“Rio de-Janeiro, Minas”, de Marily da Cunha Bezerra (1991)

Esse curta-metragem, que reencontrei um dia destes no Youtube, é a adaptação de um trecho do romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa.

Vale a pena conferir.

O curta pode também ser encontrado no site Porta Curtas

http://portacurtas.org.br/filme/?name=rio_de_janeiro_minas5235

“Desnorteio”, de Paula Fábrio, na TV São Judas

O grande romance de estreia da escritora Paula Fábrio – uma das experiências mais intensas que tive como leitor nos últimos tempos – é abordado, ao lado de Boatos do Corpo, de Marcelo Donatti, no programa Arteletra Literatura.

Os dois títulos foram publicados pela editora Patuá, que vem realizando com protagonismo um investimento sério em autores estreantes.

Confiram a entrevista.

Os autores mais bem pagos

 

A Forbes, revista de negócios e economia americana, divulgou a lista dos escritores mais bem pagos do mundo dos últimos doze meses. E.L. James, autora de 50 Tons de Cinza, lidera o ranking com 95 milhões de dólares. James, ex-executiva de TV, ultrapassou nomes habituais da lista, como James Patterson, Danielle Steel e Stephen King.

 

Veja a lista dos 16 autores mais bem pagos:

 

1. E.L. James – US$ 95 milhões
2. James Patterson (O dia da caça) – US$ 91 milhões
3. Suzanne Collins (Jogos vorazes) – US$ 55 milhões
4. Bill O’Reilly (Os últimos dias de Kennedy) – US$ 28 milhões
5. Danielle Steel (O baile) – US$ 26 milhões
6. Jeff Kinney (Diário de um banana) – US$ 24 milhões
7. Janet Evanovich (Um dinheiro nada fácil) – US$ 24 milhões
8. Nora Roberts (Visão mortal) – US$ 23 milhões
9. Dan Brown (O código da Vinci) – US$ 22 milhões
10. Stephen King (Jogo perigoso) – US$ 20 milhões
11. Dean Koontz (O bom sujeito) – US$ 20 milhões
12. John Grisham (O dossiê pelicano) – US$ 18 milhões
13. David Baldacci (Traição em família) – US$ 15 milhões
14. Rick Riordan (Percy Jackson & Os olimpianos) – US$ 14 milhões
15. J.K. Rowling (Harry Potter) – US$ 13 milhões
16. George R.R. Martin (As crônicas de gelo e fogo) – US$ 12 milhões

 

Fonte: http://bibliotecadesaopaulo.org.br

 

 

 

Graciliano Ramos: 60 anos de morte

O ABCD em Revista homenageia o grande escritor alagoano, morto há 60 anos, com “Graciliano Ramos: a escrita concisa e reveladora do Brasil.”

http://www.tvt.org.br/watch.php?id=12664&category=203

Retorno das férias: e as leituras

Foram muitas, essa é a verdade, caros leitores, as leituras de dezembro e janeiro.

Comecei o percurso lendo os poemas de Outro dia de folia, de Eduardo Lacerda, editor da Patuá, amigo meu e, segundo sua maior mentira, um não-poeta. Antes todos os poetas fossem não-poetas como ele!

folia

 

Os poemas de Eduardo Lacerda combinam bem o trabalho da lapidação, do cuidado na escolha com o efeito de espontaneidade, a impressão de um feliz acaso.

O eu-lírico, satírico, delicado ou melancólico, conduz o leitor para um abismo de dúvidas e desalentos, deixando escapar, na maior parte das vezes, um irresistível risinho de tudo.

 

Depois vieram as leituras teóricas.

Primeiramente, o brilhante livro de ensaios Cultura e sociedade no Brasil, de Carlos Nelson Coutinho (editora Expressão Popular). Uma abordagem lúcida e esclarecedora do processo de formação de nossa cultura, abordagem por vezes vinculada diretamente a escritores fundamentais para a construção do elemento “nacional-popular” na literatura brasileira, como Lima Barreto e Graciliano Ramos.  Leitura formativa, importantíssima.

