Leskov e a impetuosidade russa

Fiquei impressionado com a Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk, de Nicolai Leskov (1831-1895).

No Brasil, Leskov é certamente um dos menos conhecidos dos gigantes russos, embora o público das letras e humanidades tenha lido a seu respeito o antológico ensaio de Walter Benjamin: O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov[1]. O mesmo se deu comigo, só conhecia Leskov pelos comentários do grande ensaísta alemão.

Tinha um exemplar de Lady Macbeth[2] estacionado em minha estante. Tradução do genial Paulo Bezerra.

Li-o em três dias e repito: fiquei impressionado com o texto. Por sua crueza, objetividade e humor negro surpreendentes, viscerais: como o é o melhor da literatura russa, com seu reconhecido espírito patético.

Sobre a singularidade da literatura russa, comentou Auerbach em Mimesis:

Parece que os russos conservaram para si uma imediaticidade das vivências como já era difícil encontrar na civilização ocidental no século XIX; um estremecimento forte, vital, ou moral, ou espiritual, atiça-os imediatamente nas profundezas dos seus instintos, e eles caem num instante de uma vida calma e uniforme, por vezes quase vegetativa, para precipitar-se nos mais terríveis excessos, tanto práticos quanto espirituais.[3]

Essas palavras explicam perfeitamente a pulsão básica da novela de Leskov, onde tudo é brutal, violento, inacreditavelmente intenso.

A Lady Macbeth de Leskov é Catierina Lvovna, uma moça pobre de vinte e quatro anos que se casa com Zinóvi Izmáilov, comerciante abastado e já com mais de cinquenta, passando a viver com ele e o sogro.

Aí a descrição do casamento, na primeira página da narrativa:

“Casaram-na com o nosso comerciante Izmáilov, de Tuskara, província de Kursk, não por amor ou qualquer atração, mas sem quê nem pra quê, simplesmente porque Izmáilov pedira sua mão, e, sendo ela pobre, não precisaria ficar escolhendo marido.”

A vida nesse casamento é típica dos matrimônios burgueses dos romances realistas do século XIX – monótona, estática, desprovida de emoções e enlevos –, vida que levou personagens como Luísa, em O primo Basílio, de Eça de Queirós e Ema, em Madame Bovary, de Flaubert, a encontrarem no adultério o seu ponto de fuga, sua possibilidade de arrebatamento e experimentação erótico-amorosa autêntica. E foi mesmo com o Realismo que se deu definitivamente um enfoque sério à infeliz condição das mulheres no casamento tradicional, prenunciando as conquistas feministas do século XX. A prosa realista – Ana Karênina e outros de Tolstói, A dócil e outros de Dostoiévski, narrativas de Tchekhov e de Machado de Assis – aborda o conflito entre desejo feminino e casamento convencional, ente interesse erótico-amoroso e matrimônio burguês, questionando duramente a estrutura patriarcal.

Natureza morta - A assassina, de Munch

Mas a Lady Macbeth de Leskov é um caso à parte. Num primeiro momento – que vivenciamos como algo muito breve –, temos a ilusão de estar em um mundo ao gosto de Eça de Queirós: com o marido sempre ausente, Catierina se envolve com Serguiêi, o rapagão conquistador que é empregado de Zinóvi Izmáilov. A moça se apaixona. É prosa de Queirós. Surgem os obstáculos para a plena realização dos desejos e Catierina reage. Sua reação não é de Luísa, nem de Ema, nem Ana: sob o impulso da mais completa obstinação, a jovem Lvovna mata. E mata não apenas uma vez. E mata sem pudor, sem remorso e até mesmo sem medo: mata para ver-se livre e poder amar livremente. Mata como ama, loucamente.

A reação do leitor diante de tal obstinação desvairada é basicamente manter um riso assustado, até o fim do livro.

Um colega alertou-me que o desfecho da trama ia me surpreender. Estava certo. Terminei o livro ontem à noite. Estou ainda estupefato.

Abaixo, um trecho da genial adaptação de Macbeth pelo diretor Roman Polanski (1971). Esta fala da Lady Macbeth shakespereana, interpretada pela atriz Francesca Annis, revela a obstinação fundamental da heroína de Leskov:


[1] BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas, v.I. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo, Brasiliense, 2008, p. 197 – 221.

[2] LESKOV, Nicolau. Lady Macbeth do distrito de Metzensk. São Paulo, Editora 34, 2009.

[3] AUERBACH, Erich. Mimesis. São Paulo, Perspectiva, 2002, p. 469.

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“Discurso de um ausente”, de Rubem Braga

O texto abaixo faz parte de uma obra raríssima na cultura brasileira: Homenagem a Graciliano Ramos, da Editora Alba, 1943. O livro, organizado por Augusto Frederico Schmidt, é uma coletânea dos discursos proferidos em homenagem a Graciliano Ramos em seu aniversário de 50 anos.

