Um curta de Sabino sobre Drummond

 

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Graciliano Ramos: 60 anos de morte

O ABCD em Revista homenageia o grande escritor alagoano, morto há 60 anos, com “Graciliano Ramos: a escrita concisa e reveladora do Brasil.”

http://www.tvt.org.br/watch.php?id=12664&category=203

Literatura brasileira em Cabo Verde

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A literatura cabo-verdiana estabeleceu um importante diálogo com o Modernismo brasileiro, tanto o dos anos 20 quanto o de 30.

Entre os autores que foram lidos nas ilhas, destacam-se Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queirós, Ribeiro Couto e Manuel Bandeira – este último acabou por se transformar em uma espécie de patrimônio cultural cab0-verdiano a partir principalmente de seu poema Vou-me embora pra Pasárgada:

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

É Osvaldo Alcântara (pseudônimo poético de Baltasar Lopes) quem inicia a série do pasargadismo cabo-verdiano:

Itinerário de Pasárgada

Saudade fina de Pasárgada…

Em Pasárgada eu saberia 

onde é que Deus tinha depositado 

o meu destino…

E na altura em que tudo morre…

(cavalinhos de Nosso Senhor correm no céu;

a vizinha acalenta o sono do filho rezingão;

Tói Mulato foge a bordo de um vapor;

o comerciante tirou a menina de casa;

os mocinhos de minha rua cantam:

Indo eu, indo eu

a caminho de Viseu…)

Na hora em que tudo morre,

esta saudade fina de Pasárgada

é um veneno gostoso dentro do meu coração.

O pasargadismo de Osvaldo Alcântara será entendido como evasionista e escapista, e encontrará críticos: por retratar o homem cabo-verdiano sem apontar soluções para os seus problemas.

Para o escritor e estudioso Manuel Ferreira, no entanto, o pasargadismo deve ser visto como:

“[…] desejo manifestado da fuga à degradada situação colonial que encarcerava o horizonte à juventude pensante e interrogadora. Era um protesto. Um desdém. Não é de mais dizer: era a fuga à erosão colonial, mas não era voltar as costas à cabo-verdianidade.”

Seja como for, os autores da geração seguinte, agrupados em torno da revista Certeza, de 1944, recusarão o dilema ir/ficar, num posicionamento mais assertivo e de engajamento sócio-político mais intenso, como podemos ver nesses versos de Ovídio Martins:

ANTI-EVASÃO

 

Pedirei

Suplicarei

Chorarei

 

Não vou para Pasárgada

 

Atirar-me-ei ao chão

E prenderei nas mãos convulsas

Ervas e pedras de sangue

 

Não vou para Pasárgada

 

Gritarei

Berrarei

Matarei

 

Não vou para Pasárgada

O estatuto dado a Pasárgada nesse caso é diferente: espaço renunciado, abortado dos anseios, renegado como fantasia luxuosa. A escolha do eu-lírico no poema de Ovídio Martins é fincar os pés na terra natal, numa postura ativista.

Saindo da temática do pasargadismo, encontramos outra expressiva manifestação de interesse pelo Brasil neste poema de Jorge Barbosa, umas das mais generosas demonstrações de carinho pelo nosso país:

Você, Brasil

Eu gosto de você, Brasil,

porque você é parecido com a minha terra.

Eu bem sei que você é um mundão

e que a minha terra são

dez ilhas perdidas no Atlântico,

sem nenhuma importância no mapa.

Eu já ouvi falar de suas cidades:

A maravilha do Rio de Janeiro,

São Paulo dinâmico, Pernambuco, Bahia de Todos-os-Santos.

Ao passo que as daqui

Não passam de três pequenas cidades.

Eu sei tudo isso perfeitamente bem,

mas Você é parecido com a minha terra.

 

E o seu povo que se parece com o meu,

que todos eles vieram de escravos

com o cruzamento depois de lusitanos e estrangeiros.

E o seu falar português que se parece com o nosso falar,

ambos cheios de um sotaque vagaroso,

de sílabas pisadas na ponta da língua,

de alongamentos timbrados nos lábios

e de expressões terníssimas e desconcertantes.