Em segundo lugar, li Graciliano Ramos: um escritor personagem, de Maria Izabel Brunacci (editora Autêntica). Obra importante que relaciona as formas literárias do autor às estruturas sociais direta ou indiretamente vinculadas a elas. As reflexões sobre a particularidade da modernização no Brasil – seguindo a trilha de Sérgio Buarque de Holanda – são também significativas e dão boas lições.

Ainda no tópico Graciliano Ramos, tive a oportunidade de ler o livro Retrato fragmentado (editora Globo), de Ricardo Ramos, biografia de rara beleza e intensidade. Os “cacos” de memórias do filho de Graciliano oferecem-nos, em seu conjunto,  uma visão complexa e desmitificadora do escritor alagoano a partir de uma visão “de dentro” e portanto, muito especial. Alguns aspectos pessoais de Graciliano são, para seus leitores inveterados, imperdíveis.

retrato

Quem me instigou a ler o livro foi ninguém menos que Ricardo Ramos Filho, criatura gentilíssima, com quem tenho a honra de compor um grupo de estudos sobre a obra de Graciliano Ramos lá na USP. Bela dica, Ricardo, finalmente saldei minha dívida com essa leitura obrigatória.

Entre as muitas descobertas, o livro de Ricardo Ramos me fez conhecer um Graciliano apaixonado pela prosa de Marques Rebelo. Era o que faltava para fechar meu percurso de férias: li Os melhores contos de Marques Rebelo (editora Global).

Uma surpresa, uma grata surpresa tomar contato com a prosa tão viva do escritor carioca, uma espécie de Machado de Assis com frescor modernista.

rebelo

As narrativas de Rebelo conduzem o leitor pelo Rio de Janeiro dos anos 30 e 40 de modo tão vivo e realista que é inevitável a sensação de deslocamento no espaço e no tempo.

Destaco os contos Oscarina Estela me abriu a porta, que passaram a fazer parte definitivamente do que conheço de melhor na prosa em língua portuguesa. Um espetáculo narrativo! Cativante, divertido e comovente.

 

Não é à toa que o velho Graça dedicou-lhe tantos elogios.

E vocês, queridos leitores, o que têm a dizer desta vez ao Prefácio?

“A morte do editor”, de Luiz Schwarcz

Reproduzo abaixo o interessante texto de Luiz Schwarcz, publicado no Blog da Companhia. 

O tema mais discutido no momento no mercado editorial, principalmente nos Estados Unidos, é o self-publishing: as publicações digitais feitas diretamente pelos autores, sem a participação de qualquer editora. Em português, podemos chamá-las de “edições independentes”, ou “auto-edições”, numa tradução mais literal. Recentemente, o jornal inglês The Guardian divulgou que 28% dos livros da lista de mais vendidos  do New York Times eram oriundos do tal self-publishing. Do jeito que a coisa vai, não tardarão as matérias sobre a “morte dos editores”, manifestações e movimentos, tipicamente americanos, por no-publishersou algo do gênero.

Acho que o tema dá o que pensar e vale ser tratado com a maior isenção possível. (O Publishnews acaba de publicar uma matéria sobre o mesmo assunto, que você pode ler aqui . Escrevi este post antes de ler o artigo, e resolvi manter como estava.)

O sucesso extraordinário de livros que surgiram de auto-publicações como Cinquenta tons de cinza (traduzido e lançado no Brasil pela Intrínseca), ou Toda sua  (em breve nas livrarias brasileiras pela Editora Paralela), tem agitado o mercado editorial.

Não se trata ainda de discutir a divisão dos direitos autorais nos livros digitais, assunto igualmente polêmico, mas de pensar se caminhamos para um mundo sem livros físicos e, por conseguinte, sem editoras. A Amazon, a mais forte vendedora de livros eletrônicos no mundo, incentiva com veemência o movimento de auto-publicação. Além dela, uma série de outras empresas especializadas na prestação de serviços para autores que visam esse fim surgiram nos últimos tempos e vêm realizando um movimento financeiro digno de nota.

