Literatura brasileira em Cabo Verde

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A literatura cabo-verdiana estabeleceu um importante diálogo com o Modernismo brasileiro, tanto o dos anos 20 quanto o de 30.

Entre os autores que foram lidos nas ilhas, destacam-se Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queirós, Ribeiro Couto e Manuel Bandeira – este último acabou por se transformar em uma espécie de patrimônio cultural cab0-verdiano a partir principalmente de seu poema Vou-me embora pra Pasárgada:

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

É Osvaldo Alcântara (pseudônimo poético de Baltasar Lopes) quem inicia a série do pasargadismo cabo-verdiano:

Itinerário de Pasárgada

Saudade fina de Pasárgada…

Em Pasárgada eu saberia 

onde é que Deus tinha depositado 

o meu destino…

E na altura em que tudo morre…

(cavalinhos de Nosso Senhor correm no céu;

a vizinha acalenta o sono do filho rezingão;

Tói Mulato foge a bordo de um vapor;

o comerciante tirou a menina de casa;

os mocinhos de minha rua cantam:

Indo eu, indo eu

a caminho de Viseu…)

Na hora em que tudo morre,

esta saudade fina de Pasárgada

é um veneno gostoso dentro do meu coração.

O pasargadismo de Osvaldo Alcântara será entendido como evasionista e escapista, e encontrará críticos: por retratar o homem cabo-verdiano sem apontar soluções para os seus problemas.

Para o escritor e estudioso Manuel Ferreira, no entanto, o pasargadismo deve ser visto como:

“[…] desejo manifestado da fuga à degradada situação colonial que encarcerava o horizonte à juventude pensante e interrogadora. Era um protesto. Um desdém. Não é de mais dizer: era a fuga à erosão colonial, mas não era voltar as costas à cabo-verdianidade.”

Seja como for, os autores da geração seguinte, agrupados em torno da revista Certeza, de 1944, recusarão o dilema ir/ficar, num posicionamento mais assertivo e de engajamento sócio-político mais intenso, como podemos ver nesses versos de Ovídio Martins:

ANTI-EVASÃO

 

Pedirei

Suplicarei

Chorarei

 

Não vou para Pasárgada

 

Atirar-me-ei ao chão

E prenderei nas mãos convulsas

Ervas e pedras de sangue

 

Não vou para Pasárgada

 

Gritarei

Berrarei

Matarei

 

Não vou para Pasárgada

O estatuto dado a Pasárgada nesse caso é diferente: espaço renunciado, abortado dos anseios, renegado como fantasia luxuosa. A escolha do eu-lírico no poema de Ovídio Martins é fincar os pés na terra natal, numa postura ativista.

Saindo da temática do pasargadismo, encontramos outra expressiva manifestação de interesse pelo Brasil neste poema de Jorge Barbosa, umas das mais generosas demonstrações de carinho pelo nosso país:

Você, Brasil

Eu gosto de você, Brasil,

porque você é parecido com a minha terra.

Eu bem sei que você é um mundão

e que a minha terra são

dez ilhas perdidas no Atlântico,

sem nenhuma importância no mapa.

Eu já ouvi falar de suas cidades:

A maravilha do Rio de Janeiro,

São Paulo dinâmico, Pernambuco, Bahia de Todos-os-Santos.

Ao passo que as daqui

Não passam de três pequenas cidades.

Eu sei tudo isso perfeitamente bem,

mas Você é parecido com a minha terra.

 

E o seu povo que se parece com o meu,

que todos eles vieram de escravos

com o cruzamento depois de lusitanos e estrangeiros.

E o seu falar português que se parece com o nosso falar,

ambos cheios de um sotaque vagaroso,

de sílabas pisadas na ponta da língua,

de alongamentos timbrados nos lábios

e de expressões terníssimas e desconcertantes.

É a alma da nossa gente humilde que reflete

A alma de sua gente simples,

 

Ambas cristãs e supersticiosas,

Sentindo ainda saudades antigas

dos serões africanos,

compreendendo uma poesia natural,

que ninguém lhes disse,

e sabendo uma filosofia sem erudição,

que ninguém lhes ensinou.

 

E gosto dos seus sambas, Brasil, das suas batucadas.     

dos seus cateretês, das suas todas de negros,

caiu também no gosto da gente de cá,

que os canta dança e sente,

com o mesmo entusiasmo

e com o mesmo desalinho também…

As nossas mornas, as nossas polcas, os nossos cantares,

fazem lembrar as suas músicas,

com igual simplicidade e igual emoção.

