não lembro bem o quê.

Alguém teve mais sucesso que eu nesse tipo de pesquisa? Favor deixar registrado aqui, como uma forma de consolo.

Mas o que quero mesmo neste post é ressaltar a grandeza (e não a difusão limitada) das letras e da cultura lusófonas, a partir de algumas indicações:

Primeiramente: a leitura de um texto que postei aqui mesmo no Prefácio em 19 de fevereiro, sobre a expressividade da poesia de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa:

Álvaro de Campos e a poética do desespero

Em segundo lugar: recomendo aos amantes da MPB um passeio pelo Youtube para conhecer (ou relembrar) a beleza das interpretações que Maria Bethânia fez dos poemas de Fernando Pessoa, seja  cantando ou declamando.

Comentário rápido: teriam os baianos herdado diretamente dos portugueses essa capacidade para falar de modo tão expressivo e comovente do mar, como o fazem Caymmi, Caetano e Bethânia, para ficar em alguns poucos exemplos?

Outra questão rápida: terão as letras portuguesas lugar de destaque nesse tipo de abordagem ou isso é impressão minha? Portugal, que se fez e se definiu pelos seus múltiplos périplos, que se perdeu e reinventou-se em outras terras, ou seja, que foi uma nação basicamente navegadora, e o Brasil, maior costa litorânea do mundo, que atrai o mundo todo para suas lindíssimas praias, figurariam de fato entre os países que mais falaram e/ou que mais falaram bem – em livros, poemas e canções e até mesmo em filmes – sobre esse misterioso gigante líquido – O MAR?

Minha última dica: por todas as questões mencionadas acima, inspiradas pela poesia de Fernando Pessoa (que aliás morreu cedíssimo: aos 47 anos de idade),  reproduzo aqui um vídeo do grupo português Madredeus, pérola da lírica portuguesa, com a música Ao longe o mar (a letra segue logo abaixo).

Saudações lusófonas!

Ao longe o mar

Composição : Pedro Ayres Magalhães

Porto calmo de abrigo
De um futuro maior
Inda não está perdido
No presente temor

Não faz muito sentido
Já não esperar o melhor
Vem da névoa saindo
A promessa anterior

Quando avistei
Ao longe o mar
Ali fiquei
Parada a olhar

Sim, eu canto a vontade
Canto o teu despertar
E abraçando a saudade
Canto o tempo a passar

Quando avistei
Ao longe o mar
Ali fiquei
Parada a olhar

Quando avistei
Ao longe o mar
Sem querer deixei-me
Ali ficar

Álvaro de Campos e a poética do desespero

Choque e encantamento, assombro e fascinação, novidade e decadência, êxtase e vazio são alguns dos muitos paradoxos da modernidade. Nos diferentes rumos tomados pelas literaturas do século XX, esses antagonismos sobreviveram de maneira intensa e, no caso da língua portuguesa, encontraram em Álvaro de Campos[1], heterônimo de Fernando Pessoa (1888-1935), uma de suas grandes expressões:

Orgia intelectual de sentir a vida!

e

E a vida dói quanto mais se goza e mais se inventa

Os versos são de Passagem das horas [2], poema da dúvida entre a renúncia e a integração, entre a saciedade e o tédio, o êxtase e o enjoo diante desse múltiplo espetáculo que é o mundo moderno.

Imagem encontrada no blog "De que me servem os olhos"

Campos é uma figura farta, abarrotada:

Trago dentro do meu coração

Como num cofre que não se pode fechar de cheio,

Todos os lugares onde estive,

Todos os portos a que cheguei

É o heterônimo mais cosmopolita de Pessoa, e ao longo do poema indica ter visitado Macau, Singapura, desfila países, terras, línguas e culturas. Mas essas excursões pelas cidades do mundo também são excursões pelo seu eu tresvariado, e as duas viagens – por dentro e por fora – são vividas como um grande desespero: medo de não abarcar, não apreender o que se dá a ver, e, por outro lado, medo de apreender demais, abocanhar de vez a imensidão de coisas que seu eu – falível, limitado, enfim, humano – não poderia nunca conter.

Para além de suas viagens, “todas as paisagens” que viu ou sonhou, Campos lamenta:

… tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero

Campos não sente falta de sentido, pois os tem em excesso:

Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti

E essa fartura de sentidos, por outro lado, não lhe satisfaz – parecem ainda pouco ou talvez sejam demais para ele:

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.

Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei.

De qualquer modo, conclui:

era melhor não ter nascido

A debater-se entre sentir de mais ou de menos, é como se Campos não encontrasse espaço para viver de modo efetivo, como se não pudesse nunca existir de fato. É um ser que não se basta. E isso é muito parecido com o que, de maneira geral, todos somos um pouco em nossos dias.

Deparando-se com o mundo multiforme que se exibe à sua frente, como horizonte ao mesmo tempo possível e inabarcável (a imensidão labiríntica de ofertas e solidões de uma cidade como a nossa São Paulo) Campos é possuído pela fúria desejosa de contê-lo, tentando trazer para si toda a ruidosa experiência do planeta, todos os caracteres: das prostitutas, dos homens inferiores e superiores, do soldado, do assassino, dos atletas. Quer todos os lugares, todos os costumes, todos os movimentos e as especulações.

Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,

E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim …

Meu coração tribunal, meu coração mercado,

Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,

Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,

Meu coração banco de jardim público, hospedaria,

Estalagem, calabouço número qualquer cousa

É o ser “esponja”, que procura absorver em si todos os sentidos de seu tempo, na esperança de com isso se sentir inteiro. E isso lhe provoca fascínio. E isso lhe provoca, fatalmente, imenso desespero.

Multipliquei-me, para me sentir,

Para me sentir, precisei sentir tudo,

Transbordei, não fiz senão extravasar-me

O lema de Álvaro de Campos é “sentir tudo de todas as maneiras”. Ele se expande e se torna outros homens. Como não é ninguém, precisa ser todos; como não é nada, precisa ser tudo. Por intermédio dos outros – todas as pessoas – acredita ser possível tornar-se finalmente alguém. Só que a multidão é informe, é amorfa; ser todos é não estar em si: ser coisa alguma, nada, ninguém. E tudo isso desagrada e desespera. E tudo isso é expresso em voz exaltada.

Conhecendo a abundância do mundo moderno, Campos conclui que esse tudo é nada: vazio fastidioso da experiência.

A poesia de Álvaro de Campos é um dos convites mais intensos para se pensar, sentir e viver na carne os sentido ambíguos da modernidade.

Fórum: seu Pessoa predileto

Sei que, entre os leitores do Prefácio, muitos são os aficcionados em Álvaro de Campos e, mais genericamente, em Fernando Pessoa. Sugiro então um novo fórum, desta vez partindo da pergunta: qual é seu heterônimo e/ou qual é seu poema preferido do imortal poeta português?

Aguardo respostas.


[1] Álvaro de Campos é uma invenção de Fernando Pessoa, ou seja, não é um poeta de verdade, mas um heterônimo. Confira:

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[2] Os versos todos do post pertencem a esse poema, que pode ser lido integralmente em:

facam07.html