Último antes das férias

Caros queridos, hora de se levantar da mesa e dar aquele lento e agradável espreguiçar, vestir a bermuda e os chinelos e sair um pouco para a rua, quem sabe ir até a praia.

Hora de ler e de reler, de ver e de rever alguns filmes.

Pessoalmente, ando entusiasmado com autores africanos de língua portuguesa e francesa e com filmes do velho cinema italiano. Os amigos leitores ficam incumbidos de deixarem registradas, nos comentários, quais têm sido suas preferências atuais.

Como despedida do Prefácio ao ano de 2011, publico esta matéria divertida da Revista Trip, indicação de meu querido aluno André Massabki.

Gostei da matéria particularmente por nos fazer pensar no caráter controverso da noção de bom gosto. Insisto sempre na necessidade de lermos criticamente os textos literários, inclusive os mais consagrados pelo cânone acadêmico, e creio que a matéria confirma a importância disso: ver autores renomados – alguns até de modo irresponsável ou mesmo pouco elegante (o que eu não acho em si aprovável), mas quase sempre divertido e inteligente – achincalhando outros autores igualmente renomados é uma forma expressiva de confirmação de que os “imortais” não formam um “time”, com discurso unívoco ou unânime. Pelo contrário, sua noção de qualidade é diversa – mais que isso, é controversa.

Boas férias, boas leituras, bons filmes, boas festas, e, claro, boa preguiça, bons esquecimentos.

AUTOR VERSUS AUTOR

Trinta grandes nomes da literatura criticando duramente outros trinta autores eternos

É muito fácil criticar um autor iniciante ou aquele escritor que nunca teve um grande alcance, ainda mais se o crítico é um escritor veterano e considerado universal por sua importância histórica. Mas tem vezes que sobra até para algumas “vacas sagradas” da literatura universal, mesmo os nomes de maior peso como Dostoievsky, James Joyce ou até Mark Twain.

Nesta semana, o site Flavorwire compilou 30 das mais engraçadas provocações públicas da história literária do Ocidente, colocando autor contra autor em uma lista que, apesar de nem ser tão longa, já dá uma ideia em linhas gerais da opinião real que gênios tem de outros gênios. Na seleção, ninguém escapou das linhas afiadas destes romancistas e poetas que incluem Gustave Flaubert, Vladimir Nabokov, Virginia Woolf, Charles Baudelaire, Truman Capote e Henry James.

Logo abaixo você vê a lista completa de insultos de autores para outros autores, todos eles de renome internacional.

Reprodução

Vladimir Nabokov pronto para a briga

Vladimir Nabokov pronto para a briga

30. Gustave Flaubert (Madame Bovary) sobre George Sand (Mattéa)
“Uma grande vaca recheada de namquim”

29. Robert Louis Stevenson (O Médico e o Monstro) sobre Walt Whitman (Leaves of Grass)
“Ele escreve como um cachorro grande e desengonçado que escapou da coleira e vaga pelas praias do mundo latindo para a lua”

28. Friedrich Nietzsche (Assim Falou Zaratustra) sobre Dante Alighieri (A Divina Comédia)
“Uma hiena que escreu sua poesia em tumbas”

27. Harold Bloom (A Invenção do Humano) sobre J.K. Rowling (Harry Potter)
“Como ler Harry Potter e a Pedra Filosofal? Rapidamente, para começar, e talvez também para acabar logo. Por que ler esse livro? Presumivelmente, se você não pode ser convencido a ler nenhuma outra obra, Rowling vai ter que servir.”

26. Vladimir Nabokov (Lolita) sobre Fyodor Dostoievsky (Crime e Castigo)
“A falta de bom gosto do Dostoievsky, seus relatos monótonos sobre pessoas sofrendo com complexos pré-freudianos, a forma que ele tem de chafurdar nas trágicas desventuras da dignidade humana – tudo isso é muito difícil de admirar”

25. Gertrude Stein (The Making of Americans) sobre Ezra Pound (Lustra)
“Um guia turístico de vila. Excelente se você fosse a vila. Mas se você não é, então não é.”

24. Virginia Woolf (Passeio ao Farol) sobre Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo)
“É tudo um protesto cru e mal cozido”

23. H. G. Wells (Guerra dos Mundos) sobre George Bernard Shaw (Pygmalion)
“Uma criança idiota gritando em um hospital”

22. Joseph Conrad (Coração das Trevas) sobre D.H. Lawrence (Filhos e amantes)
“Sujeira. Nada além de obscenidades.”

21. Lord Byron (Don Juan) on John Keats (To Autumn)
“Aqui temos a poesia ‘mija-na-cama’ do Johnny Keats e mais três romances de sei lá eu quem. Chega de Keats, eu peço. Queimem-o vivo! Se algum de vocês não o fizer eu devo arrancar a pele dele com minhas próprias mãos.”