 

Você, Brasil, é parecido com a minha terra,

as secas do Ceará são as nossas estiagens,

com a mesma intensidade de dramas e renúncias.

Mas há no entanto uma diferença:

é que os seus retirantes

têm léguas sem conta para fugir dos flagelos,

ao passo que aqui nem chega a haver os que fogem

porque seria para se afogarem no mar…

 

Nós também temos a nossa cachaça,

O grog de cana que é bebida rija.

Temos também os nossos tocadores de violão

E sem eles não havia bailes de jeito.

Conhecem na perfeição todos os tons

e causam sucesso nas serenatas,

feitas de propósito para despertar as moças

que ficam na cama a dormir nas noites de lua cheia.

Temos também o nosso café da ilha do Fogo

que é pena ser pouco,

mas — você não fica zangado — é melhor do que o seu.

 

Eu gosto, de Você, Brasil.                                          

Você é parecido com a minha terra.

O que é é tudo e à grande

E tudo aqui é em ponto mais pequeno…

Eu desejava ir-lhe fazer uma visita

mas isso é coisa impossível.

Eu gostava de ver de perto as coisas

espantosas que todos me contam

de Você,

de assistir aos sambas nos morros,

de esta cidadezinha do interior

que Ribeiro Couto descobriu num dia de muita ternura,

de me deixar arrastar na Praça Onze

na terça-feira de Carnaval.

Eu gostava de ver de perto um lugar no Sertão,

de apertar a cintura de uma cabocla — Você deixa? —

e rolar com ela um maxixe requebrado.

Eu gostava enfim de o conhecer de mais perto

e você veria como é que eu sou bom camarada

 

Havia então de botar uma fala

ao poeta Manuel Bandeira

de fazer uma consulta ao Dr. Jorge de Lima

para ver como é que a poesia receitava

este meu fígado tropical bastante cansado.

Havia de falar como Você

Com um i no si

— “si faz favor —

de trocar sempre os pronomes para antes dos verbos

— “mi dá um cigarro!”.

Mas tudo isso são coisas impossíveis, — Você sabe?

Impossíveis.

De acordo com Simone Caputo Gomes, essa aproximação de Cabo Verde com a literatura brasileira pode ser explicada  assim:

“Ao assumir a afinidade com o Brasil e sua cultura mestiça e autônoma, os escritores […] evidenciaram a sua determinação em refletir-se em (e por meio de) outros espelhos, mais próximos porque detentores de um itinerário histórico igualmente colonizado.”

Bem, as leituras lusófonas prosseguem por aqui. Logo mais haverá post para as leituras de férias.

Uma particularidade da língua portuguesa, por Cláudio Moreno

rápida e silenciosamente

Leia e veja por que -MENTE não pode ser classificado como um sufixo comum.

Uma leitora de Porto Alegre (muito jovem, a julgar por seu estilo pitoresco e pela forma com que assinou a mensagem — “Gauchinha”) escreve para pedir mais detalhes sobre uma construção que, segundo suas próprias palavras, acaba de descobrir: “Eu nunca tinha reparado nisso, mas num romance que estou lendo chamou minha atenção a hora em que o vampiro mais sábio fala calmapausadaesolenemente. Comentei com minha mãe, que lembrou que a gente usa todo dia a expressão pura e simplesmente, que deve ser mais ou menos a mesma coisa. Isso é obrigatório? Quando usamos uma carreirinha de advérbios de modo, só o último pode ganhar o sufixomente?”.

Não, prezada Gauchinha, obrigatório não é — mas é recomendável. Como acontece com a maior parte dos sufixos de nosso idioma, menteé tônico, e sua reiteração cria um efeito desagradável para o ouvido; costumamos, por isso, deixar o sufixo para o último advérbio da “carreirinha”, como dizes. Nos bons escritores podes encontrar centenas de exemplos semelhantes — “sacudiram tão feliz e animosamente o jugo” (Vieira); “elegante e simplesmente cortada” (Garrett); “poderia amar-te tranqüila e livremente” (Bernardo Guimarães); “Olhou fria e longamente para a inglesa”; “Estavam mudados física e moralmente” (Machado); “Achava aquilo, como ele dissera, pura e simplesmente insensato” (Eça de Queirós). Em determinados momentos, no entanto — e aqui se percebe a fineza do ouvido do escritor, que busca obter um efeito especial  —, o sufixo aparece em ambos os advérbios: “sem dizer uma palavra, sem fazer um só gesto, lentamente esilenciosamente se retirou para dentro de casa” (Garrett); “Depois, ainda falou gravemente e longamente sobre a promessa que fizera” (Machado); “A vogal, símbolo gráfico da interjeição primitiva, nascidaespontaneamente instintivamente do sentimento” (Raul Pompéia); “Sobre a calva tinha duas repas de cabelo, laboriosamente esingularmente arranjadas” (Eça de Queirós).

