Dez anos de Cooperifa

Mais uma modesta homenagem do Prefácio a este audacioso projeto cultural e literário que nasceu na periferia de São Paulo e que tem ganhado cada vez mais espaços.

Parabéns a Sérgio Vaz  e a todos os que apoiam direta e indiretamente a Cooperifa, que este ano comemora uma década de existência.

“O cão e o frasco”, de Charles Baudelaire

Baudelaire retratado por um dos maiores fotógrafos de seu tempo, Félix Nadar

Considerado o fundador da literatura moderna, pai do movimento simbolista e guru dos escritores malditos, Charles Baudelaire (1821-1867) é uma dessas figuras que imprimem o seu nome a uma época: muitos estudiosos dividem a literatura entre o que se fez antes e o que se fez depois da produção do gênio francês.

Os livros mais importantes de Baudelaire são As flores do mal (1857) e Spleen de Paris (1869). O primeiro é um conjunto de poemas, uma verdadeira revolução de estilo e de temperamento poético. No segundo, uma publicação póstuma, Baudelaire fez uma combinação entre poesia e prosa que consagrou um novo gênero literário: a prosa poética (não por acaso, o nome original do livro era Pequenos poemas em prosa), que exerceu e ainda exerce grande influência em todos os seus sucessores.

O cão e o frasco, que reproduzo aqui (na famosa tradução de Aurélio Buarque de Hollanda), é um dos textos mais importantes do Spleen de Paris e sem dúvida uma das obras mais emblemáticas desse momento de divórcio entre produção artística e gosto das multidões. Produzida no nascedouro da cultura de massa, no início do que Walter Benjamin cunhou como “era da reprodutibilidade técnica”, a literatura de Baudelaire foi produzida como um ato de voluntária provocação, como um imenso prazer em desagradar, abrindo um debate que sem dúvida alguma ainda está vivo.

Boa leitura.

O cão e o frasco

— Meu belo cão, meu cãozinho, meu querido totó, vem cá, vem respirar um excelente

perfume comprado no melhor perfumista da cidade.

E o cão, agitando a cauda, o que é, suponho, entre esses pobres seres, o sinal

correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e, curioso, põe o nariz úmido no frasco

destampado; mas subitamente, recuando de susto, late contra mim, à maneira de reprimenda.

— Ah, miserável cão! se eu te houvesse oferecido um embrulho de excrementos, decerto o

cheirarias com delícia e talvez o tivesses devorado. Assim, ó indigno companheiro de minha triste

vida, tu te assemelhas ao público, a quem nunca se devem apresentar perfumes delicados, que o

exasperam, mas imundícies cuidadosamente escolhidas.

(BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas e prosa. Rio de Janeiro, José Olympio, 1950 – trad. Aurélio Buarque de Hollanda. p. 25)

“Liberdade”, de Paul Éluard

Mais do que um poema, este texto de Paul Éluard, para mim e muitos outros leitores, é uma espécie de oração:

Liberdade

Nos meus cadernos de escola

Sobre a carteira nas árvores

Sobre a neve sobre a areia

Grifo teu nome

Em toda página lida

Em toda página em branco

Sem papel na pedra ou cinza

Grifo teu nome

Sobre as gravuras douradas

Sobre as armas dos guerreiros

Sobre a coroa dos reis

Grifo teu nome

Na floresta e no deserto

Sobre os ninhos sobre as gestas

Nos ecos da minha infãncia

Grifo teu nome

Nas maravilhas das noites

No pão branco das jornadas

Nas estações de noivado

Grifo teu nome

Nos fiapos de azul-celeste

No tanque solar bolor

No lago lua vibrante

Grifo teu nome

Nos campos nos horizontes

Nas asas dos passarinhos

Sobre os moinhos de sombras

Grifo teu nome

Em cada sopro de aurora

Sobre o mar sobre os navios

Na insensatez das montanhas

Grifo teu nome

Nas nuvens soltas revoltas

Na tormenta transpirada

Na chuva insistente e boba

Grifo teu nome

Sobre as formas cintilantes

Nas campânulas de cores

Por sobre a verdade física

Grifo teu nome

Sobre as veredas despertas

Nos caminhos desdobrados

Sobre as praças transbordantes

Grifo teu nome

Na lâmpada que se acende

Na lâmpada que se apaga

Nas casas cheias de gente

Grifo teu nome

No fruto cortado em dois

O do espelho e o do meu quarto

Na concha sem mim depois

Grifo teu nome

No meu cão terno e guloso

Mas sempre de orelha em pé

E patas destrambelhadas

Grifo teu nome

No trampolim da minha porta

Nos objetos familiares

Nas línguas do lume bento

Grifo teu nome

Em toda carne acordada

Na fronte dos meus amigos

Em cada mão que me afaga

Grifo teu nome

Na vidraça das surpresas

Sobre os lábios expectantes

Muito acima do silêncio

Grifo teu nome

Nos refúgios descobertos

Nos maus faróis desmontados

Nas paredes do meu tédio

Grifo teu nome

Sobre a ausência do desejo

Sobre a solidão desnuda

Nos descaminhos da morte

Grifo teu nome

No retorno da saúde

No risco que se correu

Na esperança sem lembrança

Grifo teu nome

E pelo poder de um nome

Começo a viver de fato

Nasci pra te conhecer

E te chamar

Liberdade

(Tradução de M. C. Ferreira)

Obra de René Magritte, mais um surrealista a cavar fissuras na "razão vigilante" e a nos convidar para o voo cego da utopia

 

Cor local (6)

O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla (1968)

Por esse pequeno trecho, é possível perceber o poder da  estética da esculhambação que foi o Cinema Marginal brasileiro, cinema de coragem  e ousadia, de crítica espirituosa e além de tudo divertidíssima.

Com base na personagem real que aterrorizou a classe média brasileira nos anos 60, Sganzerla criou uma figura alegórica riquísisma, reflexo cômico das ambições da sociedade de consumo.

O Bandido da Luz Vermelha, já lançado em DVD  há alguns anos, é uma obra impactante e simplesmente fundamental para quem tem interesse no grande cinema brasileiro.

Cor local (3)

A realidade como problema

Como decorrência do próprio projeto romântico, que em geral tinha uma visão eufórica da nação, brotará, principalmente por volta dos anos de 1860, uma literatura que investiga e denuncia a realidade brasileira, descortinando um aspecto que até então esteve convenientemente fora das grandes representações do país: a escravidão negra. Hoje temos consciência cada vez mais clara de que o elemento da negritude – cuja história evoca tanto tristeza quanto orgulho – é inseparável da brasilidade. Mas nas representações típicas do primeiro Romantismo – o da chamada geração indianista – o negro nem existe na paisagem literária: o que funda a nação é a mistura – quando não a amizade – entre índios e europeus. Isso aparece de modo explícito em histórias como Iracema e O guarani.

Apresentando situações como naturais, a obra de Debret, principalmente com o passar do tempo, parece na verdade uma voz de denúncia

Se a imagem transmitida a respeito do Brasil era um ideal e não a realidade, natural que a representação de nossa vida social fosse também envernizada, de modo a se ocultarem valores considerados nebulosos na formação de uma pintura perfeita: o país precisava aparentar grandiosidade, e a figura de negros acorrentados, sofrendo os mais terríveis castigos, só podia aparecer – como animais exóticos – em telas como a do francês Jean-Baptiste Debret, nas quais se procurava retratar os pitorescos costumes brasileiros (mas que podem também funcionar como denúncia de imensas injustiças).

A visão crítica da realidade propriamente, não só incluindo mas na verdade partindo da crítica à escravidão, começa a aparecer nas artes na segunda metade do século XIX. É sempre bom lembrar que a escravocracia era um dos elementos mais frágeis da nação brasileira se considerarmos, a partir de 1808 e de modo mais decisivo a partir de 1822, a tendência do país a se mostrar como “civilizado”. A atitude de escancarar essa realidade podia pôr em xeque os interesses mais conservadores, que sustentavam a imagem de nação ordeira e branca, tendo o indígena como uma decoração de fundo, um motivo alegórico, um adorno curioso.

A poesia social da década de 1860, que tem Tobias Barreto à sua frente, apresenta uma abordagem direta e indignada do tema da escravidão dos negros africanos. Sendo ele mesmo mulato e tendo sido vítima de preconceito por isso, Barreto foi precursor do chamado condodeirismo nas letras brasileiras, movimento de cunho libertário inspirado nas ideias e na literatura de Victor Hugo e que teve Castro Alves como figura central. O nome é uma alusão ao condor, ave de voo alto e solitário: tal como o condor em seu voo, o olhar do poeta condoreiro flagrava a realidade de um modo amplo, podendo captar seus aspectos injustos e denunciá-los.

Este poema de Tobias Barreto representa bem o espírito dessa geração:

A escravidão (1868)

Se Deus é quem deixa o mundo
Sob o peso que o oprime,
Se ele consente esse crime,
Que se chama escravidão,
Para fazer homens livres,
Para arrancá-los do abismo,
Existe um patriotismo
Maior que a religião.