O discurso que reproduzo abaixo é o de Rubem Braga, autor de pérolas de nossa prosa, que conviveu intensamente com Graciliano Ramos, como se verá no texto. Rubem Braga não pôde comparecer à festa em homenagem ao amigo, mas enviou por escrito estas belíssimas palavras:

Discurso de um ausente[1]

Meus Senhores:

Não se pode levar muito a sério esse velho Graciliano, nem devemos lhe fazer festinha porque ele amanhã vai dizer que lhe demos uma comida “ruim como a peste” e lhe fizemos discursos “horríveis, não é, sem sintaxe nenhuma”. Também eu não sei quem teve essa ideia de trazer para um lugar decente, com discurso bonito de poeta transcendental, um cambembe tão desgraçado das Alagoas.

Graciliano! Eu gostaria de lhe oferecer hoje um almoço daqueles da pensão de Correia Dutra, e era capaz de mandar buscar no botequim da esquina de Bento Lisboa duas cervejas hamburguesas. Você podia encher bem o prato fazendo um monte de arroz, feijão, farinha e carne. Ali nos sentaríamos com as nossas famílias e mais a velha viúva que ia jogar trinta mil réis na roleta no número da catacumba do Tinoco; o tira da Ordem Social que ficava desesperado quando você dizia que Victor Hugo é uma besta; o rapazinho que queria ser poeta e o velho surdo; o sub-oficial palrador, o Vanderlino com sua cara de jaca e personagem de Dostoiévski; e também, para dar à nossa mesa a inquietação dos pecados, o vulto suave de D. Ester, tão desonesta e tão boazinha, que a tuberculose levou. Ah, naquele tempo você se chamava Brasiliano porque a dona da pensão achava que, cobrando seiscentos mil réis por quatro pessoas amontoadas num quarto, não tinha obrigação de aprender seu nome direito. Você se chamava Brasiliano! Seus cabelos, que haviam raspado na ilha, ainda não tinham crescido bem. Saíra há pouco da cadeia e já havia escrito Angústia. Toda manhã, bem cedo, abria o pequeno armário de pinho do seu quarto de pensão, tirava lá do fundo a garrafa de cachaça, tomava um gole em jejum e se sentava na mesa. A paisagem era um longo telhado sujo onde os gatos do Catete se amavam sem vergonha e um pátio de garage onde os motores dos caminhões sempre custavam a pegar. E ali, caneta na mão, fumando cigarro Selma, ia contando devagar, num papel pardo, as pobres aventuras da cachorra Baleia. Queria fazer um romance, mas a conta da pensão não podia esperar um romance. Por isso cada capítulo fi­cou sendo um conto que era vendido logo para um jornal do Rio e outro da Argentina, único meio de aplacar a fome de dinheiro semanal de D. Judite. E enquanto armava, peça por peça, seu romance desmontável, você ia fazendo um ou artigo ruim. Ah, Brasiliano, ganhava-se pouco, mas era divertido. Nas noites de verão a gente podia apagar a luz do banheiro e ficar espiando a janela da vizinha até que ela viesse tirar a roupa, mostrando um belo corpo moreno completamente nu. Como era bonita a nossa vizinha, Brasiliano! Você vivia zombando de mim e de Vanderlino porque nós gostávamos de espiar, mas uma noite te pegamos lá no escuro, de tocaia. Corremos para a outra janela. E sabemos que você cuspiu de nojo e disse a palavra “peste” quando no lugar da bela moça a rena quem se mostrou nua foi a caftina gorda de carnes brancas e bambas.

Graciliano Ramos — Hoje, que você completa 50 anos de vida ganha um banquete cobrado a mil-réis por ano, eu achei que devia falar.

Ninguém me pediu que fizesse isso, eu estou falando por conta própria. Mas não é apenas como meu amigo de pensão do Catete nem como seu colega de ofício e parceiro de conversa-mole na livraria José Olympio. Que a minha voz, nesta festa de hoje, seja uma voz de companheiro. Vamos ser mais exatos e pronunciar a palavra horrível, a palavra de mau gosto, a palavra quase proibida a reuniões amenas: companheiro de política. Peço que ninguém saia da mesa ou finja não estar escutando; ninguém tenha medo, que não falarei de mais. Mas alguma coisa é preciso dizer. É preciso dizer que um dia de festa de Graciliano Ramos é um dia de festa para toda uma grande turma de pessoas do Brasil que perante ele não são apenas leitores e admiradores, são companheiros também. Dessas pessoas umas estão aqui dentro e milhares e milhares de outras arcam por aí pelo Brasil afora. Devemos confessar que não é uma gente muito distinta nem bem educada. É gente que vive brigando e fazendo bobagem e às vezes vai até parar na cadeia. Não, Graciliano, você sabe que eu não vejo essa nossa turma como um bando de anjos. Se fosse possível reunir todos eles aí fora na praça do Lido para cantar em coro em seu louvor é mais que provável que a festa acabasse em discussão e pancadaria. Nosso Reino não é o do Céu, e às vezes se parece um pouco de mais com o Inferno. Com seu pessimismo desgraçado, pessimismo de velhote ingênuo, você chega a dizer que essa nossa gente é a pior que há. Não é verdade. Não somos piores que os outros. Se os nossos defeitos aparecem maiores é porque somos exigentes conosco mesmos e de vez em quando somos submetidos a provas que os outros não conhecem. Eu por mim nunca me espantei de­masiado com os espetáculos a que tenho assistido em nosso meio – com as transigências, as fraquezas, a intolerância, a confusão, a safadeza, a presunção, a má fé, e tudo o mais. Somos homens, lidamos com homens, e jamais devemos esperar grande coisa. É difícil, à primeira vista, distinguir D. Quixote de Gil Blas, e todos os dois são igualmente perigosos e úteis, e marcham no mesmo trote pelas estradas poeirentas de nossas aventuras. O que me espanta, Graciliano, nessas campanhas atrapalhadas, não é que tantos fraquejem, é que tantos aguentem a mão e, entre esses seres, alguns aguentem até onde aguentaram e estão sempre aguentando.