É a alma da nossa gente humilde que reflete

A alma de sua gente simples,

 

Ambas cristãs e supersticiosas,

Sentindo ainda saudades antigas

dos serões africanos,

compreendendo uma poesia natural,

que ninguém lhes disse,

e sabendo uma filosofia sem erudição,

que ninguém lhes ensinou.

 

E gosto dos seus sambas, Brasil, das suas batucadas.     

dos seus cateretês, das suas todas de negros,

caiu também no gosto da gente de cá,

que os canta dança e sente,

com o mesmo entusiasmo

e com o mesmo desalinho também…

As nossas mornas, as nossas polcas, os nossos cantares,

fazem lembrar as suas músicas,

com igual simplicidade e igual emoção.

 

Você, Brasil, é parecido com a minha terra,

as secas do Ceará são as nossas estiagens,

com a mesma intensidade de dramas e renúncias.

Mas há no entanto uma diferença:

é que os seus retirantes

têm léguas sem conta para fugir dos flagelos,

ao passo que aqui nem chega a haver os que fogem

porque seria para se afogarem no mar…

 

Nós também temos a nossa cachaça,

O grog de cana que é bebida rija.

Temos também os nossos tocadores de violão

E sem eles não havia bailes de jeito.

Conhecem na perfeição todos os tons

e causam sucesso nas serenatas,

feitas de propósito para despertar as moças

que ficam na cama a dormir nas noites de lua cheia.

Temos também o nosso café da ilha do Fogo

que é pena ser pouco,

mas — você não fica zangado — é melhor do que o seu.

 

Eu gosto, de Você, Brasil.                                          

Você é parecido com a minha terra.

O que é é tudo e à grande

E tudo aqui é em ponto mais pequeno…

Eu desejava ir-lhe fazer uma visita

mas isso é coisa impossível.

Eu gostava de ver de perto as coisas

espantosas que todos me contam

de Você,

de assistir aos sambas nos morros,

de esta cidadezinha do interior

que Ribeiro Couto descobriu num dia de muita ternura,

de me deixar arrastar na Praça Onze

na terça-feira de Carnaval.

Eu gostava de ver de perto um lugar no Sertão,

de apertar a cintura de uma cabocla — Você deixa? —

e rolar com ela um maxixe requebrado.

Eu gostava enfim de o conhecer de mais perto

e você veria como é que eu sou bom camarada

 

Havia então de botar uma fala

ao poeta Manuel Bandeira

de fazer uma consulta ao Dr. Jorge de Lima

para ver como é que a poesia receitava

este meu fígado tropical bastante cansado.

Havia de falar como Você

Com um i no si

— “si faz favor —

de trocar sempre os pronomes para antes dos verbos

— “mi dá um cigarro!”.

Mas tudo isso são coisas impossíveis, — Você sabe?

Impossíveis.

De acordo com Simone Caputo Gomes, essa aproximação de Cabo Verde com a literatura brasileira pode ser explicada  assim:

“Ao assumir a afinidade com o Brasil e sua cultura mestiça e autônoma, os escritores […] evidenciaram a sua determinação em refletir-se em (e por meio de) outros espelhos, mais próximos porque detentores de um itinerário histórico igualmente colonizado.”

Bem, as leituras lusófonas prosseguem por aqui. Logo mais haverá post para as leituras de férias.

90 de 22 (3) Oswald de Andrade, por Antonio Candido, na FLIP de 2011

Antonio Candido, um dos maiores intelectuais brasileiros, produziu vários estudos sobre Oswald de Andrade, explorando tanto a vida quanto a obra do autor, destacando aspectos curiosos sobre o excêntrico e polêmico poeta com quem conviveu e de quem foi amigo.

Abaixo, breves depoimentos colhidos pela reportagem do Estadão durante a FLIP DE 2011, que teve Oswald de Andrade como homenageado.  São palavras sinceras e afetuosas de alguém que viveu (além de estudar) um dos processos mais significativos da história de nossa cultura: o Modernismo.