Reprodução

Virginia Woolf

Virginia Woolf

20. Vladimir Nabokov sobre Joseph Conrad
“Eu não consigo tolerar o estilo loja de presentes de Conrad e os navios engarrafados e colares de concha de seus clichês românticos.”

19. Dylan Thomas (25 Poemas) sobre Rudyard Kipling (The Jungle Book)
“O senhor Kipling representa tudo o que há nesse mundo cancroso que eu gostaria que fosse diferente”

18. Ralph Waldo Emerson (Concord Hymn) sobre Jane Austen (Orgulho e Preconceito)
“Os romances da senhorita Austen me parecem vulgares no tom, estéreis em inventividade artística, presos nas apertadas convenções da sociedade inglesa, sem genialidade, sem perspicácia ou conhecimento de mundo. Nunca a vida foi tão embaraçosa e estreita.”

17. Martin Amis (Experiência) sobre Miguel Cervantes (Dom Quixote)
“Ler Don Quixote pode ser comparavel a uma visita sem data para acabar de seu parente velho mais impossível, com todas as suas brincadeiras, hábitos sujos, reminiscências imparaveis e sua intimidade terrível. Quando a experiência acaba (na página 846 com a prosa apertada, estreita e sem pausa para diálogos), você vai derramar lágrimas, isso é verdade. Mas não de alívio ou de arrependimento e sim lágrimas de orgulho. Você conseguiu!”

16. Charles Baudelaire (Paraísos Artificiais) sobre Voltaire (Cândido)
“Eu cresci entediado na França. E o maior motivo para isso é que todo mundo aqui me lembra o Voltaire… o rei dos idiotas, o príncipe da superficialidade, o antiartista, o porta-voz das serventes, o papai Gigone dos editores da revista Siecle”

15. William Faulkner (A Cidade) sobre Ernest Hemingway (Por Quem os Sinos Dobram)
“Ele nunca sequer pensou em usar uma palavra que pudesse mandar o leitor para um dicionário.”

14. Ernest Hemingway sobre William Faulkner
“Pobre Faulkner. Ele realmente pensa que grandes emoções vem de grandes palavras?”

13. Gore Vidal (O Julgamento de Paris) sobre Truman Capote (A Sangue Frio)
“Ele é uma dona de casa totalmente empenada do Kansas, com todos os seus preconceitos.”

12. Oscar Wilde (O Retrato de Dorian Grey) sobre Alexander Pope (Ensaio sobre a crítica)
“Existem duas formas de se odiar poesia: uma delas é não gostar, a outra é ler Pope.”

Reprodução

Mark Twain, o mestre do humor americano

Mark Twain, o mestre do humor americano

11. Vladimir Nabokov sobre Ernest Hemingway 
“Quanto ao Hemingway, eu li um livro dele pela primeira vez nos anos 40, algo sobre sinos, bolas e bois, e eu odiei.”

10. Henry James (Calafrio) sobre Edgar Allan Poe (Os Crimes da Rua Morgue)
“Se entusiasmar com o Poe é a marca de um estágio decididamente primitivo da reflexão.”

9. Truman Capote sobre Jack Kerouac (On The Road)
“Isso não é escrever. Isso é só datilografar.”

8. Elizabeth Bishop (Norte e Sul) sobre J.D. Salinger (Apanhador no Campo de Centeio)
“Eu odiei o ‘Apanhador no Campo de Centeio’. Demorei dias para começar a avançar, timidamente, uma página de cada vez e corando de vergonha por ele a cada sentença ridícula pelo caminho. Como deixaram ele fazer isso?”

7. D.H. Lawrence sobre Herman Melville (Moby Dick)
“Ninguém pode ser mais palhaço, mais desajeitado e sintaticamente de mau gosto como Herman, mesmo em um grande livro como Moby Dick. Tem algo falso sobre sua seriedade, esse é o Melville.”

6. W. H. Auden (Funeral Blues) sobre Robert Browning (Flautista de Hamelin)
“Eu não acho que Robert Browning era nada bom de cama. Sua mulher também provavelmente não ligava muito pra ele. Ele roncava e devia ter fantasias sobre garotas de 12 anos.”

5. Evelyn Waugh (Memórias de Brideshead) sobre Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido)
“Estou lendo Proust pela primeira vez. É uma coisa muito pobre. Eu acho que ele tinha algum problema mental.”

4. Mark Twain (As Aventuras de Huckleberry Finn) sobre Jane Austen
“Eu não tenho o direito de criticar nenhum livro e eu nunca faço isso, a não ser quando eu odeio um. Eu sempre quero criticar a Jane Austen, mas seus livros me deixam tão bravo que eu não consigo separar minha raiva do leitor, portanto eu tenho que parar a cada vez que eu começo. Cada vez eu eu tento ler Orgulho e Preconceito eu quero exumar seu cadáver e acertá-la na cabeça com seu osso do queixo.”