O que me espanta não é a traição que dá na vista, não é a tolice que brilha em público: é a decência que se mantém, é a dignidade que se preserva, é a honradez que se resguarda, é o sacrifício obscuro e cotidiano que se continua. Eu lhe digo, porque tenho vivido em muitos cantos do Brasil e mexido com muita gente – eu posso lhe dizer que, entre milhares de homens tão diferentes e de caráter e mesmo de ideias, sempre se tem conservado, através de todas as tribulações e contingências, um patrimônio comum. E você, Graciliano Ramos, faz parte de nosso patrimônio.

O que senti vontade de lhe dizer hoje, e fica dito agora, é o seguinte: que, tanto quanto eu, há milhares de pessoas no Brasil que não estão presentes ao banquete mas que desejam que você fique sabendo que estão ao seu lado. Conte conosco, não apenas na hora de comer e de beber, como também na hora de ter ódio de Julião Tavares[2], de lutar contra Julião Tavares – e de matar Julião Tavares.


[1] Este texto foi extraído revista Teresa – número 2, 2001, Editora 34 / USP.

[2] Personagem do livro Angústia, personificação de tudo o que há de pior no ser humano para o narrador-personagem do livro, e possivelmente também para Graciliano Ramos.

A morte de Ivan Ilitch (1886)

Seria capaz de lembrar a primeira vez que ouvi falar sobre essa consagradíssima novela de Tolstói? Realmente não.

É um livro que eu sempre vi elencado como dos mais expressivos da literatura russa e, embora bem menos mencionado que Guerra e paz (que só conheço pelas adaptações para o cinema) e Ana Karênina (que eu li há uns quinze anos), A morte de Ivan Ilitch aparecia em geral descrito como uma das mais belas abordagens do tema. Lembro de ter lido grandes nomes, como o escritor Nabokov, apresentando-a como uma das mais importantes  obras da literatura russa.

Mais tarde, numas férias que passei em Ubatuba, ouvi o que meus conhecidos falavam sobre a narrativa de Tolstói. Faziam um rodízio de leitura – um terminava e já passava para o outro ler; ao final de duas semanas havia já cinco leitores comentando sobre o livro de Tolstói, todos empolgados, com grandes impressões. A despeito disso, eu, que estava envolvido com outras leituras, não peguei a “onda tolstoiana” daquelas férias e adiei meu encontro com Ivan Ilitch.

Verdade mesmo é que não me animava em ler Tolstói. Meu contato com os russos àquela época de poucas traduções diretas (vide nota do post “O capote“) era por meio de Tchekhov e principalmente Dostoiévski e, se é verdade que gostei de Ana Karênina, também é verdade que ele esteve longe de me impressionar. À época pareceu-me apenas uma boa narrativa realista, lógica, inteligente, com pontos intensos, mas no geral fria, mecânica, sem a chama vibrante de Dostoiévski, sem a ironia corrosiva e incisiva de Tchekhov. Era mais um narrador detalhista e imparcial do século XIX.

Acontece que há pouco mais de um ano li A Sonata a Kreutzer (Editora 34, tradução de Boris Schnaiderman), uma narrativa de grande intensidade, diria até mesmo violenta, que aborda o tema da infidelidade e do casamento de modo pessimista. Talvez a escolha da primeira pessoa tenho sido decisiva – como acontece nos grandes romances de Machado de Assis – para o aumento da potência do texto.

Exatamente o que não vi em Ana Karênina encontrei n’A Sonata a Kreutzer: vibração – e, inevitável dizê-lo, vibração parecida com a do próprio Dostoiévski, não só pela vitalidade da personagem e de seu discurso, mas também pela abordagem destemida da abjeção humana.  

A Sonata a Kreutzer é uma narrativa vertiginosa, impactante, que, como diz Boris Schnaiderman no posfácio de sua tradução, “desafia-nos (…) e parece insistir em que a literatura nos obriga às vezes a conviver com aquilo que nos parece mais odioso em nosso cotidiano.”