90 de 22 (2): “Oswaldo, Oswáld, Ôswald”, de Antonio Candido

Leia o famoso artigo de Antonio Candido, publicado na Folha de São Paulo em 21 de março de 1982.

O texto esclarece a grande confusão em torno da pronúncia do autor modernista.

Segue abaixo a reprodução parcial do artigo, a partir do livro Recortes (Rio de Janeiro, Ouro Sobre Azul, 2004):

Oswaldo, Oswáld, Ôswald

Oswáld de Andrade, cujo nome completo era José Oswáld de Souza Andrade (já se verá por que estou acentuando), achava graça na lenda segundo a qual ele teria alterado por excentricidade modernista o verdadeiro prenome, supostamente Oswaldo. Imaginem o que diria se pudesse saber que hoje é chamado cada vez mais – Ôswald, com acento na primeira sílaba… Paulo Emílio Salles Gomes disse certa vez que os homens da nossa idade estavam assistindo ao nascimento de um mito, tão afastado da realidade que até revestia designação própria, fazendo Oswáld virar Ôswald…

Portanto, Oswáld ou Oswaldo, como se dizia correntemente, achava graça no boato, e para mostrar a sua insubsistência explicava (segundo escreveu depois nas memórias) que herdara os prenomes do pai, José Oswáld (não Oswaldo) Nogueira de Andrade, e que esta forma peculiar fora iniciativa da avó, natural de Baependi e leitora do romance Corina, de Madame de Staël, onde a heroína assim chamada sofre e morre de amor por Oswald, lord Nelvil, escocês romântico (…) Tudo faz crer que o gosto não era individual, apenas da avó de Oswald, porque naquele canto do sul de Minas tornou-se frequente usar os nomes dos dois protagonistas. Ainda mais: houve gente com a mesma singularidade de adotar a forma inglesa, como se vê pela lista dos eleitores de Aiuruoca, cidade vizinha de Baependi, onde figura nos anos de 1880 um João Oswáld Diniz Junqueira (…)

Esta forma forma inglesa se manteve na família do nosso escritor por três gerações, sempre pronunciada Oswáld, à brasileira (como certamente pronunciaria também, mas aí à francesa, Madame de Staël), até o pintor Oswáld de Andrade Filho, que se chama José Antônio Oswáld. Portanto, se excentricidade houve foi da avó, em meados do século passado, não do neto.

Essa avó era Antônia Nogueira Cobra, trineta pelo pai do capitão-mor Tomé Rodrigues Nogueira do Ó, ilhéu da Madeira, que casou em Guaratinguetá com Maria Leme do Prado, e foi pró-homem em Baependi no começo do século XVIIII, fundando uma família enorme, espalhada até hoje por Minas, São Paulo e Rio. (…)

Dona Antônia casou em Baependi com Hipólito José de Andrade, de outra imensa família daquela zona, fazendeiro que perdeu os bens e abriu para sobreviver um pequeno hotel em Caxambu (Oswáld conta nas memórias a tristeza dele vendo as filhas servirem a mesa dos hóspedes). Para São Paulo veio um filho do casal, o referido José Oswáld Nogueira de Andrade, conhecido como seu Andrade, que depois de muita luta se destacou, foi vereador, fez fortuna com iniciativas de loteamento e urbanização arrojadas para o tempo. Já maduro casou com Inês Inglês de Sousa, paraense, irmã do autor d’ O missionário. (…)

Mas aqui não interessa a genealogia, e sim o nome, que como ficou dito é usual em famílias da zona de Baependi desde a geração de seu Andrade, e se espalhou com as migrações dessas famílias. É provável que muitas pessoas de lá, a partir de 1820, tenham lido ou ouvido falar do romance de Madame Staël, e por isso deram com certa frequência aos filhos a denominação dos protagonistas.

