“Desnorteio”, de Paula Fábrio, na TV São Judas

O grande romance de estreia da escritora Paula Fábrio – uma das experiências mais intensas que tive como leitor nos últimos tempos – é abordado, ao lado de Boatos do Corpo, de Marcelo Donatti, no programa Arteletra Literatura.

Os dois títulos foram publicados pela editora Patuá, que vem realizando com protagonismo um investimento sério em autores estreantes.

Confiram a entrevista.

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Entrevista com Ondjaki

Neste post publico uma entrevista realizada pelo programa Entrelinhas, da TV Cultura, com o escritor angolano Ondjaki.

Nascido em Luanda em 1977, Ondjaki (pseudônimo de Ndalu de Almeida) mora atualmente na cidade do Rio de Janeiro.

Autor de obra premiada e representante de uma literatura cada vez mais próxima do público brasileiro, as palavras de Ondjaki são um convite para ampliação de nossos horizontes linguísticos e culturais, levando-nos a refletir sobre nossa condição de povo mestiço.

“Um escritor em autoexílio”

Há mais ou menos dois anos conheci esse romance do escritor carioca Flávio Izhaki.

Reproduzo aqui a sinopse que encontrei no próprio blog do autor:

“Um escritor em autoexílio que encontra seu livro num sebo, cinco anos após a publicação deste, com as margens do texto todas anotadas com comentários cáusticos. Felipe Laranjeiras faz da tentativa de achar essa pessoa que escreveu no exemplar encontrado o ponto de partida para que ele consiga retomar sua vida, que ficou estagnada desde que o livro foi lançado com resenha negativa no jornal. Antes da publicação do livro, Felipe Laranjeiras era um escritor promissor, namorava, e depois do lançamento acaba preso no próprio fracasso, exilando-se voluntariamente em Curitiba, fugindo de todos e de si próprio. Com a descoberta de Desencanto no sebo, o livro que o tirou da cidade acaba o trazendo de volta ao Rio, onde tenta retomar sua vida do ponto que ela parou.”

http://decabecabaixa.wordpress.com/

A prosa de Izhaki é leve, porosa, extremamente agradável.

Destaco como um dos aspectos marcantes do livro o olhar sobre a paisagem urbana. É incrível como o narrador é capaz de fisgar pequenos elementos da cidade (Rio de Janeiro sobretudo, para onde o herói retorna, como se estivesse diante de uma cidade ressuscitada) de modo a re-significar sua trajetória pessoal. A cidade aparece no livro como um elemento especial, como uma experiência íntima e, por isso mesmo, como uma experiência possível.

Um mestre no inferno do capitalismo

Na quinta-feira de 1º de julho, o programa Fora de Jogo da ESPN exibiu um vídeo-reportagem importantíssimo sobre os moradores das cidades de lata (Blikkiesdorp) da Cidade do Cabo, na África do Sul. Fiquei indignado com as condições de vida terrivelmente precárias da população (pobres, evidentemente) que foi forçada pelo governo a abandonar as áreas de maior prestígio – onde ocorreram os jogos e onde consequentemente instalaram-se os turistas – e ocupar, em cantos mais periféricos da cidade, moradias de qualidade inaceitável se considerarmos que estamos falando de habitações para seres humanos. Trata-se de moradias desconfortáveis, úmidas, gélidas: terríveis para quem vive o inverno rigoroso sul-africano. A certa altura – ponto mais forte da reportagem – um morador da Blikkiesdorp chamado Jonathan, indignado, bate no peito e implora: “Pensem em nós”.

O vídeo, imperdível, pode ser visto no site da ESPN. Eis o link:

http://espnbrasil.terra.com.br/copadomundofifa/noticia/129749_VIDEO+O+PAIS+DA+COPA+TEM+CAMPOS+DE+CONCENTRACAO+PARA+OS+EXCLUIDOS

A ambiguidade entre consumo de luxo (representado neste caso pela Copa do Mundo[1]) e as condições paupérrimas de grande parte da sociedade (representadas pela Blikkiesdorp) tem sido o estado essencial da grande maioria das ex-colônias europeias e/ou periferias do americanismo global.

Numa sociedade que convive com altos índices de desemprego e desigualdade social como a sul-africana, a Copa figura como um momento de exceção, interessante entre outras coisas pela capacidade de dar uma enorme visibilidade ao país, provavelmente uma visibilidade que ele nunca tinha atingido.

É de se esperar que, num evento desse porte, as “autoridades” – governo, grandes empresas, elite econômica em geral – prefiram exibir à grande plateia (simplesmente a maioria esmagadora da população mundial) um espetáculo “limpo”, clean, sem as nódoas que já perpetuaram a imagem da África como um lugar sujo, atrasado e miserável. Nós, brasileiros, já conhecemos bem essa história pelos vários processos de gentrificação que viveram e vivem cidades como São Paulo, Recife, Salvador, e muitas outras, tendo como modelo seminal a reforma urbana de Pereira Passos no Rio de Janeiro, na primeira década do século passado.

