Post novo, ainda que tardio

Caros leitores, o autor deste Prefácio pede desculpas sinceras pelo tempo de ausência.

Mãos à obra novamente, segue a reprodução de uma importante pesquisa sobre a formação de leitores no Brasil.

O texto foi publicado originalmente no site da Fapesp.

Eis o link:

http://agencia.fapesp.br/18789

Pesquisa expõe problemas na formação de leitores

21/03/2014

Por Elton Alisson*

Agência FAPESP – O Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) possibilitou que as instituições de educação infantil públicas no país passassem a contar, nos últimos 17 anos, com um acervo de livros com quantidade e qualidade suficientes para a realização de atividades voltadas a contribuir para a formação de leitores.

As coleções de livros do programa, instituído pelo Ministério da Educação (MEC) em 1997, não contemplam, no entanto, as especificidades pedagógicas da primeira infância – de 0 a 3 anos. E os docentes e responsáveis pelas bibliotecas de creches e berçários públicos não estão preparados para desenvolver atividades de formação de leitores com as crianças nessa faixa etária.

As conclusões são da pesquisa “Literatura e primeira infância: dois municípios em cena e o PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) na formação de crianças leitoras”, realizada no Departamento de Didática da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Marília, e no Departamento de Educação da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Unesp de Presidente Prudente, com apoio da FAPESP, no âmbito de um acordo de cooperação com a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV).

Alguns resultados do estudo foram apresentados no dia 13 de março durante o I Seminário de Pesquisas sobre Desenvolvimento Infantil, realizado na FAPESP.

“Constatamos que a quantidade e a qualidade das coleções de livros do PNBE são muito boas, mas estão mais voltadas para crianças maiores, a partir de 3 anos”, disse Cyntia Graziella Guizelim Simões Girotto, professora do curso de Pedagogia da Unesp de Marília e coordenadora do projeto, durante sua palestra no evento.

“Também há um despreparo dos professores e cuidadores e de toda a equipe das escolas para trabalhar com essas crianças pequenas não só em atividades relacionadas à formação de leitor, mas também para compreender as potencialidades das crianças”, afirmou Girotto.

Durante o projeto, os pesquisadores analisaram o acervo de obras literárias do PNBE voltados à educação infantil. Uma das principais constatações foi a de que as coleções, compostas por mais de 150 obras, não contemplam as especificidades das crianças abaixo de 3 anos em termos de projeto gráfico, editorial, estético e literário.

“Não defendemos que seja preciso estabelecer regras para a literatura infantil, mas há especificidades que não podem ser desconsideradas nos livros voltados à primeira infância”, afirmou.

“As crianças nessa fase de desenvolvimento não leem do mesmo modo que uma criança em fase de alfabetização, tampouco como um leitor maduro. Mas já ensaiam, pelo contato direto com o livro, o que denominamos de ‘ações embrionárias do ato de ler’, atribuindo sentidos às ações iniciais dos modos de ler”, disse Girotto à Agência FAPESP.

Práticas de leitura

Os pesquisadores também fizeram um mapeamento de como as crianças com até 3 anos têm acesso a livros nas instituições públicas de educação infantil com base em entrevistas com 520 professores, 60 coordenadores pedagógicos e 55 profissionais responsáveis pela biblioteca de 71 creches e berçários dos municípios de Marília e Presidente Prudente, no oeste paulista.

Foi constatado que cerca de 80% desse universo de instituições ainda não utiliza o acervo recebido do PNBE. Em algumas instituições, as coleções ficam em estantes da biblioteca, armários ou em caixas perdidas na instituição ou dividem espaço com produtos e materiais de limpeza.

“O pressuposto de que só a quantidade e a qualidade das obras são condições suficientes para o desenvolvimento de atividades de formação de leitores na educação infantil não é verdadeiro”, avaliou Girotto.

De acordo com a pesquisadora, uma das razões da subutilização dos livros da coleção do PNBE nas instituições avaliadas é o despreparo da equipe de docentes e responsáveis pelas bibliotecas para colocar em prática atividades voltadas à formação de leitor na primeira infância.

Apesar disso, professores, coordenadores pedagógicos e profissionais responsáveis pelas bibliotecas das instituições participantes do estudo destacaram, durante as entrevistas realizadas pelos pesquisadores, que consideram importante o processo de ofertar e estimular o contato das crianças com o livro. “Mas muitos acreditam que só contar histórias ou ler em voz alta para as crianças é o suficiente”, disse Girotto.

Segundo a pesquisadora, o mediador de leitura pode – e deve – ler e contar histórias para as crianças. Mas também é preciso que a criança seja colocada em contato direto com o livro para tateá-lo, explorá-lo e imitar os adultos e, dessa forma, iniciar sua formação como leitor.

Educação literária

A pesquisa deverá resultar em dois livros com previsão de lançamento no 18º Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino, que ocorrerá entre 11 e 14 de novembro em Fortaleza, no Ceará.