Imagino que o leitor desta coluna espere de mim uma crítica ao self-publishing, e uma defesa do papel do editor no mundo contemporâneo. Talvez decepcionarei parcialmente a alguns, pelo que se segue:

Se, por um lado, mais do que acredito, eu espero que o livro físico não venha a deixar de existir, por outro entendo que o mundo se abre enormemente com as publicações digitais independentes. Hoje em dia, é fácil e barato ter um livro publicado. Sendo esse o desejo de boa parte dos mortais, qual o mal em ver sonhos realizados, em tornar acessível o poder de expressão da maneira mais livre e direta? Durante meus anos de aluno de graduação na FGV fui fascinado pelas teorias anarquistas de representação política direta, que conheci nas aulas de um professor generoso chamado Maurício Tragtenberg. Na época, minhas leituras favoritas iam dos anarquistas russos a Foucault e Goffman, críticos das instituições que se interpunham entre os homens, e do forte teor de disciplinarização inerente a elas. Embora meus gostos políticos e literários tenham mudado com o tempo, não tenho como não ver com bons olhos um mundo de publicações diretas, de leitores que se transformam facilmente em autores e divulgam suas ideias livremente.

No entanto, em se tratando da literatura mais elaborada, imaginar um mundo sem editores não é muito bom. O trabalho do editor sério, como profissional especializado na ligação entre autor e leitor, melhora a qualidade dos livros em vários sentidos. Num mundo sem esse elo, os livros ofertados pela novas possibilidade eletrônicas aumentarão sensivelmente, o que é positivo, mas certamente perderemos em qualidade de texto e reflexão. O leitor deixará de ter um guia importante para as suas escolhas de leitura, e o autor ficará sem seu maior aliado.

Além disso, no campo dos livros mais populares — onde os maiores fenômenos do self-publishing acontecem —, as vendas se multiplicaram significativamente depois que os lançamentos deixaram de ser feitos de maneira independente e passaram a fazer parte do catálogo das grandes editoras. Nesse caso, houve pouca contribuição para a melhoria dos textos por parte dessas editoras, que pescaram os sucessos espontâneos e apenas lhes deram novas roupagens. No entanto, o incremento das vendas se deu em espiral natural mas também pelo bom trabalho de marketing da Knopf Doubleday, que publicou Fifty shades após a edição independente, e da Berkley, que fez o mesmo com Bared to you. Outra razão surpreendente do aumento das vendas pós self-publishing é a ligação entre as edições digitais e de papel. Por incrível que possa parecer, em vez de competirem por um mesmo mercado, uma edição ajuda a outra. Parte dos leitores do livro digital compra também a edição em papel.

Se uma parcela dos editores dedica grande parte do seu trabalho para a descoberta de livros de puro entretenimento, isto é, para encontrar o que a grande massa de leitores quer ler, o alto índice de sucessos que surge das publicações espontâneas coloca em dúvida a eficiência do mercado editorial, principalmente de língua inglesa. Quem se auto-publica ou teve seu livro recusado por vários editores ou não conseguiu chegar a eles ou, o que é ainda pior, não confiou nos profissionais do ramo.

Vale também refletir sobre uma piora gradativa na qualidade literária dos livros que têm atingido esses enormes índices de leitura. Serão estes nocivos à propagação da boa literatura, ou, pelo contrário, funcionarão como porta de entrada de um novo público que não alcançávamos? Um livro mais elaborado, mesmo que de leitura fácil, encontra hoje maiores dificuldades para entrar nas listas de mais vendidos, preenchidas por livros de apelo mais imediato. Pioraram os livros, pioraram os editores comerciais ou pioramos todos? Uma visão mais otimista seria a de que, com o livro digital, apenas aumentou a oferta à disposição do leitor.