Se não lhe importa o escravo
Que a seus pés queixas deponha,
Cobrindo assim de vergonha
A face dos anjos seus
Em seu delírio inefável,
Praticando a caridade,
Nesta hora a mocidade
Corrige o erro de Deus!…

A poesia e as artes brasileiras vão flagrar uma nova realidade e apresentar, portanto, uma nova cor local, rechaçando de vez a idealização romântica do Brasil e dando passagem para a estética do Realismo.

Mas esse já é outro capítulo…

Cor local (2)

O Romantismo e a invenção da cor local

Para a estética árcade, a paisagem era uma criação retórica, uma tópica literária que respeitava os padrões clássicos: prados, campos, ribeiras, riachos. A ausência das densas florestas e da vastíssima costa litorânea – marcas fortes da brasilidade – não se explica apenas pelo fato de a paisagem real dos poetas ser as “duras penhas”, ou seja, a região montanhosa das Minas Gerais. Sem levar muito em conta que alguns desses poetas conviveram com a paisagem do Rio de Janeiro, o que importa é notarmos que os autores árcades estavam mais atendendo a uma convenção universal (entenda-se europeia) que respeitando sua experiência concreta como porta-vozes de uma realidade.

O Romantismo deixa de lado a paisagem meramente retórica ou literária e tenta não exatamente mostrar, mas inventar uma cor local, sustentando-se na busca por uma identidade para o país recentemente independente.

O Brasil foi representado pelos românticos com a convicção dos apaixonados, de modo idealizado, a partir de seus “primores” inigualáveis, de suas abundantes matas e sua natureza generosa. Nossos índios, idealizados, foram pintados como o mais acabado exemplo de bravura e retidão de caráter.

Foi em geral desse modo mesmo – apaixonado ou ingênuo e ufanista – que o Brasil foi apresentado em obras como as de Gonçalves Dias, n’A canção do exílio e em seus poemas indianistas, ou os romances de Alencar.

Essa visão positiva, eufórica da cor local desaguará no século XX para formar uma larga tradição.

Nossa música popular possui exemplos notórios dessa tendência, sendo um dos casos mais célebres a Aquarela do Brasil, de 1939, de Ary Barroso, uma verdadeira declaração de amor à pátria:

Ah, ouve essas fontes murmurantes

Aonde eu mato a minha sede

E onde a lua vem brincar

Ah, este Brasil lindo e trigueiro

É o meu Brasil, brasileiro

Terra de samba e pandeiro

Outro exemplo significativo dessa tradição é a música de Dorival Caymmi, que, tomando a Bahia como metonímia do País, dedicou belíssimos louvores à brasilidade, como vemos nestes versos finais da canção João Valentão, de 1958:

E assim adormece esse homem

Que nunca precisa dormir pra sonhar

Porque não há sonho mais lindo

Do que sua terra, não há.

Como diz a piada popular, a Bahia tem três ritmos: o lento, o muito lento e o Dorival Caymmi - um tempo devagar quase parando

Para terminar, um caso muito expressivo de reencarnação do nacionalismo romântico: a canção Alma de tupi, de 1933, do já esquecido Augusto Calheiros, grande cantor e compositor alagoano que tinha o apelido de A Patativa do Norte e ficou famoso em sua época por possuir uma voz muito afinada e um modo peculiar de cantar. É impressionante como a letra dessa música encarna o que há de mais essencial no nacionalismo romântico. Vale a pena reproduzi-la por inteiro:

Alma de Tupi

Sou caboclo brasileiro,
Tenho sangue de guerreiro,
Descendente de Tupi,
Já andei por outras terras,
Tenho visto muitas serras,
Como a nossa nunca vi,
Tenho amor à minha terra,
Que belezas ela encerra,
Nesses matos do sertão!
Onde os nossos índios bravos,
Nunca se fizeram escravos,
De qualquer outra nação!
Minha terra tem cascatas,
Tem mistérios nestas matas
Que traduz belezas mil!
Minha terra tem perfume,
Que até Deus já tem ciúme,
Destas terras do Brasil!
Folhas verdes e amarelas,
Céu azul cheio de estrelas,
Como não existe igual,
A imagem da bandeira,
Desta terra brasileira,
Neste mundo é sem rival.

Atenção para o fato de que, se em Aquarela do Brasil diz-se que o Brasil é a “terra de Nosso Senhor”, em Alma de tupi, Deus chega mesmo a sentir ciúme do Brasil: ou seja, para o compositor, a beleza de nossa terra é tão grande que provoca inveja a ninguém menos que o Todo Poderoso.

Agora um comentário pessoal: conheci essa música numa daquelas maravilhosas seleções da Cultura AM. Durante um tempo, fui tão fanático por essa rádio e suas seleções de canções brasileiras antigas que enchi com elas uma média de dez fitas cassetes, as quais trago até hoje comigo. Mas, claro, essa mania de ouvir fita velha é problema meu.