3. Virginia Woolf sobre James Joyce (Ulisses)
“Ulisses é o trabalho de um estudante universitário enjoado coçando as suas espinhas”

2. William Faulkner sobre Mark Twain
“Um escritor mercenário que não conseguia nem ser considerado da quarta divisão na Europa e que enganou alguns esqueletos literários de tiro-certo com cores suficientemente locais para intrigar os superficiais e preguiçosos.”

1. D.H. Lawrence sobre James Joyce
“Meu deus, que idiota desastrado esse James Joyce é. Não é nada além de velhos trabalhos e tocos de repolho de citações bíblicas com um resto cozido em suco de um jornalismo deliberadamente sujo.”

Vai lá: www.flavorwire.com

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Leituras de férias, uma nova enquete

Pintura de Arcimboldo

Caros leitores,

Este post, com o qual reativo o Prefácio para o segundo semestre, tem exclusivamente a finalidade de servir como um fórum sobre leituras de férias, aquelas que fazemos por puro prazer e lazer, sem qualquer preocupação com as exigências (as boas e as ruins) de nossa vida profissional ou acadêmica.

O espaço de comentários, portanto, terá mais importância do que o post em si: deve ser usado e abusado para que haja uma troca interessante de impressões (breves ou longas) de leituras.

Mas deixo, antes de tudo, o registro das minhas, as leituras que eu fiz nestas férias de julho.

São as seguintes.

1. A Louca (Dix Editorial, 2007), de meu amigo e colega de trabalho Del Candeias. Li esse livro num misto de prazer e orgulho. Prazer porque o livro é uma maravilha estética e orgulho porque sou amigo dele, e é bom demais admirarmos esteticamente quem já estimamos pessoalmente.

A Louca é um romance que aborda de modo aberto, autêntico, criativo e divertido o universo da boate de maior reputação da cultura underground da São Paulo dos anos 90/2000: A Lôca.

Ao mesmo tempo em que caracteriza a boate de modo exímio, Del também (ele sabe que seria preciso fazer isso) amplia suas significações particulares de modo a apresentar-nos o universo das principais pulsões do mal-estar contemporâneo. No fim, não temos apenas um conjunto de impressões parciais, mas um bom parâmetro para entender a condição subjetiva deste início de século, em que as relações humanas se complexificam de modo vertiginoso.[1]

Além do charme de retomar de modo inteligentíssimo velhos ritmos, estilos, motivos e situações de autores clássicos – como Raul Pompeia, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Cruz e Sousa e Guimarães Rosa, – em paródias inesperadas e deliciosas, A Louca certamente pode se transformar (os futuros leitores dirão) num parâmetro altamente qualificado para fixação de um modo de ser de uma das maiores cidades do mundo.[2]

 2. Pai (Editora Terceiro Nome, 2006). Um texto forte, impactante, poderoso, na trilha da Carta ao pai de Kafka. A autora é a importante atriz brasileira Cristina Mutarelli, que se não me engano tem nesse livro sua única publicação literária. Mereceria mais. Em prosa fluida e agradável – um monólogo, como ela mesma o caracteriza -, a autora aborda o conflituoso labirinto das relações entre pais e filhos.

 3. Golpe de ar (Editora 34, 2009), de Fabrício Corsaletti. Uma prosa deliciosa, onírica, que parece ter sido escrita nos anos 60, pela sensação de liberdade e pelo frescor que sugere.

4. Releituras de textos de Tchekhov das coletâneas A dama do cachorrinho e outros contos (Editora 34, 1999) e O beijo e outras histórias (Editora 34, 2006). É sempre bom voltar a um dos maiores mestres da narrativa de toda a literatura universal. Em meu reencontro com esses textos, destaco Uma história enfadonha, Ventoinha e Um caso clínico, que para mim estão entre as melhores narrativas de Tchekhov.

Bem, agora o espaço é do leitor.


[1] Quanto mais avançam as conquistas das formas plurais de sexualidade, afetividade e formação familiar no Brasil – como se percebe pela ampliação da Lei da União Estável para pessoas do mesmo sexo ou pelo imenso sucesso da Parada Gay –, mais se mostram violentas e incisivas as reações moralistas, preconceituosas e repressoras – seja nas sucessivas agressões físicas registradas quase rotineiramente em São Paulo, seja na lei do vereador evangélico Carlos Apolinário (DEM), já aprovada na Câmara, como uma das muitas provas da incapacidade paulista de superar sua tendência ao conservadorismo. Num contexto como esse, a abordagem destemida da complexidade de nossos labirintos afetivo-sexuais torna ainda mais louvável e fundamental um livro como o de Del Candeias.

