Graciliano Ramos: 60 anos de morte

O ABCD em Revista homenageia o grande escritor alagoano, morto há 60 anos, com “Graciliano Ramos: a escrita concisa e reveladora do Brasil.”

http://www.tvt.org.br/watch.php?id=12664&category=203

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Cento e vinte anos de resistência

Em 27 de outubro de 1892, nasceu Graciliano Ramos, meu escritor brasileiro favorito.

O primeiro livro de Graciliano que li era um exemplar já malhado pelo tempo, que passou de meu avô para minha mãe: um Vidas secas de 1969, da editora Martins. O volume estava protegido com uma capa adicional de plástico, para que resistisse ao tempo. Resistiu. Está até hoje  inteiro.

Resistência, aliás, é uma palavra boa para o velho Graça. Seu estilo seco, duro, direto, compacto, verrumante, é capaz de fisgar adolescentes do Brasil de hoje, nas escolas e fora delas, como uma obra viva.

Resistência serve também para lembrar a enorme indisposição de Graciliano a ceder, na escrita, ao estilo aparatoso, rebuscado, cheio de pompa que predominava no Brasil da virada do XIX para o XX. Resistir, recusar esse estilo significou, na literatura e na vida de Graciliano, opor-se à falsa inteligência, a falsa complexidade, cujo fundo é a enganação, a mentira, a ostentação e a opressão. A falsa sofisticação das elites brasileiras de sempre que, por trás de seu verniz arrogante, esconde o espírito obtuso, o egoísmo indecente, a compreensão curta. Contra isso Graciliano lutou, obsessivamente.

Resistência ao arbítrio e ao totalitarismo do Estado de Vargas, que  atirou Graciliano na cadeia, sem qualquer acusação formal. Resistência também ao sectarismo do PCB, que lhe exigia uma literatura laudatória, quando para Graça o mais honesto, na ficção, era indagar. Mas na vida, como cidadão, em resistência ao comodismo e ao abstencionismo, Graciliano filiou-se ao PCB, defendendo abertamente o comunismo.

Um herói nacional? Tudo o que Graça mais detestaria. Um homem que se sentiu – em toda a sua estada no Rio de Janeiro e em suas (poucas) perambulações pelo mundo – eternamente sertanejo: rústico, seco, duro, como a sua prosa. Uma prosa que seguramente permanecerá, como resistência à pompa e às leituras simplificadoras da realidade.

***

Nota:

Em comemoração a esses 120 anos, a Boitempo Editorial acaba de lançar uma versão ampliada da brilhante biografia de Dênis de Morais O Velho Graça (já referida aqui no Prefácio).

Leitura no Brasil do século XIX, entrevista com Alexandre Paixão

O século XIX é decisivo para se pensar a formação da literatura e da leitura no Brasil.

Quais eram os leitores do Brasil daquela época? Que tipo de pessoas liam textos literários? Que tipo de textos elas liam? Qual era e como se dava a circulação desses textos?

Essas e outras questões são abordadas na entrevista com o pesquisador da USP Alexandre Paixão, realizada pela Univesp TV e reproduzida aqui no Prefácio:

Esqueça o título

Sexo e amizade, de André Sant’Anna, publicado pela Companhia das Letras em 2007, suscita no leitor, talvez como primeira entre todas, a seguinte pergunta: como um livro de qualidade tão rara pode ter um título tão ruim?

Verdade seja dita, títulos não é o forte na obra de André Sant’Anna: antes desse, vêm Amor (1998), Sexo (1999), Amor e outras histórias (2011).

Bem, quando apanhei na estante Sexo e amizade, já tinha ideia de quem era o autor, um tanto famoso nos circuitos literários, e sempre tive boas impressões no poucos contatos que tive com sua prosa. Depois de escandalizar-me com o título, resolvi correr os olhos pelo sumário, para conferir os títulos dos textos. Não me pareceram ruins. Abri o livro a esmo – é uma mania de muitos leitores –, e cheguei a estas palavras:

Aquarius

Havia uma mulher gorda, vermelha, descascada, cheia de bolhas nas costas, cobrindo as pernas gordas com uma toalha toda suja de areia. Havia o marido da mulher gorda, que parecia olhar o mar, mas estava mesmo era olhando para o vazio, com uma barriguinha, a barba por fazer, olheiras bem fundas e um órgão sexual enrugado e minúsculo.

