Cento e vinte anos de resistência

Em 27 de outubro de 1892, nasceu Graciliano Ramos, meu escritor brasileiro favorito.

O primeiro livro de Graciliano que li era um exemplar já malhado pelo tempo, que passou de meu avô para minha mãe: um Vidas secas de 1969, da editora Martins. O volume estava protegido com uma capa adicional de plástico, para que resistisse ao tempo. Resistiu. Está até hoje  inteiro.

Resistência, aliás, é uma palavra boa para o velho Graça. Seu estilo seco, duro, direto, compacto, verrumante, é capaz de fisgar adolescentes do Brasil de hoje, nas escolas e fora delas, como uma obra viva.

Resistência serve também para lembrar a enorme indisposição de Graciliano a ceder, na escrita, ao estilo aparatoso, rebuscado, cheio de pompa que predominava no Brasil da virada do XIX para o XX. Resistir, recusar esse estilo significou, na literatura e na vida de Graciliano, opor-se à falsa inteligência, a falsa complexidade, cujo fundo é a enganação, a mentira, a ostentação e a opressão. A falsa sofisticação das elites brasileiras de sempre que, por trás de seu verniz arrogante, esconde o espírito obtuso, o egoísmo indecente, a compreensão curta. Contra isso Graciliano lutou, obsessivamente.

Resistência ao arbítrio e ao totalitarismo do Estado de Vargas, que  atirou Graciliano na cadeia, sem qualquer acusação formal. Resistência também ao sectarismo do PCB, que lhe exigia uma literatura laudatória, quando para Graça o mais honesto, na ficção, era indagar. Mas na vida, como cidadão, em resistência ao comodismo e ao abstencionismo, Graciliano filiou-se ao PCB, defendendo abertamente o comunismo.

Um herói nacional? Tudo o que Graça mais detestaria. Um homem que se sentiu – em toda a sua estada no Rio de Janeiro e em suas (poucas) perambulações pelo mundo – eternamente sertanejo: rústico, seco, duro, como a sua prosa. Uma prosa que seguramente permanecerá, como resistência à pompa e às leituras simplificadoras da realidade.

***

Nota:

Em comemoração a esses 120 anos, a Boitempo Editorial acaba de lançar uma versão ampliada da brilhante biografia de Dênis de Morais O Velho Graça (já referida aqui no Prefácio).

Anúncios

“Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, de Beto Brant

Beto Brant é o tipo de diretor com quem mantenho uma fidelidade quase canina.

Vi a maioria de seus filmes no cinema e, mesmo sendo ultimamente um cinéfilo mais amigo das sessões caseiras – na tv ou dvd – que das salas de exibição, na primeira oportunidade que tive fui assistir ao seu novo filme, que está em cartaz ainda em algumas salas de São Paulo.

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é uma adaptação do romance homônimo de Marçal Aquino. Dizer qual dos dois é melhor – o livro ou o filme – é bastante difícil. É também inútil: o filme é uma obra à parte, autônoma.

Claro que explorar a relação entre os dois – livro e filme – pode ser agradável e seguramente enriquecedor, para o cinema e para a literatura. Aliás, na produção de Brant, o tema da adaptação chega a ser obrigatório: suas duas obras-primas O invasor (2001) e Crime delicado (2005) são inspiradas em narrativas literárias, de Marçal Aquino e Sérgio Sant’Anna, respectivamente.

O que considero equivocado é o espectador buscar, numa obra cinematográfica, a exata experiência que viveu ao ler um livro. Fidelidade, no campo da adaptação artística, é uma palavra duvidosa, mesmo em se tratando de Marçal Aquino, um escritor que faz seus livros quase como roteiros de cinema. É sempre bom lembrar que a arte fílmica é algo de outra natureza e, sendo o filme bom ou ruim, deve ser julgado pelo que alcança como objeto relativamente autônomo, desprendido de sua fonte inspiradora.

O livro de Aquino é o mais expressivo para mim de toda a sua obra. Um texto literário envolvente, impactante, devorador. Não indicá-lo ao redigir este post é praticamente impossível. Mas – embora seja essa a vontade da maioria esmagadora dos amantes da literatura, eu incluso – a leitura anterior do livro de Aquino é dispensável para a fruição do filme de Brant. Aliás, nada impede que a primeira experiência seja ver o filme. Nada impede também que ela seja a única.