Ora, como pode acontecer algo tão esquisito? Como podemos desconjuntar assim uma palavra, separar seus elementos constitutivos e usar apenas um deles no lugar do todo? É evidente que são poucas — ao menos em nossa língua — as ocorrências dessa curiosa operação que alguns lingüistas chamam de “fatoração”. É bem conhecida, por exemplo, a autonomia de que desfrutam certos prefixos: em vez de “macroeconômico e microeconômico”, podemos falar em micro emacroeconômico — da mesma forma que pré e pós-fixado, intra eextramuros, hipo e hipercalórico, bi e trifásico, pró e antiaborto. O número de casos, contudo, é bastante limitado.

O mesmo não acontece com mente, que é plenamente “fatorável”, como percebeu nossa Gauchinha. Este elemento, tradicionalmente considerado um sufixo, é, na verdade, o nosso conhecido substantivomente, que se combina com adjetivos para formar legítimos vocábulos compostos (suave+mente, clara+mente, feliz+mente). Nos manuscritos medievais portugueses, muitos copistas ainda deixavam um espaço em branco entre os dois elementos, escrevendo calma menteserenamente, etc.; poderia ser assim até hoje, pois, como explica Mattoso Câmara, foi por mera convenção da língua escrita que passamos a grafar os dois vocábulos como um só. O processo é tão regular que os dicionários dele se aproveitam para economizar espaço; ao registrarsuave e triste, por exemplo, sabem que não é necessário registrarsuavemente ou tristemente.

Pois é exatamente essa condição de vocábulo composto que permite a coordenação de dois ou mais adjetivos: em silenciosa, furtiva e rapidamente, o substantivo mente só precisa aparecer no final daseqüência. Pelo mesmo motivo, também, silenciosofurtivo e rápidoestão na sua forma feminina, cumprindo o ritual obrigatório da concordância dos adjetivos com o substantivo que acompanham (é bom lembrar que os adjetivos que participam dessas construções devem manter, quando estão sozinhos, sua grafia costumeira, com acento e tudo: cômoda e confortavelmente, rápida e silenciosamente).

 

Leituras de férias

Como é tradição do Prefácio,  retorno das férias comentando as leituras que fiz no período em que andei afastado das atividades docentes.

Dessa vez foram leituras dedicadas a escritores estrangeiros de língua portuguesa.

Comecei por Predadores, do angolano Pepetela, publicado pela Língua Geral na coleção Ponta-de-Lança (Rio de Janeiro, 2008).

Como já observei em outros posts, a leitura de textos escritos na língua portuguesa falada fora do eixo Brasil-Portugal já é, em si mesma, uma experiência fascinante, que ando procurando cultivar intensamente.

No caso da leitura de Predadores, o fascínio foi garantido com a ajuda da Língua Geral, cujo proposta se vê pela nota à edição:

“Respeitam-se integralmente, nesta edição brasileira de Predadores, as singularidades lexicais, ortográficas e sintáticas do português de Angola.”

O texto de Pepetela flui deliciosamente, seu exame psicológico em geral é convincente (algumas vezes incomodou-me o tom caricatural).

Predadores aborda a história recente de Angola – da descolonização à instauração do regime socialista – como um processo catastrófico que culimou no puro e simples favorecimento de grupos oportunistas, os quais se apropriaram da máquina do Estado para enriquecer, deixando à míngua os projetos revolucionários.

Numa máquina estatal burocrática, mantida por indivíduos preocupados exclusivamente em melhorar suas próprias condições, praticando para isso inclusive crimes graves, o sonho revolucionário se esvai e o espaço fica livre para os mais inescrupulosos interesses, como os de Vladimiro Caposso, protagonista do livro.