[2] Considere-se o fato de que São Paulo tem sido comentada na imprensa nacional e internacional como uma das mais ricas “cenas cosmopolitas” da atualidade.

Leskov e a impetuosidade russa

Fiquei impressionado com a Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk, de Nicolai Leskov (1831-1895).

No Brasil, Leskov é certamente um dos menos conhecidos dos gigantes russos, embora o público das letras e humanidades tenha lido a seu respeito o antológico ensaio de Walter Benjamin: O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov[1]. O mesmo se deu comigo, só conhecia Leskov pelos comentários do grande ensaísta alemão.

Tinha um exemplar de Lady Macbeth[2] estacionado em minha estante. Tradução do genial Paulo Bezerra.

Li-o em três dias e repito: fiquei impressionado com o texto. Por sua crueza, objetividade e humor negro surpreendentes, viscerais: como o é o melhor da literatura russa, com seu reconhecido espírito patético.

Sobre a singularidade da literatura russa, comentou Auerbach em Mimesis:

Parece que os russos conservaram para si uma imediaticidade das vivências como já era difícil encontrar na civilização ocidental no século XIX; um estremecimento forte, vital, ou moral, ou espiritual, atiça-os imediatamente nas profundezas dos seus instintos, e eles caem num instante de uma vida calma e uniforme, por vezes quase vegetativa, para precipitar-se nos mais terríveis excessos, tanto práticos quanto espirituais.[3]

Essas palavras explicam perfeitamente a pulsão básica da novela de Leskov, onde tudo é brutal, violento, inacreditavelmente intenso.

A Lady Macbeth de Leskov é Catierina Lvovna, uma moça pobre de vinte e quatro anos que se casa com Zinóvi Izmáilov, comerciante abastado e já com mais de cinquenta, passando a viver com ele e o sogro.

Aí a descrição do casamento, na primeira página da narrativa:

“Casaram-na com o nosso comerciante Izmáilov, de Tuskara, província de Kursk, não por amor ou qualquer atração, mas sem quê nem pra quê, simplesmente porque Izmáilov pedira sua mão, e, sendo ela pobre, não precisaria ficar escolhendo marido.”

A vida nesse casamento é típica dos matrimônios burgueses dos romances realistas do século XIX – monótona, estática, desprovida de emoções e enlevos –, vida que levou personagens como Luísa, em O primo Basílio, de Eça de Queirós e Ema, em Madame Bovary, de Flaubert, a encontrarem no adultério o seu ponto de fuga, sua possibilidade de arrebatamento e experimentação erótico-amorosa autêntica. E foi mesmo com o Realismo que se deu definitivamente um enfoque sério à infeliz condição das mulheres no casamento tradicional, prenunciando as conquistas feministas do século XX. A prosa realista – Ana Karênina e outros de Tolstói, A dócil e outros de Dostoiévski, narrativas de Tchekhov e de Machado de Assis – aborda o conflito entre desejo feminino e casamento convencional, ente interesse erótico-amoroso e matrimônio burguês, questionando duramente a estrutura patriarcal.

Natureza morta - A assassina, de Munch

Mas a Lady Macbeth de Leskov é um caso à parte. Num primeiro momento – que vivenciamos como algo muito breve –, temos a ilusão de estar em um mundo ao gosto de Eça de Queirós: com o marido sempre ausente, Catierina se envolve com Serguiêi, o rapagão conquistador que é empregado de Zinóvi Izmáilov. A moça se apaixona. É prosa de Queirós. Surgem os obstáculos para a plena realização dos desejos e Catierina reage. Sua reação não é de Luísa, nem de Ema, nem Ana: sob o impulso da mais completa obstinação, a jovem Lvovna mata. E mata não apenas uma vez. E mata sem pudor, sem remorso e até mesmo sem medo: mata para ver-se livre e poder amar livremente. Mata como ama, loucamente.

A reação do leitor diante de tal obstinação desvairada é basicamente manter um riso assustado, até o fim do livro.

Um colega alertou-me que o desfecho da trama ia me surpreender. Estava certo. Terminei o livro ontem à noite. Estou ainda estupefato.

Abaixo, um trecho da genial adaptação de Macbeth pelo diretor Roman Polanski (1971). Esta fala da Lady Macbeth shakespereana, interpretada pela atriz Francesca Annis, revela a obstinação fundamental da heroína de Leskov:


[1] BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas, v.I. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo, Brasiliense, 2008, p. 197 – 221.

[2] LESKOV, Nicolau. Lady Macbeth do distrito de Metzensk. São Paulo, Editora 34, 2009.

[3] AUERBACH, Erich. Mimesis. São Paulo, Perspectiva, 2002, p. 469.