Outras abordagens da nossa cor local logo mais, em outro post.

Cor local (1)

Selva Brasileira, de Araújo Porto-Alegre

A representação da realidade local, tópica que passa a ser decisiva na história da arte principalmente a partir do Romantismo, forma uma vasta e rica tradição na cultura brasileira. Assumindo o tom eufórico ou crítico, de acordo com a convenção estética em questão e suas intenções ideológicas, em todas as artes, da arquitetura ao cinema, da pintura à poesia, nossa cultura tem um legado riquíssimo de produções em torno desse tema.

Com este post pretendo dar início à  série Cor local, cuja intenção é debater a presença dessa tendência em nossas artes e apresentar algumas de suas mostras expressivas.

Para inaugurar, um trabalho de Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879):

Aprendiz de Debret e parceiro literário de Gonçalves de  Magalhães, Araújo Porto-Alegre foi, além de artista, um intelectual de enorme influência em sua época: em 1836, juntamente com Gonçalves de Magalhães, funda a revista Nitheroy, simplesmente o marco inicial de nosso Romantismo, decisiva para a formação de uma consciência estética nacional.

Essa belíssima aquarela – Selva brasileira – é uma de suas obras mais importantes.

A cor local estava sendo descoberta. Não, não: estava sendo inventada.

Depois tem mais.

População invisível

Não parece, mas a cidade de São Paulo possui uma série de monumentos em homenagem a poetas e escritores consagrados.

Na Praça Dom José Gaspar, onde fica a biblioteca Mário de Andrade, encontram-se, de uma vez só, seis deles: monumentos a Mário de Andrade, Cruz e Sousa e a outros quatro nomes retumbantes: Dante Alighieri, Luís de Camões, Miguel de Cervantes e Johann Goethe.

"Camões", de José Crucé. Peça de bronze

No Largo São Francisco, palco das primeiras agitações poéticas de São Paulo, encontra-se uma herma a uma das figuras centrais do Romantismo brasileiro, nosso primeiro poeta maldito: (Manuel Antônio) Álvares de Azevedo, ou, como era conhecido pelos seus condiscípulos da Faculdade de Direito: Maneco.

Vale a pena lembrar que  São Paulo nessa época, 1850, não passava de uma povoação pobre, com um número de habitantes inferior ao que tinham por exemplo Belém e Cuiabá. Nas palavras do próprio Maneco de Azevedo, São Paulo àquela época era “um bocejar infinito”.

"Herma de Álvares de Azevedo", de Amadeo Zani. Peça de bronze

Apenas alguns quarteirões do Largo São Francisco, deparamo-nos com a imagem daquele que pode ser considerado o primeiro homem das letras do Brasil: o padre jesuíta José de Anchieta. Esse homem, em 1554, participou da fundação do Colégio São Paulo, o embrião de nossa cidade; seu monumento não por acaso localiza-se no marco zero da capital: a Praça da Sé.

Já no Largo do Arouche, pode ser vistos outros monumentos: ao poeta modernista Guilherme de Almeida, ao escritor Visconde de Taunay,  autor de Inocência, a Vicente de Carvalho, poeta nascido em Santos e a Luís Gama, o verdadeiro Poeta dos Escravos. A história de Luís Gama mereceria um texto à parte: filho de mãe africana da nação Nagô, ex-escrava, Gama viveu ele mesmo a experiência do cativeiro quando foi, aos dez anos de idade, vendido, ilegalmente, pelo próprio pai, um fidalgo português falido. É uma das personalidades mais incríveis da nossa história, além de um importante autor de poesia social.

"Luís Gama", de Yolando Mallozzi. Peça de bronze

Não muito longe do centro, no bairro da Vila Mariana, encontram-se mais três significativas homenagens: a Cora Coralina, poetisa e escritora goiana, na praça que tem seu nome; ao célebre poeta parnasiano Olavo Bilac, na Avenida Sargento Mário Kozel e, na Avenida Sagres [1], ao gigante português Fernando Pessoa, um dos maiores nomes da literatura moderna.

Esses monumentos, como muitos outros, em São Paulo e em outras cidades, passam despercebidos, como se não existissem, o que é uma ironia do destino, afinal o que se pretende com um monumento é justamente perpetuar a memória de um evento ou de uma personalidade. Não é bem o que acontece.

E você, já viu alguma dessas celebridades por aí?


[1] Maiores informações sobre as obras, como autores e material de que são feitas, podem ser encontradas no site Monumentos de São Paulo (www.monumentos.art.br), uma espécie de mapa dos monumentos da cidade. Apesar de não ser rico em datações, o site é uma boa fonte de pesquisa.