90 de 22 (2): “Oswaldo, Oswáld, Ôswald”, de Antonio Candido

Leia o famoso artigo de Antonio Candido, publicado na Folha de São Paulo em 21 de março de 1982.

O texto esclarece a grande confusão em torno da pronúncia do autor modernista.

Segue abaixo a reprodução parcial do artigo, a partir do livro Recortes (Rio de Janeiro, Ouro Sobre Azul, 2004):

Oswaldo, Oswáld, Ôswald

Oswáld de Andrade, cujo nome completo era José Oswáld de Souza Andrade (já se verá por que estou acentuando), achava graça na lenda segundo a qual ele teria alterado por excentricidade modernista o verdadeiro prenome, supostamente Oswaldo. Imaginem o que diria se pudesse saber que hoje é chamado cada vez mais – Ôswald, com acento na primeira sílaba… Paulo Emílio Salles Gomes disse certa vez que os homens da nossa idade estavam assistindo ao nascimento de um mito, tão afastado da realidade que até revestia designação própria, fazendo Oswáld virar Ôswald…

Portanto, Oswáld ou Oswaldo, como se dizia correntemente, achava graça no boato, e para mostrar a sua insubsistência explicava (segundo escreveu depois nas memórias) que herdara os prenomes do pai, José Oswáld (não Oswaldo) Nogueira de Andrade, e que esta forma peculiar fora iniciativa da avó, natural de Baependi e leitora do romance Corina, de Madame de Staël, onde a heroína assim chamada sofre e morre de amor por Oswald, lord Nelvil, escocês romântico (…) Tudo faz crer que o gosto não era individual, apenas da avó de Oswald, porque naquele canto do sul de Minas tornou-se frequente usar os nomes dos dois protagonistas. Ainda mais: houve gente com a mesma singularidade de adotar a forma inglesa, como se vê pela lista dos eleitores de Aiuruoca, cidade vizinha de Baependi, onde figura nos anos de 1880 um João Oswáld Diniz Junqueira (…)

Esta forma forma inglesa se manteve na família do nosso escritor por três gerações, sempre pronunciada Oswáld, à brasileira (como certamente pronunciaria também, mas aí à francesa, Madame de Staël), até o pintor Oswáld de Andrade Filho, que se chama José Antônio Oswáld. Portanto, se excentricidade houve foi da avó, em meados do século passado, não do neto.

Essa avó era Antônia Nogueira Cobra, trineta pelo pai do capitão-mor Tomé Rodrigues Nogueira do Ó, ilhéu da Madeira, que casou em Guaratinguetá com Maria Leme do Prado, e foi pró-homem em Baependi no começo do século XVIIII, fundando uma família enorme, espalhada até hoje por Minas, São Paulo e Rio. (…)

Dona Antônia casou em Baependi com Hipólito José de Andrade, de outra imensa família daquela zona, fazendeiro que perdeu os bens e abriu para sobreviver um pequeno hotel em Caxambu (Oswáld conta nas memórias a tristeza dele vendo as filhas servirem a mesa dos hóspedes). Para São Paulo veio um filho do casal, o referido José Oswáld Nogueira de Andrade, conhecido como seu Andrade, que depois de muita luta se destacou, foi vereador, fez fortuna com iniciativas de loteamento e urbanização arrojadas para o tempo. Já maduro casou com Inês Inglês de Sousa, paraense, irmã do autor d’ O missionário. (…)

Mas aqui não interessa a genealogia, e sim o nome, que como ficou dito é usual em famílias da zona de Baependi desde a geração de seu Andrade, e se espalhou com as migrações dessas famílias. É provável que muitas pessoas de lá, a partir de 1820, tenham lido ou ouvido falar do romance de Madame Staël, e por isso deram com certa frequência aos filhos a denominação dos protagonistas.