A morte de Ivan Ilitch (1886)

Seria capaz de lembrar a primeira vez que ouvi falar sobre essa consagradíssima novela de Tolstói? Realmente não.

É um livro que eu sempre vi elencado como dos mais expressivos da literatura russa e, embora bem menos mencionado que Guerra e paz (que só conheço pelas adaptações para o cinema) e Ana Karênina (que eu li há uns quinze anos), A morte de Ivan Ilitch aparecia em geral descrito como uma das mais belas abordagens do tema. Lembro de ter lido grandes nomes, como o escritor Nabokov, apresentando-a como uma das mais importantes  obras da literatura russa.

Mais tarde, numas férias que passei em Ubatuba, ouvi o que meus conhecidos falavam sobre a narrativa de Tolstói. Faziam um rodízio de leitura – um terminava e já passava para o outro ler; ao final de duas semanas havia já cinco leitores comentando sobre o livro de Tolstói, todos empolgados, com grandes impressões. A despeito disso, eu, que estava envolvido com outras leituras, não peguei a “onda tolstoiana” daquelas férias e adiei meu encontro com Ivan Ilitch.

Verdade mesmo é que não me animava em ler Tolstói. Meu contato com os russos àquela época de poucas traduções diretas (vide nota do post “O capote“) era por meio de Tchekhov e principalmente Dostoiévski e, se é verdade que gostei de Ana Karênina, também é verdade que ele esteve longe de me impressionar. À época pareceu-me apenas uma boa narrativa realista, lógica, inteligente, com pontos intensos, mas no geral fria, mecânica, sem a chama vibrante de Dostoiévski, sem a ironia corrosiva e incisiva de Tchekhov. Era mais um narrador detalhista e imparcial do século XIX.

Acontece que há pouco mais de um ano li A Sonata a Kreutzer (Editora 34, tradução de Boris Schnaiderman), uma narrativa de grande intensidade, diria até mesmo violenta, que aborda o tema da infidelidade e do casamento de modo pessimista. Talvez a escolha da primeira pessoa tenho sido decisiva – como acontece nos grandes romances de Machado de Assis – para o aumento da potência do texto.

Exatamente o que não vi em Ana Karênina encontrei n’A Sonata a Kreutzer: vibração – e, inevitável dizê-lo, vibração parecida com a do próprio Dostoiévski, não só pela vitalidade da personagem e de seu discurso, mas também pela abordagem destemida da abjeção humana.  

A Sonata a Kreutzer é uma narrativa vertiginosa, impactante, que, como diz Boris Schnaiderman no posfácio de sua tradução, “desafia-nos (…) e parece insistir em que a literatura nos obriga às vezes a conviver com aquilo que nos parece mais odioso em nosso cotidiano.”

Essa leitura fez-me reconsiderar inteiramente a escrita de Tolstói, inclusive me fez levar em conta a possibilidade de reler Ana Karênina (quem sabe o problema era da tradução ou então de minha imaturidade) e projetar a leitura do gigantesco Guerra e paz – afinal, quando se trata de narrativa intensa, o número de páginas é o que menos importa: Crime e castigo e Os irmãos Karamázov, por exemplo, cada qual com mais de 500 páginas, não me desencorajaram nem um instante sequer pela sua extensão.

A morte de Ivan Ilitch (Editora 34, tradução de Boris Schnaiderman) serviu-me para confirmar o poder da prosa tolstoiana. Abordando um dos temas mais enigmáticos da humanidade – a morte, a única coisa para um ser humano tão importante quanto a vida -, Tolstói provou que consegue alcançar profundidade e ao mesmo tempo espontaneidade usando a terceira pessoa. A morte – ela, que põe termo a todas as alegrias e a todas as tristezas (“a todos os milagres”, escreveu Manuel Bandeira) – mete seus olhos frios num homem que somente então, quando passa a ter consciência de seu fim, percebe o quanto sua vida foi medíocre. Já não era mais possível fazer nada, apenas ter consciência de que a morte, esse credor inexorável, em breve bateria à sua porta.

"Tudo é vaidade", de Charles Allan Gilbert, 1892.

O mais marcante na leitura para mim foi a sensação de adentrar o estranho império da morte – dos lugares que desconhecemos, o único que temos certeza de que iremos conhecer. Nunca é demais lembrar que a morte é nossa única certeza e ao mesmo tempo nosso maior mistério. Essas questões sobre a morte, que vez por outra nos toca, são suscitadas no livro de Tolstói a partir da experiência de alguém que realmente está prestes a enfrentá-la.

O modo como o narrador de Tolstói descreve a reação de Ivan diante da iminência e mesmo diante da própria morte (a página final do livro) é uma das coisas mais brilhantes que já li.