É de se esperar, mas é também de indignar: que os filhos pobres da exploração euro-estadunidense queiram varrer, para baixo do palco da Copa, as vítimas da miséria e exibir apenas os aspectos mais “nobres” de sua vida – para atrair atenção dos mais ricos, perpetuando assim sua relação de submissão e dependência. (É interessante lembrar o que disseram alguns comentaristas esportivos sobre os estádios da Copa: lindos, pomposos por fora, mas muitas vezes com péssimas condições internas, como as falhas dos gramados.)

Claro que na hora do jogo propriamente dito, a indignação com as mazelas sociais são – e devem ser – suspensas, para que outra experiência se faça possível: o espetáculo exclusivo do jogo. No entanto, agora que o espetáculo acabou (confessemos que ele nem foi tão grandioso), podemos aproveitar as atenções voltadas para a África do Sul e, em consonância com o grito indignado de Jonathan, o morador da Blikkiesdorp, tomar contato com uma abordagem bastante contundente e expressiva dos conflitos vividos no país da Copa: a obra-prima de um gênio da literatura, J. M. Coetzee.

Nascido na Cidade do Cabo em 1940, tornou-se mundialmente famoso principalmente com a conquista do Prêmio Nobel, em 2003. Nas palavras do escritor brasileiro Cristóvão Tezza, “Coetzee construiu uma obra ficcional que poderia ser talvez sintetizada como uma densa investigação ética sobre o homem contemporâneo. Em seus 15 romances, estão presentes temas que vão desde a violência e a brutalidade militar colonial (“À Espera dos Bárbaros”), até a denúncia da matança dos animais neste mundo carnívoro, num curioso elogio ficcional do vegetarianismo (“A Vida dos Animais”).” (In: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/757428-leia-critica-sobre-a-trilogia-autobiografica-do-sul-africano-coetzee.shtml)

Coetzee começou a ganhar alguma (pequena) fama no Brasil há pouco mais de cinco anos, com seguidas publicações da Companhia das Letras.

A primeira obra sua que li foi À espera dos bárbaros, que me surpreendeu muito, pelo ataque duro e direto à crueldade, pelo tom seco e pela linguagem enxuta. A impressão imediata que tive foi a de estar diante de um gigante literário.

Foi então que, depois de alguns meses, ganhei de presente Desonra, a obra mais  famosa de Coetzee, e para muitos seu melhor livro.

Logo no começo de Desonra,  desconfiei que tinha encontrado, finalmente, entre os vivos, um gênio literário.

O mesmo tom: sóbrio, elegante, contido, domínio completo do assunto – o tom nunca maior nem menor do que os fatos. Uma impressionante verdade em falar das coisas.  Tudo, no livro, tem uma razão de ser: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”, já disse o mestre Graciliano Ramos.

Foi imenso meu entusiasmo quando descobri que Coetzee havia escrito um livro simplesmente sobre meu autor favorito, Fiódor Dostoiévski: O mestre de Petersburgo. Nada mais extraordinário do que ver como um grande escritor recria, como personagem de sua prosa, outro grande escritor. Uma experiência singular, que aliás pode nos ensinar sobre Dostoiévski mais do que muitas biografias.

Li outros livros de Coetzee ainda[2] – mas seria exaustivo comentar todos eles num único post.

Rápidos comentários apenas sobre mais dois:

Juventude. Obra perfeita para conhecer mais de perto o desenvolvimento do autor e do homem J. M. Coetzee. O livro descreve as obsessões e as descobertas de um jovem aspirante a escritor (alter ego de Coetzee) que se transfere da Cidade do Cabo para Londres, com todos os choques culturais e guinadas existenciais implicados nessa mudança.

Ao lado de Desonra, o livro que mais me encanta na obra de Coetzee é A idade do ferro (Editora Dom Quixote)[3], ficção em que se apresentam de modo intenso os conflitos raciais e sociais do apartheid, de uma contundência inconfundível, talvez a marca central do escritor.

A África do Sul, com Coetzee, prova que é capaz de oferecer belezas mais dignas, que incluem as criaturas pobres da Blikkiesdorp, deixando-as falar sua voz:

“Pensem em nós”.

Boas leituras.


[1] O que não significa que um evento esportivo como a Copa tenha apenas esse significado (o de “consumo de luxo”): do meu ponto de vista, seria redutor pensar o futebol apenas dessa maneira. Para uma reflexão mais cuidadosa sobre o esporte, aliás, indico veementemente a obra-prima de José Miguel Wisnik Veneno-remédio (Companhia das Letras), em o que autor discorre brilhantemente sobre os múltiplos e complexos papéis do futebol na cultura brasileira e mundial.