Todas essas dúvidas me parecem procedentes e podem tirar um pouco do sono dos que gostam de literatura e querem encontrar um lugar no mundo editorial que parece vir por aí. Não pretendo ter respostas imediatas, apenas compartilhar questões, afinal, esses são temas complexos e novos para todos. Se um mundo sem editores for melhor para os leitores e para a literatura, convido desde já todos que leem este blog para a festa da minha aposentadoria, quando celebraremos a vitória da “literatura direta”! Nessa ocasião, nós editores teremos de ser modestos e entender que nossos dias ficaram no passado.

Temo, porém, que nesta ocasião sentiremos uma grande nostalgia da época em que a literatura era verdadeiramente vigorosa, a ponto de exigir tempo para ser escrita, discutida, trabalhada e só então publicada.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais , entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamadaImprima-se, sobre suas experiências como editor.

“Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, de Beto Brant

Beto Brant é o tipo de diretor com quem mantenho uma fidelidade quase canina.

Vi a maioria de seus filmes no cinema e, mesmo sendo ultimamente um cinéfilo mais amigo das sessões caseiras – na tv ou dvd – que das salas de exibição, na primeira oportunidade que tive fui assistir ao seu novo filme, que está em cartaz ainda em algumas salas de São Paulo.

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é uma adaptação do romance homônimo de Marçal Aquino. Dizer qual dos dois é melhor – o livro ou o filme – é bastante difícil. É também inútil: o filme é uma obra à parte, autônoma.

Claro que explorar a relação entre os dois – livro e filme – pode ser agradável e seguramente enriquecedor, para o cinema e para a literatura. Aliás, na produção de Brant, o tema da adaptação chega a ser obrigatório: suas duas obras-primas O invasor (2001) e Crime delicado (2005) são inspiradas em narrativas literárias, de Marçal Aquino e Sérgio Sant’Anna, respectivamente.

O que considero equivocado é o espectador buscar, numa obra cinematográfica, a exata experiência que viveu ao ler um livro. Fidelidade, no campo da adaptação artística, é uma palavra duvidosa, mesmo em se tratando de Marçal Aquino, um escritor que faz seus livros quase como roteiros de cinema. É sempre bom lembrar que a arte fílmica é algo de outra natureza e, sendo o filme bom ou ruim, deve ser julgado pelo que alcança como objeto relativamente autônomo, desprendido de sua fonte inspiradora.

O livro de Aquino é o mais expressivo para mim de toda a sua obra. Um texto literário envolvente, impactante, devorador. Não indicá-lo ao redigir este post é praticamente impossível. Mas – embora seja essa a vontade da maioria esmagadora dos amantes da literatura, eu incluso – a leitura anterior do livro de Aquino é dispensável para a fruição do filme de Brant. Aliás, nada impede que a primeira experiência seja ver o filme. Nada impede também que ela seja a única.

O que procuro reforçar aqui é a importância de valorizarmos a obra cinematográfica pelo que ela tem a oferecer por si mesma. É muito difundida a ideia de que as adaptações cinematográficas em geral “estragam” os livros em que se inspiram. Em resposta, chamo a atenção para alguns casos expressivos como: Vidas secasA hora da estrelaSão Bernardo, Memórias do cárcere, Céu de estrelas (para ficar apenas em obras brasileiras): se não podemos falar em equivalência ou igualdade qualitativa (mensuração no mínimo ousada), mais difícil é dizer que são filmes que “estragaram” os livros adaptados.

Interessante lembrar a opinião do diretor inglês Alfred Hitchcock, que, com sua característica espirituosidade, dizia que um de seus talentos era transformar maus livros em excelentes filmes…

Enfim, o filme de Beto Brant é um espetáculo à parte, não precisa da obra de Aquino para contentar o espectador.

Minha dica portanto é: vá ao cinema e veja o grandioso filme realizado pelo mais que comprovado talento de Beto Brant, com um elenco primoroso (destaque para a atuação de Gero Camilo e José Carlos Machado, além dos protagonistas, obviamente) e a característica capacidade de Brant de abordar temas decisivos  e profundos – relações humanas e dramas sociais – com a complexidade que eles merecem, sem espaço para a fetichização da violência (Cidade de Deus) ou a visão paternalista da miséria (Central do Brasil) e sem espaço também para maniqueísmos.