Essa leitura fez-me reconsiderar inteiramente a escrita de Tolstói, inclusive me fez levar em conta a possibilidade de reler Ana Karênina (quem sabe o problema era da tradução ou então de minha imaturidade) e projetar a leitura do gigantesco Guerra e paz – afinal, quando se trata de narrativa intensa, o número de páginas é o que menos importa: Crime e castigo e Os irmãos Karamázov, por exemplo, cada qual com mais de 500 páginas, não me desencorajaram nem um instante sequer pela sua extensão.

A morte de Ivan Ilitch (Editora 34, tradução de Boris Schnaiderman) serviu-me para confirmar o poder da prosa tolstoiana. Abordando um dos temas mais enigmáticos da humanidade – a morte, a única coisa para um ser humano tão importante quanto a vida -, Tolstói provou que consegue alcançar profundidade e ao mesmo tempo espontaneidade usando a terceira pessoa. A morte – ela, que põe termo a todas as alegrias e a todas as tristezas (“a todos os milagres”, escreveu Manuel Bandeira) – mete seus olhos frios num homem que somente então, quando passa a ter consciência de seu fim, percebe o quanto sua vida foi medíocre. Já não era mais possível fazer nada, apenas ter consciência de que a morte, esse credor inexorável, em breve bateria à sua porta.

"Tudo é vaidade", de Charles Allan Gilbert, 1892.

O mais marcante na leitura para mim foi a sensação de adentrar o estranho império da morte – dos lugares que desconhecemos, o único que temos certeza de que iremos conhecer. Nunca é demais lembrar que a morte é nossa única certeza e ao mesmo tempo nosso maior mistério. Essas questões sobre a morte, que vez por outra nos toca, são suscitadas no livro de Tolstói a partir da experiência de alguém que realmente está prestes a enfrentá-la.

O modo como o narrador de Tolstói descreve a reação de Ivan diante da iminência e mesmo diante da própria morte (a página final do livro) é uma das coisas mais brilhantes que já li.

Um texto do grande intelectual Paulo Rónai serve de posfácio à edição da 34. Nele encontramos uma citação do estudioso Merejkóvski: “Se hoje temos da morte um medo vergonhoso, como nunca a humanidade o sentira, se diante dela ficamos tomados de um arrepio gelado que nos atravessa o corpo e a alma e nos coagula o sangue nas veias, (…) tudo isso devemo-lo em grande parte a Tolstói.”

Em seu rico posfácio, Rónai chama a atenção para o caráter crítico da obra de Tolstói:

“Imanente e, no entanto, inseparável do momento e do ambiente, a novela contém um quadro terrivelmente cruel da vida da alta burguesia russa. Submetido ao lento desgaste da agonia, Ivan Ilitch passa involuntariamente revista a toda a sua vida anterior, e, como Brás Cubas, embora por um artifício menos grotesco, procede a uma revisão de todos os valores de seu passado. Desse processo se utiliza o escritor para aplicar impiedosa crítica a toda uma forma de viver, a uma série de práticas sociais que visam unicamente as aparências e não satisfazem as nossas íntimas necessidades de amor e comunhão.”

A morte de Ivan Ilitch é um ensinamento sobre a morte e por isso também uma advertência para a valorização da vida.

Conclusão de boca cheia: é um texto imperdível.

"The Masque of the Red Death", 1883, de Odilon Redon

E você, meu caro, o que está lendo no momento?

Vêm chegando as férias e com elas o direito às leituras renunciadas ao longo do semestre. Eu mais ou menos sei o que quero ler nesses momentos, não o livro exato, mas o tipo de leitura: em geral, a) os grandes clássicos universais, b) os autores vivos, mas também – como não? –  c) as releituras.

Já me aconteceu várias vezes de voltar, por exemplo, ao delicioso Don Quijote de la Mancha, não ao livro todo, mas a trechos inesquecíveis, para os quais sinto necessidade de retornar, como quem volta a uma velha cidade conhecida. Com sua concepção de literatura como entretenimento[1] e seu “escribo como hablo”, Cervantes é um autor agradabilíssimo. Sua sintaxe flui, provocando risos e sorrisos: solta, colorida. E vale a pena, mesmo para alguém tão inábil com línguas estrangeiras como eu, a aventura de ler ao menos alguns trechos em espanhol. A criatura de Cervantes – El ingenioso hidalgo Don Qvixote de La Mancha – inaugura o conflito central do herói das narrativas modernas: o descompasso entre o ser e o meio, a cisão entre o desejo e a realidade, conflito que é o de Werther (Os sofrimentos do jovem Werther, Goethe), o de Julien Sorel (O vermelho e o negro, de Stendhal), o de Ema Bovary (Madame Bovary, de Flaubert) e o de Raskólnikov (Crime e castigo, de Dostoiévksi), para ficar em alguns exemplos expressivos.