O primeiro livro, com o título provisório “Literatura e Primeira Infância I: da contação de histórias e da proferição”, discute a criança como ouvinte e a função do mediador.

No segundo livro, também com o título provisório “Literatura e educação infantil: tateios, experimentação e sentidos dos livros para/com os pequenos”, os pesquisadores pretendem discutir abordagens específicas do desenvolvimento infantil e as peculiaridades dos livros voltados à primeira infância, que devem valorizar a experimentação e ação direta da criança, ressaltou Girotto.

“Todo o trabalho de formação de leitor na primeira infância pode ficar a desejar se não existirem livros adequados e não for feita uma adequada mediação e apresentação das publicações para as crianças”, estimou a pesquisadora.

“As crianças precisam reconhecer e usar os livros tal como o adulto ou um leitor autônomo fazem, buscando compreender as informações em textos verbais ou imagéticos”, indicou.

Por meio do projeto, os pesquisadores pretendem estabelecer um programa de atividades de leitura com crianças com até 3 anos utilizando o acervo do PNBE e desenvolver uma proposta de formação de docentes.

Além disso, querem continuar os trabalhos nas instituições dos dois municípios com avaliações sobre o acesso aos livros, práticas de leitura literária nas unidades que utilizam o acervo do PNBE, sobre mediação dos professores e sobre os livros selecionados por eles.

“As instituições de ensino infantil têm a responsabilidade de propiciar às crianças o contato com obras literárias da melhor qualidade, respeitando suas especificidades de desenvolvimento e sem subestimar sua capacidade intelectual”, avaliou.

“Isso não significa antecipar a alfabetização, mas estabelecer diretrizes para a educação literária, desde a primeiríssima infância, sem apequenar os potenciais da criança”, afirmou.

O objetivo do seminário na FAPESP foi divulgar os resultados de dez projetos de pesquisa selecionados na primeira Chamada de Propostas do Acordo de Cooperação Científica e Tecnológica firmado entre as duas instituições em 2010 nas áreas de Saúde, Educação, Economia, Pedagogia, Psicologia e Assistência Social.

Também participaram do seminário os coordenadores dos 16 novos projetos aprovados na segunda seleção de propostas, concluída em 2013.

*Com Fernando Cunha.

 

“A morte do editor”, de Luiz Schwarcz

Reproduzo abaixo o interessante texto de Luiz Schwarcz, publicado no Blog da Companhia. 

O tema mais discutido no momento no mercado editorial, principalmente nos Estados Unidos, é o self-publishing: as publicações digitais feitas diretamente pelos autores, sem a participação de qualquer editora. Em português, podemos chamá-las de “edições independentes”, ou “auto-edições”, numa tradução mais literal. Recentemente, o jornal inglês The Guardian divulgou que 28% dos livros da lista de mais vendidos  do New York Times eram oriundos do tal self-publishing. Do jeito que a coisa vai, não tardarão as matérias sobre a “morte dos editores”, manifestações e movimentos, tipicamente americanos, por no-publishersou algo do gênero.

Acho que o tema dá o que pensar e vale ser tratado com a maior isenção possível. (O Publishnews acaba de publicar uma matéria sobre o mesmo assunto, que você pode ler aqui . Escrevi este post antes de ler o artigo, e resolvi manter como estava.)

O sucesso extraordinário de livros que surgiram de auto-publicações como Cinquenta tons de cinza (traduzido e lançado no Brasil pela Intrínseca), ou Toda sua  (em breve nas livrarias brasileiras pela Editora Paralela), tem agitado o mercado editorial.

Não se trata ainda de discutir a divisão dos direitos autorais nos livros digitais, assunto igualmente polêmico, mas de pensar se caminhamos para um mundo sem livros físicos e, por conseguinte, sem editoras. A Amazon, a mais forte vendedora de livros eletrônicos no mundo, incentiva com veemência o movimento de auto-publicação. Além dela, uma série de outras empresas especializadas na prestação de serviços para autores que visam esse fim surgiram nos últimos tempos e vêm realizando um movimento financeiro digno de nota.

Imagino que o leitor desta coluna espere de mim uma crítica ao self-publishing, e uma defesa do papel do editor no mundo contemporâneo. Talvez decepcionarei parcialmente a alguns, pelo que se segue:

Se, por um lado, mais do que acredito, eu espero que o livro físico não venha a deixar de existir, por outro entendo que o mundo se abre enormemente com as publicações digitais independentes. Hoje em dia, é fácil e barato ter um livro publicado. Sendo esse o desejo de boa parte dos mortais, qual o mal em ver sonhos realizados, em tornar acessível o poder de expressão da maneira mais livre e direta? Durante meus anos de aluno de graduação na FGV fui fascinado pelas teorias anarquistas de representação política direta, que conheci nas aulas de um professor generoso chamado Maurício Tragtenberg. Na época, minhas leituras favoritas iam dos anarquistas russos a Foucault e Goffman, críticos das instituições que se interpunham entre os homens, e do forte teor de disciplinarização inerente a elas. Embora meus gostos políticos e literários tenham mudado com o tempo, não tenho como não ver com bons olhos um mundo de publicações diretas, de leitores que se transformam facilmente em autores e divulgam suas ideias livremente.

