“Rio de-Janeiro, Minas”, de Marily da Cunha Bezerra (1991)

Esse curta-metragem, que reencontrei um dia destes no Youtube, é a adaptação de um trecho do romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa.

Vale a pena conferir.

O curta pode também ser encontrado no site Porta Curtas

http://portacurtas.org.br/filme/?name=rio_de_janeiro_minas5235

Cor local (5)

O cortiço, de Aluísio Azevedo (1890)

Aluísio Azevedo (São Luís do Maranhão, 1857 – Buenos Aires, 1913) era um escritor meticuloso. Seus escritos testemunham um raro tino para a observação, uma habilidade extraordinária de enxergar a realidade e conseguir reproduzi-la de forma viva e atraente. Essa habilidade  deve-se ao fato de o autor, ainda moço, ter trabalhado como caricaturista para jornais e revistas. Tem a ver também com o empenho com que procurava dominar o material de suas histórias: sabe-se que tinha o hábito de frequentar os ambientes que descrevia em seus livros (1), como se fosse um jornalista, ou, melhor ainda, como se fosse um antropólogo. Tinha como alvo de suas histórias naturalistas o trabalhador pobre, o mulato, o imigrante, o pequeno-burguês e para observá-los empunhava à frente de seus olhos uma eficiente lupa.

Aluísio Azevedo na época em que escreveu "O cortiço"

A obra desse mestre do retrato divide-se em dois grupos bem distintos: as histórias que ele escrevia para sobreviver, de cunho romântico, e as histórias que ele escrevia para denunciar os horrores que flagrava em seu meio – o Brasil do final do século XIX -, de caráter naturalista.

Entre o segundo grupo de histórias, estão obras como O mulato, Casa de pensão e O cortiço, que consagraram o escritor como um dos mais importantes de nossa literatura. Esses três livros representam, em nossa tradição literária,  o que há de mais precioso na formação de uma consciência crítica acerca da realidade nacional. E são modelares no que diz respeito à fatura de romances: início, desenvolvimento – com suas muitas digressões – e fim, sempre com o tal elemento surpresa, cuidadosamente amarrados – causa com consequência alinhavadas impecavelmente, o narrador atado firme ao leme de sua narrativa, evitando que ela mude sua rota ou que perca seu rumo. Uma consciência vigilante e inteligente que coordena atentamente as múltiplas peças de sua trama.

O cortiço, entre todas as obras de Azevedo, é a que tem trama mais vibrante e desenho mais expressivo de personagens. Elas não chegam a ser complexas e as transformações que ocorrem em seu comportamento obedecem de modo servil a fórmula da estética naturalista, cuja ordem é “o homem é produto do meio”. Mas dentro dessa simplicidade de traços (desses estereótipos, diriam alguns) essas personagens se movem vigorosamente:  Firmo, o mulato  “pachola” e boa-vida, desenho básico do malandro brasileiro; Rita Baiana, mulata folgazã e corajosa, fôrma das figuras femininas de Jorge Amado (Tieta e outras), independente e sobretudo sensual; o homem-rato João Romão, português explorador repugnante – essas e outras personagens aparecem como criaturas vivas e apaixonam o leitor.

Ao condenar as condições de vida dos pobres, em tom de denúncia social, o narrador não deixa de, ao mesmo tempo, emitir juízo de valor a respeito de suas ações. Quando rotula de bondoso o trabalhador português antes de ele abrasileirar-se e condena o Jerônimo já abrasileirado, além de cometer preconceito – ao associar brasilidade a imoralidade -, valoriza preceitos burgueses tais como produtividade, vida em família, casamento, etc. O Jerônimo “bom” era o homem que produzia exemplarmente, um trabalhador dedicado, quase um operário-padrão. O outro, o Jerônimo “vicioso”, prendia-se apenas aos prazeres, era um vagabundo beberrão. Fica para o leitor então, no mínimo, a pergunta: o correto seria Jerônimo submeter-se aos desígnios do sistema, isto é, da exploração da mão de obra barata? O explorado alienado, seria ele aceitável para o narrador? Não parece ser essa propriamente a defesa de Azevedo, mas a narrativa não faz qualquer movimento para prová-lo. Ao contrário, pelo que mostra a trama, Jerônimo passou a ser “mais um” entre outros pobres de costumes viciosos. Em contato com a podridão  moral do meio (Brasil), “misturando-se” a gente  como Rita Baiana (por quem se apaixona) e Firmo (a quem assassina), brasileiros, pobres e mulatos, gente apresentada como degradada, a retidão de Jerônimo se afrouxa e ao final desaparece. A mensagem que fica então, ainda que de modo indireto (e, muito provavelmente, involuntário) (2), é a de que o pobre que se desvia do caminho do trabalho, deixando-se levar pelos convites dos sentidos imposto pelo meio (Brasil), corrompe-se.

A grandeza de O cortiço garante-se, contudo, pela escolha do ambiente, pela preocupação em abordar a sério (3) – ainda que de modo estereotipado – a vida dos mais pobres, procurando, como Émile Zola (1840-1902), pai da escola naturalista,  “Pôr a nu as chagas daqueles que vivem mais abaixo.” Além disso, a já comentada capacidade de dar vida às personagens – o modo como Azevedo “desenha” suas criaturas –  garante para o leitor uma experiência agradável, ainda para o leitor contemporâneo, tão habituado (ou viciado?) à linguagem visual.