Li o Quixote aos vinte e tantos anos, com indicação e orientação da grande professa Maria Augusta da Costa Vieira, autora de um trabalho maravilhoso sobre a obra de Cervantes[2], o qual ampliou e deu significado ainda mais especial à minha leitura. Li a tradução de Sérgio Molina, na belíssima edição bilíngue da Editora 34, com ilustrações de Gustave Doré e excelente apresentação da própria Maria Augusta Vieira.

Ilustração de Gustave Doré, originalmente publicada numa edição francesa de "Dom Quixote", em 1863.

Volto ao livro quando posso, quando quero. E confesso que às vezes me pego simplesmente pensando nele, no vigor de sua expressão, em sua grandeza, em seu mistério extraordinário de poder ser conhecido mesmo daqueles que jamais folhearam suas páginas – porque Dom Quixote é mais que um livro, é um universo, do qual mesmo não-leitores participam.

Convivo com o fidalgo de La Mancha por meio de outras personagens, reencontro-o no singelo Policarpo Quaresma (Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto), no divertidíssimo Geraldo Viramundo (O Grande Mentecapto, de Fernando Sabino) e entre dezenas de sonhadores incompreendidos, soterrados pelo pragmatismo e atropelados pela anomia moderna.

Crime e castigo é outro livro ao qual sempre retorno. Li-o três vezes. A primeira leitura foi ardorosa e provavelmente bastante ingênua, aos dezessete anos. Uma tradução indireta, do escritor Marques Rebelo, já que na época não existia esse grande volume de traduções diretas do russo. Daquela primeira leitura, as recordações são vivas. Lembro-me até dos lugares onde me sentei para ler: praças, terminais de ônibus, a mesa da cozinha de casa. Uma experiência fulminante. Riquíssimo foi o reencontro, mais de dez anos depois, pela tradução direta do russo, realizada pelo grande Paulo Bezerra. Ao contrário do riso, que salpica o trágico percurso de Quixote, a companhia de Raskólnikov provoca desassossego, desamparo, tristeza, paixões desesperadas. E mesmo assim é uma grande companhia, cujos ensinamentos calam profundamente. Pela técnica de Dostoiévski, que prima em dar voz a várias personagens, oferecendo assim diversos ângulos sobre os fatos do enredo, fica difícil classificar como secundárias as figuras de Razumíkhin, Sônia ou Svidrigáilov, pois têm um sentido profundo no enredo e oferecem, tanto quanto o herói, possibilidades de leitura da realidade. Por isso Raskólnikov é também o que dizem e pensam sobre ele as outras personagens da narrativa. A companhia então, nesse caso, se alarga: é uma galeria de pessoas que passam a fazer parte de sua vida.  Sempre que me perguntam qual o livro de que mais gosto, respondo sem titubear: Crime e castigo. Não quer dizer que seja a pura verdade, mas quer dizer alguma coisa.

Raskólnikov, personagem de "Crime e castigo" (imagem encontrada no blog "Mote do desafio")

Não me satisfaço só com releituras. Comecei o ciclo de leituras destas férias com Bartleby, o escrivão, de Herman Melville. Eu esperava por esse encontro há alguns anos. Para mim o século XIX sempre foi russo e francês e obviamente, por razões profissionais, luso-brasileiro, e, à exceção de Poe (aquele maluco), sempre tive preferência pelos americanos do século XX, como Fitzgerald, Fante e Philip Roth. Sabia obviamente da excelência narrativa de Melville, mas adiava o encontro, como adio muitos outros: meu encontro com Proust, por exemplo.

Mas Bartleby, essa criatura que eu sabia filiar-se à galeria dos “homens sem importância” [3], me atraía e me pedia urgentemente sua leitura. Ganhei o livro num amigo-secreto com os alunos do primeiro ano (valeu, Bruno!). Mais cinco páginas e eu concluo a leitura. Mas já não há dúvida: Bartleby é alguém que vou sempre querer reencontrar: em releituras, rememorações, ou simplesmente em devaneios. O tipo estranho que se recusa ao que lhe pedem ou ordenam com seu imutável “Acho melhor não” já faz parte de mim. E o narrador de Melville, com suas indagações incisivas, certeiras, com seu desajeitado senso de humanidade, sim, é extraordinário!

Adorei começar esse ciclo com Bartleby e acho que vou repetir a dose: ou seja, provavelmente tenha de novo um primeiro encontro com um clássico do século XIX. Quem sabe Tolstói ou mesmo Dostoiévski?

Imagem encontrada no blog "Pringles"

Quando existe algum tempo para o ócio, bom mesmo é deixar que os livros venham acidentalmente, ao sabor do acaso.

E você, meu caro, o que está lendo no momento? Registre aqui nos comentários suas leituras de férias.


[1] “O entretenimento, Cervantes dá a entender claramente, é a função primordial da prosa narrativa.” E.C Riley, em Teoria de la novela en Cervantes – Versión de Carlos Sahagún. Madrid, Taurus, 1981. p. 137. Vale a pena lembrar que o tipo de entretenimento de Cervantes está longe de ser uma diversão sem consequências éticas ou existenciais: sua literatura é um docere cum delectare (educar com prazer) dos antigos.