Para onde vão então – o leitor se pergunta – os sonhos revolucionários que animaram, não só Angola, mas boa parte daquela África que se descolonizava e buscava encontrar, aos trancos e barrancos, mas com esperança, um destino mais humano?

Na trama de Predadores alguns indivíduos continuam defendendo ideais humanitários; mas suas ações isoladas, embora persistentes, não conseguem converter-se num projeto. No fundo, são apenas gestos que confirmam o diagnóstico que o livro parece sustentar: o de que intenções humanitárias não combinam com Estados socialistas.

O livro me deixou intrigado, indeciso, e até desconfiado, com a mesma reação que tive com outras obras que procuram examinar criticamente as experiências do que se convencionou chamar “socialismo real”: o filme A vida dos outros (2006), do diretor alemão Florian Henckel von Donnersmarck, o livro Libertação, do escritor húngaro Sándor Márai (que, embora em 1945, foi publicado somente após a morte do autor, em 1989).

Questões que me surgem depois de conhecer obras como essas: será que as populações pobres de países como Hungria, Alemanha e Angola teriam alcançado melhores condições de vida sem a experiência do socialismo? Será que essa experiência (agora pensando particularmente no Leste Europeu) não foi a responsável por pautar de outro modo – mais crítico pelo menos – o destino desses países? Última pergunta – e talvez a mais importante: as populações pobres desses países ganharam melhores condições de vida depois da Queda do Muro? Parece-me que não, considerando o desmantelamento do estado de bem-estar social vivido por quase todos os países europeus.

Enfim, começo a pensar que, num mundo como o nosso – que cada vez abre menos espaço para a crítica às desigualdades estruturais produzidas pela lógica capitalista – a insistência em se associar comunismo a barbárie é um caminho simplificador e, convenhamos, bem conveniente para outros tantos ‘predadores’.

A minha segunda leitura de férias foi O ano da morte de Ricardo Reis (1984), de José Saramago.

O autor português, como muitos sabem, sempre exigiu que as edições de sua obra no Brasil saíssem sem qualquer revisão, de modo que ler Saramago significa sempre entrar em contato com um dos mais gloriosos prazeres literários para um leitor brasileiro: o duplo movimento identificação-diferenciação, o de transportar-se para outra língua sem sair da sua.

Minha paixão pela literatura desse autor surgiu exatamente há vinte anos, em 1992, quando O evangelho segundo Jesus Cristo era quase moda entre alguns círculos de leitores. A paixão se confirmou logo depois, com a leitura de Manual de pintura e caligrafia e, mais recentemente, com O memorial do convento.

Para os leitores de Fernando Pessoa, O ano da morte de Ricardo Reis pode ser um verdadeiro fetiche. Saramago – num desafio ousado, do qual, acredito, sai vitorioso – procura dar continuidade  à história do heterônimo pessoano. Vejamos que jogo intricado é esse: um ser inventado (Ricardo Reis) teve a sua não-vida inconclusa pelas mãos de seu criador (Fernando Pessoa). Outro criador (José Saramago) tomou para si a missão de reanimar essa não-vida para dar-lhe de volta aquilo que ela sempre teve: uma vida apenas literária. A lógica se complexifica ainda mais quando levamos em conta que: a personagem Ricardo Reis no livro de Saramago é, fundamentalmente, um não-ser, alguém apartado do que existe à sua volta. Uma personagem que procura o tempo todo alhear-se de tudo o que venha a pesar sobre seus ombros, num estoicismo egocêntrico e mesmo doentio.

Vertiginoso? Sim, e ainda mais quando se vê que a intenção fundamental de Saramago é desafiar a impassibilidade desse ser, atirando-o contra a força da mundanidade, com toda sua violência e prazer:  como se quisesse dar-lhe vida (humana) finalmente.

Vertiginoso? E mais ainda se considerarmos que a sintaxe saramaguiana são como corredores compridos ou escadas encaracoladas que perdemos o fôlego para percorrer, e de onde não se sai tão facilmente.

Sim, e também é vertiginoso ver Ricardo Reis encontrando Fernando Pessoa, que existiu de facto, mas que, no tempo da narrativa, está morto. Ou seja: o não-ser (que nunca existiu) dialoga com um ser (que existiu) morto.