Nas famílias Nogueira e Andrade, que eram as de Oswáld pelo lado do pai, e também Junqueira, muito ligada a ambas, encontramos diversos xarás dele, mas (com uma ou outra exceção) na forma vernaculizada. Por exemplo: Nas memórias e tradições da família Junqueira, de Frederico de Barros e Brotero, vemos em 1883 um José Oswaldo Diniz Junqueira a pedir dispensa para casar com parenta. Folheando por alto este livro, vemos que surgem depois: um quase homônimo, José Oswaldo de Andrade Junqueira, dois Oswaldos de Andrade Junqueira, um Oswaldo Martins de Andrade. Dezenas de outros tinham o nome e não o sobrenome, como os seguintes parentes dele (…): Domingos Oswaldo Gorgulho Nogueira, Oswaldo Gomes Nogueira, Oswaldo Gomes de Carvalho. Atualmente, um dos mais famosos peritos e criadores de cavalo manga-larga se chama José Oswaldo Junqueira. Por aí vemos que daquela zona saiu e se espalhou um gosto acentuado pelo prenome de lord Nelvil, isolado ou combinado a outros.

Pensando sempre na informação de Oswáld sobre a escolha da avó, conclui-se que ela tem maior alcance e vale também para explicar um gosto que é grupal e regional; e a favor disto há uma contraprova: na mesma zona, nessas e outras famílias, aparecem Corinas que são irmãs, primas, tias de Oswaldos, podendo daí saírem casais, por causa da endogamia. O referido Oswaldo Gomes de Carvalho, por exemplo, primo de Oswáld em terceiro grau, era casado com uma tia, Corina Nogueira Cobra, prima em segundo grau de Oswáld. (…) Na escolha de nomes para os filhos, o dos personagens femininos de ficção costumava acompanhar os masculinos, como as Floripes irmãs dos Oliveiros e dos Roldões, com base na História do imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França. Ou, já no século XX, as Lígias irmãs dos Vinícius e/ou dos Petrônios, numa trinca que seguia a voga imensa do romance Quo vadis?, de Sienkiewicz.

De modo que a imaginação romanesca de dona Antônia Nogueira Cobra se enquadra na imaginação do seu meio e grupo, aos quais ela e mais alguma outra mãe talvez tenham querido dar certa satisfação, ao compensarem o  preciosismo da forma inglesa, pela junção pacificadora dos banais João ou José. Conta Oswáld nas memórias que no caso do seu pai foi exigência do vigário, que recusou batizá-lo com nome estranho ao hagiológico corrente sem a compensação de um mais garantido. E isto mostra que aquelas senhoras de Baependi e Aiuruoca estavam sendo inovadoras, estavam introduzindo um nome antes inexistente por lá e que depois se tornou quase banal. Seja como for, a combinação de José com Oswáld constitui um discrepância associada a uma transigência, para forma o nome que seria no futuro de um grande rebelde.

No uso corrente formou-se uma transigência a mais a vista deste, porque toda a gente, como ficou dito, retificava na fala Oswáld para Oswaldo. Ligado ao sobrenome o prenome gerou ainda outro compromisso, que levava a aumentar a indecisão quanto à grafia, pois a pronúncia desprevenida era e é Oswál’ de Andrade. Mas sempre, como se vê, com a tônica na segunda sílaba, até que começasse essa bobagem de Oswald, que com certeza vai ficar e predominar, como tantas outras. Na peça sobre “os alegres rapazes e a sua semana de arte moderna” Carlos Queiroz Telles já a tinha denunciado implicitamente. Nela, quando o chamam Ôswald, o personagem brada de mau humor: “Oswáld!”.

Estas considerações e informações não são tão intempestivas quanto podem parecer. É preciso fazê-las, porque senão a moda pega e na próxima geração, quando estiver sendo por sua vez devidamente trabalhado pela lenda, Drummond pode virar Drúmon, se algum sabido decidir que a pronúncia de seu nome escocês deve ser reajustada.

Anúncios

Clarice na TV Cultura, 1977

Eis uma das mais importantes entrevistas com escritores da história da TV brasileira.

O escritor José Arrabal, que conheceu Clarice no Rio de Janeiro nos anos 70, certa vez me contou que a escritora era uma criatura verdadeiramente singular. A entrevista da Cultura, que vi depois de nossa conversa, numa fita VHS, confirmou o que Arrabal me havia dito: Clarice foi uma mulher única; dura, doída, assustadoramente profunda.