Nas famílias Nogueira e Andrade, que eram as de Oswáld pelo lado do pai, e também Junqueira, muito ligada a ambas, encontramos diversos xarás dele, mas (com uma ou outra exceção) na forma vernaculizada. Por exemplo: Nas memórias e tradições da família Junqueira, de Frederico de Barros e Brotero, vemos em 1883 um José Oswaldo Diniz Junqueira a pedir dispensa para casar com parenta. Folheando por alto este livro, vemos que surgem depois: um quase homônimo, José Oswaldo de Andrade Junqueira, dois Oswaldos de Andrade Junqueira, um Oswaldo Martins de Andrade. Dezenas de outros tinham o nome e não o sobrenome, como os seguintes parentes dele (…): Domingos Oswaldo Gorgulho Nogueira, Oswaldo Gomes Nogueira, Oswaldo Gomes de Carvalho. Atualmente, um dos mais famosos peritos e criadores de cavalo manga-larga se chama José Oswaldo Junqueira. Por aí vemos que daquela zona saiu e se espalhou um gosto acentuado pelo prenome de lord Nelvil, isolado ou combinado a outros.

Pensando sempre na informação de Oswáld sobre a escolha da avó, conclui-se que ela tem maior alcance e vale também para explicar um gosto que é grupal e regional; e a favor disto há uma contraprova: na mesma zona, nessas e outras famílias, aparecem Corinas que são irmãs, primas, tias de Oswaldos, podendo daí saírem casais, por causa da endogamia. O referido Oswaldo Gomes de Carvalho, por exemplo, primo de Oswáld em terceiro grau, era casado com uma tia, Corina Nogueira Cobra, prima em segundo grau de Oswáld. (…) Na escolha de nomes para os filhos, o dos personagens femininos de ficção costumava acompanhar os masculinos, como as Floripes irmãs dos Oliveiros e dos Roldões, com base na História do imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França. Ou, já no século XX, as Lígias irmãs dos Vinícius e/ou dos Petrônios, numa trinca que seguia a voga imensa do romance Quo vadis?, de Sienkiewicz.

De modo que a imaginação romanesca de dona Antônia Nogueira Cobra se enquadra na imaginação do seu meio e grupo, aos quais ela e mais alguma outra mãe talvez tenham querido dar certa satisfação, ao compensarem o  preciosismo da forma inglesa, pela junção pacificadora dos banais João ou José. Conta Oswáld nas memórias que no caso do seu pai foi exigência do vigário, que recusou batizá-lo com nome estranho ao hagiológico corrente sem a compensação de um mais garantido. E isto mostra que aquelas senhoras de Baependi e Aiuruoca estavam sendo inovadoras, estavam introduzindo um nome antes inexistente por lá e que depois se tornou quase banal. Seja como for, a combinação de José com Oswáld constitui um discrepância associada a uma transigência, para forma o nome que seria no futuro de um grande rebelde.

No uso corrente formou-se uma transigência a mais a vista deste, porque toda a gente, como ficou dito, retificava na fala Oswáld para Oswaldo. Ligado ao sobrenome o prenome gerou ainda outro compromisso, que levava a aumentar a indecisão quanto à grafia, pois a pronúncia desprevenida era e é Oswál’ de Andrade. Mas sempre, como se vê, com a tônica na segunda sílaba, até que começasse essa bobagem de Oswald, que com certeza vai ficar e predominar, como tantas outras. Na peça sobre “os alegres rapazes e a sua semana de arte moderna” Carlos Queiroz Telles já a tinha denunciado implicitamente. Nela, quando o chamam Ôswald, o personagem brada de mau humor: “Oswáld!”.

Estas considerações e informações não são tão intempestivas quanto podem parecer. É preciso fazê-las, porque senão a moda pega e na próxima geração, quando estiver sendo por sua vez devidamente trabalhado pela lenda, Drummond pode virar Drúmon, se algum sabido decidir que a pronúncia de seu nome escocês deve ser reajustada.

90 de 22 (1)

Este post é o primeiro da série 90 de 22, dedicada à comemoração dos noventa anos de Semana de Arte Moderna de 1922.

Neste primeiro divulgo um vídeo-documentário do programa de “Lá pra cá” da TV Brasil sobre Oswald de Andrade, um dos nomes mais decisivos para a formação de nossa arte moderna.

Conheçam um pouco mais sobre esse gênio polêmico, provocar, ousado e imprescindível para a história de nosso país.