É supreendente a naturalidade com que Saramago – em sua fingida imparcialidade, com aquele risinho machadiano que  escapa sobretudo ao final dos períodos – aborda a diferença entre a vida e a morte – uma diferença mínima; ele nos parece dizer algo como: a diferença que separa um homem vivo de um morto não é maior do que a que separa um homem vivo de outro homem vivo.

Também é surpreendente a relação que Saramago estabelece entre as convicções monarquistas de Ricardo Reis e o contexto da ascensão do fascismo na Península Ibérica e Europa como um todo – relação que talvez seja uma das razões de ser do livro de Saramago.

Sair desse livro e querer voltar para as páginas da história do Salazarismo é quase inevitável. É também inevitável revisitar, não só a obra de Ricardo Reis, mas de todo o Fernando Pessoa, coisa que vem sempre a calhar.

É isso. Fico por aqui.

Como prometido, registrei minhas leituras de férias com breve impressões a respeito.

Deixo agora a palavra com o leitor: para que registre, nos comentários, suas leituras de férias, como no semestre passado, formando uma espécie de fórum.

Em tempo:

– as fotos espalhadas pelo post são de André Kertèsz, que publicou em 1971 o livro On reading: são flagrantes de pessoas lendo, em diversas posições e situações.

– que este ano de Drummond (nascido em 1902) e da Semana de 22 (que completa seus 90 anos), seja também o ano de muitas leituras, grandes experiências estéticas e muitas aprendizagens.

Abraço a todos.

NOTA: Li somente depois de ter postado o texto, no Estadão de hoje, que o famoso crítico Massaud Moisés acredita que a ideologia em Saramago limitou sua literatura. Respeito demais a erudição do Prof. Massaud Moisés, cujos manuais sempre me ajudaram muito, mas, sinceramente, não consigo ver o homem senão como ser ideológico. Negar a ideologia é, para mim, como negar a racionalidade ou a subjetividade. É uma batalha (positivista ou neoclássica) perdida. Ficaria mais bonito, para o universo das Musas, se Saramago, em vez de ideologia (vermelha!) tivesse ‘cosmovisão’? Poxa, mas aí chama o Bilac, por favor.

Último antes das férias

Caros queridos, hora de se levantar da mesa e dar aquele lento e agradável espreguiçar, vestir a bermuda e os chinelos e sair um pouco para a rua, quem sabe ir até a praia.

Hora de ler e de reler, de ver e de rever alguns filmes.

Pessoalmente, ando entusiasmado com autores africanos de língua portuguesa e francesa e com filmes do velho cinema italiano. Os amigos leitores ficam incumbidos de deixarem registradas, nos comentários, quais têm sido suas preferências atuais.

Como despedida do Prefácio ao ano de 2011, publico esta matéria divertida da Revista Trip, indicação de meu querido aluno André Massabki.

Gostei da matéria particularmente por nos fazer pensar no caráter controverso da noção de bom gosto. Insisto sempre na necessidade de lermos criticamente os textos literários, inclusive os mais consagrados pelo cânone acadêmico, e creio que a matéria confirma a importância disso: ver autores renomados – alguns até de modo irresponsável ou mesmo pouco elegante (o que eu não acho em si aprovável), mas quase sempre divertido e inteligente – achincalhando outros autores igualmente renomados é uma forma expressiva de confirmação de que os “imortais” não formam um “time”, com discurso unívoco ou unânime. Pelo contrário, sua noção de qualidade é diversa – mais que isso, é controversa.

Boas férias, boas leituras, bons filmes, boas festas, e, claro, boa preguiça, bons esquecimentos.

AUTOR VERSUS AUTOR

Trinta grandes nomes da literatura criticando duramente outros trinta autores eternos

É muito fácil criticar um autor iniciante ou aquele escritor que nunca teve um grande alcance, ainda mais se o crítico é um escritor veterano e considerado universal por sua importância histórica. Mas tem vezes que sobra até para algumas “vacas sagradas” da literatura universal, mesmo os nomes de maior peso como Dostoievsky, James Joyce ou até Mark Twain.

Nesta semana, o site Flavorwire compilou 30 das mais engraçadas provocações públicas da história literária do Ocidente, colocando autor contra autor em uma lista que, apesar de nem ser tão longa, já dá uma ideia em linhas gerais da opinião real que gênios tem de outros gênios. Na seleção, ninguém escapou das linhas afiadas destes romancistas e poetas que incluem Gustave Flaubert, Vladimir Nabokov, Virginia Woolf, Charles Baudelaire, Truman Capote e Henry James.