No entanto, em se tratando da literatura mais elaborada, imaginar um mundo sem editores não é muito bom. O trabalho do editor sério, como profissional especializado na ligação entre autor e leitor, melhora a qualidade dos livros em vários sentidos. Num mundo sem esse elo, os livros ofertados pela novas possibilidade eletrônicas aumentarão sensivelmente, o que é positivo, mas certamente perderemos em qualidade de texto e reflexão. O leitor deixará de ter um guia importante para as suas escolhas de leitura, e o autor ficará sem seu maior aliado.

Além disso, no campo dos livros mais populares — onde os maiores fenômenos do self-publishing acontecem —, as vendas se multiplicaram significativamente depois que os lançamentos deixaram de ser feitos de maneira independente e passaram a fazer parte do catálogo das grandes editoras. Nesse caso, houve pouca contribuição para a melhoria dos textos por parte dessas editoras, que pescaram os sucessos espontâneos e apenas lhes deram novas roupagens. No entanto, o incremento das vendas se deu em espiral natural mas também pelo bom trabalho de marketing da Knopf Doubleday, que publicou Fifty shades após a edição independente, e da Berkley, que fez o mesmo com Bared to you. Outra razão surpreendente do aumento das vendas pós self-publishing é a ligação entre as edições digitais e de papel. Por incrível que possa parecer, em vez de competirem por um mesmo mercado, uma edição ajuda a outra. Parte dos leitores do livro digital compra também a edição em papel.

Se uma parcela dos editores dedica grande parte do seu trabalho para a descoberta de livros de puro entretenimento, isto é, para encontrar o que a grande massa de leitores quer ler, o alto índice de sucessos que surge das publicações espontâneas coloca em dúvida a eficiência do mercado editorial, principalmente de língua inglesa. Quem se auto-publica ou teve seu livro recusado por vários editores ou não conseguiu chegar a eles ou, o que é ainda pior, não confiou nos profissionais do ramo.

Vale também refletir sobre uma piora gradativa na qualidade literária dos livros que têm atingido esses enormes índices de leitura. Serão estes nocivos à propagação da boa literatura, ou, pelo contrário, funcionarão como porta de entrada de um novo público que não alcançávamos? Um livro mais elaborado, mesmo que de leitura fácil, encontra hoje maiores dificuldades para entrar nas listas de mais vendidos, preenchidas por livros de apelo mais imediato. Pioraram os livros, pioraram os editores comerciais ou pioramos todos? Uma visão mais otimista seria a de que, com o livro digital, apenas aumentou a oferta à disposição do leitor.

Todas essas dúvidas me parecem procedentes e podem tirar um pouco do sono dos que gostam de literatura e querem encontrar um lugar no mundo editorial que parece vir por aí. Não pretendo ter respostas imediatas, apenas compartilhar questões, afinal, esses são temas complexos e novos para todos. Se um mundo sem editores for melhor para os leitores e para a literatura, convido desde já todos que leem este blog para a festa da minha aposentadoria, quando celebraremos a vitória da “literatura direta”! Nessa ocasião, nós editores teremos de ser modestos e entender que nossos dias ficaram no passado.

Temo, porém, que nesta ocasião sentiremos uma grande nostalgia da época em que a literatura era verdadeiramente vigorosa, a ponto de exigir tempo para ser escrita, discutida, trabalhada e só então publicada.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais , entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamadaImprima-se, sobre suas experiências como editor.

Leitura no Brasil do século XIX, entrevista com Alexandre Paixão

O século XIX é decisivo para se pensar a formação da literatura e da leitura no Brasil.

Quais eram os leitores do Brasil daquela época? Que tipo de pessoas liam textos literários? Que tipo de textos elas liam? Qual era e como se dava a circulação desses textos?

Essas e outras questões são abordadas na entrevista com o pesquisador da USP Alexandre Paixão, realizada pela Univesp TV e reproduzida aqui no Prefácio:

“O preço do livro”, do programa Entrelinhas (TV Cultura)

O livro no Brasil é muito caro?

Essa pergunta, que serve como mote do programa, acaba por trazer umas tantas outras questões sobre a cultura do livro e da leitura em nosso país.

O programa ainda é interessante por oferecer ao espectador, por meio de entrevistas com editores, explicações didáticas sobre os processos e os custos envolvidos na confecção e comercialização do livro.

Altamente recomendável, para educadores, professores, escritores e leitores.