Guimarães Rosa, esse rio infinito

No último dia 28 comemoraram-se os 103 anos de nascimento, em Cordisburgo, Minas Gerais, de um dos maiores prosadores do século XX, João Guimarães Rosa, autor de um verdadeiro monumento à língua portuguesa, Grande sertão: veredas, publicado em 1956. É tentador, nesse começo de férias escolares, re-embrenhar-me no vasto mundo inventado por Rosa, reencontrar seu labirinto de espelhos, onde bem e mal, Deus e Diabo, sangue e palavra se misturam. Mas há  outras tantas leituras agendadas, e pretendo ser fiel a elas.

Não custa nada, porém, “arranhar” mais um pouquinho a trilha rosiana, deixando as últimas sugestões do Prefácio antes de dar por encerrado oficialmente o primeiro semestre (embora esta postagem seja de julho).

Nas últimas semanas de junho, li com meus alunos do terceiro ano alguns trechos do romance de Rosa e, ao final do processo, tivemos a oportunidade de ver algumas das muitas releituras do mestre Guimarães que a nossa tradição musical realizou.

As que vimos e que indico aqui são as seguintes:

Desenredo, composta por Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro. Belíssima releitura da obra de Rosa, a partir do título do famoso conto das Primeiras estórias (1962).

Outras duas admiráveis releituras do autor de Cordisburgo foram gravadas por Caetano Veloso em seu Circuladô (1991), disco que considero uma verdadeira obra-prima:

Circuladô de fulô, composta por Haroldo de Campos. Maravilhosa engenharia concretista a partir da poética de Guimarães, com um arranjo que merece elogio à parte.

A terceira margem do rio, composta por Caetano Veloso e Milton Nascimento. Versão musical do consagrado conto A terceira margem do rio, presente também em Primeiras estórias. Essa versão musical  do conto de Rosa, além de belíssima em si mesma, aponta preciosas  percepções críticas e interpretativas da obra de Rosa.

Bem, caros queridos, o Prefácio volta agora só em agosto, provavelmente com comentários sobre leituras de férias, as minhas e as suas.

Fica já feito o convite.

Anúncios

Graciliano aos onze anos

Em 1889, a família de Graciliano Ramos deixa a fazenda Pintadinho, em Buíque, no sertão de Pernambuco, por conta da seca cruel que devastava a região, e parte para Viçosa, pequena cidade no interior de Alagoas. A família passa a viver dos lucros de uma loja de tecidos, ferragens e miudezas chamada Sincera, ao fundo da qual, anos mais tarde, um Graciliano já viúvo e taciturno criaria algumas das personagens mais célebres da nossa literatura.

O menino Graciliano Ramos tomara amor ao mundo das letras por meio de sua prima Emília, e conseguia emprestados os livros do tabelião Jerônimo Barreto. Em Infância, livro imperdível do grande escritor alagoano, há um detalhamento belíssimo desse primeiro contato de Graciliano com os clássicos da literatura, especialmente José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo e Júlio Verne, que deixariam extasiada sua imaginação infantil com as aventuras de índios, reis, príncipes, donzelas e vilões que traziam.

Aos onze anos de idade Graciliano Ramos e seu primo Cícero de Vasconcelos fundam, a conselho de um professor dos meninos, um jornal no Internato Alagoano chamado O dilúculo. É neste jornal que Graciliano Ramos publica pela primeira vez um texto seu.

Interessante observar como algumas características marcantes de sua prosa madura já aparecem aí: a linguagem direta, sintética, seca, a voz contundente e o olhar atento às misérias alheias.

Reproduzo abaixo o texto do menino Graciliano:

O pequeno pedinte

Tinha oito anos.

A pobrezinha da criança sem pai nem mãe, que vagava pelas ruas da cidade pedindo esmola aos transeuntes caridosos, tinha oito anos.

Oh! Não ter um seio de mãe para afogar o pranto que existe no seu coração.

Pobre pequeno mendigo.

Quantas noites não passara dormindo pelas calçadas exposto ao frio e à chuva, sem o abrigo do teto.

Quantas vergonhas não passara quando, ao estender a pequenina mão, só recebia a indiferença e o motejo. Oh! Encontram-se muitos corações brutos e insensíveis.

É domingo.

O pequeno está à porta da igreja, pedindo, com o coração amargurado, que lhe deem uma esmola pelo amor de Deus.

Diversos indivíduos demoram-se para depositar uma pequena moeda na mão que se lhes está estendida.

Terminada a missa, volta quase alegre, porque sabe que naquele dia não passará fome.

Depois vêm os dias, os meses, os anos, cresce e passa a vida, enfim, sem tragar outro pão a não ser o negro pão amassado com o fel da caridade fingida.