O que procuro reforçar aqui é a importância de valorizarmos a obra cinematográfica pelo que ela tem a oferecer por si mesma. É muito difundida a ideia de que as adaptações cinematográficas em geral “estragam” os livros em que se inspiram. Em resposta, chamo a atenção para alguns casos expressivos como: Vidas secasA hora da estrelaSão Bernardo, Memórias do cárcere, Céu de estrelas (para ficar apenas em obras brasileiras): se não podemos falar em equivalência ou igualdade qualitativa (mensuração no mínimo ousada), mais difícil é dizer que são filmes que “estragaram” os livros adaptados.

Interessante lembrar a opinião do diretor inglês Alfred Hitchcock, que, com sua característica espirituosidade, dizia que um de seus talentos era transformar maus livros em excelentes filmes…

Enfim, o filme de Beto Brant é um espetáculo à parte, não precisa da obra de Aquino para contentar o espectador.

Minha dica portanto é: vá ao cinema e veja o grandioso filme realizado pelo mais que comprovado talento de Beto Brant, com um elenco primoroso (destaque para a atuação de Gero Camilo e José Carlos Machado, além dos protagonistas, obviamente) e a característica capacidade de Brant de abordar temas decisivos  e profundos – relações humanas e dramas sociais – com a complexidade que eles merecem, sem espaço para a fetichização da violência (Cidade de Deus) ou a visão paternalista da miséria (Central do Brasil) e sem espaço também para maniqueísmos.

Beto Brant sempre acerta no tom.  Por isso, para mim, é o maior, o mais importante cineasta brasileiro de nossos dias.

Abaixo o trailer do filme:

Carta de Graciliano para Antonio Candido, em 1945

Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1945

Antonio Candido:

Só agora, lido o último artigo da série que V. me dedicou, posso mandar-lhe estas linhas e conversar um pouco. Muito obrigado. Mas não lhe escrevo apenas por causa dos agradecimentos: o meu desejo é trazer-lhe uma informação ajustável ao que V. assevera num dos seus rodapés.

Arriscar-me-ia a fazer restrições ao primeiro e ao segundo, se isto não fosse considerado falsa modéstia. E impertinência: com as vivas atenções dispensadas a meu romance de estreia, foram apontados vários defeitos, o que de certo modo atenua a parcialidade otimista.

Onde as nossas opiniões coincidem é no julgamento de Angústia. Sempre achei absurdos os elogios concedidos a este livro, e alguns, verdadeiros disparates, me exasperaram, pois nunca tive semelhança com Dostoiévski nem com outros gigantes. O que eu sou é uma espécie de Fabiano, e seria Fabiano completo se a seca houvesse destruído minha gente, como V. muito bem reconhece.

Por que é que Angústia saiu ruim? Diversas pessoas procuraram razões, que não me satisfizeram. Olívio Montenegro usou frases ingênuas e pedantes, misturando ética e estética. João Gaspar Simões afirmou que o americano é incapaz de introspecção – e com esta premissa arrasou-me. Veja só. Nada há mais falso que um silogismo. Álvaro Lins veio com aquele negócio de tempo metafísico. Mas isso diz pouco, não é verdade? Se eu constituísse uma exceção à regra de João Gaspar Simões e contentasse Olívio Montenegro e Álvaro Lins,Angústia não deixaria de ser um mau livro, apesar de haver nele páginas legíveis.

Por que é mau? Devemos afastar a ideia de o terem prejudicado as reminiscências pessoais, que não prejudicaram Infância, como V. afirma. Pego-me a esta razão, velha e clara: Angústia é um livro mal escrito. Foi isto o que o desgraçou. Ao reeditá-lo, fiz uma leitura atenta e percebi os defeitos horríveis: muita repetição desnecessária, um divagar maluco em torno de coisinhas bestas, desequilíbrio, excessiva gordura enfim, as partes corruptíveis tão bem examinadas no seu último artigo. É preciso dizermos isto e até exagerarmos as falhas: de outro modo o nosso trabalho seria inútil.

E aqui vem a informação a que me referi. Forjei o livro em tempo de perturbações, mudanças, encrencas de todo o gênero, abandonando-o com ódio, retomando-o sem entusiasmo. Matei Julião Tavares em vinte e sete dias; o último capítulo, um delírio enorme, foi arranjado numa noite. Naturalmente seria indispensável recompor tudo, suprimir excrescências, cortar pelo menos a quarta parte da narrativa. A cadeia impediu-me essa operação. A 3 de março de 1936 dei o manuscrito à datilógrafa e no mesmo dia fui preso. Nos longos meses de viagens obrigatórias supus que a polícia me houvesse abafado esse material perigoso. Isto não aconteceu – e o romance foi publicado em agosto. Achava-me então na sala da capela. Não se conferiu a cópia com o original. Imagine. E a revisão preencheu as lacunas metendo horrores na história. Só muito mais tarde os vi. Um assunto bom sacrificado, foi o que me pareceu.