Um texto do grande intelectual Paulo Rónai serve de posfácio à edição da 34. Nele encontramos uma citação do estudioso Merejkóvski: “Se hoje temos da morte um medo vergonhoso, como nunca a humanidade o sentira, se diante dela ficamos tomados de um arrepio gelado que nos atravessa o corpo e a alma e nos coagula o sangue nas veias, (…) tudo isso devemo-lo em grande parte a Tolstói.”

Em seu rico posfácio, Rónai chama a atenção para o caráter crítico da obra de Tolstói:

“Imanente e, no entanto, inseparável do momento e do ambiente, a novela contém um quadro terrivelmente cruel da vida da alta burguesia russa. Submetido ao lento desgaste da agonia, Ivan Ilitch passa involuntariamente revista a toda a sua vida anterior, e, como Brás Cubas, embora por um artifício menos grotesco, procede a uma revisão de todos os valores de seu passado. Desse processo se utiliza o escritor para aplicar impiedosa crítica a toda uma forma de viver, a uma série de práticas sociais que visam unicamente as aparências e não satisfazem as nossas íntimas necessidades de amor e comunhão.”

A morte de Ivan Ilitch é um ensinamento sobre a morte e por isso também uma advertência para a valorização da vida.

Conclusão de boca cheia: é um texto imperdível.

"The Masque of the Red Death", 1883, de Odilon Redon

Leituras de férias: quais foram as suas?

Caros leitores, de volta à ativa depois das férias de janeiro, desejo a todos um bom 2011: que seja um ano pleno de leituras, aprendizagens e experiências estéticas significativas.

Dedico este post à continuidade da conversa sobre leitura nas férias – as minhas e as suas leituras –, com a intenção de gerar o mesmo espírito de debate e compartilhamento de impressões que surgiu com o texto do dia 09 de dezembro.

Como havia suspeitado àquela altura, depois de ler Bartleby, finquei meus pés no século XIX e aventurei-me pelo solo russo: li então, pela primeira vez, A morte de Ivan Ilicht, de Liev Tolstói.

Foi uma experiência inesquecível, sobre a qual comentarei em breve, aguardem.

Bem, este post só serviu para anunciar a retomada do Prefácio e abrir o diálogo a partir da pergunta:

Quais foram suas leituras de férias?

Registrem suas impressões, para que a conversa fique rica, e para que possamos gerar um outro “fórum” de leitores.

Um abraço e esperem pelo novo post.

A clássica "Leitura" de Almeida Júnior (1892), que faz parte do acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo

E você, meu caro, o que está lendo no momento?

Vêm chegando as férias e com elas o direito às leituras renunciadas ao longo do semestre. Eu mais ou menos sei o que quero ler nesses momentos, não o livro exato, mas o tipo de leitura: em geral, a) os grandes clássicos universais, b) os autores vivos, mas também – como não? –  c) as releituras.

Já me aconteceu várias vezes de voltar, por exemplo, ao delicioso Don Quijote de la Mancha, não ao livro todo, mas a trechos inesquecíveis, para os quais sinto necessidade de retornar, como quem volta a uma velha cidade conhecida. Com sua concepção de literatura como entretenimento[1] e seu “escribo como hablo”, Cervantes é um autor agradabilíssimo. Sua sintaxe flui, provocando risos e sorrisos: solta, colorida. E vale a pena, mesmo para alguém tão inábil com línguas estrangeiras como eu, a aventura de ler ao menos alguns trechos em espanhol. A criatura de Cervantes – El ingenioso hidalgo Don Qvixote de La Mancha – inaugura o conflito central do herói das narrativas modernas: o descompasso entre o ser e o meio, a cisão entre o desejo e a realidade, conflito que é o de Werther (Os sofrimentos do jovem Werther, Goethe), o de Julien Sorel (O vermelho e o negro, de Stendhal), o de Ema Bovary (Madame Bovary, de Flaubert) e o de Raskólnikov (Crime e castigo, de Dostoiévksi), para ficar em alguns exemplos expressivos.

Li o Quixote aos vinte e tantos anos, com indicação e orientação da grande professa Maria Augusta da Costa Vieira, autora de um trabalho maravilhoso sobre a obra de Cervantes[2], o qual ampliou e deu significado ainda mais especial à minha leitura. Li a tradução de Sérgio Molina, na belíssima edição bilíngue da Editora 34, com ilustrações de Gustave Doré e excelente apresentação da própria Maria Augusta Vieira.

Ilustração de Gustave Doré, originalmente publicada numa edição francesa de "Dom Quixote", em 1863.

Volto ao livro quando posso, quando quero. E confesso que às vezes me pego simplesmente pensando nele, no vigor de sua expressão, em sua grandeza, em seu mistério extraordinário de poder ser conhecido mesmo daqueles que jamais folhearam suas páginas – porque Dom Quixote é mais que um livro, é um universo, do qual mesmo não-leitores participam.