[2] VIEIRA, Maria Augusta da Costa. O dito pelo não-dito: paradoxos de Dom Quixote. São Paulo, EDUSP – FAPESP, 1998.

[3] Em sua obra magistral e singular Os arquétipos literários (Ateliê Editorial), o estudioso russo E. M. Meletínski apresenta, entre outras, a personagem arquetípica do “homem sem importância”, criada por Gógol em novelas como O capote e O diário de um louco.

O capote (1843)

“Todos nós descendemos de O capote“, declarou Dostoiévski, no mais antológico elogio à grandeza de Nicolau Gógol (1809-1852), escritor nascido na Ucrânia, mas filiado à literatura russa e um dos pilares de sua expressão moderna.

O capote é a tragicômica história de Akáki Akákievitch, um conselheiro titular, ou seja, alguém que tem a mísera função de copiar documentos, uma insignificante peça na rígida hierarquia da Rússia czarista. Akáki é um homem solitário, não tem mulher, parentes ou amigos.  É visto como ridículo pelos colegas da repartição. Sua opressão, como sua solidão e seu aspecto ridículo, causam pena.

Capa de Igor Grabar para edição russa

A existência de Akáki resume-se em copiar, de modo impecável, os documentos oficiais que lhes encaminham na repartição. Segundo o tradutor e crítico Paulo Bezerra (1), com sua função de copista Akáki sublima seus desejos, os mais secretos e profundos, inclusive o erótico:

“Corre a pena por sobre o papel em branco com o mesmo carinho e a mesma habilidade com que o homem apaixonado usa a magia da mão carinhosa para compor páginas inumeráveis de poesia sobre o corpo da mulher amada.”

Akáki é um homem rígido, aferrado à rotina e amante dela, estranho a tudo o que signifique novidade. A virada no enredo se dá quando, certa vez, esse homenzinho encontra-se diante da necessidade de adquirir um novo capote, pois o seu, já surrado pelo uso, não dava mais conta de protegê-lo do terrível frio de São Petersburgo. 

A  ideia em si da aquisição de algo novo (palavra que explode em sua mente como um pecado irresistível) desmonta inteiramente o quadro de referências de Akáki. O capote, que funcionava como uma insígnia, uma marca de distinção social, ameaça a retidão subserviente do copista: deslumbrado com uma milagrosa significação social, o copiador dos caracteres não consegue mais reproduzir de modo tão fiel (e servil) o mundo daqueles que o dominam. Sonhando mais alto, ele começa a errar – nos dois sentidos da palavra: comete incorreções gráficas, devaneia de felicidade.

Akáki é cômico. Segundo o narrador, suas faces têm tonalidades hemorroidais. Seu nome é um cacófato, além de ser uma cópia do nome do pai (seu papel é o de cópia e copiador, ou seja, o de uma nulidade). A ridicularização que Akáki sofre na repartição nos arranca, indisfarçavelmente, um risinho maldoso. Rimos de uma miséria involuntária. “O reverso trágico do riso” – como o consagrado crítico russo Vladimir Propp descreveu o talento de Gógol – é  a maior beleza de O capote, na qual tudo o que é engraçado é triste e tudo o que é triste é risível.

Ao indicar Gógol como pai de uma linhagem, Dostoiévski provavelmente pensasse especificamente na tradição literária russa. Mas os leitores da grande literatura moderna podem certamente reconhecer Akáki Akákevitch como uma matriz de personagens famosos como Gregor Samsa, de Kafka, Mersault, de  Camus ou  ainda Fabiano, de Graciliano Ramos. Akáki é o primeiro grande modelo dessa família de “humilhados e ofendidos”, para usar expressão de Dostoiévski.

Por estas e muitas outras razões, recomendo veementemente a leitura de O capote, uma das narrativas mais decisivas de minha vida.

Recomendo veementemente também um passeio virtual pelas pinturas de Igor Grabar e pelas animações (há várias no YouTube) de Yuriy Norshteyn.

Mais sobre Gógol e outros russos em outros posts.

Cena de “O capote”, animação de Yuriy Norshteyn

(1) Todos os comentários a respeito de O capote aqui partem da edição O capote e outras novelas (Civilização Brasileira, 1990), com tradução, notas e um riquíssimo prefácio  de Paulo Bezerra. Bezerra é certamente o mais importante tradutor de literatura russa no Brasil dos últimos vinte anos. Destaca-se principalmente pelas excelentes traduções da obra madura de Dostoiévski pela Editora 34: Crime e castigo, O idiota, Os irmãos Karamázov. A Editora 34, por sua vez, merece elogios repetidos pela ousadia e coragem com que vem lançando e relançando nos últimos anos, em sua Coleção Leste, autores fundamentais da literatura russa como Púchkin, Gógol, Dostoiévski, Tolstói e Tchekov, todas enriquecidas com notas, prefácios ou posfácios importantíssimos e contando invariavelmente com traduções diretas do russo. Trata-se do primeiro projeto editorial verdadeiramente sistemático de aproximação do público brasileiro da literatura russa.