Esta explicação tem apenas o fim de exibir-lhe o prazer que me causou o seu juízo. Quando um modernista retardatário e pouco exigente me vem seringar amabilidades a Angústia, digo sempre: – “Nada impede que seja um livro pessimamente escrito. Seria preciso fazê-lo de novo.”

Permita-me que apenas toque nos seus estudos relativos a São BernardoVidas secas Infância. Ser-me-ia difícil estender-me sobre eles. O que faço é agradecer. Por muito vaidoso que sejamos, às vezes certas opiniões nos amarram: diante delas ficamos atrapalhados e sem jeito.

Adeus, Antonio Candido. Abraços do admirador e amigo

Graciliano Ramos

Literatura sem bijuterias

Ainda no assunto leituras de férias, acabei de ler ontem O velho Graça, de Dênis de Morais, uma biografia sobre Graciliano Ramos, escritor que venho há anos relendo e estudando, principalmente seu romance Angústia.

Notícias sobre o livro de Morais. É uma obra tocante e admirável, fruto de pesquisa cuidadosíssima e de intensa sensibilidade de leitor, como se espera de uma boa biografia:  sensível sem ser irresponsável e fundamentada sem ser fria. Morais consegue isso.

Abordando o homem e o artista Graciliano Ramos, o autor acaba construindo um panorama da primeira metade do século XX, no Brasil e no mundo.

Curioso como a vida de Graciliano pode ser dividida em duas partes, uma anterior à sua prisão,  quando era um autor praticamente desconhecido e vivia no Nordeste, a maior parte do tempo em cidades alagoanas como Palmeira dos Índios e Maceió e outra posterior à prisão, quando se instalou no Rio de Janeiro e ali começou uma existência mais cosmopolita, com ampla interlocução entre a intelectualidade da época, chegando mesmo, já no fim da vida, a conhecer a União Soviética, a França e a Argentina.

Na primeira fase Graciliano é o humanista apartidário, apenas simpático a ideias progressistas, concentrado em construir seus “bichos subterrâneos”, suas grandes obras de ficção em primeira pessoa: Caetés, São Bernardo e Angústia. Na segunda fase, é o simpatizante e o militante do PCB, autor de um romance em terceira pessoa e duas obras-primas da literatura memorialística: Infância e Memórias do cárcere, que mantêm a intensidade narrativa das obras de ficção, apenas tomando como protagonista a sua própria pessoa. Na primeira fase, Graciliano parece mais ocupado em conquistar seu espaço imaginativo, cultivando monstros pessoais, e depois, distanciado daquelas criaturas matutas, já contextualizado no ambiente urbano e fervilhante do Rio dos anos 30, 40 e 50, parece olhar para o sertão de modo mais distanciado, mesmo em Vidas secas, que ele narra em terceira pessoa, e o gênero das memórias atende perfeitamente à necessidade de recordar e reconstituir o que já não é palpável.

Tocante conhecer os arroubos afetuosos do homem à primeira vista carrancudo. Delicioso confirmar que sempre zelou pela dignidade e pela coerência e que nunca traiu suas convicções mais profundas. Triste vê-lo definhando, ao fim do livro, pobre como um pedinte, mas sempre ao lado da encantadora esposa Heloísa e de alguns de seus filhos, como o escritor Ricardo Ramos, que para mim é outro destaque na obra de Morais.

Fechei o livro ainda mais intrigado com a figura desse homem, meu escritor brasileiro predileto. E hoje, novamente remoendo esse espaço seco e arredio que é o universo de Graciliano Ramos, encontrei este vídeo e decidi postar aqui para que outros conheçam parte da vida desse autor decisivo na literatura e na história do Brasil.

Dados sobre o vídeo encontrados no excelente site Mídias na Educação – NCE – Vídeos (link neste blog):

Graciliano Ramos – literatura sem bijouterias
Documentário da série Mestres da Literatura da TV Escola. Via Domínio Público.

Sinopse
A trajetória de Graciliano Ramos, de prefeito de sua cidade natal até tornar-se escritor. As atribulações pessoais e políticas de Graciliano. Sua obra e seu estilo literário refinado, marcada pelo romance regionalista. O programa mostra uma análise sobre seu principal livro, Vidas Secas.

Ficha Técnica
Direção e roteiro: Hilton Lacerda
Produção: Malu Viana Batista
Realização: Pólo Imagem e TV PUC para a TV ESCOLA/MEC, 2001
Duração: 20’02”