Destaco, na entrevista, entre os muitos aspectos interessantes, o fato de Clarice comentar sobre aquela que pra mim é sua obra máxima – A hora da estrela -, quando o livro ainda não passava de um projeto em execução.

Vale a pena ver. Vale a pena rever.

 

 

 

Cor local (5)

O cortiço, de Aluísio Azevedo (1890)

Aluísio Azevedo (São Luís do Maranhão, 1857 – Buenos Aires, 1913) era um escritor meticuloso. Seus escritos testemunham um raro tino para a observação, uma habilidade extraordinária de enxergar a realidade e conseguir reproduzi-la de forma viva e atraente. Essa habilidade  deve-se ao fato de o autor, ainda moço, ter trabalhado como caricaturista para jornais e revistas. Tem a ver também com o empenho com que procurava dominar o material de suas histórias: sabe-se que tinha o hábito de frequentar os ambientes que descrevia em seus livros (1), como se fosse um jornalista, ou, melhor ainda, como se fosse um antropólogo. Tinha como alvo de suas histórias naturalistas o trabalhador pobre, o mulato, o imigrante, o pequeno-burguês e para observá-los empunhava à frente de seus olhos uma eficiente lupa.

Aluísio Azevedo na época em que escreveu "O cortiço"

A obra desse mestre do retrato divide-se em dois grupos bem distintos: as histórias que ele escrevia para sobreviver, de cunho romântico, e as histórias que ele escrevia para denunciar os horrores que flagrava em seu meio – o Brasil do final do século XIX -, de caráter naturalista.

Entre o segundo grupo de histórias, estão obras como O mulato, Casa de pensão e O cortiço, que consagraram o escritor como um dos mais importantes de nossa literatura. Esses três livros representam, em nossa tradição literária,  o que há de mais precioso na formação de uma consciência crítica acerca da realidade nacional. E são modelares no que diz respeito à fatura de romances: início, desenvolvimento – com suas muitas digressões – e fim, sempre com o tal elemento surpresa, cuidadosamente amarrados – causa com consequência alinhavadas impecavelmente, o narrador atado firme ao leme de sua narrativa, evitando que ela mude sua rota ou que perca seu rumo. Uma consciência vigilante e inteligente que coordena atentamente as múltiplas peças de sua trama.

O cortiço, entre todas as obras de Azevedo, é a que tem trama mais vibrante e desenho mais expressivo de personagens. Elas não chegam a ser complexas e as transformações que ocorrem em seu comportamento obedecem de modo servil a fórmula da estética naturalista, cuja ordem é “o homem é produto do meio”. Mas dentro dessa simplicidade de traços (desses estereótipos, diriam alguns) essas personagens se movem vigorosamente:  Firmo, o mulato  “pachola” e boa-vida, desenho básico do malandro brasileiro; Rita Baiana, mulata folgazã e corajosa, fôrma das figuras femininas de Jorge Amado (Tieta e outras), independente e sobretudo sensual; o homem-rato João Romão, português explorador repugnante – essas e outras personagens aparecem como criaturas vivas e apaixonam o leitor.

Ao condenar as condições de vida dos pobres, em tom de denúncia social, o narrador não deixa de, ao mesmo tempo, emitir juízo de valor a respeito de suas ações. Quando rotula de bondoso o trabalhador português antes de ele abrasileirar-se e condena o Jerônimo já abrasileirado, além de cometer preconceito – ao associar brasilidade a imoralidade -, valoriza preceitos burgueses tais como produtividade, vida em família, casamento, etc. O Jerônimo “bom” era o homem que produzia exemplarmente, um trabalhador dedicado, quase um operário-padrão. O outro, o Jerônimo “vicioso”, prendia-se apenas aos prazeres, era um vagabundo beberrão. Fica para o leitor então, no mínimo, a pergunta: o correto seria Jerônimo submeter-se aos desígnios do sistema, isto é, da exploração da mão de obra barata? O explorado alienado, seria ele aceitável para o narrador? Não parece ser essa propriamente a defesa de Azevedo, mas a narrativa não faz qualquer movimento para prová-lo. Ao contrário, pelo que mostra a trama, Jerônimo passou a ser “mais um” entre outros pobres de costumes viciosos. Em contato com a podridão  moral do meio (Brasil), “misturando-se” a gente  como Rita Baiana (por quem se apaixona) e Firmo (a quem assassina), brasileiros, pobres e mulatos, gente apresentada como degradada, a retidão de Jerônimo se afrouxa e ao final desaparece. A mensagem que fica então, ainda que de modo indireto (e, muito provavelmente, involuntário) (2), é a de que o pobre que se desvia do caminho do trabalho, deixando-se levar pelos convites dos sentidos imposto pelo meio (Brasil), corrompe-se.