Cor local (6)

O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla (1968)

Por esse pequeno trecho, é possível perceber o poder da  estética da esculhambação que foi o Cinema Marginal brasileiro, cinema de coragem  e ousadia, de crítica espirituosa e além de tudo divertidíssima.

Com base na personagem real que aterrorizou a classe média brasileira nos anos 60, Sganzerla criou uma figura alegórica riquísisma, reflexo cômico das ambições da sociedade de consumo.

O Bandido da Luz Vermelha, já lançado em DVD  há alguns anos, é uma obra impactante e simplesmente fundamental para quem tem interesse no grande cinema brasileiro.

Cor local (5)

O cortiço, de Aluísio Azevedo (1890)

Aluísio Azevedo (São Luís do Maranhão, 1857 – Buenos Aires, 1913) era um escritor meticuloso. Seus escritos testemunham um raro tino para a observação, uma habilidade extraordinária de enxergar a realidade e conseguir reproduzi-la de forma viva e atraente. Essa habilidade  deve-se ao fato de o autor, ainda moço, ter trabalhado como caricaturista para jornais e revistas. Tem a ver também com o empenho com que procurava dominar o material de suas histórias: sabe-se que tinha o hábito de frequentar os ambientes que descrevia em seus livros (1), como se fosse um jornalista, ou, melhor ainda, como se fosse um antropólogo. Tinha como alvo de suas histórias naturalistas o trabalhador pobre, o mulato, o imigrante, o pequeno-burguês e para observá-los empunhava à frente de seus olhos uma eficiente lupa.

Aluísio Azevedo na época em que escreveu "O cortiço"

A obra desse mestre do retrato divide-se em dois grupos bem distintos: as histórias que ele escrevia para sobreviver, de cunho romântico, e as histórias que ele escrevia para denunciar os horrores que flagrava em seu meio – o Brasil do final do século XIX -, de caráter naturalista.

Entre o segundo grupo de histórias, estão obras como O mulato, Casa de pensão e O cortiço, que consagraram o escritor como um dos mais importantes de nossa literatura. Esses três livros representam, em nossa tradição literária,  o que há de mais precioso na formação de uma consciência crítica acerca da realidade nacional. E são modelares no que diz respeito à fatura de romances: início, desenvolvimento – com suas muitas digressões – e fim, sempre com o tal elemento surpresa, cuidadosamente amarrados – causa com consequência alinhavadas impecavelmente, o narrador atado firme ao leme de sua narrativa, evitando que ela mude sua rota ou que perca seu rumo. Uma consciência vigilante e inteligente que coordena atentamente as múltiplas peças de sua trama.

O cortiço, entre todas as obras de Azevedo, é a que tem trama mais vibrante e desenho mais expressivo de personagens. Elas não chegam a ser complexas e as transformações que ocorrem em seu comportamento obedecem de modo servil a fórmula da estética naturalista, cuja ordem é “o homem é produto do meio”. Mas dentro dessa simplicidade de traços (desses estereótipos, diriam alguns) essas personagens se movem vigorosamente:  Firmo, o mulato  “pachola” e boa-vida, desenho básico do malandro brasileiro; Rita Baiana, mulata folgazã e corajosa, fôrma das figuras femininas de Jorge Amado (Tieta e outras), independente e sobretudo sensual; o homem-rato João Romão, português explorador repugnante – essas e outras personagens aparecem como criaturas vivas e apaixonam o leitor.

Ao condenar as condições de vida dos pobres, em tom de denúncia social, o narrador não deixa de, ao mesmo tempo, emitir juízo de valor a respeito de suas ações. Quando rotula de bondoso o trabalhador português antes de ele abrasileirar-se e condena o Jerônimo já abrasileirado, além de cometer preconceito – ao associar brasilidade a imoralidade -, valoriza preceitos burgueses tais como produtividade, vida em família, casamento, etc. O Jerônimo “bom” era o homem que produzia exemplarmente, um trabalhador dedicado, quase um operário-padrão. O outro, o Jerônimo “vicioso”, prendia-se apenas aos prazeres, era um vagabundo beberrão. Fica para o leitor então, no mínimo, a pergunta: o correto seria Jerônimo submeter-se aos desígnios do sistema, isto é, da exploração da mão de obra barata? O explorado alienado, seria ele aceitável para o narrador? Não parece ser essa propriamente a defesa de Azevedo, mas a narrativa não faz qualquer movimento para prová-lo. Ao contrário, pelo que mostra a trama, Jerônimo passou a ser “mais um” entre outros pobres de costumes viciosos. Em contato com a podridão  moral do meio (Brasil), “misturando-se” a gente  como Rita Baiana (por quem se apaixona) e Firmo (a quem assassina), brasileiros, pobres e mulatos, gente apresentada como degradada, a retidão de Jerônimo se afrouxa e ao final desaparece. A mensagem que fica então, ainda que de modo indireto (e, muito provavelmente, involuntário) (2), é a de que o pobre que se desvia do caminho do trabalho, deixando-se levar pelos convites dos sentidos imposto pelo meio (Brasil), corrompe-se.