O Brasil da época de O cortiço é o país que se europeizava e proclamava a República. O mesmo país que, paradoxalmente, tão recentemente abolira a escravidão. A massa de ex-escravos, juntamente a brancos pobres, constituía o grupo de desempregados ou subempregados que atiçaria o medo das classes abastadas. Tal como ocorria nas cidades de Londres e Paris (4), a presença da população pobre na zona urbana do Rio de Janeiro era motivo de grande preocupação para as elites e autoridades cariocas. Além de enfeiarem a cidade, que procurava a todo custo exibir a forçada modernização do Brasil, as classes populares praticavam furtos, crimes e poderiam se insurgir a qualquer momento contra o poder estabelecido (tal como de fato aconteceu, por exemplo, em 1904, na chamada Revolta da Vacina). As classes populares representavam aquilo de pior que o Brasil possuía: sua estrutura social de extremos contrastes.

Foto de um cortiço no Rio de Janeiro do começo do século XX

Publicado em 1890, O cortiço é um excelente retrato não só de seu tempo, quando as construções em forma de cortiço (5) começam a tomar conta de centros urbanos brasileiros, como Rio de Janeiro e São Paulo. Mas é também uma descrição de todo o processo de urbanização do século XX, caracterizado pelas habitações precárias – como os tão conhecidos barracos das favelas. Os cortiços ainda existem em nossa sociedade: São Paulo, por exemplo, abriga em torno de 600 mil moradores de cortiços (6).

Interior de um cortiço da São Paulo atual

Em meu percurso como leitor, conheci relativamente cedo Aluísio Azevedo. O primeiro contato foi na escola, na sétima série (hoje oitavo ano), pela indicação do professor Dario Macri (por onde andará essa criatura tão importante em minha vida?). Ele indicou-nos Casa de pensão como leitura obrigatória e referiu-se a O cortiço. Li e reli os dois livros várias vezes durante a minha adolescência. Já adulto, li O mulato e descobri que o escritor maranhense foi decisivo para a formação de outro escritor nordestino: Graciliano Ramos (meu escritor favorito). Isso só serviu para me deixar ainda mais interessado pela obra de Azevedo.

(1) Há quem diga que esteve inclusive envolvido em episódio de violência com uma de suas personagens mais famosas, o capadócio Firmo, de quem aliás, segundo afirmam, Aluísio teria levado uma navalhada.

(2) O fato de ser ou não voluntário não significa rigorosamente nada para a discussão literária: a obra deve ser lida pelo que apresenta e não pelo que o autor possivelmente pretendeu apresentar. Alguns artistas, como o cineasta José Padilha, que esbravejou contra aqueles que, segundo ele,  não entenderam suas reais intenções em Tropa de Elite (2007), nem sempre levam em conta esse princípio, a meu ver fundamental.

(3) Em Mimesis (obra monumental e das mais importantes da teoria literária),  Erich Auerbach propõe uma história da literatura baseada em sua capacidade de representar a realidade a partir das tensões sociais. A obra dá destaque para o século XIX, visto como momento em que se obtém o auge desse processo: para Auerbach, esse auge tem a ver com o fato de que, somente a partir do século XIX, aparece regularmente uma abordagem séria do homem pobre, que só então tem uma presença sistemática como protagonista de tramas  literárias.

(4) Para se ter um contato mais profundo com a formação das modernas Paris e Londres, indico a rápida e agradabilíssima leitura de Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza, de Maria Stella M. Bresciani (Brasiliense, 1982).

(5) De acordo com o Dicionário Houaiss, a palavra cortiço deriva de cortiça e significa “peça feita de cortiça ou de qualquer outra casca de árvore, para alojar colônias de abelhas; colmeia” e, por extensão, “casa que serve de habitação coletiva para a população pobre; casa de cômodos, cabeça de porco”. Cabeça de porco eu não conhecia, mas já ouvi, entre meus tios do interior, a expressão boca de porco, para descrever moradia ou estabelecimento comercial de baixa qualidade.

(6) Dado encontrado no site Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos:  http://www.gaspargarcia.org.br/coticos.asp

“Um escritor em autoexílio”

Há mais ou menos dois anos conheci esse romance do escritor carioca Flávio Izhaki.

Reproduzo aqui a sinopse que encontrei no próprio blog do autor:

“Um escritor em autoexílio que encontra seu livro num sebo, cinco anos após a publicação deste, com as margens do texto todas anotadas com comentários cáusticos. Felipe Laranjeiras faz da tentativa de achar essa pessoa que escreveu no exemplar encontrado o ponto de partida para que ele consiga retomar sua vida, que ficou estagnada desde que o livro foi lançado com resenha negativa no jornal. Antes da publicação do livro, Felipe Laranjeiras era um escritor promissor, namorava, e depois do lançamento acaba preso no próprio fracasso, exilando-se voluntariamente em Curitiba, fugindo de todos e de si próprio. Com a descoberta de Desencanto no sebo, o livro que o tirou da cidade acaba o trazendo de volta ao Rio, onde tenta retomar sua vida do ponto que ela parou.”

http://decabecabaixa.wordpress.com/

A prosa de Izhaki é leve, porosa, extremamente agradável.

Destaco como um dos aspectos marcantes do livro o olhar sobre a paisagem urbana. É incrível como o narrador é capaz de fisgar pequenos elementos da cidade (Rio de Janeiro sobretudo, para onde o herói retorna, como se estivesse diante de uma cidade ressuscitada) de modo a re-significar sua trajetória pessoal. A cidade aparece no livro como um elemento especial, como uma experiência íntima e, por isso mesmo, como uma experiência possível.