A grandeza de O cortiço garante-se, contudo, pela escolha do ambiente, pela preocupação em abordar a sério (3) – ainda que de modo estereotipado – a vida dos mais pobres, procurando, como Émile Zola (1840-1902), pai da escola naturalista,  “Pôr a nu as chagas daqueles que vivem mais abaixo.” Além disso, a já comentada capacidade de dar vida às personagens – o modo como Azevedo “desenha” suas criaturas –  garante para o leitor uma experiência agradável, ainda para o leitor contemporâneo, tão habituado (ou viciado?) à linguagem visual.

O Brasil da época de O cortiço é o país que se europeizava e proclamava a República. O mesmo país que, paradoxalmente, tão recentemente abolira a escravidão. A massa de ex-escravos, juntamente a brancos pobres, constituía o grupo de desempregados ou subempregados que atiçaria o medo das classes abastadas. Tal como ocorria nas cidades de Londres e Paris (4), a presença da população pobre na zona urbana do Rio de Janeiro era motivo de grande preocupação para as elites e autoridades cariocas. Além de enfeiarem a cidade, que procurava a todo custo exibir a forçada modernização do Brasil, as classes populares praticavam furtos, crimes e poderiam se insurgir a qualquer momento contra o poder estabelecido (tal como de fato aconteceu, por exemplo, em 1904, na chamada Revolta da Vacina). As classes populares representavam aquilo de pior que o Brasil possuía: sua estrutura social de extremos contrastes.

Foto de um cortiço no Rio de Janeiro do começo do século XX

Publicado em 1890, O cortiço é um excelente retrato não só de seu tempo, quando as construções em forma de cortiço (5) começam a tomar conta de centros urbanos brasileiros, como Rio de Janeiro e São Paulo. Mas é também uma descrição de todo o processo de urbanização do século XX, caracterizado pelas habitações precárias – como os tão conhecidos barracos das favelas. Os cortiços ainda existem em nossa sociedade: São Paulo, por exemplo, abriga em torno de 600 mil moradores de cortiços (6).

Interior de um cortiço da São Paulo atual

Em meu percurso como leitor, conheci relativamente cedo Aluísio Azevedo. O primeiro contato foi na escola, na sétima série (hoje oitavo ano), pela indicação do professor Dario Macri (por onde andará essa criatura tão importante em minha vida?). Ele indicou-nos Casa de pensão como leitura obrigatória e referiu-se a O cortiço. Li e reli os dois livros várias vezes durante a minha adolescência. Já adulto, li O mulato e descobri que o escritor maranhense foi decisivo para a formação de outro escritor nordestino: Graciliano Ramos (meu escritor favorito). Isso só serviu para me deixar ainda mais interessado pela obra de Azevedo.

(1) Há quem diga que esteve inclusive envolvido em episódio de violência com uma de suas personagens mais famosas, o capadócio Firmo, de quem aliás, segundo afirmam, Aluísio teria levado uma navalhada.

(2) O fato de ser ou não voluntário não significa rigorosamente nada para a discussão literária: a obra deve ser lida pelo que apresenta e não pelo que o autor possivelmente pretendeu apresentar. Alguns artistas, como o cineasta José Padilha, que esbravejou contra aqueles que, segundo ele,  não entenderam suas reais intenções em Tropa de Elite (2007), nem sempre levam em conta esse princípio, a meu ver fundamental.