“Seco, enxuto, sarcástico, com belo encadeamento sonoro”, pensei, já saltando – aleatoriamente de novo – para outra página:

Rush

Mulher no trânsito é um pobrema. Bom era no temopo da ditadura. Eles não davam carteira pra qualquer um, não. tinha que mostrar que sabia dirigir mesmo. Se o cara não arrumava o banco direito quando ia sentar no carro, pelo jeito do cara, o instrutor já percebia se o cara era bom de dirigir mesmo.

“Texto vivo. Cruel. Excelente apropriação da oralidade”, concluí.

E foi assim, saltando de início a início, que descobri estar diante de uma obra de evidente valor literário.

Comprei o livro e fiz as primeiras leituras sentado num ônibus lotado, parado num congestionamento terrível – ambientação perfeita para a mundanidade crítica e observadora de Sant’Anna.

O livro me fisgou e acho que dificilmente não fisgará um leitor que busca literatura genuinamente contemporânea, intensa, certeira na crítica, ritmicamente impecável, uma literatura que – como a boa literatura – sabe dar saltos sobre os poços da mesmice vocabular, sintática e imagética.

André Sant’Anna nasceu em Belo Horizonte em 1964, morou no Rio de Janeiro grande parte de sua vida e hoje vive em São Paulo, cidade que parece ser o ponto de partida de seus argutos exames psicossociais, cidade que ele louva e ironiza de modo magistral em seu Pro Beleléu, uma bela homenagem à Pauliceia:

Detesto São Paulo.

Antes eu gostava quando eu era do Rio e eu vinha pra São Paulo ver show da Vanguarda Paulista e eu saía de noite e eu era muito jovem e eu estava aprendendo a tocar contrabaixo e eu era mineiro e eu tenho uns tios que são mineiros e moram em São Paulo há muito tempo e eles são músicos e eu queria ser músico que nem eles, os meus tios, e eu saía de noite com o meu tio que tinha uns amigos que eram da Vanguarda Paulista e tinha o Gigante que era amigo do meu tio e tocava com o Itamar Assumpção e eu fui no ensaio do Itamar Assumpção no dia que a Elis Regina morreu e de noite fazia um frio que eu achava gostoso e eu botava uns casacos que eram muito bonitos e elegantes que só dava pra eu usar quando eu vinha pra São Paulo (…)

E foi assim, entre um texto e outro, que cheguei (dias depois, em casa, já livre do trânsito) a uma obra ainda mais impressionante: a última narrativa da antologia, mais comprida que as outras, intitulada (infelizmente) Sexo.

Exame cru da realidade urbana brasileira, essa narrativa, ao abordar o campo do erotismo, revela ao leitor os signos que estão em jogo na sociedade de consumo. Apontando o chão ideológico das paixões, desnaturaliza e desmistifica os desejos, inscrevendo-os num código social, ou seja, num campo imaginário construído num tempo e num espaço.

Como disse no começo, não sei se encontrei a resposta para o título ruim. Mas tenho a hipótese de que André Sant”Anna conta com leitores desavisados, que acreditam estar comprando uma obra “digestiva”, “fácil”, coisa que o livro de André Sant’Anna está longe de ser.

Talvez o autor, publicitário que é, tenha calculado esse efeito. O duro é saber se o tiro não saiu pela culatra.

Seja como for, registre aí mais uma dica do Prefácio (vale como conselho para leitura de férias).

Guimarães Rosa, esse rio infinito

No último dia 28 comemoraram-se os 103 anos de nascimento, em Cordisburgo, Minas Gerais, de um dos maiores prosadores do século XX, João Guimarães Rosa, autor de um verdadeiro monumento à língua portuguesa, Grande sertão: veredas, publicado em 1956. É tentador, nesse começo de férias escolares, re-embrenhar-me no vasto mundo inventado por Rosa, reencontrar seu labirinto de espelhos, onde bem e mal, Deus e Diabo, sangue e palavra se misturam. Mas há  outras tantas leituras agendadas, e pretendo ser fiel a elas.

Não custa nada, porém, “arranhar” mais um pouquinho a trilha rosiana, deixando as últimas sugestões do Prefácio antes de dar por encerrado oficialmente o primeiro semestre (embora esta postagem seja de julho).

Nas últimas semanas de junho, li com meus alunos do terceiro ano alguns trechos do romance de Rosa e, ao final do processo, tivemos a oportunidade de ver algumas das muitas releituras do mestre Guimarães que a nossa tradição musical realizou.

As que vimos e que indico aqui são as seguintes:

Desenredo, composta por Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro. Belíssima releitura da obra de Rosa, a partir do título do famoso conto das Primeiras estórias (1962).