Logo abaixo você vê a lista completa de insultos de autores para outros autores, todos eles de renome internacional.

Reprodução

Vladimir Nabokov pronto para a briga

Vladimir Nabokov pronto para a briga

30. Gustave Flaubert (Madame Bovary) sobre George Sand (Mattéa)
“Uma grande vaca recheada de namquim”

29. Robert Louis Stevenson (O Médico e o Monstro) sobre Walt Whitman (Leaves of Grass)
“Ele escreve como um cachorro grande e desengonçado que escapou da coleira e vaga pelas praias do mundo latindo para a lua”

28. Friedrich Nietzsche (Assim Falou Zaratustra) sobre Dante Alighieri (A Divina Comédia)
“Uma hiena que escreu sua poesia em tumbas”

27. Harold Bloom (A Invenção do Humano) sobre J.K. Rowling (Harry Potter)
“Como ler Harry Potter e a Pedra Filosofal? Rapidamente, para começar, e talvez também para acabar logo. Por que ler esse livro? Presumivelmente, se você não pode ser convencido a ler nenhuma outra obra, Rowling vai ter que servir.”

26. Vladimir Nabokov (Lolita) sobre Fyodor Dostoievsky (Crime e Castigo)
“A falta de bom gosto do Dostoievsky, seus relatos monótonos sobre pessoas sofrendo com complexos pré-freudianos, a forma que ele tem de chafurdar nas trágicas desventuras da dignidade humana – tudo isso é muito difícil de admirar”

25. Gertrude Stein (The Making of Americans) sobre Ezra Pound (Lustra)
“Um guia turístico de vila. Excelente se você fosse a vila. Mas se você não é, então não é.”

24. Virginia Woolf (Passeio ao Farol) sobre Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo)
“É tudo um protesto cru e mal cozido”

23. H. G. Wells (Guerra dos Mundos) sobre George Bernard Shaw (Pygmalion)
“Uma criança idiota gritando em um hospital”

22. Joseph Conrad (Coração das Trevas) sobre D.H. Lawrence (Filhos e amantes)
“Sujeira. Nada além de obscenidades.”

21. Lord Byron (Don Juan) on John Keats (To Autumn)
“Aqui temos a poesia ‘mija-na-cama’ do Johnny Keats e mais três romances de sei lá eu quem. Chega de Keats, eu peço. Queimem-o vivo! Se algum de vocês não o fizer eu devo arrancar a pele dele com minhas próprias mãos.”

Reprodução

Virginia Woolf

Virginia Woolf

20. Vladimir Nabokov sobre Joseph Conrad
“Eu não consigo tolerar o estilo loja de presentes de Conrad e os navios engarrafados e colares de concha de seus clichês românticos.”

19. Dylan Thomas (25 Poemas) sobre Rudyard Kipling (The Jungle Book)
“O senhor Kipling representa tudo o que há nesse mundo cancroso que eu gostaria que fosse diferente”

18. Ralph Waldo Emerson (Concord Hymn) sobre Jane Austen (Orgulho e Preconceito)
“Os romances da senhorita Austen me parecem vulgares no tom, estéreis em inventividade artística, presos nas apertadas convenções da sociedade inglesa, sem genialidade, sem perspicácia ou conhecimento de mundo. Nunca a vida foi tão embaraçosa e estreita.”

17. Martin Amis (Experiência) sobre Miguel Cervantes (Dom Quixote)
“Ler Don Quixote pode ser comparavel a uma visita sem data para acabar de seu parente velho mais impossível, com todas as suas brincadeiras, hábitos sujos, reminiscências imparaveis e sua intimidade terrível. Quando a experiência acaba (na página 846 com a prosa apertada, estreita e sem pausa para diálogos), você vai derramar lágrimas, isso é verdade. Mas não de alívio ou de arrependimento e sim lágrimas de orgulho. Você conseguiu!”

16. Charles Baudelaire (Paraísos Artificiais) sobre Voltaire (Cândido)
“Eu cresci entediado na França. E o maior motivo para isso é que todo mundo aqui me lembra o Voltaire… o rei dos idiotas, o príncipe da superficialidade, o antiartista, o porta-voz das serventes, o papai Gigone dos editores da revista Siecle”

15. William Faulkner (A Cidade) sobre Ernest Hemingway (Por Quem os Sinos Dobram)
“Ele nunca sequer pensou em usar uma palavra que pudesse mandar o leitor para um dicionário.”