(3) Em Mimesis (obra monumental e das mais importantes da teoria literária),  Erich Auerbach propõe uma história da literatura baseada em sua capacidade de representar a realidade a partir das tensões sociais. A obra dá destaque para o século XIX, visto como momento em que se obtém o auge desse processo: para Auerbach, esse auge tem a ver com o fato de que, somente a partir do século XIX, aparece regularmente uma abordagem séria do homem pobre, que só então tem uma presença sistemática como protagonista de tramas  literárias.

(4) Para se ter um contato mais profundo com a formação das modernas Paris e Londres, indico a rápida e agradabilíssima leitura de Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza, de Maria Stella M. Bresciani (Brasiliense, 1982).

(5) De acordo com o Dicionário Houaiss, a palavra cortiço deriva de cortiça e significa “peça feita de cortiça ou de qualquer outra casca de árvore, para alojar colônias de abelhas; colmeia” e, por extensão, “casa que serve de habitação coletiva para a população pobre; casa de cômodos, cabeça de porco”. Cabeça de porco eu não conhecia, mas já ouvi, entre meus tios do interior, a expressão boca de porco, para descrever moradia ou estabelecimento comercial de baixa qualidade.

(6) Dado encontrado no site Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos:  http://www.gaspargarcia.org.br/coticos.asp

Autorretrato aos 56 anos, do Mestre Graça

Este post é dedicado a uma pérola da autobiografia brasileira; sobretudo para quem, como eu, é fascinado pela obra de Graciliano Ramos.

O velho Graça[1] usa aqui seu característico estilo – seco, direto e despojado – para falar de um assunto que se enquadra perfeitamente a esse estilo: sua própria pessoa.

Segue abaixo o texto, com algumas notas minhas destacando curiosidades:

Autorretrato aos 56 anos

Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas.
Casado duas vezes, tem sete filhos.
Altura 1,75.
Sapato n.º 41.
Colarinho n.º 39.
Prefere não andar.
Não gosta de vizinhos.
Detesta rádio, telefone e campainhas.
Tem horror às pessoas que falam alto.
Usa óculos. Meio calvo.
Não tem preferência por nenhuma comida.
Não gosta de frutas nem de doces.
Indiferente à música.
Sua leitura predileta: a Bíblia[2].
Escreveu Caetés[3] com 34 anos de idade.
Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados.
Gosta de beber aguardente.[4]
É ateu[5]. Indiferente à Academia.
Odeia a burguesia[6]. Adora crianças.[7]
Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz.
Gosta de palavrões escritos e falados[8].
Deseja a morte do capitalismo.
Escreveu seus livros pela manhã.
Fuma cigarros Selma (três maços por dia).[9]
É inspetor de ensino, trabalha no “Correio do Manhã”.
Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo.[10]
Só tem cinco ternos de roupa, estragados.
Refaz seus romances várias vezes.
Esteve preso duas vezes.
É-Ihe indiferente estar preso ou solto[11].
Escreve a mão.
Seus maiores amigos: Capitão Lobo[12], Cubano[13], José Lins do Rego e José Olympio.
Tem poucas dívidas.
Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas[14].
Espera morrer com 57 anos[15].


[1] Graça era como chamavam Graciliano Ramos alguns de seus amigos. Outra forma usada pelos íntimos era Mestre Graça ou ainda Velho Graça. Na biografia de Dênis de Moraes (O  Velho Graça, Editora José Oympio),  a qual estou lendo no momento, descobri que os familiares tratavam Graciliano pela forma abreviada Grace.

[2] Como muitos escritores e intelectuais, Graciliano tinha a Bíblia como uma obra literária, importante para a formação cultural do indivíduo.

[3] A história da publicação desse romance, o primeiro de Graciliano Ramos, merece comentários. Graciliano, quando prefeito de Palmeira dos Índios (de 1928 a 1930), envia para o governador de Alagoas o relatório de prestação de contas do município. Esse relatório, por suas qualidades literárias, acaba indo parar nas mãos do editor Augusto Schmidt, que procura Graciliano para saber se ele possui outros escritos que pudessem ser publicados. O que Graciliano tinha era exatamente o romance Caetés, e publicou-o.