Outras duas admiráveis releituras do autor de Cordisburgo foram gravadas por Caetano Veloso em seu Circuladô (1991), disco que considero uma verdadeira obra-prima:

Circuladô de fulô, composta por Haroldo de Campos. Maravilhosa engenharia concretista a partir da poética de Guimarães, com um arranjo que merece elogio à parte.

A terceira margem do rio, composta por Caetano Veloso e Milton Nascimento. Versão musical do consagrado conto A terceira margem do rio, presente também em Primeiras estórias. Essa versão musical  do conto de Rosa, além de belíssima em si mesma, aponta preciosas  percepções críticas e interpretativas da obra de Rosa.

Bem, caros queridos, o Prefácio volta agora só em agosto, provavelmente com comentários sobre leituras de férias, as minhas e as suas.

Fica já feito o convite.

Cor local (4)

Os Corumbas, de Amando Fontes (1933)


Surgido num contexto de debate acalorado sobre a relação entre literatura e realidade nacional, o romance de Amando Fontes teve aprovação unânime ao ser publicado.

Os Corumbas conseguiu agradar autores de posições radicais, como o comunista Jorge Amado e o conservador Octavio de Faria, numa época em que os julgamentos estéticos eram associados muitas vezes de modo direto aos posicionamentos ideológicos.

A narrativa conta a história da família Corumbas, que, em busca de melhores condições de vida, abandona o pequeno povoado de Ribeira, no interior de Sergipe, e parte para Aracaju, onde enfrenta toda sorte de desgraças, de ordem material e moral. Como é constante nos processos migratórios, o centro urbano atrai vidas famintas para seu centro sedutor e as humilha, assinalando nelas seu desígnio letal: a perda da tradição (a cidade é a ruína das tradições) – lógica que pode ser vista também em obras como Angústia, talvez o romance mais intenso de Graciliano Ramos (embora o autor, cuja descomunal autoexigência era notória, considerasse-o um livro “cheio de gorduras”) e aparece ainda em outras obras-primas, como o famoso filme do italiano Lucchino Visconti Rocco e seus irmãos.

A primeira menção que encontrei a Os Corumbas foi em Uma história do romance de 30[1], de Luís Bueno, em que o autor descreve a intensa euforia que foi a recepção do romance pelos seus contemporâneos, que o consagraram imediatamente.

Fiquei bastante intrigado com os comentários do crítico. Eu, desde muito aficcionado pela Geração de 30, nunca tinha sequer ouvido falar no nome de Amando Fontes!

Então tratei de ir atrás de Os Corumbas e encontrei um exemplar da 25ª edição da José Olympio, de 2003. Devorei o livro em poucos dias e a satisfação foi completa. Tinha encontrado uma das boas fatias do romance nordestino de 30, um livro sem floreios e torneios, sem massa de linguiça – um livro só com o essencial.

O romance de Fontes se divide em 3 partes. A primeira se passa em Ribeira, e conta a história do agricultor Geraldo Corumba, que se casa com Josefa. A terrível seca de 1905 leva os produtores de cana à bancarrota e o casal, pais de quatro moças e um rapaz, decide migrar.

A segunda parte – onde se desenvolvem os elementos centrais da narrativa – mostra a família situada há um tempo já em Aracaju. Geraldo e as duas moças mais velhas, Rosenda e Albertina, são operários da fábrica de tecidos. O filho, Pedro, trabalha como mecânico numa oficina. As esperanças dos Corumbas estão depositadas todas na escolarização das duas filhas mais novas, que deverão tornar-se professoras e assim promover a mobilidade social da família. Josefa é uma dona de casa dedicada. A labuta diária é uma batalha extenuante, que desafia constantemente o senso de justiça e a honestidade dos pobres, pondo à prova, ou melhor, pondo em xeque seus valores centrais[2].

Geraldo e Josefa, que representam os velhos valores sertanejos, valores fixos, veem pouco a pouco seus princípios abalados diante de um mundo de valores fluidos, entorpecido pela necessidade de sobrevivência, que atropela a moral e qualquer tipo de escrúpulo: é o mundo prático, amoral – o mundo moderno –, que engole seus sonhos.

As ações em Os Corumbas seguem uma lógica convincente, como se as vidas que o livro apresenta não pudessem responder ao destino que as empuxa de modo diferente do que mostra o narrador. Esse efeito de verossimilhança é reforçado por uma outra qualidade que Mário de Andrade apontou no romance: “o dom da dialogação”[3].