A grandeza de O cortiço garante-se, contudo, pela escolha do ambiente, pela preocupação em abordar a sério (3) – ainda que de modo estereotipado – a vida dos mais pobres, procurando, como Émile Zola (1840-1902), pai da escola naturalista,  “Pôr a nu as chagas daqueles que vivem mais abaixo.” Além disso, a já comentada capacidade de dar vida às personagens – o modo como Azevedo “desenha” suas criaturas –  garante para o leitor uma experiência agradável, ainda para o leitor contemporâneo, tão habituado (ou viciado?) à linguagem visual.

O Brasil da época de O cortiço é o país que se europeizava e proclamava a República. O mesmo país que, paradoxalmente, tão recentemente abolira a escravidão. A massa de ex-escravos, juntamente a brancos pobres, constituía o grupo de desempregados ou subempregados que atiçaria o medo das classes abastadas. Tal como ocorria nas cidades de Londres e Paris (4), a presença da população pobre na zona urbana do Rio de Janeiro era motivo de grande preocupação para as elites e autoridades cariocas. Além de enfeiarem a cidade, que procurava a todo custo exibir a forçada modernização do Brasil, as classes populares praticavam furtos, crimes e poderiam se insurgir a qualquer momento contra o poder estabelecido (tal como de fato aconteceu, por exemplo, em 1904, na chamada Revolta da Vacina). As classes populares representavam aquilo de pior que o Brasil possuía: sua estrutura social de extremos contrastes.

Foto de um cortiço no Rio de Janeiro do começo do século XX

Publicado em 1890, O cortiço é um excelente retrato não só de seu tempo, quando as construções em forma de cortiço (5) começam a tomar conta de centros urbanos brasileiros, como Rio de Janeiro e São Paulo. Mas é também uma descrição de todo o processo de urbanização do século XX, caracterizado pelas habitações precárias – como os tão conhecidos barracos das favelas. Os cortiços ainda existem em nossa sociedade: São Paulo, por exemplo, abriga em torno de 600 mil moradores de cortiços (6).

Interior de um cortiço da São Paulo atual

Em meu percurso como leitor, conheci relativamente cedo Aluísio Azevedo. O primeiro contato foi na escola, na sétima série (hoje oitavo ano), pela indicação do professor Dario Macri (por onde andará essa criatura tão importante em minha vida?). Ele indicou-nos Casa de pensão como leitura obrigatória e referiu-se a O cortiço. Li e reli os dois livros várias vezes durante a minha adolescência. Já adulto, li O mulato e descobri que o escritor maranhense foi decisivo para a formação de outro escritor nordestino: Graciliano Ramos (meu escritor favorito). Isso só serviu para me deixar ainda mais interessado pela obra de Azevedo.

(1) Há quem diga que esteve inclusive envolvido em episódio de violência com uma de suas personagens mais famosas, o capadócio Firmo, de quem aliás, segundo afirmam, Aluísio teria levado uma navalhada.

(2) O fato de ser ou não voluntário não significa rigorosamente nada para a discussão literária: a obra deve ser lida pelo que apresenta e não pelo que o autor possivelmente pretendeu apresentar. Alguns artistas, como o cineasta José Padilha, que esbravejou contra aqueles que, segundo ele,  não entenderam suas reais intenções em Tropa de Elite (2007), nem sempre levam em conta esse princípio, a meu ver fundamental.

(3) Em Mimesis (obra monumental e das mais importantes da teoria literária),  Erich Auerbach propõe uma história da literatura baseada em sua capacidade de representar a realidade a partir das tensões sociais. A obra dá destaque para o século XIX, visto como momento em que se obtém o auge desse processo: para Auerbach, esse auge tem a ver com o fato de que, somente a partir do século XIX, aparece regularmente uma abordagem séria do homem pobre, que só então tem uma presença sistemática como protagonista de tramas  literárias.

(4) Para se ter um contato mais profundo com a formação das modernas Paris e Londres, indico a rápida e agradabilíssima leitura de Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza, de Maria Stella M. Bresciani (Brasiliense, 1982).

(5) De acordo com o Dicionário Houaiss, a palavra cortiço deriva de cortiça e significa “peça feita de cortiça ou de qualquer outra casca de árvore, para alojar colônias de abelhas; colmeia” e, por extensão, “casa que serve de habitação coletiva para a população pobre; casa de cômodos, cabeça de porco”. Cabeça de porco eu não conhecia, mas já ouvi, entre meus tios do interior, a expressão boca de porco, para descrever moradia ou estabelecimento comercial de baixa qualidade.

(6) Dado encontrado no site Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos:  http://www.gaspargarcia.org.br/coticos.asp