[4] Em um dos momentos mais perturbadores de Memórias do cárcere, Graciliano, deprimido, sem comer e sem apetite, procura atenuar seu desespero bebendo uma garrafa de cachaça que consegue com dificuldade nos porões do Manaus, navio no qual foi transportado com mais algumas centenas de presos.

[5] Em Memórias do cárcere, Graciliano Ramos narra a situação insólita que viveu com um policial que não conseguia fazer seu registro de prisioneiro na Ilha Grande unicamente porque não havia nenhum campo na ficha a preencher onde coubesse o adjetivo ateu. O episódio é interessante por fazer-nos pensar na singularidade da posição de Graciliano Ramos, ateu numa época e num lugar onde isso era mais que uma aberração: era praticamente um crime. A despeito de estarmos em pleno século XXI, a sociedade brasileira tem dado mostras (como podemos ver nas disputas eleitorais deste ano) de atitudes regressivas semelhantes às que Graciliano Ramos enfrentou ao longo de sua vida – somos uma sociedade ainda marcada, em muitas instâncias, pela presença de um moralismo e de um dogmatismo cristãos que oprimem moral e politicamente quem se coloca de modo contrário aos princípios defendidos pelas igrejas e pelos seus fiéis.

[6] A situação da “conversão” de Graciliano Ramos ao comunismo é curiosa. Quase dez anos depois de ser preso por suas ideias progressistas (mas os motivos formais de sua prisão nunca foram declarados pelas autoridades; Graciliano não teve sequer um processo judicial), o escritor encontrou, numa viagem a Belo Horizonte, por acaso, ninguém menos que o líder comunista Luís Carlos Prestes. Essa conversa foi decisiva para a filiação de Graciliano ao Partido Comunista Brasileiro.

[7] Vemos isso pela foto, em que Graciliano Ramos aparece paparicado pelas netinhas Sandra e Vânia.

[8] Nada que possa pôr Graciliano no patamar de um Jorge Amado, escritor mais “boca-suja” de nossa literatura. Mas a presença do palavrão e mesmo de termos considerados chulos se faz marcante na obra de Graciliano, aliás um dos traços que confirmam – ao contrário do que muitas vezes se diz –  sua comunhão com alguns pressupostos modernistas.

[9] Não por acaso, o velho Graça morreu de câncer pulmonar.

[10] Eis uma frase exótica, perfeita para o epitáfio de um niilista.

[11] Essa “indiferença” chega a soar ofensiva: Como pode um homem ser tão desapegado, tão forte? Esse é o tipo de pergunta que eu me fiz insistentemente ao longo da leitura das Memórias do cárcere.

[12] Capitão Lobo: oficial comandante do quartel em que Graciliano esteve preso, no Recife, em 1936.

[13] Cubano: ladrão que o escritor conheceu na prisão.

[14] Graciliano Ramos foi prefeito de Palmeira dos Índios de 1928 a 1930. Seu governo, pela seriedade, incomodava os privilégios dos chefões locais.

[15] Ao contrário dessa previsão, que revela de modo até espantoso seu completo desapego, Graciliano morreu aos sessenta e um anos, em 1953. Outra previsão em que se saiu mal foi em relação ao desenvolvimento do futebol no Brasil: ao saber que o esporte se popularizava pelo País, Graciliano exclamou algo como “Essa bobagem inglesa nunca vai pegar aqui!” Errou feio, meu caro, tornamo-nos simplesmente o País do Futebol, somos pentacampeões! Mas numa previsão Graça foi perfeito: depois de ler o volume de contos Sagarana, ele previu que Guimarães Rosa escreveria um livro maior, de mais fôlego, um imenso romance, imenso no tamanho e na importância, o mais importante do século XX, livro que não poderia ser lido por ele, que na ocasião já estaria morto. Batata: Grande sertão: veredas, que parece realmente um desdobramento dos contos de Sagarana, foi publicado em 1956, ou seja, três anos após a morte de Graciliano, e é considerado por muitos o maior romance brasileiro do século XX. Outra curiosidade é que Ricardo Ramos, filho de Graça, também escritor, morreu, em 1992, no mesmo dia do mês e da semana que o pai.  Este post ficou meio agourento? Escreverei num próximo sobre outros aspectos de Graciliano Ramos, meu autor favorito.