Convivo com o fidalgo de La Mancha por meio de outras personagens, reencontro-o no singelo Policarpo Quaresma (Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto), no divertidíssimo Geraldo Viramundo (O Grande Mentecapto, de Fernando Sabino) e entre dezenas de sonhadores incompreendidos, soterrados pelo pragmatismo e atropelados pela anomia moderna.

Crime e castigo é outro livro ao qual sempre retorno. Li-o três vezes. A primeira leitura foi ardorosa e provavelmente bastante ingênua, aos dezessete anos. Uma tradução indireta, do escritor Marques Rebelo, já que na época não existia esse grande volume de traduções diretas do russo. Daquela primeira leitura, as recordações são vivas. Lembro-me até dos lugares onde me sentei para ler: praças, terminais de ônibus, a mesa da cozinha de casa. Uma experiência fulminante. Riquíssimo foi o reencontro, mais de dez anos depois, pela tradução direta do russo, realizada pelo grande Paulo Bezerra. Ao contrário do riso, que salpica o trágico percurso de Quixote, a companhia de Raskólnikov provoca desassossego, desamparo, tristeza, paixões desesperadas. E mesmo assim é uma grande companhia, cujos ensinamentos calam profundamente. Pela técnica de Dostoiévski, que prima em dar voz a várias personagens, oferecendo assim diversos ângulos sobre os fatos do enredo, fica difícil classificar como secundárias as figuras de Razumíkhin, Sônia ou Svidrigáilov, pois têm um sentido profundo no enredo e oferecem, tanto quanto o herói, possibilidades de leitura da realidade. Por isso Raskólnikov é também o que dizem e pensam sobre ele as outras personagens da narrativa. A companhia então, nesse caso, se alarga: é uma galeria de pessoas que passam a fazer parte de sua vida.  Sempre que me perguntam qual o livro de que mais gosto, respondo sem titubear: Crime e castigo. Não quer dizer que seja a pura verdade, mas quer dizer alguma coisa.

Raskólnikov, personagem de "Crime e castigo" (imagem encontrada no blog "Mote do desafio")

Não me satisfaço só com releituras. Comecei o ciclo de leituras destas férias com Bartleby, o escrivão, de Herman Melville. Eu esperava por esse encontro há alguns anos. Para mim o século XIX sempre foi russo e francês e obviamente, por razões profissionais, luso-brasileiro, e, à exceção de Poe (aquele maluco), sempre tive preferência pelos americanos do século XX, como Fitzgerald, Fante e Philip Roth. Sabia obviamente da excelência narrativa de Melville, mas adiava o encontro, como adio muitos outros: meu encontro com Proust, por exemplo.

Mas Bartleby, essa criatura que eu sabia filiar-se à galeria dos “homens sem importância” [3], me atraía e me pedia urgentemente sua leitura. Ganhei o livro num amigo-secreto com os alunos do primeiro ano (valeu, Bruno!). Mais cinco páginas e eu concluo a leitura. Mas já não há dúvida: Bartleby é alguém que vou sempre querer reencontrar: em releituras, rememorações, ou simplesmente em devaneios. O tipo estranho que se recusa ao que lhe pedem ou ordenam com seu imutável “Acho melhor não” já faz parte de mim. E o narrador de Melville, com suas indagações incisivas, certeiras, com seu desajeitado senso de humanidade, sim, é extraordinário!

Adorei começar esse ciclo com Bartleby e acho que vou repetir a dose: ou seja, provavelmente tenha de novo um primeiro encontro com um clássico do século XIX. Quem sabe Tolstói ou mesmo Dostoiévski?

Imagem encontrada no blog "Pringles"

Quando existe algum tempo para o ócio, bom mesmo é deixar que os livros venham acidentalmente, ao sabor do acaso.

E você, meu caro, o que está lendo no momento? Registre aqui nos comentários suas leituras de férias.


[1] “O entretenimento, Cervantes dá a entender claramente, é a função primordial da prosa narrativa.” E.C Riley, em Teoria de la novela en Cervantes – Versión de Carlos Sahagún. Madrid, Taurus, 1981. p. 137. Vale a pena lembrar que o tipo de entretenimento de Cervantes está longe de ser uma diversão sem consequências éticas ou existenciais: sua literatura é um docere cum delectare (educar com prazer) dos antigos.

[2] VIEIRA, Maria Augusta da Costa. O dito pelo não-dito: paradoxos de Dom Quixote. São Paulo, EDUSP – FAPESP, 1998.