14. Ernest Hemingway sobre William Faulkner
“Pobre Faulkner. Ele realmente pensa que grandes emoções vem de grandes palavras?”

13. Gore Vidal (O Julgamento de Paris) sobre Truman Capote (A Sangue Frio)
“Ele é uma dona de casa totalmente empenada do Kansas, com todos os seus preconceitos.”

12. Oscar Wilde (O Retrato de Dorian Grey) sobre Alexander Pope (Ensaio sobre a crítica)
“Existem duas formas de se odiar poesia: uma delas é não gostar, a outra é ler Pope.”

Reprodução

Mark Twain, o mestre do humor americano

Mark Twain, o mestre do humor americano

11. Vladimir Nabokov sobre Ernest Hemingway 
“Quanto ao Hemingway, eu li um livro dele pela primeira vez nos anos 40, algo sobre sinos, bolas e bois, e eu odiei.”

10. Henry James (Calafrio) sobre Edgar Allan Poe (Os Crimes da Rua Morgue)
“Se entusiasmar com o Poe é a marca de um estágio decididamente primitivo da reflexão.”

9. Truman Capote sobre Jack Kerouac (On The Road)
“Isso não é escrever. Isso é só datilografar.”

8. Elizabeth Bishop (Norte e Sul) sobre J.D. Salinger (Apanhador no Campo de Centeio)
“Eu odiei o ‘Apanhador no Campo de Centeio’. Demorei dias para começar a avançar, timidamente, uma página de cada vez e corando de vergonha por ele a cada sentença ridícula pelo caminho. Como deixaram ele fazer isso?”

7. D.H. Lawrence sobre Herman Melville (Moby Dick)
“Ninguém pode ser mais palhaço, mais desajeitado e sintaticamente de mau gosto como Herman, mesmo em um grande livro como Moby Dick. Tem algo falso sobre sua seriedade, esse é o Melville.”

6. W. H. Auden (Funeral Blues) sobre Robert Browning (Flautista de Hamelin)
“Eu não acho que Robert Browning era nada bom de cama. Sua mulher também provavelmente não ligava muito pra ele. Ele roncava e devia ter fantasias sobre garotas de 12 anos.”

5. Evelyn Waugh (Memórias de Brideshead) sobre Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido)
“Estou lendo Proust pela primeira vez. É uma coisa muito pobre. Eu acho que ele tinha algum problema mental.”

4. Mark Twain (As Aventuras de Huckleberry Finn) sobre Jane Austen
“Eu não tenho o direito de criticar nenhum livro e eu nunca faço isso, a não ser quando eu odeio um. Eu sempre quero criticar a Jane Austen, mas seus livros me deixam tão bravo que eu não consigo separar minha raiva do leitor, portanto eu tenho que parar a cada vez que eu começo. Cada vez eu eu tento ler Orgulho e Preconceito eu quero exumar seu cadáver e acertá-la na cabeça com seu osso do queixo.”

3. Virginia Woolf sobre James Joyce (Ulisses)
“Ulisses é o trabalho de um estudante universitário enjoado coçando as suas espinhas”

2. William Faulkner sobre Mark Twain
“Um escritor mercenário que não conseguia nem ser considerado da quarta divisão na Europa e que enganou alguns esqueletos literários de tiro-certo com cores suficientemente locais para intrigar os superficiais e preguiçosos.”

1. D.H. Lawrence sobre James Joyce
“Meu deus, que idiota desastrado esse James Joyce é. Não é nada além de velhos trabalhos e tocos de repolho de citações bíblicas com um resto cozido em suco de um jornalismo deliberadamente sujo.”

Vai lá: www.flavorwire.com

Entrevista com Ondjaki

Neste post publico uma entrevista realizada pelo programa Entrelinhas, da TV Cultura, com o escritor angolano Ondjaki.

Nascido em Luanda em 1977, Ondjaki (pseudônimo de Ndalu de Almeida) mora atualmente na cidade do Rio de Janeiro.

Autor de obra premiada e representante de uma literatura cada vez mais próxima do público brasileiro, as palavras de Ondjaki são um convite para ampliação de nossos horizontes linguísticos e culturais, levando-nos a refletir sobre nossa condição de povo mestiço.