Beto Brant sempre acerta no tom.  Por isso, para mim, é o maior, o mais importante cineasta brasileiro de nossos dias.

Abaixo o trailer do filme:

“Terra sonâmbula”, de Mia Couto


Capa da edição de 2007 da Companhia das Letras, na qual se encontra a seguinte nota: “A editora optou por manter a grafia do português de Moçambique”

Eis um livro que há pouco tempo não teria a menor chance de figurar no  Prefácio como uma indicação entusiasmada.

Passei a evitar Mia Couto após ler alguns textos da antologia Estórias abensonhadas, a qual conheci em 2002 e cujo título me pareceu de muito mau gosto. Terra sonâmbula, embora, ao contrário, sempre me tenha soado um bom título sedutor – belo achado ao gosto dos surrealistas ou do realismo mágico latino-americano -, não era suficiente para levar de novo ao autor.

Eis-me agora, dez anos depois, apaixonado por Terra sonâmbula, paixão intrigante porque implicou um processo de transformação conceitual e perceptiva, uma verdadeira revisão de gosto estético que, para ser franco, raras vezes experimento.

Além de ler um livro que me entusiasmou, Terra sonâmbula foi para mim uma espécie de renascimento como leitor. Considerei a experiência tão rica que, antes de abordar alguns aspectos da obra propriamente, gostaria de fazer uma explanação.  Peço licença ao leitor para isso.

Desejo versus dever?

É muito difundida a ideia – principalmente entre leitores mais jovens – de que a leitura obrigatória é desagradável, de que a obrigação torna menos intensa a relação do leitor com o livro ou diminui sua disposição para ler.

Não compartilho dessa opinião. Vou dizer meus motivos.

Como professor há mais de uma década, vejo brotar, a cada ano letivo, novos leitores apaixonados por obras que lhes chegaram às mãos por conta da “imposição” do programa escolar de leituras. Doistoiévski, Flaubert, Baudelaire, Kafka, Fitzgerald, Camus, Salinger, Fante, Philip Roth, Camões, Machado, Graciliano, Guimarães, Drummond, Bandeira, Cabral, Gullar, para ficar somente em alguns, durante todos estes anos vêm encontrando, “apesar” da  obrigatoriedade, trazendo alegrias evidentes, até mesmo leitores devotos.

Ponho “apesar” entre aspas porque acredito – como o poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz e como a estudiosa brasileira Leyla Perrone-Moisés (que são, acima de tudo, dois grandes leitores) – que o ato de leitura é necessariamente também um ato de trabalho.

Acredito que as paixões fulminantes não nascem exclusivamente da escolha. Se assim fosse, as multidões que têm a TV como única fonte de vivência estética poderiam ser explicadas como um caso de opção, e não – o que acredito ser um motivo considerável – por uma falta estrutural de investimento e de sustentação de uma cultura de lazer. Quando falo em falta estrutural não penso só no governo e nas suas escolas, mas também na imprensa, sobretudo na TV – maior usina de lazer e de fomentação do imaginário nacional -, que tem consciência de sua missão formativa (e inclusive se arroga disso) enquanto, contraditoriamente, insiste na exibição do besteirol diário sob a leviana alegação de que se trata do “gosto do povo” e de que ela – TV- apenas procura atender o desejo das multidões.  (Também os grandes tiranos usaram e ainda usam dessa justificativa para cometer barbaridades impunes).

A contradição é evidente: para formar cidadãos,  é fundamental desafiar o senso comum, abdicar do sucesso imediato e seguro (obviamente acompanhado de lucro também imediato e seguro) em nome de uma transformação cultural que é obviamente mais lenta e mais complexa: fazer a multidão de telespectadores apreciar o bom cinema, a boa música, o teatro, a dança, as artes em geral, incluindo – por que não, se alguns raros lampejos de ousadia provam que isso funciona? – a literatura. A TV está empenhada nisso? Obviamente não. Ela não tem, portanto, papel formativo, não está interessada em ousar, em produzir impactos culturais. Está muito mais preocupada em garantir seus lucros.