Outro grande nome a defender Os Corumbas foi o poeta Manuel Bandeira, que caracterizou Fontes como “escritor despretensioso, indiferente às qualidades elegantes de expressão e só atento ao que é essencial ao romance, ao movimento do romance, às suas exigências de construção e de verossimilhança psicológica.”[4]

O meio social em Os Corumbas é espaço de opressão, injustiça, iniquidade. Sua cor local é cinza, triste, desalentadora. Ler esse livro me deu a sensação de conhecer uma peça fundamental da literatura brasileira, uma peça que se ajusta perfeitamente às intenções do romance de 30 mas que possui um brilho particular.

Curioso pensar que o livro, tão aclamado em sua época por figuras de relevo na vida intelectual do País, hoje está praticamente esquecido pela academia e consequentemente pelos livros didáticos e as salas de aula…  E a que se deve tal esquecimento?


[1] Edusp / Unicamp, 2006. Trata-se da mais importante publicação sobre o romance de 30 nos últimos anos.

 

[2] Vale lembrar que essa problemática da necessidade x honestidade aparece de modo antológico no maior clássico do cinema neorrealista italiano: Os ladrões de bicicleta, de Vittorio de Sica.

[3] A citação aparece na orelha de minha edição de Os Corumbas.

[4] A citação está presente no livro de Luís Bueno, na página 194.


Cor local (3)

A realidade como problema

Como decorrência do próprio projeto romântico, que em geral tinha uma visão eufórica da nação, brotará, principalmente por volta dos anos de 1860, uma literatura que investiga e denuncia a realidade brasileira, descortinando um aspecto que até então esteve convenientemente fora das grandes representações do país: a escravidão negra. Hoje temos consciência cada vez mais clara de que o elemento da negritude – cuja história evoca tanto tristeza quanto orgulho – é inseparável da brasilidade. Mas nas representações típicas do primeiro Romantismo – o da chamada geração indianista – o negro nem existe na paisagem literária: o que funda a nação é a mistura – quando não a amizade – entre índios e europeus. Isso aparece de modo explícito em histórias como Iracema e O guarani.

Apresentando situações como naturais, a obra de Debret, principalmente com o passar do tempo, parece na verdade uma voz de denúncia

Se a imagem transmitida a respeito do Brasil era um ideal e não a realidade, natural que a representação de nossa vida social fosse também envernizada, de modo a se ocultarem valores considerados nebulosos na formação de uma pintura perfeita: o país precisava aparentar grandiosidade, e a figura de negros acorrentados, sofrendo os mais terríveis castigos, só podia aparecer – como animais exóticos – em telas como a do francês Jean-Baptiste Debret, nas quais se procurava retratar os pitorescos costumes brasileiros (mas que podem também funcionar como denúncia de imensas injustiças).

A visão crítica da realidade propriamente, não só incluindo mas na verdade partindo da crítica à escravidão, começa a aparecer nas artes na segunda metade do século XIX. É sempre bom lembrar que a escravocracia era um dos elementos mais frágeis da nação brasileira se considerarmos, a partir de 1808 e de modo mais decisivo a partir de 1822, a tendência do país a se mostrar como “civilizado”. A atitude de escancarar essa realidade podia pôr em xeque os interesses mais conservadores, que sustentavam a imagem de nação ordeira e branca, tendo o indígena como uma decoração de fundo, um motivo alegórico, um adorno curioso.

A poesia social da década de 1860, que tem Tobias Barreto à sua frente, apresenta uma abordagem direta e indignada do tema da escravidão dos negros africanos. Sendo ele mesmo mulato e tendo sido vítima de preconceito por isso, Barreto foi precursor do chamado condodeirismo nas letras brasileiras, movimento de cunho libertário inspirado nas ideias e na literatura de Victor Hugo e que teve Castro Alves como figura central. O nome é uma alusão ao condor, ave de voo alto e solitário: tal como o condor em seu voo, o olhar do poeta condoreiro flagrava a realidade de um modo amplo, podendo captar seus aspectos injustos e denunciá-los.

Este poema de Tobias Barreto representa bem o espírito dessa geração:

A escravidão (1868)

Se Deus é quem deixa o mundo
Sob o peso que o oprime,
Se ele consente esse crime,
Que se chama escravidão,
Para fazer homens livres,
Para arrancá-los do abismo,
Existe um patriotismo
Maior que a religião.

Se não lhe importa o escravo
Que a seus pés queixas deponha,
Cobrindo assim de vergonha
A face dos anjos seus
Em seu delírio inefável,
Praticando a caridade,
Nesta hora a mocidade
Corrige o erro de Deus!…

A poesia e as artes brasileiras vão flagrar uma nova realidade e apresentar, portanto, uma nova cor local, rechaçando de vez a idealização romântica do Brasil e dando passagem para a estética do Realismo.

Mas esse já é outro capítulo…