[3] Em sua obra magistral e singular Os arquétipos literários (Ateliê Editorial), o estudioso russo E. M. Meletínski apresenta, entre outras, a personagem arquetípica do “homem sem importância”, criada por Gógol em novelas como O capote e O diário de um louco.

O capote (1843)

“Todos nós descendemos de O capote“, declarou Dostoiévski, no mais antológico elogio à grandeza de Nicolau Gógol (1809-1852), escritor nascido na Ucrânia, mas filiado à literatura russa e um dos pilares de sua expressão moderna.

O capote é a tragicômica história de Akáki Akákievitch, um conselheiro titular, ou seja, alguém que tem a mísera função de copiar documentos, uma insignificante peça na rígida hierarquia da Rússia czarista. Akáki é um homem solitário, não tem mulher, parentes ou amigos.  É visto como ridículo pelos colegas da repartição. Sua opressão, como sua solidão e seu aspecto ridículo, causam pena.

Capa de Igor Grabar para edição russa

A existência de Akáki resume-se em copiar, de modo impecável, os documentos oficiais que lhes encaminham na repartição. Segundo o tradutor e crítico Paulo Bezerra (1), com sua função de copista Akáki sublima seus desejos, os mais secretos e profundos, inclusive o erótico:

“Corre a pena por sobre o papel em branco com o mesmo carinho e a mesma habilidade com que o homem apaixonado usa a magia da mão carinhosa para compor páginas inumeráveis de poesia sobre o corpo da mulher amada.”

Akáki é um homem rígido, aferrado à rotina e amante dela, estranho a tudo o que signifique novidade. A virada no enredo se dá quando, certa vez, esse homenzinho encontra-se diante da necessidade de adquirir um novo capote, pois o seu, já surrado pelo uso, não dava mais conta de protegê-lo do terrível frio de São Petersburgo. 

A  ideia em si da aquisição de algo novo (palavra que explode em sua mente como um pecado irresistível) desmonta inteiramente o quadro de referências de Akáki. O capote, que funcionava como uma insígnia, uma marca de distinção social, ameaça a retidão subserviente do copista: deslumbrado com uma milagrosa significação social, o copiador dos caracteres não consegue mais reproduzir de modo tão fiel (e servil) o mundo daqueles que o dominam. Sonhando mais alto, ele começa a errar – nos dois sentidos da palavra: comete incorreções gráficas, devaneia de felicidade.

Akáki é cômico. Segundo o narrador, suas faces têm tonalidades hemorroidais. Seu nome é um cacófato, além de ser uma cópia do nome do pai (seu papel é o de cópia e copiador, ou seja, o de uma nulidade). A ridicularização que Akáki sofre na repartição nos arranca, indisfarçavelmente, um risinho maldoso. Rimos de uma miséria involuntária. “O reverso trágico do riso” – como o consagrado crítico russo Vladimir Propp descreveu o talento de Gógol – é  a maior beleza de O capote, na qual tudo o que é engraçado é triste e tudo o que é triste é risível.

Ao indicar Gógol como pai de uma linhagem, Dostoiévski provavelmente pensasse especificamente na tradição literária russa. Mas os leitores da grande literatura moderna podem certamente reconhecer Akáki Akákevitch como uma matriz de personagens famosos como Gregor Samsa, de Kafka, Mersault, de  Camus ou  ainda Fabiano, de Graciliano Ramos. Akáki é o primeiro grande modelo dessa família de “humilhados e ofendidos”, para usar expressão de Dostoiévski.

Por estas e muitas outras razões, recomendo veementemente a leitura de O capote, uma das narrativas mais decisivas de minha vida.

Recomendo veementemente também um passeio virtual pelas pinturas de Igor Grabar e pelas animações (há várias no YouTube) de Yuriy Norshteyn.

Mais sobre Gógol e outros russos em outros posts.

Cena de “O capote”, animação de Yuriy Norshteyn

(1) Todos os comentários a respeito de O capote aqui partem da edição O capote e outras novelas (Civilização Brasileira, 1990), com tradução, notas e um riquíssimo prefácio  de Paulo Bezerra. Bezerra é certamente o mais importante tradutor de literatura russa no Brasil dos últimos vinte anos. Destaca-se principalmente pelas excelentes traduções da obra madura de Dostoiévski pela Editora 34: Crime e castigo, O idiota, Os irmãos Karamázov. A Editora 34, por sua vez, merece elogios repetidos pela ousadia e coragem com que vem lançando e relançando nos últimos anos, em sua Coleção Leste, autores fundamentais da literatura russa como Púchkin, Gógol, Dostoiévski, Tolstói e Tchekov, todas enriquecidas com notas, prefácios ou posfácios importantíssimos e contando invariavelmente com traduções diretas do russo. Trata-se do primeiro projeto editorial verdadeiramente sistemático de aproximação do público brasileiro da literatura russa.