Ao dizer, como justificativa para a insistência no besteirol, que atende ao  gosto da população, incorre-se em cinismo e também em preconceito. Não creio que todos – pobres e ricos – que digerem essa massa de lixo cultural gostem  propriamente do que vejam. É preciso, no mínimo, considerar a dificuldade de mensurar a preferência de um contingente tão grande de pessoas. Mais difícil ainda quando não há empenho em oferecer alternativas por parte dos que detêm o controle das mídias. Só é possível ter hipóteses: a mais forte para mim, entre outras, é a de que haja tendência a se consumir o que se tem à disposição, pelo que, por aparecer com insistência, acaba sendo visto como melhor.

Voltando ao senso de obrigação. A TV não figura na vida cultural dos indivíduos como um desafio intelectual, cognitivo ou existencial. Basta ligá-la e vê-la, ainda que com desagrado. Ela está longe de ser associada, em nossa sociedade, a uma ideia de dever.

Já o livro representa uma necessidade de entrega, de aclimatação, de predisposição, de participação – ou seja, de trabalho -, sobretudo quando se trata de uma obra de qualidade.

A descoberta de um mundo

“Quantos homens já não iniciaram uma nova era em suas vidas ao ler um livro?”  (Henry David Thoreau)

Quando era adolescente e aluno do ginásio (hoje Ensino Fundamental II), tive como tarefa escolar a leitura do romance Casa de pensão, do escritor maranhense Aluísio Azevedo. Fiquei intrigado com a indicação de uma obra que na época eu considerava antiga (hoje chamaria de literatura moderna).

Eu não era um leitor no sentido pleno da palavra, isto é, eu não decidia por conta o que queria ler. Lia os poucos livros que havia em minha casa – uns dez, no máximo, guardados pela minha mãe, que era e ainda é uma leitora bissexta. Lia também o que emprestavam meus amigos: basicamente livros da Série Vaga-lume da Editora Ática (os maiores de trinta e cinco devem se lembrar da coleção).

O livro de Aluísio Azevedo, que inicialmente me intrigava, em pouco tempo (logo nas primeiras páginas) revelou-se-me uma fonte de imenso prazer.

Lembro até hoje que o professor, sabendo de meu entusiasmo, espantou-se e, um tanto cético, indicou-me também a obra mestra de Aluísio: O cortiço. O livro me encantou ainda mais e me fez chegar ao O mulato,  primeiro romance do autor, além de me tornar, ainda aos quinze anos, um leitor voraz da prosa oitocentista: Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco e outros.

Seria possível reduzir aquela oferta do professor à ideia de “obrigação”? Ou ainda: seria possível classificar o meu esforço (porque obviamente houve esforço) como uma tarefa sem papel significativo, um exercício  mecânico ou burocrático, com a finalidade apenas de agradar os mais velhos?

Não, não, nada disso: costumo pensar que com aquelas leituras começaram, em grande parte, a minha descoberta do mundo.

Esta foi a edição do “Casa de pensão” que li no ginásio, por indicação do professor de Português Dario Macri

Foi justamente uma lista de livros obrigatórios – para uma seleção de mestrado – que me levou à leitura de Terra sonâmbula.

Iniciei a leitura a contragosto, cheio de receios, mas, passadas poucas páginas, vi-me estupefato, impressionado com o texto.

Eis-me então boquiaberto diante de uma obra de Mia Couto, grato ao acaso e à obrigatoriedade da tal lista, que generosamente encaminhou-me para um livro fundamental, quando meu interesse ou meu instinto poderia facilmente derivar para uma outra escolha.

Conclusão: mesmo o leitor mais velho, “escolado”, deve desconfiar de sua capacidade de escolher e de seu poder de resistir ao que é imposto, ao que não é determinado pelas suas listas prévias.

