Cinefilia – dicas de filmes

No dia em que descobrirmos o mistério da poesia, descobriremos também o mistério da música.

É mais ou menos com essas palavras que o estudioso Segismundo Spina aborda a relação íntima que existe entre essas duas artes em seu livro Na madrugada das formas poéticas (Ateliê, 2002).

Para quem se interessa por essa riquíssima relação é fundamental assistir ao documentário Palavra encantada (2009), de Helena Solberg.

Valendo-se de entrevistas e depoimentos de mestres da música brasileira, tanto os clássicos quanto os mais jovens, o filme explora a profícua ligação entre palavra falada e palavra cantada.

O tema é tão bom e tão rico que poderia render uma verdadeira série, com muitas horas de filme. O único senão que fica para o documentário é, portanto, o “gostinho de quero mais”.

Vejam aqui o trailer:

“Desnorteio”, de Paula Fábrio, na TV São Judas

O grande romance de estreia da escritora Paula Fábrio – uma das experiências mais intensas que tive como leitor nos últimos tempos – é abordado, ao lado de Boatos do Corpo, de Marcelo Donatti, no programa Arteletra Literatura.

Os dois títulos foram publicados pela editora Patuá, que vem realizando com protagonismo um investimento sério em autores estreantes.

Confiram a entrevista.

“O cão e o frasco”, de Charles Baudelaire

Baudelaire retratado por um dos maiores fotógrafos de seu tempo, Félix Nadar

Considerado o fundador da literatura moderna, pai do movimento simbolista e guru dos escritores malditos, Charles Baudelaire (1821-1867) é uma dessas figuras que imprimem o seu nome a uma época: muitos estudiosos dividem a literatura entre o que se fez antes e o que se fez depois da produção do gênio francês.

Os livros mais importantes de Baudelaire são As flores do mal (1857) e Spleen de Paris (1869). O primeiro é um conjunto de poemas, uma verdadeira revolução de estilo e de temperamento poético. No segundo, uma publicação póstuma, Baudelaire fez uma combinação entre poesia e prosa que consagrou um novo gênero literário: a prosa poética (não por acaso, o nome original do livro era Pequenos poemas em prosa), que exerceu e ainda exerce grande influência em todos os seus sucessores.

O cão e o frasco, que reproduzo aqui (na famosa tradução de Aurélio Buarque de Hollanda), é um dos textos mais importantes do Spleen de Paris e sem dúvida uma das obras mais emblemáticas desse momento de divórcio entre produção artística e gosto das multidões. Produzida no nascedouro da cultura de massa, no início do que Walter Benjamin cunhou como “era da reprodutibilidade técnica”, a literatura de Baudelaire foi produzida como um ato de voluntária provocação, como um imenso prazer em desagradar, abrindo um debate que sem dúvida alguma ainda está vivo.

Boa leitura.

O cão e o frasco

— Meu belo cão, meu cãozinho, meu querido totó, vem cá, vem respirar um excelente

perfume comprado no melhor perfumista da cidade.

E o cão, agitando a cauda, o que é, suponho, entre esses pobres seres, o sinal

correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e, curioso, põe o nariz úmido no frasco

destampado; mas subitamente, recuando de susto, late contra mim, à maneira de reprimenda.

— Ah, miserável cão! se eu te houvesse oferecido um embrulho de excrementos, decerto o

cheirarias com delícia e talvez o tivesses devorado. Assim, ó indigno companheiro de minha triste

vida, tu te assemelhas ao público, a quem nunca se devem apresentar perfumes delicados, que o

exasperam, mas imundícies cuidadosamente escolhidas.

(BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas e prosa. Rio de Janeiro, José Olympio, 1950 – trad. Aurélio Buarque de Hollanda. p. 25)

Trem sujo da Leopoldina

Nicholas Rabinovitch, aluno meu, indicou-me este vídeo: declamação pungente do poema “Trem sujo da Leopoldina”, de Solano Trindade, por Raquel Trindade, sua filha. O texto pode ser inscrito, como o próprio Nicholas sugeriu, na larga e riquíssima tradição lírica do trem como símbolo da modernidade brasileira.

A dica surgiu numa aula sobre o famosíssimo “Trem de ferro”, de Manuel Bandeira, e sua relação com o “O trenzinho do caipira”, de Villa-Lobos, e ainda com a adaptação da obra de Villa-Lobos para MPB, realizada por Edu Lobo e Ferreira Gullar.

Poderíamos acrescentar a essa tradição o melancólico “Trem das onze”, de Adoniran Barbosa e talvez muitas outras obras, mas fiquemos por ora com com esta valiosíssima dica do rapaz, um texto e uma declamação imperdíveis:

“Liberdade”, de Paul Éluard

Mais do que um poema, este texto de Paul Éluard, para mim e muitos outros leitores, é uma espécie de oração:

Liberdade

Nos meus cadernos de escola

Sobre a carteira nas árvores

Sobre a neve sobre a areia

Grifo teu nome

Em toda página lida

Em toda página em branco

Sem papel na pedra ou cinza

Grifo teu nome

Sobre as gravuras douradas

Sobre as armas dos guerreiros

Sobre a coroa dos reis

Grifo teu nome

Na floresta e no deserto

Sobre os ninhos sobre as gestas

Nos ecos da minha infãncia

Grifo teu nome

Nas maravilhas das noites

No pão branco das jornadas

Nas estações de noivado

Grifo teu nome

Nos fiapos de azul-celeste

No tanque solar bolor

No lago lua vibrante

Grifo teu nome

Nos campos nos horizontes

Nas asas dos passarinhos

Sobre os moinhos de sombras

Grifo teu nome

Em cada sopro de aurora

Sobre o mar sobre os navios

Na insensatez das montanhas

Grifo teu nome

Nas nuvens soltas revoltas

Na tormenta transpirada

Na chuva insistente e boba

Grifo teu nome

Sobre as formas cintilantes

Nas campânulas de cores

Por sobre a verdade física

Grifo teu nome

Sobre as veredas despertas

Nos caminhos desdobrados

Sobre as praças transbordantes

Grifo teu nome

Na lâmpada que se acende

Na lâmpada que se apaga

Nas casas cheias de gente

Grifo teu nome

No fruto cortado em dois

O do espelho e o do meu quarto

Na concha sem mim depois

Grifo teu nome

No meu cão terno e guloso

Mas sempre de orelha em pé

E patas destrambelhadas

Grifo teu nome

No trampolim da minha porta

Nos objetos familiares

Nas línguas do lume bento

Grifo teu nome

Em toda carne acordada

Na fronte dos meus amigos

Em cada mão que me afaga

Grifo teu nome

Na vidraça das surpresas

Sobre os lábios expectantes

Muito acima do silêncio

Grifo teu nome

Nos refúgios descobertos

Nos maus faróis desmontados

Nas paredes do meu tédio

Grifo teu nome

Sobre a ausência do desejo

Sobre a solidão desnuda

Nos descaminhos da morte

Grifo teu nome

No retorno da saúde

No risco que se correu

Na esperança sem lembrança

Grifo teu nome

E pelo poder de um nome

Começo a viver de fato

Nasci pra te conhecer

E te chamar

Liberdade

(Tradução de M. C. Ferreira)

Obra de René Magritte, mais um surrealista a cavar fissuras na "razão vigilante" e a nos convidar para o voo cego da utopia