 

[2] Não gostei de nenhum daqueles que mesclam narrativa com ensaística, pelos aspectos que aponta Sérgio Rodrigues no seu Todo Prosa: “é um campo tão coalhado de minas pós-modernas que não permite ao autor exercitar sua maior qualidade.” http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/resenha/por-que-nao-gostei-do-%E2%80%98verao%E2%80%99-de-coetzee/

[3] A editora Dom Quixote é portuguesa. Pelo que pude entender até agora, A idade do ferro não foi publicado no Brasil. Consegui meu exemplar num sebo.

Saramago na imprensa portuguesa

Ainda procurando digerir a morte de José Saramago, encontrei no jornal português Público este comovente depoimento de Luiz Schwarz, dono da Companhia das Letras, editor e amigo de Saramago.

Reproduzo-o na íntegra:

“Acabo de ver o escritor José Saramago morto. Quando a notícia apareceu na Internet, liguei pelo Skype para Pilar, que sem que eu pedisse me mostrou José deitado na cama, morto. Tenho falado com Pilar quase todos os dias. Sabia que não havia chance de recuperação.

Posso dizer que José Saramago era um grande amigo. Quando vinha ao Brasil, hospedava-se em minha casa, no quarto que foi da Júlia, minha filha. Ele detestava hotéis. Viu meus filhos crescerem. Fui conhecer sua casa em Lanzarote logo que se mudou com Pilar, abandonando Portugal. Assisti emocionado à cerimónia do Nobel em Estocolmo – pouco antes, no hotel, aprovámos, Lili e eu, o vestido de Pilar para o evento. Estava em Frankfurt quando ele recebeu a notícia do prémio; celebrámos juntos.

A obra de Saramago veio para a Companhia das Letras por acaso. No fim da Feira de Frankfurt de 1987, ao despedir-me de Ray-Gude Mertin, amiga pessoal e agente literária, comentei que era dos meus autores favoritos. Conversa de fim de feira. Não fazia ideia de que ela representava o escritor português, junto com a editora Caminho, e que estava para mudar Saramago de editora no Brasil. Atrasei minha partida e voltei, com a bagagem no porta-malas do táxi, para falar com Zeferino Coelho sobre a Companhia das Letras.

Foi tudo muito rápido, Jangada de Pedra foi o primeiro livro, lançado em Abril de 1988. A empatia foi imediata.

Em seguida fui a Lisboa. Já éramos bem amigos, ele queria mostrar-me o novo livro que escrevia. Em sua casa, na Rua dos Ferreiros à Estrela, José leu trechos de A História do Cerco de Lisboa, e levou-me para jantar no seu restaurante favorito, o Farta Brutos. Pilar foi minha guia de Lisboa. Comprei com Pilar o primeiro computador de José. Antes disso, ele datilografava três vezes cada livro para entregá-lo completamente limpo a seus editores.

No Brasil, o lançamento de Jangada de Pedra foi uma festa interminável. Filas enormes na livraria Timbre e a efusão de beijos e abraços no escritor fizeram-no exclamar: “Luiz, esta gente quer-me matar de amor.” Daí para frente, esse amor dos brasileiros por José Saramago só cresceu, suas visitas se tornaram mais frequentes. A mais recente foi aquando da publicação de A Viagem do Elefante. Ele já estava muito fraco. Ao chegar a minha casa, disse-me que não escreveria mais.

Depois do evento de lançamento, vencida uma fila enorme de autógrafos, fomos ao Rio, para a continuidade dos eventos. Ao pousarmos na cidade, José anunciou para mim, Lili e Pilar, que no voo achara a solução que faltava para Caim, que acabou por ser o seu último livro.

Com as melhores lembranças, o amor, e minha saudade. Maldita palavra, tão portuguesa, que agora ficará associada ao meu amigo. Mas saudade não tem remédio, não é, José?”

Links sobre Saramago na imprensa portuguesa:

http://www.publico.pt/Cultura/depoimentos-ao-publico-sobre-saramago_1442599.

http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1598883

O que nos fará falta

Perdemos um escritor importante. Perdemos, principalmente, em minha opinião, um homem fundamental.

Saramago soube usar seu lugar de destaque – conquistado principalmente depois do Nobel – para denunciar as mentiras e as atrocidades da globalização, o cinismo das elites, a hipocrisia da Igreja, o fascismo das religiões, o empobrecimento da linguagem nas mídias atuais, a miséria humana em todos os seus aspectos, dos particulares aos gerais.

Ele ocupou um lugar que muitos escritores e intelectuais evitam ocupar por receio de comprometerem sua trajetória toda com palavras eventuais, opiniões transitórias, verdades efêmeras. Saramago não hesitou. Seus pronunciamentos lúcidos têm uma marca humana, secular, mundana – a fala de alguém que vive e sente os problemas dos outros mortais. Essa é para mim sua maior importância.

A figura de referência que flagra as questões na hora e é capaz de dar palavras fortes e verdadeiras a elas, com análises penetrantes e refinadas: essa figura é que nos fará falta.

Alguns links interessantes:

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/753540-escritores-artistas-e-politicos-lamentam-a-morte-de-saramago.shtml

http://www.josesaramago.org/saramago/