Mais recentemente, como o leitor do Prefácio pode ter notado, vem crescendo minha vontade de conhecer a produção em língua portuguesa europeia e africana, sobretudo a do século XX e XXI. Entre as várias listas de autores que eu mesmo produzi, entretanto, o nome do moçambicano Mia Couto jamais esteve presente. É um autor importante, conhecido, muito citado, publicado por uma grande editora brasileira, a Companhia das Letras. Mas a experiência que tive, há dez anos, com Estórias abensonhadas, foi, desde a leitura do título, um imenso dissabor. Esse pequeno contato foi suficiente para eu passar a detestar o autor e comentar, com quem encontrasse, tratar-se de literatura de baixo quilate, imitação barata de Guimarães Rosa.

Hoje me pergunto se o que experimentei foi dissabor ou puro preconceito.

A mistura como bandeira poética

Com a prosa poética no centro de tudo, Terra sonâmbula fundamenta-se  no cruzamento de registros: o culto e o popular, o escrito e o falado, o mítico e o real.

Esse cruzamento – que se dá no plano imagético, sintático e vocabular -parece provar que esses diferentes registros não se opõem, mas sim se complementam. E essa complementaridade, parece-me, é a principal responsável pela eficácia do discurso.

A desqualificação que se baseia na semelhança da obra de Mia Couto com a de Guimarães Rosa é bastante problemática.

Primeiramente porque parte do pressuposto de que Guimarães Rosa está sozinho em algumas de suas principais escolhas estilísticas, pressuposto que desconsidera o complexo desenvolvimento de nosso Modernismo, que tem a mistura poética de registros como importante bandeira e encontra na prosa do  Mário de Andrade de Macunaíma e Contos de Belazarte um de seus pontos decisivos. Se considerado com cuidado, Mário de Andrade – sobretudo no caso de Belazarte – pode ser visto como manancial decisivo da carpintaria do mestre mineiro. Isso diminui o valor da obra de Guimarães?

A bandeira poética da mistura de registros é um dos aspectos decisivos também na formação da literatura luso-africana, na qual há, além da diversidade social do idioma português, a coexistência dele com vários outros idiomas. Se o modernismo brasileiro figurou como modelo para muitos autores luso-africanos, é mais certo dizer que ele fortaleceu ou intensificou uma tendência do que afirmar que a inaugurou. Suas principais contribuições funcionaram mais como confirmações solidárias do que já havia como busca, interesse latente ou mesmo expressão consolidada na África lusófona. É um caso em que, mais que influência, devemos falar em confluência.

Alargando nosso horizonte referencial, podemos ver que a tentativa de entender e incluir o homem pobre e analfabeto no corpo do discurso literário foi (e é ainda) uma das grandes missões da literatura lusófona. É natural que, nesse conjunto, semelhanças estilísticas apareçam: entre autores como Mário de Andrade, Guimarães Rosa, João Cabral de Mello Neto, José Luandino Vieira,  José Craveirinha, Manuel Ferreira ou Mia Couto.

Acalanto da Mãe-África

Claro, dizer que houve “imitação” é diferente de dizer que houve “imitação barata”, porque a segunda afirmação envolve um aspecto valorativo. Vamos a ele então. Obviamente é o mais difícil, e obviamente não conseguirei esgotá-lo.

Depois de aderir às malhas da sintaxe e sentir-me envolvido em sua musicalidade (sem ainda deixar de estranhar e até me incomodar eventualmente com algumas combinações lexicais, confesso), ocorreu-me que o livro, ao abordar a realidade de miséria e violência extremas, corria o risco de ser um exercício de embelezamento do mal, um discurso compensatório e oportunista, e que se encaixaria portanto na expressão feliz que a crítica de cinema Ivana Bentes usou para caracterizar parte da produção cinematográfica brasileira dos últimos anos:  “cosmética da fome” (1).

Eu me perguntava então se Terra sonâmbula se Terra sonâmbula seria mais um exemplo de tal categoria estética. A questão foi, ao longo da leitura, minha principal inquietação: seria o livro de Mia Couto um  exercício de estetização da precariedade, da dor, da violência e da miséria alheia, isto é, seria um movimento de aceitação, relativização da barbárie, transformado-a em música aprazível?

Terminado o livro, minha resposta agora é: NÃO.

Não se pode dizer que Terra sonâmbula atenua a tragicidade da realidade que representa. Se a leitura do mundo é marcado pela poesia, essa poesia está longe de significar embelezamento enganador, está longe de esconder o aspecto trágico dos acontecimentos e de ludibriar o leitor.

Sofrimento, dureza, violência, precariedade, falta. O incômodo permanece ao longo de toda a narrativa. A “estetização da barbárie” – no sentido de relativização ou diluição das tensões – não caracteriza absolutamente a obra de Mia Couto.

Publicação da editora  portuguesa Caminho, 2004

Minha redescoberta do mundo  

O livro se divide em dois núcleos narrativos.

Um deles é a história do garoto Muidinga e do velho Tuahir. Os dois  perambulam por um cenário de devastação, marcado pelo cheiro da morte, até que se abrigam na carcaça de um ônibus, onde dividem espaço com corpos carbonizados. O menino, temeroso, reclama; o velho, que dissimula preocupação e carinho com gestos e palavras ríspidas, exige silêncio, paciência resignação.

Um sinal de alento aparece entre esses dois:  é a leitura que Muidinga faz de uns cadernos que encontraram numa mala abandonada. São as notas de Kindzu, e constituem o segundo núcleo da história.

Os cadernos de Kindzu se intercalam com os capítulos da peregrinação sem rumo de Muidinga e Tuahir.

A narrativa do menino e do velho corresponde a um presente estático, com sua paisagem imóvel, a atmosfera de morte, indecisão,  desesperança. Já o núcleo de Kindzu é marcado por ações e por procuras mais específicas, ou seja, é um núcleo mais dinâmico. Essa variação de movimentos dá ritmo à composição de Mia Couto.

O núcleo de Tuahir e Muidinga é marcado mais pelas consequências da guerra, como se fosse o resultado de um processo. No núcleo de Kindzu o que vemos é o próprio processo se desenvolvendo: a guerra, suas abominações,  disputas, as idas e vindas de uma população que já não sabe mais dormir e portanto sonhar. Uma população sonâmbula.

Kindzu é ainda capaz de sonhar e, com seus escritos, compartilhar seus sonhos:

“Ponho o sonho, em sua selvagem desordem: eu estava descendo um vale molhado de tanta luz, cheio de manhã. Aquela parecia a primeira madrugada do mundo. A luz se espantava de sua própria estreia, experimentando sua grandeza ao iluminar as mais pequenas coisas. As cores, de tanto serem novas, se cambiavam incessantemente. Foi então que vi avançar um enorme grupo de pessoas, pobres, embrulhadas em cascas e fiapos. Eram centenas de centenas. Foram-me enchendo o sono À frente seguia o feiticeiro da minha aldeia. Envergava uma sarapilheira encardida, cujos farrapos poeiravam pelo chão. O adivinho olhou a terra como se dele dependesse o destino do universo. Pesava nos seus olhos a gravíssima decisão de criar um outro dia.”

Os escritos de Kindzu representam, para o velho e o menino, novos horizontes. Somente a palavra, em Terra sonâmbula, tem o poder de reordenar a existência, de ressignificá-la, acordar seus sentidos. É ela a única resposta ao sonambulismo da terra.

A certa altura, Tuahir comenta:

“O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.”

O escritor moçambicano Mia Couto nasceu em Beira, em 1955

E foi o próprio Mia Couto quem disse:

“Para se libertar da prisão que é a realidade fechada com a chave da razão, é preciso desvalorizar suas paredes”, (palestra de Mia Couto na UFMG, em julho de 2007)

Misturando mito e história, narrativa e poesia, Mia Couto oferece com Terra sonâmbula um monumento de inusitada beleza. Uma beleza que oferece à barbárie o único elemento que a literatura possui: a palavra. Essa arma indestrutível.

(1) Com esse termo Ivana Bentes procurou contrastar criticamente parte da produção atual do cinema brasileiro com a “estética da fome”, defendida por Gláuber Rocha nos anos 60.